PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega





Editora Brasiliense
São Paulo
1960

Terceira Parte

A Maldição do Auriga





CAPITULO XVIII

A VELHA CONTENDA INFLAMA-SE DE NOVO


Desde o tempo em que Heracles queimara Tróia; matara o Rei Laomedonte; estabelecera Príamo no trono e raptara Hesíone, tinha a cidade recuperado sua riqueza e poderio. Construíra Príamo nova cidade, muito maior e mais forte que a antiga, com espessas muralhas e portas bem defendidas, torres imponentes e palácios, templos e casas vistosas, a ponto de estar convencido de que nenhuma outra cidade no mundo se lhe podia comparar em poderio e beleza.

Não podia o Rei Príamo esquecer-se de que sua irmã fora levada para a Grécia na condição quase de escrava.

Tinha mandado representantes ao Rei Telamon de Salamina, em cujo palácio ela vivia, pedindo-lhe que a deixassem voltar para Tróia. Seu embaixador tinha sido recambiado com mensagem acintosa de Telamon; mas Hesíone permanecera em Salamina.

De todas essas coisas veio o Príncipe Páris a saber, quando ocupou o seu lugar de membro da família real de Tróia. Soube também da velha história da guerra entre o Rei Tros, seu antepassado, e o Rei Tântalo da Frígia, e de que maneira os filhos de Pélops se tornaram reis poderosos na Grécia. Muito meditou a respeito dessas histórias.

Não havia dúvida, para ele, de que existia uma antiga inimizade entre Tróia e a raça de Pélops, com ou sem razão de ambas as partes. Mas, já que os gregos tinham incendiado Tróia do Rei Laomedonte e não queriam devolver a Princesa Hesíone, era chegado o momento de fazerem alguma coisa em retaliação, para provar que o ânimo de Tróia, longe de abatido, estava alevantado e mais alto do que nunca.

Foi com esta intenção que Príamo decidiu enviar o seu filho em viagem oficial para visitar outros países. Seis navios esplendidamente equipados, levavam Paris e seu séquito brilhante, composto dos filhos das mais nobres famílias do Reino. Aportaram, afinal, na Grécia, e viajaram por terra até Esparta, onde existia um antigo templo de Apolo em que Paris desejava ofertar um sacrifício.

A fama da beleza, de Helena chegara até Tróia e Páris anelava por verificar com seus próprios olhos se tratava-se, na verdade, da mulher mais bela do mundo. Com seu magnífico acompanhamento, visitou a corte do Rei Menelau, de Esparta, e se achou em presença da bela Helena. No mesmo instante apaixonou-se violentamente por ela, e ela por ele. Parecia-lhes que tinham estado a vida toda à espera um do outro, e que não poderiam ter felicidade a menos que se casassem. Assim realizou-se a promessa de Afrodite.

Aconteceu que o Rei Menelau estava ausente, empenhado em longa viagem. Quando voltou, veio a saber com assombro e tristeza que sua bela esposa tinha fugido com Páris, que viajava de volta para Tróia, levando-a, consigo. Menelau apressou-se em dar a notícia ao seu irmão Agamenon, que, na qualidade de Rei de Micenas, era o chefe supremo de todos os reinos do Peloponeso, que era como se chamava, naqueles tempos, a grande península que se estende ao sul da Grécia. Depois de deliberarem, decidiram convocar a grande fraternidade de príncipes e reis que haviam jurado proteger a Helena e ao seu esposo eleito, e vingarem qualquer ofensa feita a um deles.

Rápidos mensageiros foram expedidos de Micenas, e prontamente se achou a cidade repleta daqueles que habitavam em suas cercanias. A concentração dos príncipes foi demorada, porém, porque os pretendentes de Helena tinham sido atraídos para Esparta, pela sua beleza, dos lugares os mais distantes, como a Ilha de Creta, ao sul, e a rochosa Ítaca a noroeste.

