PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega


Editora Brasiliense
São Paulo
1960

 

Terceira Parte

A Maldição do Auriga





CAPITULO XVII

COMO O REI DE TRÓIA RECUPEROU O FILHO PERDIDO

 

Entre os homens que haviam embarcado com Jasão, no Argo, estava Peleu, filho de Éaco e irmão do famoso Telamon de Salamina. Tinha desposado Antígone, filha do Rei Eurito, depois de cuja morte herdara o trono da Ftia. Quando Antígone morreu, Peleu procurou ao seu redor outra mulher, e apaixonou-se pela deusa marinha Tétis, tão bela que o próprio Zeus a cortejara, até que uma profecia o preveniu de que o filho da deusa se tornaria, com o tempo, mais poderoso do que o pai. Depois disto não quis mais saber dela.

De início, não atendia a deusa aos galanteios de Peleu, porém, ele conservou-se fiel, mostrando-se tão paciente e dedicado que afinal ela consentiu em desposa-lo. Suas bodas foram as mais suntuosas jamais vistas, pois que nenhum mortal jamais se tinha casado na companhia dos deuses e dos homens, e tão notável acontecimento foi descrito em termos encomiásticos por todos os convidados que dele participaram.

O próprio Zeus achava-se entre os convivas, e com ele todos os grandes deuses e deusas do Olimpo - Posseidon, senhor dos mares; Hades e Perséfone; Hera, Rainha do Olimpo, mulher de Zeus, com Atena, deusa da sabedoria; Ártemis, a virgem-caçadora; seu irmão Apolo, senhor da juventude, da música e da poesia; Ares, deus da guerra; o coxo Héfaistos, deus do fogo; e Afrodite, amiga do riso e da alegria, deusa da beleza e do amor. Muitos outros ali se achavam, de maneira que os olhos dos mortais estavam deslumbrados com tanto esplendor; infortunadamente, por algum descuido, a deusa Éris não havia sido convidada.

Ora, acontecia que Éris era uma deusa maliciosa e encrenqueira, que se comprazia em provocar contendas; e resolveu manifestar seu descontentamento, por não ter sido convidada para as festas do casamento de Peleu e Tétis, fomentando a discórdia entre os convivas. Com essa intenção colheu um pomo de ouro da árvore do Jardim das Hespérides e, sobre ele, gravou as palavras "Para a Mais Bela." Quando os deuses e as deusas entregavam seus presentes de núpcias a Peleu e a Tétis, apareceu em seu meio o pomo de ouro, como que por encanto.

Opinavam alguns que se destinava a Tétis, porém, outros, discordavam; e começaram os convivas a tomar partido pela beleza de uma deusa ou de outra - porque, naturalmente, as mulheres mortais que se achavam presentes, por mais belas que fossem, não eram estouvadas a ponto de competirem com as deusas - até que por fim pôs Zeus um paradeiro àquela algazarra.

- Um assunto como este, disse ele, não pode ser julgado por aqueles que vivem ao lado das deusas e privam com elas diariamente. Parece que todos estão de acordo em que a escolha recairá sobre uma das três: Hera, Rainha do Olimpo; Atena, a virginal, e Afrodite. Designarei, portanto, um juiz mortal para determinar à qual das três cabe o prêmio de beleza; enquanto isto, será o pomo guardado pelo meu mensageiro Hermes.

Se Zeus esperava que as três deusas se esquecessem do pomo de ouro, iria em breve desiludir-se; nem bem haviam deixado as festas do casamento, começaram elas a pedir-lhe que designasse o juiz daquele concurso de beleza, como havia prometido. Então, Zeus trocou idéias com Hermes, que conhecia todo o mundo na terra; decidiram-se, afinal, a favor de determinado pastor chamado Alexandre, que vivia na encosta do Monte Ida, na Dardânia, não longe da cidade de Tróia. Este jovem tinha angariado reputação entre os outros pastores, não somente pela sua força e perícia na luta contra os lobos que atacavam os rebanhos, mas também pela sagacidade e sabedoria com que resolvia as disputas. Alexandre era de bela estatura, bem apessoado e elegante, e casado com uma formosa jovem chamada Enone, filha do deus dos rios, Cebren. O jovem pastor e sua mulher amavam-se encarecidamente, e viviam muito felizes em sua casinha na encosta da montanha.

