Entre os homens que
haviam embarcado com Jasão, no Argo, estava
Peleu, filho de Éaco e irmão do famoso
Telamon de Salamina. Tinha desposado
Antígone, filha do Rei Eurito, depois de cuja
morte herdara o trono da Ftia. Quando
Antígone morreu, Peleu procurou ao seu redor
outra mulher, e apaixonou-se pela deusa
marinha Tétis, tão bela que o próprio Zeus
a cortejara, até que uma profecia o preveniu
de que o filho da deusa se tornaria, com o
tempo, mais poderoso do que o pai. Depois
disto não quis mais saber dela.
De início, não
atendia a deusa aos galanteios de Peleu,
porém, ele conservou-se fiel, mostrando-se
tão paciente e dedicado que afinal ela
consentiu em desposa-lo. Suas bodas foram as
mais suntuosas jamais vistas, pois que nenhum
mortal jamais se tinha casado na companhia dos
deuses e dos homens, e tão notável
acontecimento foi descrito em termos
encomiásticos por todos os convidados que
dele participaram.
O próprio Zeus achava-se
entre os convivas, e com ele todos os grandes
deuses e deusas do Olimpo - Posseidon, senhor
dos mares; Hades e Perséfone; Hera, Rainha do
Olimpo, mulher de Zeus, com Atena, deusa da
sabedoria; Ártemis, a virgem-caçadora; seu
irmão Apolo, senhor da juventude, da música
e da poesia; Ares, deus da guerra; o coxo
Héfaistos, deus do fogo; e Afrodite, amiga do
riso e da alegria, deusa da beleza e do amor.
Muitos outros ali se achavam, de maneira que
os olhos dos mortais estavam deslumbrados com
tanto esplendor; infortunadamente, por algum
descuido, a deusa Éris não havia sido
convidada.
Ora, acontecia que
Éris era uma deusa maliciosa e encrenqueira,
que se comprazia em provocar contendas; e
resolveu manifestar seu descontentamento, por
não ter sido convidada para as festas do
casamento de Peleu e Tétis, fomentando a
discórdia entre os convivas. Com essa
intenção colheu um pomo de ouro da árvore
do Jardim das Hespérides e, sobre ele, gravou
as palavras "Para a Mais Bela."
Quando os deuses e as deusas entregavam seus
presentes de núpcias a Peleu e a Tétis,
apareceu em seu meio o pomo de ouro, como que
por encanto.
Opinavam alguns que se destinava
a Tétis, porém, outros, discordavam; e
começaram os convivas a tomar partido pela
beleza de uma deusa ou de outra - porque,
naturalmente, as mulheres mortais que se
achavam presentes, por mais belas que fossem,
não eram estouvadas a ponto de competirem com
as deusas - até que por fim pôs Zeus um
paradeiro àquela algazarra.
- Um assunto como
este, disse ele, não pode ser julgado por
aqueles que vivem ao lado das deusas e privam
com elas diariamente. Parece que todos estão
de acordo em que a escolha recairá sobre uma
das três: Hera, Rainha do Olimpo; Atena, a
virginal, e Afrodite. Designarei, portanto, um
juiz mortal para determinar à qual das três
cabe o prêmio de beleza; enquanto isto, será
o pomo guardado pelo meu mensageiro Hermes.
Se Zeus esperava
que as três deusas se esquecessem do pomo de
ouro, iria em breve desiludir-se; nem bem
haviam deixado as festas do casamento,
começaram elas a pedir-lhe que designasse o
juiz daquele concurso de beleza, como havia
prometido. Então, Zeus trocou idéias com
Hermes, que conhecia todo o mundo na terra;
decidiram-se, afinal, a favor de determinado
pastor chamado Alexandre, que vivia na encosta
do Monte Ida, na Dardânia, não longe da
cidade de Tróia. Este jovem tinha angariado
reputação entre os outros pastores, não
somente pela sua força e perícia na luta
contra os lobos que atacavam os rebanhos, mas
também pela sagacidade e sabedoria com que
resolvia as disputas. Alexandre era de bela
estatura, bem apessoado e elegante, e casado
com uma formosa jovem chamada Enone, filha do
deus dos rios, Cebren. O jovem pastor e sua
mulher amavam-se encarecidamente, e viviam
muito felizes em sua casinha na encosta da
montanha.
- Leve este pomo de
ouro ao jovem Alexandre, o pastor que mora no
Monte Ida, disse Zeus a Hermes, e diga-lhe que
tem de decidir qual a mais bela das três
deusas. Não as conhecendo, terá mais
probabilidade de fazer uma escolha imparcial.
- Não nos devemos
esquecer, disse Hermes, de que, se é verdade
que a deusa que ganhar o prêmio ficará
grandemente lisonjeada, por outro lado se
sentirão, as duas outras, profundamente
ofendidas e procurarão, sem dúvida, o meio
de manifestar seu descontentamento.
- Justamente por
essa razão, é preferível que o juiz seja um
obscuro mortal, e não um de nós, para não
termos de sofrer o ressentimento das duas
outras que ficarão despeitadas. Em sua
própria causa, esperemos que o jovem conceda
o prêmio à deusa cujo poderio melhor o
proteja contra o rancor das duas outras.
Quanto a mim, não quero ter nada a ver com
isto.
Então, Hermes
levou o pomo de ouro para a cabana na encosta
da montanha, e apresentou-se ao jovem pastor,
que ficou grandemente surpreendido com a
incumbência que lhe fora atribuída.
Havia um bosque na
montanha, no qual as três deusas se
apresentaram a Alexandre em momento aprazado;
contemplou-as ele uma por uma. Tinha Hera
porte majestoso e soberano, aspecto digno e
gracioso; e o jovem pastor convenceu-se de que
nunca vira, nem mesmo em sonho, beleza tão
maravilhosa. Ela sorriu amavelmente para
Alexandre quando este se ajoelhou a seus pés.
- Escolha-me,
disse-lhe ela, e lhe darei posição e poder -
a inteligência e o coração de um rei entre os homens.
Então Atena se
adiantou, com sua beleza fria, semelhante à
neve profunda sobre um pico montanhoso, à luz
do luar.
- Escolha a mim,
disse ela, e lhe darei sabedoria, para que
possa compreender as almas dos homens e os
segredos dos deuses.
Curvou-se Alexandre
profundamente ante Atena, mudo de espanto
perante a elevada e serena, beleza da deusa
virginal. Então Afrodite aproximou-se. Seus
cabelos tinham o perfume delicado das flores.
Seus olhos refletiam ternura e seus lábios
rubros pareciam as próprias flores do amor.
- Escolha-me,
Alexandre, sussurrou ela, e lhe darei por
esposa a mais linda mulher do mundo.
Sorriu suavemente,
acenando para ele. Tão encantadora era ela,
em sua beleza quente, suave, doce e radiante
que, movido por súbito impulso, estendeu-lhe
a mão, entregando-lhe o pomo de ouro. Naquele
instante, percebeu o rancor no olhar majestoso
de Hera; o sarcasmo na face pálida de Atena.
Mas quando volveu de novo a vista para os
olhos sorridentes e triunfantes da rainha do
amor, se sentiu satisfeito por lhe ter
conferido o prêmio. Então, desapareceram as
três imortais, ficando ele solitário na
encosta da montanha.
Quando contou à
sua jovem esposa os presentes que lhe tinham
sido oferecidos e a escolha que tinha feito,
Enone se perturbou.
- Preferia que
você tivesse dado o prêmio a Atena, declarou
ela; porém, não lhe disse a razão.
Alexandre deu uma
risada, beijando-a:
- Sabedoria, eu já
possuo, disse ele; e quanto à mulher mais
linda do mundo, ora, ela já me pertence!
Com o correr dos
dias estavam eles tão ocupados cuidando das
boiadas do Rei, que quase esqueceram por
completo a visita das deusas e a promessa de
Afrodite.
