Não se podia esperar que tão grande
concentração de naves e homens chegasse num só
dia à Áulida. De fato, ela estendeu-se por
todo o mês, do primeiro ao último dia. Os
primeiros a chegar abicaram suas naus na praia,
e ali ergueram suas tendas, cada nação
separadamente, enquanto esperavam pelos outros.
Cada dia se tornava maior a concentração, e as
colinas que rodeavam a pequena cidade estavam
cheias de homens caçando corças e cabras
selvagens, para se alimentarem.
Agamenos deixara Micenas e instalara-se
numa tenda situada a cavaleiro sobre o
acampamento e a praia. Antes de deixar a cidade,
mandara chamar seu primo Egisto.
- Ignoro quanto
tempo levaremos para conquistar Tróia, disse
ele, mas seja como for, durante a minha
ausência, alguém precisa substituir-me como
regente em Micenas, para zelar pelos meus domínios.
Levo comigo todos os reis meus vassalos e a flor
da juventude grega, e não ficará aqui ninguém
para manter a ordem e zelar pelas terras e os
rebanhos, enquanto eu estiver ausente. Você,
Egisto, é de sangue real. A você, portanto,
entrego Micenas e o governo do Peloponeso.
Cuide também de minha querida esposa
Clitemnestra e de nossos três queridos filhos.
Proteja-os, assim como o meu reino, até o meu
retorno, e lhe darei considerável participação
nos tesouros que traremos da conquista de Tróia.
Jurou Egisto cumprir seu dever lealmente,
e tal era a confiança que tinha Agamenon no juízo
e lealdade do seu primo que se afastou
despreocupado de seu lar. Os dias de
espera na Áulida tornavam-no impaciente, pois
estava ansioso por fazer-se à vela com a expedição.
Teve de pacientar, contudo até a chegada do último
expedicionário. Entrementes, passava a
maior parte do tempo caçando nas colinas e nas
matas da redondeza.
Foi então que, do acampamento
superpovoado, chegou a notícia da erupção de
uma epidemia. Os homens adoeciam
subitamente e morriam, e os médicos nada podiam
fazer para curá-los, ou impedir a peste de se
alastrar. Afinal, mandou Agamenon chamar
Calcas, o pontífice de Apolo.
- É possível
que esta peste nos tenha sido enviada por algum
deus irritado cujos ritos nós negligenciamos,
ou a quem ofendemos sem querer, disse ele.
Peça aos deuses, Calcas, e use seus poderes místicos,
para que nos digam se cometemos algum erro.
Quem
sabe se o sacrifício de alguns cordeiros ou
cabras, ou a oferta de alguns pernis de um boi
bem gordo poderia pôr fim a esta epidemia.
Depois de celebrar algumas cerimônias
religiosas Calcas foi à procura do Rei.
- Esta peste nos
foi enviada pela deusa Ártemis, irmã de Apolo,
o poderoso, disse o adivinho. Um dia, caçando
na floresta, ao lado da cidade, você, meu real
senhor, matou certa corça branca. Este animal
era consagrado àquela deusa, que a amava com
ternura. E a deusa mandou-nos esta peste
em sinal de seu amargo ressentimento.
- Até mesmo o
rancor de uma deusa pode ser atenuado por um
sacrifício, tornou Agamenon. Diga-me a
coisa mais agradável que poderei oferecer à
deusa.
- Não ficará
satisfeita a grande deusa, a menos que você
sacrifique em seu altar sua própria filha
primogênita, a bela Princesa Ifigênia.
Quando Agamenon ouviu isto, ficou mudo de
raiva e teria matado a Calcas, em sua cólera,
desvairada, não se tivesse o adivinho safado de
sua tenda mais que depressa. Então reuniu
Agamenon o conselho - Menelau, Ulisses,
Diomedes, o sábio Nestor de Pilos e Ajax, filho
de Telamon - e transmitiu-lhes o oráculo de
Calcas.
- Se errei
involuntariamente, sobre minha cabeça recaia a
culpa, disse ele. Porém, preferiria que voltássemos
todos para, nossas pátrias, deixando ficar
Helena em Tróia, a sacrificar a minha filha em
expiação de minha falta.
Ficaram os reis, assombrados com o rigor
da exigência, divina, não sabendo o que dizer,
em que pese sentir-se Menelau profundamente
afetado ao ver suas esperanças contrariadas.
Mandou Agamenon chamar o seu arauto Taltíbio, e
estava, a ponto de proclamar ao exército a
desistência da expedição, quando seus
conselheiros recuperaram de novo a voz.