Ulisses estava longe de ver com prazer sua pacata vida de família perturbada por este eco do passado. Vivia muito feliz com Penélope e seu filhinho Telémaco, e, ao saber que Helena tinha abandonado o seu marido, compreendeu que, afinal de contas, sua própria escolha tinha sido a melhor.

Não desejava de maneira alguma afastar-se de Ítaca e velejar pelo mundo para trazer Helena para os braços de Menelau, e lamentava amargamente ter prestado o juramento de confraternização, juntamente com os outros.

Havia jurado, todavia; achava-se, por isso, ligado pela sua promessa. Pensou, entretanto, que se pudesse simular a loucura, não exigiriam seus companheiros o seu comparecimento, deixando-o em paz.

O mensageiro que tinha sido enviado para convocá-lo, um homem chamado Palamedes, observou Ulisses atentamente, quando lhe disseram que o rei tinha perdido a razão, pois ele conhecia a sua fama de astuto e manhoso. Ulisses imaginou simular a loucura lavrando a praia, e espalhando sal nos sulcos abertos na areia. Mas, trouxe Palamedes o pequeno Telémaco do palácio e deitou-o na frente do arado. Foi Ulisses obrigado a se desviar para não matar seu próprio filho, desmascarando assim sua simulação. Nunca, entretanto, o perdoaria a Palamedes.

Uma nova geração tinha atingido a idade viril desde que Jasão navegara no Argo, na Busca do Tosão de Ouro. Muitos dos homens que se reuniam em Micenas eram filhos dos Argonautas; tinham ouvido falar das proezas de seus pais e anelavam participar de aventuras, nas quais ganhassem glória e proveito por conta própria. Entre eles, achavam-se dois filhos do Rei Telamon de Salamina: Ajax, filho da Rainha Peribéia, e Teucro, filho da Princesa Hesíone. De Pilos, veio o sábio Nestor, filho do Rei Neleu. O Rei Idomeneu , de Creta, neto do Segundo Minos, trouxe poderosa força naval e militar, enquanto Diomedes, da Etólia, neto do Rei Eneu de Calidon, era parente de Héracles, pois era sobrinho de Dejanira, esposa do herói.

A maioria desses impetuosos jovens podia traçar suas linhagens até Pélops ou Perseu, ou até à raça de Cadmo e às antigas famílias autóctones da Grécia; e todos eles, desse fato, tiravam grande orgulho. Enquanto não conquistassem a glória com suas próprias mãos, seriam estimados, apenas, por descederem de antepassados famosos. E seus espíritos estavam abrasados pelo desejo de realizarem façanhas tão notáveis, se não mais ainda, que aquelas realizadas, no passado, pelos seus ascendentes.

Havia um jovem príncipe, contudo, que não se achava presente na concentração. Tinha o Rei Peleu da Ftia e sua imortal esposa Tétis, Rainha do Mar, um filho chamado Aquiles. Apesar de muito jovem - jovem demais, de fato, para ser incluído entre os ex-pretendentes de Helena - já prometia tornar-se um dos guerreiros mais valentes e adestrados da Grécia. Quando pequeno, sua mãe o mergulhara nas águas do Rio Estige, que circunda nove vezes o Mundo Subterrâneo, onde Hades governa os mortos. Tinham as águas daquele rio virtudes mágicas, tornando o corpo de Aquiles invulnerável às armas terrenas. O único ponto de seu corpo que podia ser ferido era um dos calcanhares, pelo qual sua mãe o segurara ao mergulhá-lo nas águas do rio.

Quando ainda criança, dera-lhe sua mãe a escolha entre uma vida longa e pacata, e uma existência curta, porém, cheia de glórias. Escolhera Aquiles a fama e a morte prematura; quando sua mãe ouviu falar na concentração belicosa de Micenas, temeu que Aquiles dela quisesse participar, procurando morte gloriosa nas planícies de Tróia. Em conseqüência, enviou-o secretamente para a Ilha de Ciros, aos cuidados do Rei Licomedes, onde o jovem permaneceu, vestido de mulher, passando os dias entre as damas da corte, e trabalhando com elas no tear. Ali apaixonou-se por Deidamia, filha do Rei, que lhe deu um filho. Assim, pensou Tétis que ele se achava bastante ocupado, e seguramente afastado, enquanto os príncipes acorriam a Micenas, atendendo ao chamado de Agamenon.