- Leve este pomo de ouro ao jovem Alexandre, o pastor que mora no Monte Ida, disse Zeus a Hermes, e diga-lhe que tem de decidir qual a mais bela das três deusas. Não as conhecendo, terá mais probabilidade de fazer uma escolha imparcial.

- Não nos devemos esquecer, disse Hermes, de que, se é verdade que a deusa que ganhar o prêmio ficará grandemente lisonjeada, por outro lado se sentirão, as duas outras, profundamente ofendidas e procurarão, sem dúvida, o meio de manifestar seu descontentamento.

- Justamente por essa razão, é preferível que o juiz seja um obscuro mortal, e não um de nós, para não termos de sofrer o ressentimento das duas outras que ficarão despeitadas. Em sua própria causa, esperemos que o jovem conceda o prêmio à deusa cujo poderio melhor o proteja contra o rancor das duas outras. Quanto a mim, não quero ter nada a ver com isto.

Então, Hermes levou o pomo de ouro para a cabana na encosta da montanha, e apresentou-se ao jovem pastor, que ficou grandemente surpreendido com a incumbência que lhe fora atribuída.

Havia um bosque na montanha, no qual as três deusas se apresentaram a Alexandre em momento aprazado; contemplou-as ele uma por uma. Tinha Hera porte majestoso e soberano, aspecto digno e gracioso; e o jovem pastor convenceu-se de que nunca vira, nem mesmo em sonho, beleza tão maravilhosa. Ela sorriu amavelmente para Alexandre quando este se ajoelhou a seus pés.

- Escolha-me, disse-lhe ela, e lhe darei posição e poder - a inteligência e o coração de um rei entre os homens.

Então Atena se adiantou, com sua beleza fria, semelhante à neve profunda sobre um pico montanhoso, à luz do luar.

- Escolha a mim, disse ela, e lhe darei sabedoria, para que possa compreender as almas dos homens e os segredos dos deuses.

Curvou-se Alexandre profundamente ante Atena, mudo de espanto perante a elevada e serena, beleza da deusa virginal. Então Afrodite aproximou-se. Seus cabelos tinham o perfume delicado das flores. Seus olhos refletiam ternura e seus lábios rubros pareciam as próprias flores do amor.

- Escolha-me, Alexandre, sussurrou ela, e lhe darei por esposa a mais linda mulher do mundo.

Sorriu suavemente, acenando para ele. Tão encantadora era ela, em sua beleza quente, suave, doce e radiante que, movido por súbito impulso, estendeu-lhe a mão, entregando-lhe o pomo de ouro. Naquele instante, percebeu o rancor no olhar majestoso de Hera; o sarcasmo na face pálida de Atena. Mas quando volveu de novo a vista para os olhos sorridentes e triunfantes da rainha do amor, se sentiu satisfeito por lhe ter conferido o prêmio. Então, desapareceram as três imortais, ficando ele solitário na encosta da montanha.

Quando contou à sua jovem esposa os presentes que lhe tinham sido oferecidos e a escolha que tinha feito, Enone se perturbou.

- Preferia que você tivesse dado o prêmio a Atena, declarou ela; porém, não lhe disse a razão.

Alexandre deu uma risada, beijando-a:

- Sabedoria, eu já possuo, disse ele; e quanto à mulher mais linda do mundo, ora, ela já me pertence!

Com o correr dos dias estavam eles tão ocupados cuidando das boiadas do Rei, que quase esqueceram por completo a visita das deusas e a promessa de Afrodite.

Um dia, chegou à fazenda da montanha, onde Alexandre pastoreava os rebanhos, um mensageiro.

- O Rei de Tróia ordenou-me que lhe levasse um touro branco, o mais belo de sua manada, disse ele.

Então, Alexandre laçou o touro branco e entregou-o ao mensageiro.

- O que vão fazer com ele? perguntou:

- Este touro constituirá o prêmio dos jogos que se vão realizar em Tróia,.

- Qualquer pessoa pode competir? indagou Alexandre.

- Certamente. Porém, os quatro filhos do Rei, Heitor, Deífobo, Heleno e Polites são tão hábeis na corrida, 'no salto, no manejo do arco e no pugilato que um deles ganhará o prêmio, com certeza. Um adivinho vaticinou, de fato, que um filho do Rei Príamo seria o vencedor.

- Apesar de tudo, tornou Alexandre, gostaria de tentar a sorte. Este touro é maravilhoso e gostaria imenso de o possuir.

Assim sendo, no dia seguinte despediu-se de Enone e partiu para a cidade de Tróia, que ainda não conhecia. Muitas pessoas encaminhavam-se para a arena, e delas, veio Alexandre a saber o motivo da realização daqueles jogos.

- Quando a Rainha Hécuba deu um terceiro filho ao Rei Príamo, sendo Heitor e Deífobo o primeiro e o segundo, explicaram-lhe, ela sonhou que dera à luz uma tocha flamejante que incendiou a cidade. Quando Príamo veio a saber disto, entregou a criança secretamente a um servo, com instruções para abandoná-la na encosta da montanha, onde certeza, viria a morrer prontamente de frio e de fome ou a ser devorada pelas feras selvagens. Agora, porém, está o Rei Príamo arrependido e realiza esses jogos em honra de seu falecido filho, que seria, agora, um homem feito, se ainda vivesse.

Os atos dos reis pouco significavam para Alexandre que queria apenas conquistar a palma da vitória e levar o touro para Enone. Quando se realizaram as competições, esforçou-se com tanta, vontade, demonstrou tanto vigor, tanta habilidade e destreza, que venceu todos seus rivais na corrida, no salto, no lançamento do dardo e da flecha. Ficou Heitor, filho mais velho do rei, tão encolerizado que pegou de um punhal para matar Alexandre, e o teria feito, não se tivesse o jovem pastor refugiado num templo de Zeus, situado na extremidade da arena. Quando estava a ponto de alcançá-lo, seguido de perto por Deífobo, uma filha do Rei, chamada Cassandra, interpôs-se entre Alexandre e seu irmão. Cassandra era profetisa, e quando pôs os olhos em Alexandre, avisou-lhe sua voz interior que ele era o filho desaparecido do Rei Príamo, cuja vida tinha sido salva na montanha e que voltava agora para Tróia sob a aparência de um magnífico rapaz.

Houve, então, grandes regozijos na cidade! Príamo e Hécuba não sabiam o que fazer para seu novo, belo, nobre filho, cujo nome, diziam eles, não era Alexandre, como o chamavam os pastores, mas Páris, príncipe de Tróia.

Vestiram-no com vestes principescas; apresentaram-no aos seus irmãos e irmãs e a todos os nobres da grande e próspera cidade, de maneira que ele ficou completamente tonto com todos esses acontecimentos inesperados e os esplendores do palácio real. Porém, não falou em Enone ao seu pai e mãe, nem tampouco escreveu alguma mensagem à sua mulher, narrando-lhe os acontecimentos. Isto, porque se lembrava que Afrodite lhe prometera, para esposa, a mulher mais linda do mundo; e a mais feia donzela de Tróia parecia-lhe, agora, mais bonita que Enone. Como não seria, então, a mais linda mulher do mundo, que estava com certeza à sua espera em algum lugar!


[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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