Um dia, chegou à
fazenda da montanha, onde Alexandre pastoreava
os rebanhos, um mensageiro.
- O Rei de Tróia
ordenou-me que lhe levasse um touro branco, o
mais belo de sua manada, disse ele.
Então, Alexandre
laçou o touro branco e entregou-o ao
mensageiro.
- O que vão fazer
com ele? perguntou:
- Este touro
constituirá o prêmio dos jogos que se vão
realizar em Tróia,.
- Qualquer pessoa
pode competir? indagou Alexandre.
- Certamente.
Porém, os quatro filhos do Rei, Heitor,
Deífobo, Heleno e Polites são tão hábeis
na corrida, 'no salto, no manejo do arco e no
pugilato que um deles ganhará o prêmio, com
certeza. Um adivinho vaticinou, de fato, que
um filho do Rei Príamo seria o vencedor.
- Apesar de tudo,
tornou Alexandre, gostaria de tentar a sorte.
Este touro é maravilhoso e gostaria imenso de
o possuir.
Assim sendo, no dia
seguinte despediu-se de Enone e partiu para a
cidade de Tróia, que ainda não conhecia.
Muitas pessoas encaminhavam-se para a arena, e
delas, veio Alexandre a saber o motivo da
realização daqueles jogos.
- Quando a Rainha
Hécuba deu um terceiro filho ao Rei Príamo,
sendo Heitor e Deífobo o primeiro e o
segundo, explicaram-lhe, ela sonhou que dera
à luz uma tocha flamejante que incendiou a
cidade. Quando Príamo veio a saber disto,
entregou a criança secretamente a um servo,
com instruções para abandoná-la na encosta
da montanha, onde certeza, viria a morrer
prontamente de frio e de fome ou a ser
devorada pelas feras selvagens. Agora, porém,
está o Rei Príamo arrependido e realiza
esses jogos em honra de seu falecido filho,
que seria, agora, um homem feito, se ainda
vivesse.
Os atos dos reis
pouco significavam para Alexandre que queria
apenas conquistar a palma da vitória e levar
o touro para Enone. Quando se realizaram as
competições, esforçou-se com tanta,
vontade, demonstrou tanto vigor, tanta
habilidade e destreza, que venceu todos seus
rivais na corrida, no salto, no lançamento do
dardo e da flecha. Ficou Heitor, filho mais
velho do rei, tão encolerizado que pegou de
um punhal para matar Alexandre, e o teria
feito, não se tivesse o jovem pastor
refugiado num templo de Zeus, situado na
extremidade da arena. Quando estava a ponto de
alcançá-lo, seguido de perto por Deífobo,
uma filha do Rei, chamada Cassandra,
interpôs-se entre Alexandre e seu irmão.
Cassandra era profetisa, e quando pôs os
olhos em Alexandre, avisou-lhe sua voz
interior que ele era o filho desaparecido do
Rei Príamo, cuja vida tinha sido salva na
montanha e que voltava agora para Tróia sob a
aparência de um magnífico rapaz.
Houve, então,
grandes regozijos na cidade! Príamo e Hécuba
não sabiam o que fazer para seu novo, belo,
nobre filho, cujo nome, diziam eles, não era
Alexandre, como o chamavam os pastores, mas
Páris, príncipe de Tróia.
Vestiram-no com
vestes principescas; apresentaram-no aos seus
irmãos e irmãs e a todos os nobres da grande
e próspera cidade, de maneira que ele ficou
completamente tonto com todos esses
acontecimentos inesperados e os esplendores do
palácio real. Porém, não falou em Enone ao
seu pai e mãe, nem tampouco escreveu alguma
mensagem à sua mulher, narrando-lhe os
acontecimentos. Isto, porque se lembrava que
Afrodite lhe prometera, para esposa, a mulher
mais linda do mundo; e a mais feia donzela de
Tróia parecia-lhe, agora, mais bonita que
Enone. Como não seria, então, a mais linda
mulher do mundo, que estava com certeza à sua
espera em algum lugar!
[transcrição e
adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS,
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da
Costa Júnior