Entre os chefes que formavam o conselho de Agamenon havia um famoso profeta e adivinho, chamado Calcas. Consagrava-se ao culto de Apolo, e destinava-se a ser o pontífice da expedição, caso os gregos decidissem declarar guerra a Tróia. Antes de mais nada, porém, enviou Agamenon dois embaixadores ao Rei Príamo, pedindo-lhe a devolução de Helena de Esparta, significando-lhe que sua recusa resultaria em guerra. Foram escolhidos Ulisses e Diomedes para levarem a Tróia a mensagem; eles, porém, encontraram os troianos acintosos e zombeteiros.

- Vocês, gregos, raptaram minha irmã Hesíone, disse-lhes o Rei Príamo, e riram-se de meu embaixador quando lhes mandei pedir sua restituição. Agora estão vocês dançando sobre o outro pé. Não abriremos mão de Helena mesmo que vocês nos declarem guerra.

Nada do que Ulisses ou Diomedes disseram conseguiu persuadir os troianos, de maneira que voltaram para Micenas com as mãos abanando, e Agamenon ordenou a concentração de um grande exército em Áulida (Aulis), na Beócia, na próxima primavera. Quando, porém, o adivinho Calcas foi solicitado a invocar as bênçãos dos deuses para a, expedição, disse a Agamenon que havia uma coisa de vital importância para o seu bom êxito.

- Aquiles, filho do Rei Peleu da Ftia, precisa embarcar com a expedição, disse ele, pois me foi revelado que você nunca conquistará Tróia sem o seu auxílio.

Por isso, dirigiu-se, Agamenon ao Rei Peleu, que de início não consentiu que seu filho participasse da concentração; mas, prometendo Agamenon que depois da guerra Aquiles se casaria com sua filha mais velha Ifigênia, tornando-se assim herdeiro do trono de Micenas, outorgou Peleu seu consentimento. Tétis, porém, não concordava, nem revelava onde se achava escondido Aquiles. Ulisses ouvira rumores a este respeito e dirigiu-se para a Ilha de Ciros. Não podendo reconhecer Aquiles entre as damas de companhia da rainha, fantasiou-se de mercador exibindo tecidos de lã, de seda e de linho às damas da corte. Levava também jóias, ornamentos de toda espécie, vasilhame de ouro e prata e, astuciosamente, incluiu entre as suas mercadorias algumas espadas e punhais, escudos, capacetes e peças de armadura.

Estas últimas atraíram imediatamente a atenção de Aquiles, que as manejou com tanta perícia que se deu a conhecer; quando Ulisses o informou da concentração de guerreiros em Micenas, e de que o Rei Peleu consentira na sua participação, despediu-se Aquiles de Ciros com o coração leve, embarcando com Ulisses para o continente.

Assim, durante o inverno, navios foram construídos e equipados; fabricaram-se armas e armaduras, de maneira que, no princípio da primavera, poderosa concentração se transportou para a pequena cidade de Áulida, situada à margem de estreito canal entre o continente e a grande Ilha de Eubéia. Tão grande concentração jamais se vira, e Agamenon, general dessa poderosa força, contemplava com orgulho seus homens bem armados e os mil navios que os deviam levar para as plagas distantes de Tróia. Depositava grandes esperanças nessa expedição: esperança de vitória, de fama e de glória, de proveito e de riqueza, e a terminação da antiga rixa iniciada nos tempos do Rei Tros, e do antepassado de Agamenon, o Rei Tântalo.

Estava, ainda, Agamenon, para ver como a sombra de um auriga morto, havia muito tempo, e, havia muito tempo esquecido, iria projetar-se no seu caminho para a glória.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 

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