No
país da Lacedemônia, ao sul de Micenas,
elevava-se a antiga cidade de Esparta onde vivia
o Rei Tíndaro com sua bela esposa Leda. A mãe
do Rei, Gorgófona, era filha de Perseu e de
Andrômeda. Desta maneira, eram os dois filhos
de Atreu seus parentes, e o Rei Tìndaro
fez-lhes calorosa acolhida ao chegarem à sua
corte, fugidos de Tiestes.
Dentro
de pouco tempo se apaixonava Agamenon pela filha
mais velha do Rei, Clitemnestra, casando-se os
dois. Ao atingir a maioridade, Agamenon formou
um séqüito de jovens e marchou contra Micenas
para reivindicar o trono. Não tendo Tiestes
conseguido conquistar o amor de seus súditos,
não lutaram estes para conserva-lo no poder.
Dessa forma, Agamenon, filho mais velho de
Atreu, tornou-se Rei de Micenas, banindo Tiestes
para a Ilha de Cítera, onde veio a falecer
pouco tempo depois.
Esperava
seu filho Egisto herdar o trono do pai. Porém,
agora, desvanecera-se essa esperança e ele
julgava-se feliz por não perder também a vida,
já que em outros tempos assassinara o pai do
novo soberano. Por uma ou outra razão,
entretanto, Agamenon mostrou-se clemente,
permitindo a Egisto viver pacificamente em seus
domínios, com a condição de não atentar
contra sua soberania. Egisto e sua nova prima
Clitemnestra, tornaram-se bons amigos. Não se
opunha Agamenon a esta amizade de sua esposa e
Rainha de Micenas por Egisto, porque gostava do
rapaz.
Depois
de ajudar ao seu irmão mais velho, Agamenon, a
reconquistar o trono de Micenas, voltou Menelau
para Esparta. Estava loucamente apaixonado pela
filha mais moça do Rei Tíndaro, que se chamava
Helena. Desde que fora raptada por Teseu, e
trazida de volta pelos seus irmãos Castor e
Pólux, tornara-se Helena uma moça, e, se bem
que não estivesse ainda em idade de se casar,
estava tão bonita que se estendera sua fama
até países distantes. Príncipes, e até mesmo
Monarcas iam a Esparta para conhecê-la, sendo
que os solteiros nunca retomavam a seus países
sem a terem solicitado em casamento.
Não
respondia, o Rei Tíndaro, nem sim nem não a
esses jovens, pois achava que se não devia
apressar em escolher o marido de sua formosa
filha, enquanto não alcançasse, esta, idade
para se casar. À medida que crescia, porém,
alastrava-se a fama de sua beleza, de maneira
que se via o Rei de Esparta importunado pela
impaciência dos pretendentes que o aborreciam e
ao mesmo tempo o preocupavam. Era provável que,
qualquer que fosse o marido que escolhesse para
Helena, ficariam os outros despeitados e
ressentidos, podendo mesmo vir a lhe declararem
guerra e lhe tirarem não somente o trono como
também a vida.
Ora,
existia para as bandas do norte uma ilha rochosa
chamada Ítaca, onde reinava o Rei Laertes, que
tinha sido um dos Argonautas. Tinha, um filho
chamado Ulisses, que era o homem mais sensato e
arguto que jamais existira. Mas, conquanto forte
e bem conformado, Ulisses estava longe de ser
belo.
A fama
da beleza de Helena de Tróia estendera-se até
à ilha remota em que vivia Ulisses. Ele só
pensava em ir a Esparta para conquistar o seu
amor.
Ao
vê-Ia, achou-a ainda mais linda do que rezava a
lenda. Quando, porém, viu a quantidade de
jovens e belos príncipes que a rodeava,
compreendeu que teria poucas probabilidades de
conquistá-la, com seus traços vulgares e seus
cabelos ruços. Havia outra jovem na corte,
contudo, que olhou para ele com simpatia. Era
filha de Ícaro, irmão do Rei Tíndaro, e
chamava-se Penélope. Ainda que não fosse tão
formosa como sua prima, era Penélope muito
bonita, e Ulisses pensou que, na falta de
Helena, serviria perfeitamente para sua esposa.
Todos
estavam ocupados com a maravilhosa Helena e em
saber quem a iria desposar, de maneira que
Ulisses e Penélope podiam encontrar-se a sós,
sem que ninguém o percebesse. Não era certo,
entretanto, que seu pai a daria em casamento ao
príncipe de uma pequena e pobre ilha rochosa.
Por isso, depois de refletir maduramente,
Ulisses foi falar com o Rei Tíndaro.
- Quer
me parecer, disse ele, que todos esses jovens
que pretendem a mão de sua filha estão se
tornando um problema para você.