Durante longo tempo altercaram com Agamenon, até
ele concordar, compungido e a contragosto, em
mandar buscar a sua filha e sacrificá-la à
deusa, a fim de não indispor os seus vassalos,
obrigando-os a voltarem para suas casas.
- Minha mulher a
rainha, porém, ama a sua filha, com tanta
ternura, acrescentou, que não consentirá
jamais nesse sacrifício.
- Mande-lhe dizer que
deseja casar a princesa com Aquiles, antes de
deixarmos a Áulida, replicou Ulisses. Ifigêinia
lhe fora prometida em casamento. Dessa
forma, a rainha a deixará partir de boa
vontade.
Foi assim que Taltíbio partiu para
Micenas com aquele embuste, trazendo de volta a
bela e jovem princesa, com seu enxoval de noiva
e acompanhada de suas damas de companhia
carregando suas vestes e adornos. Quando
soube, porém, que não fora trazida à Áulida
para se casar, senão para ser sacrificada no
altar de Ártemis, desfez-se em prantos
amargurados, implorando a seu pai misericórdia.
Conquanto profundamente pesaroso, estava
Agamenon inabalável. Se recuasse naquela
conjuntura, quando todos os homens sabiam que
entre eles e os tesouros de Tróia existia
apenas a vida de uma donzela, perderia
provavelmente sua coroa e talvez mesmo a própria
vida. Assim, apesar de suas lágrimas, foi Ifigênia
arrastada ao altar de Ártemis. Ataram-lhe os
braços, entregando-a ao pontífice Calcas
enquanto seu pai, os príncipes e os reis
permaneciam ao redor do altar, soturnos e
pesarosos. Quando o pontífice ergueu o cutelo
sobre a garganta da donzela, os reis esconderam
as faces sob os seus mantos. Ouviu-se, então,
subitamente, um grito de espanto.
No momento em que a faca tocava a gorja
alva da princesa, ela desapareceu, e nas mãos
do pontífice que a segurava apareceu uma corça,
debatendo-se e esperneando desesperadamente.
Os reis, atônitos, consideravam mudos de
espanto o milagre que se realizava. No último
momento, condoeu-se, a deusa, da juventude e
inocência da donzela. Arrefecera-se-lhe a
cólera contra Agamenon quando este se mostrou
pronto a sacrificar a vida de sua filha amada; a
deusa raptara a moça em seus braços divinos,
colocando em seu lugar uma corça para ser
sacrificada. Levou Ifigênia para longe, por
cima de mares e terras, até chegar a um país
chamado Táurida, uma grande península na costa
norte do Mar Negro. Existia na Táurida um
templo da deusa Ártemis, onde Ifigênia
permaneceu como sacerdotisa, até que, depois de
muitos anos, foi libertada por alguém que a
encontrou, como narraremos a seguir.
Com a oferta do sacrifício sobre o altar
da Áulida, cessou a epidemia. Soprou uma
brisa forte e favorável e, alegremente, os
gregos lançaram às ondas as suas naus, para
zarparem daquele maldito lugar e singrarem o mar
cravejado de ilhas, rumo às distantes plagas de
Tróia. Em Micenas, porém, a rainha,
esposa de Agamenon chorava sem cessar a filha
que perdera; sentia negro ressentimento contra
seu marido que a havia tão perfidamente
enganado, de maneira, que seu amor por ele se
transformava em ódio insopitável.
Com palavras de consolo confortava-a Egisto,
alimentando, ao mesmo tempo, astuciosamente, o
ódio contra Agamenon, pois via, nessa circunstância,
uma oportunidade para se apossar do trono de
Micenas. Explorou com tanta habilidade a dor de
Clitemnestra e seu profundo ressentimento, que
veio a conquistar-lhe o coração. O Rei
Agamenon, agora acampado nas praias de Tróia,
ignorava o que se passava em sua casa. Seu próprio
pesar já se tinha dissipado. Ante seus olhos
erguia-se a cidade orgulhosa onde o traidor
Paris vivia com a falsa Helena. Ao seu redor,
elevavam-se as tendas de milhares de
companheiros. No comando de seus homens, lutando
para conseguir a queda daquela inimiga hereditária,
encontraria ele conforto e esquecimento.
E assim, era lentamente entretecido, fio
por fio, o padrão de sombras e de lágrimas,
enquanto os dedos do Destino se moviam
inexoravelmente sobre o tear do tempo.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense,
1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior