Desde o tempo em que
Heracles queimara Tróia; matara o Rei
Laomedonte; estabelecera Príamo no trono e
raptara Hesíone, tinha a cidade recuperado sua
riqueza e poderio. Construíra Príamo nova
cidade, muito maior e mais forte que a antiga,
com espessas muralhas e portas bem defendidas,
torres imponentes e palácios, templos e casas
vistosas, a ponto de estar convencido de que
nenhuma outra cidade no mundo se lhe podia
comparar em poderio e beleza.
Não podia o Rei
Príamo esquecer-se de que sua irmã fora levada
para a Grécia na condição quase de escrava.
Tinha mandado representantes ao Rei Telamon de
Salamina, em cujo palácio ela vivia,
pedindo-lhe que a deixassem voltar para Tróia.
Seu embaixador tinha sido recambiado com
mensagem acintosa de Telamon; mas Hesíone
permanecera em Salamina.
De todas essas coisas
veio o Príncipe Páris a saber, quando ocupou o
seu lugar de membro da família real de Tróia.
Soube também da velha história da guerra entre
o Rei Tros, seu antepassado, e o Rei Tântalo da
Frígia, e de que maneira os filhos de Pélops
se tornaram reis poderosos na Grécia. Muito
meditou a respeito dessas histórias.
Não havia
dúvida, para ele, de que existia uma antiga
inimizade entre Tróia e a raça de Pélops, com
ou sem razão de ambas as partes. Mas, já que
os gregos tinham incendiado Tróia do Rei
Laomedonte e não queriam devolver a Princesa
Hesíone, era chegado o momento de fazerem
alguma coisa em retaliação, para provar que o
ânimo de Tróia, longe de abatido, estava
alevantado e mais alto do que nunca.
Foi com esta
intenção que Príamo decidiu enviar o seu
filho em viagem oficial para visitar outros
países. Seis navios esplendidamente equipados,
levavam Paris e seu séquito brilhante, composto
dos filhos das mais nobres famílias do Reino.
Aportaram, afinal, na Grécia, e viajaram por
terra até Esparta, onde existia um antigo
templo de Apolo em que Paris desejava ofertar um
sacrifício.
A fama da beleza, de
Helena chegara até Tróia e Páris anelava por
verificar com seus próprios olhos se
tratava-se, na verdade, da mulher mais bela do
mundo. Com seu magnífico acompanhamento,
visitou a corte do Rei Menelau, de Esparta, e se
achou em presença da bela Helena. No mesmo
instante apaixonou-se violentamente por ela, e
ela por ele. Parecia-lhes que tinham estado a
vida toda à espera um do outro, e que não
poderiam ter felicidade a menos que se casassem.
Assim realizou-se a promessa de Afrodite.
Aconteceu que o Rei
Menelau estava ausente, empenhado em longa
viagem. Quando voltou, veio a saber com assombro
e tristeza que sua bela esposa tinha fugido com
Páris, que viajava de volta para Tróia,
levando-a, consigo. Menelau apressou-se em dar a
notícia ao seu irmão Agamenon, que, na
qualidade de Rei de Micenas, era o chefe supremo
de todos os reinos do Peloponeso, que era como
se chamava, naqueles tempos, a grande península
que se estende ao sul da Grécia. Depois de
deliberarem, decidiram convocar a grande
fraternidade de príncipes e reis que haviam
jurado proteger a Helena e ao seu esposo eleito,
e vingarem qualquer ofensa feita a um deles.
Rápidos mensageiros
foram expedidos de Micenas, e prontamente se
achou a cidade repleta daqueles que habitavam em
suas cercanias. A concentração dos príncipes
foi demorada, porém, porque os pretendentes de
Helena tinham sido atraídos para Esparta, pela
sua beleza, dos lugares os mais distantes, como
a Ilha de Creta, ao sul, e a rochosa Ítaca a
noroeste.
Ulisses estava longe
de ver com prazer sua pacata vida de família
perturbada por este eco do passado. Vivia muito
feliz com Penélope e seu filhinho Telémaco, e,
ao saber que Helena tinha abandonado o seu
marido, compreendeu que, afinal de contas, sua
própria escolha tinha sido a melhor.
Não
desejava de maneira alguma afastar-se de Ítaca
e velejar pelo mundo para trazer Helena para os
braços de Menelau, e lamentava amargamente ter
prestado o juramento de confraternização,
juntamente com os outros.
Havia jurado, todavia;
achava-se, por isso, ligado pela sua promessa.
Pensou, entretanto, que se pudesse simular a
loucura, não exigiriam seus companheiros o seu
comparecimento, deixando-o em paz.
O mensageiro que
tinha sido enviado para convocá-lo, um homem
chamado Palamedes, observou Ulisses atentamente,
quando lhe disseram que o rei tinha perdido a
razão, pois ele conhecia a sua fama de astuto e
manhoso. Ulisses imaginou simular a loucura
lavrando a praia, e espalhando sal nos sulcos
abertos na areia. Mas, trouxe Palamedes o
pequeno Telémaco do palácio e deitou-o na
frente do arado. Foi Ulisses obrigado a se
desviar para não matar seu próprio filho,
desmascarando assim sua simulação. Nunca,
entretanto, o perdoaria a Palamedes.
Uma nova geração
tinha atingido a idade viril desde que Jasão
navegara no Argo, na Busca do Tosão de Ouro.
Muitos dos homens que se reuniam em Micenas eram
filhos dos Argonautas; tinham ouvido falar das
proezas de seus pais e anelavam participar de
aventuras, nas quais ganhassem glória e
proveito por conta própria. Entre eles,
achavam-se dois filhos do Rei Telamon de
Salamina: Ajax, filho da Rainha Peribéia, e
Teucro, filho da Princesa Hesíone. De Pilos,
veio o sábio Nestor, filho do Rei Neleu. O Rei
Idomeneu , de Creta, neto do Segundo Minos,
trouxe poderosa força naval e militar, enquanto
Diomedes, da Etólia, neto do Rei Eneu de
Calidon, era parente de Héracles, pois era
sobrinho de Dejanira, esposa do herói.
A maioria desses impetuosos jovens podia traçar
suas linhagens até Pélops ou Perseu, ou até
à raça de Cadmo e às antigas famílias
autóctones da Grécia; e todos eles, desse
fato, tiravam grande orgulho. Enquanto não
conquistassem a glória com suas próprias
mãos, seriam estimados, apenas, por descederem
de antepassados famosos. E seus espíritos
estavam abrasados pelo desejo de realizarem
façanhas tão notáveis, se não mais ainda,
que aquelas realizadas, no passado, pelos seus
ascendentes.
Havia um jovem
príncipe, contudo, que não se achava presente
na concentração. Tinha o Rei Peleu da Ftia e
sua imortal esposa Tétis, Rainha do Mar, um
filho chamado Aquiles. Apesar de muito jovem -
jovem demais, de fato, para ser incluído entre
os ex-pretendentes de Helena - já prometia
tornar-se um dos guerreiros mais valentes e
adestrados da Grécia. Quando pequeno, sua mãe
o mergulhara nas águas do Rio Estige, que
circunda nove vezes o Mundo Subterrâneo, onde
Hades governa os mortos. Tinham as águas
daquele rio virtudes mágicas, tornando o corpo
de Aquiles invulnerável às armas terrenas. O
único ponto de seu corpo que podia ser ferido
era um dos calcanhares, pelo qual sua mãe o
segurara ao mergulhá-lo nas águas do rio.
Quando ainda
criança, dera-lhe sua mãe a escolha entre uma
vida longa e pacata, e uma existência curta,
porém, cheia de glórias. Escolhera Aquiles a
fama e a morte prematura; quando sua mãe ouviu
falar na concentração belicosa de Micenas,
temeu que Aquiles dela quisesse participar,
procurando morte gloriosa nas planícies de
Tróia. Em conseqüência, enviou-o secretamente
para a Ilha de Ciros, aos cuidados do Rei
Licomedes, onde o jovem permaneceu, vestido de
mulher, passando os dias entre as damas da
corte, e trabalhando com elas no tear. Ali
apaixonou-se por Deidamia, filha do Rei, que lhe
deu um filho. Assim, pensou Tétis que ele se
achava bastante ocupado, e seguramente afastado,
enquanto os príncipes acorriam a Micenas,
atendendo ao chamado de Agamenon.
Entre os chefes que
formavam o conselho de Agamenon havia um famoso
profeta e adivinho, chamado Calcas.
Consagrava-se ao culto de Apolo, e destinava-se
a ser o pontífice da expedição, caso os
gregos decidissem declarar guerra a Tróia.
Antes de mais nada, porém, enviou Agamenon dois
embaixadores ao Rei Príamo, pedindo-lhe a
devolução de Helena de Esparta,
significando-lhe que sua recusa resultaria em
guerra. Foram escolhidos Ulisses e Diomedes para
levarem a Tróia a mensagem; eles, porém,
encontraram os troianos acintosos e zombeteiros.
- Vocês, gregos,
raptaram minha irmã Hesíone, disse-lhes o Rei
Príamo, e riram-se de meu embaixador quando
lhes mandei pedir sua restituição. Agora
estão vocês dançando sobre o outro pé. Não
abriremos mão de Helena mesmo que vocês nos
declarem guerra.
Nada do que Ulisses
ou Diomedes disseram conseguiu persuadir os
troianos, de maneira que voltaram para Micenas
com as mãos abanando, e Agamenon ordenou a
concentração de um grande exército em Áulida
(Aulis), na Beócia, na próxima primavera.
Quando, porém, o adivinho Calcas foi solicitado
a invocar as bênçãos dos deuses para a,
expedição, disse a Agamenon que havia uma
coisa de vital importância para o seu bom
êxito.
- Aquiles, filho do
Rei Peleu da Ftia, precisa embarcar com a
expedição, disse ele, pois me foi revelado que
você nunca conquistará Tróia sem o seu
auxílio.
Por isso, dirigiu-se,
Agamenon ao Rei Peleu, que de início não
consentiu que seu filho participasse da
concentração; mas, prometendo Agamenon que
depois da guerra Aquiles se casaria com sua
filha mais velha Ifigênia, tornando-se assim
herdeiro do trono de Micenas, outorgou Peleu seu
consentimento. Tétis, porém, não concordava,
nem revelava onde se achava escondido Aquiles.
Ulisses ouvira rumores a este respeito e
dirigiu-se para a Ilha de Ciros. Não podendo
reconhecer Aquiles entre as damas de companhia
da rainha, fantasiou-se de mercador exibindo
tecidos de lã, de seda e de linho às damas da
corte. Levava também jóias, ornamentos de toda
espécie, vasilhame de ouro e prata e,
astuciosamente, incluiu entre as suas
mercadorias algumas espadas e punhais, escudos,
capacetes e peças de armadura.
Estas últimas
atraíram imediatamente a atenção de Aquiles,
que as manejou com tanta perícia que se deu a
conhecer; quando Ulisses o informou da
concentração de guerreiros em Micenas, e de
que o Rei Peleu consentira na sua
participação, despediu-se Aquiles de Ciros com
o coração leve, embarcando com Ulisses para o
continente.
Assim, durante o
inverno, navios foram construídos e equipados;
fabricaram-se armas e armaduras, de maneira que,
no princípio da primavera, poderosa
concentração se transportou para a pequena
cidade de Áulida, situada à margem de estreito
canal entre o continente e a grande Ilha de
Eubéia. Tão grande concentração jamais se
vira, e Agamenon, general dessa poderosa força,
contemplava com orgulho seus homens bem armados
e os mil navios que os deviam levar para as
plagas distantes de Tróia. Depositava grandes
esperanças nessa expedição: esperança de
vitória, de fama e de glória, de proveito e de
riqueza, e a terminação da antiga rixa
iniciada nos tempos do Rei Tros, e do
antepassado de Agamenon, o Rei Tântalo.
Estava, ainda,
Agamenon, para ver como a sombra de um auriga
morto, havia muito tempo, e, havia muito tempo
esquecido, iria projetar-se no seu caminho para
a glória.
[transcrição e
adaptação do texto original de George Baker,
em