PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega
 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960

Terceira Parte

A Maldição do Auriga






CAPITULO XIX


COMO A PESTE ATACOU OS GREGOS
E UMA PRINCESA FOI OFERECIDA EM SACRIFÍCIO

 



  Não se podia esperar que tão grande concentração de naves e homens chegasse num só dia à Áulida. De fato, ela estendeu-se por todo o mês, do primeiro ao último dia. Os primeiros a chegar abicaram suas naus na praia, e ali ergueram suas tendas, cada nação separadamente, enquanto esperavam pelos outros. Cada dia se tornava maior a concentração, e as colinas que rodeavam a pequena cidade estavam cheias de homens caçando corças e cabras selvagens, para se alimentarem.

  Agamenos deixara Micenas e instalara-se numa tenda situada a cavaleiro sobre o acampamento e a praia. Antes de deixar a cidade, mandara chamar seu primo Egisto.

  -     Ignoro quanto tempo levaremos para conquistar Tróia, disse ele, mas seja como for, durante  a minha ausência, alguém precisa substituir-me como regente em Micenas, para zelar pelos meus domínios.  Levo comigo todos os reis meus vassalos e a flor da juventude grega, e não ficará aqui ninguém para manter a ordem e zelar pelas terras e os rebanhos, enquanto eu estiver ausente. Você, Egisto, é de sangue real. A você, portanto, entrego Micenas e o governo do Peloponeso.  Cuide também de minha querida esposa Clitemnestra e de nossos três queridos filhos.  Proteja-os, assim como o meu reino, até o meu retorno, e lhe darei considerável participação nos tesouros que traremos da conquista de Tróia.

  Jurou Egisto cumprir seu dever lealmente, e tal era a confiança que tinha Agamenon no juízo e lealdade do seu primo que se afastou despreocupado de seu lar.  Os dias de espera na Áulida tornavam-no impaciente, pois estava ansioso por fazer-se à vela com a expedição. Teve de pacientar, contudo até a chegada do último expedicionário.  Entrementes, passava a maior parte do tempo caçando nas colinas e nas matas da redondeza.

  Foi então que, do acampamento superpovoado, chegou a notícia da erupção de uma epidemia.  Os homens adoeciam subitamente e morriam, e os médicos nada podiam fazer para curá-los, ou impedir a peste de se alastrar.  Afinal, mandou Agamenon chamar Calcas, o pontífice de Apolo.

  - É possível que esta peste nos tenha sido enviada por algum deus irritado cujos ritos nós negligenciamos, ou a quem ofendemos sem querer, disse ele.  Peça aos deuses, Calcas, e use seus poderes místicos, para que nos digam se cometemos algum erro.

  Quem sabe se o sacrifício de alguns cordeiros ou cabras, ou a oferta de alguns pernis de um boi bem gordo poderia pôr fim a esta epidemia.

  Depois de celebrar algumas cerimônias religiosas Calcas foi à procura do Rei.

  - Esta peste nos foi enviada pela deusa Ártemis, irmã de Apolo, o poderoso, disse o adivinho.  Um dia, caçando na floresta, ao lado da cidade, você, meu real senhor, matou certa corça branca. Este animal era consagrado àquela deusa, que a amava com ternura.  E a deusa mandou-nos esta peste em sinal de seu amargo ressentimento.

  - Até mesmo o rancor de uma deusa pode ser atenuado por um sacrifício, tornou Agamenon.  Diga-me a coisa mais agradável que poderei oferecer à deusa.

  - Não ficará satisfeita a grande deusa, a menos que você sacrifique em seu altar sua própria filha primogênita, a bela Princesa Ifigênia.

  Quando Agamenon ouviu isto, ficou mudo de raiva e teria matado a Calcas, em sua cólera, desvairada, não se tivesse o adivinho safado de sua tenda mais que depressa.  Então reuniu Agamenon o conselho - Menelau, Ulisses, Diomedes, o sábio Nestor de Pilos e Ajax, filho de Telamon - e transmitiu-lhes o oráculo de Calcas.

  - Se errei involuntariamente, sobre minha cabeça recaia a culpa, disse ele. Porém, preferiria que voltássemos todos para, nossas pátrias, deixando ficar Helena em Tróia, a sacrificar a minha filha em expiação de minha falta.