- Isto
é verdade, respondeu o Rei Tíndaro, com um
suspiro. Queria poder casá-la com um deles para
que os outros fossem embora para suas casas.
Porém, cada um deles considera o fato de ser
escolhido para marido de minha filha, um ponto
de honra para sua família. Só posso escolher
um deles. Mas receio que os outros não se
conformem, e o levem a mal. Verdadeiramente,
não sei o que fazer.
-
Suponha, disse Ulisses, que você encontre um
meio de fazer com que eles assistam
pacificamente às bodas de sua filha,
separando-se em seguida amistosamente, de você
e dos outros companheiros.
- Se
você conseguisse isto, respondeu o Rei
Tíndaro, poderia pedir-me a recompensa que
quisesse.
-
Agradeço-lhe, Rei Tíndaro, e me lembrarei de
sua promessa. Agora, eis o meu plano: reúna
todos esses jovens que pretendem casar com sua
filha e faça-os prestar um juramento solene:
primeiro, que a própria princesa escolherá
aquele com quem deseja casar-se; segundo, que os
outros se acharão unidos numa grande irmandade
para proteger a sua honra e a do homem que ela
houver escolhido; para defendê-los contra
qualquer pessoa que tente separá-los, e vingar
qualquer ofensa que venham a sofrer. Porém, Rei
Tíndaro, você unirá os pretendentes de sua
filha nessa irmandade antes que Helena revele a
sua escolha. Todos terão, assim, esperança de
ser escolhidos, e prestarão com prazer um
juramento que lhes dará não somente paz no
presente, mas, também, segurança, no futuro.
O Rei
ficou encantado com a idéia e apressou-se em
anunciá-la. Como previra Ulisses, esperando
todos os jovens ser eleitos por Helena,
apressaram-se em fazer o solene juramento de
irmandade. Achava-se Ulisses entre eles, pois
preferia Helena a Penélope; porém, quando o
Rei Tíndaro perguntou a Helena quem ela queria
para, marido, ela escolheu Menelau.
Casaram-se
com grande pompa. Os outros jovens sopitaram seu
amargo desapontamento para não empanar a
alegria dos festejos, depois do que se
despediram e voltaram pacificamente para suas
casas. Então o Rei Tíndaro mandou chamar
Ulisses.
-
Casou-se minha filha com o homem que ama; ainda
estou vivo, e ainda sou Rei de Esparta, disse
ele. Tudo isto nós lhe devemos, Ulisses;
diga-me agora como poderei recompensá-lo.
-
Acima de tudo neste mundo, respondeu Ulisses,
desejo casar-me com sua sobrinha Penélope.
De
todo o coração, disse Tíndaro. E mandou
buscar a moça. Quando Ulisses lhe pegou a mão
ela enrubesceu, cobrindo a, face com o véu.
Mas, depois de casados, partiu alegremente com
ele para a distante ilha rochosa de Ítaca.
Recebeu-a o Rei Laertes com demonstrações de
amor e de carinho.
-
Estou ficando velho, disse ele, e posso agora
abandonar o trono com o coração tranqüilo.
Meu filho tornou-se homem e, tendo uma tão bela
e boa moça, para ocupar o trono a seu lado,
poderá Ulisses governar Ítaca no meu lugar.
Ulisses
e Penélope amavam-se encarecidamente, e, com o
tempo, tiveram um filho que chamaram Telémaco;
grandes eram os encantos do velho Rei Laertes
pelo seu pequeno neto.
Helena
e Menelau viviam felizes em Esparta, e, quando o
Rei Tíndaro veio a morrer, Menelau tornou-se
rei em seu lugar. Enquanto isto, em Micenas, a
irmã mais velha de Helena, Clitenmestra, dera
três filhos a Agamenon: duas filhas, Ifigênia
e Electra, e um filho chamado Orestes. Quanto a
Helena de Esparta, teve uma filha que denominou
Hermíone; todos pareciam viver felizes, bem
estabelecidos e sossegados nos vastos domínios
que Agamenon governava, de Micenas.
Quanto
aos pretendentes de Helena, encontraram outras
moças para desposarem, e com elas constituírem
família. Na maioria , tinham esquecido quão
pressurosos estiveram de conquistar a bela
Helena, e riam-se rememorando aquela loucura de
sua mocidade; nenhum deles se lembrava mais do
juramento que haviam feito. No entanto, ainda se
achavam ligados por ele, como o futuro iria
prová-lo. Negra nuvem estender-se-ia em breve
sobre as vidas de Helena e Menelau, Agamenon e
Clitemnestra, e as crianças que brincavam
felizes ao sol de Esparta, e Micenas, ou nas
colinas da cidade de Tróia que dominavam os
campos circundantes.
[transcrição
e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES
E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir
Índio da Costa Júnior