  Ficaram os reis, assombrados com o rigor da exigência, divina, não sabendo o que dizer, em que pese sentir-se Menelau profundamente afetado ao ver suas esperanças contrariadas.  Mandou Agamenon chamar o seu arauto Taltíbio, e estava, a ponto de proclamar ao exército a desistência da expedição, quando seus conselheiros recuperaram de novo a voz.  Durante longo tempo altercaram com Agamenon, até ele concordar, compungido e a contragosto, em mandar buscar a sua filha e sacrificá-la à deusa, a fim de não indispor os seus vassalos, obrigando-os a voltarem para suas casas.

  - Minha mulher a rainha, porém, ama a sua filha, com tanta ternura, acrescentou, que não consentirá jamais nesse sacrifício.

  -  Mande-lhe dizer que deseja casar a princesa com Aquiles, antes de deixarmos a Áulida, replicou Ulisses. Ifigêinia lhe fora prometida em casamento.  Dessa forma, a rainha a deixará partir de boa vontade.

  Foi assim que Taltíbio partiu para Micenas com aquele embuste, trazendo de volta a bela e jovem princesa, com seu enxoval de noiva e acompanhada de suas damas de companhia carregando suas vestes e adornos.  Quando soube, porém, que não fora trazida à Áulida para se casar, senão para ser sacrificada no altar de Ártemis, desfez-se em prantos amargurados, implorando a seu pai misericórdia.  Conquanto profundamente pesaroso, estava Agamenon inabalável.  Se recuasse naquela conjuntura, quando todos os homens sabiam que entre eles e os tesouros de Tróia existia apenas a vida de uma donzela, perderia provavelmente sua coroa e talvez mesmo a própria vida. Assim, apesar de suas lágrimas, foi Ifigênia arrastada ao altar de Ártemis. Ataram-lhe os braços, entregando-a ao pontífice Calcas enquanto seu pai, os príncipes e os reis permaneciam ao redor do altar, soturnos e pesarosos. Quando o pontífice ergueu o cutelo sobre a garganta da donzela, os reis esconderam as faces sob os seus mantos.  Ouviu-se, então, subitamente, um grito de espanto.

  No momento em que a faca tocava a gorja alva da princesa, ela desapareceu, e nas mãos do pontífice que a segurava apareceu uma corça, debatendo-se e esperneando desesperadamente.  Os reis, atônitos, consideravam mudos de espanto o milagre que se realizava.  No último momento, condoeu-se, a deusa, da juventude e inocência da donzela.  Arrefecera-se-lhe a cólera contra Agamenon quando este se mostrou pronto a sacrificar a vida de sua filha amada; a deusa raptara a moça em seus braços divinos, colocando em seu lugar uma corça para ser sacrificada. Levou Ifigênia para longe, por cima de mares e terras, até chegar a um país chamado Táurida, uma grande península na costa norte do Mar Negro.  Existia na Táurida um templo da deusa Ártemis, onde Ifigênia permaneceu como sacerdotisa, até que, depois de muitos anos, foi libertada por alguém que a encontrou, como narraremos a seguir.

  Com a oferta do sacrifício sobre o altar da Áulida, cessou a epidemia.  Soprou uma brisa forte e favorável e, alegremente, os gregos lançaram às ondas as suas naus, para zarparem daquele maldito lugar e singrarem o mar cravejado de ilhas, rumo às distantes plagas de Tróia.  Em Micenas, porém, a rainha, esposa de Agamenon chorava sem cessar a filha que perdera; sentia negro ressentimento contra seu marido que a havia tão perfidamente enganado, de maneira, que seu amor por ele se transformava em ódio insopitável. 

  Com palavras de consolo confortava-a Egisto, alimentando, ao mesmo tempo, astuciosamente, o ódio contra Agamenon, pois via, nessa circunstância, uma oportunidade para se apossar do trono de Micenas. Explorou com tanta habilidade a dor de Clitemnestra e seu profundo ressentimento, que veio a conquistar-lhe o coração. O Rei Agamenon, agora acampado nas praias de Tróia, ignorava o que se passava em sua casa. Seu próprio pesar já se tinha dissipado. Ante seus olhos erguia-se a cidade orgulhosa onde o traidor Paris vivia com a falsa Helena. Ao seu redor, elevavam-se as tendas de milhares de companheiros. No comando de seus homens, lutando para conseguir a queda daquela inimiga hereditária, encontraria ele conforto e esquecimento.

  E assim, era lentamente entretecido, fio por fio, o padrão de sombras e de lágrimas, enquanto os dedos do Destino se moviam inexoravelmente sobre o tear do tempo.



[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS,  editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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