Seu filho mais velho,
Piteu, casou-se e estabeleceu-se na Argólida, e
tendo sua filha Nícipe casado com Estenelo,
filho de Perseu de Micenas, pôs-se Pélops a
procurar casamentos vantajosos para os seus
três filhos remanescentes, Atreu, Tiestes e
Alcatoo, para que, com o tempo, viessem a herdar
reinos. Antes, porém, de se ter adiantado muito
nesse caminho, veio a sofrer um golpe inesperado
que transtornou todos os seus planos.
Tinha Pélops outro
filho, que não era filho de Hipodâmia.
Chamava-se Crisipo, e Pélops amava-o mais que
aos outros filhos. Tornaram-se, seus três
filhos legítimos, cada dia mais enciumados da
preferência de seu pai pelo seu meio-irmão,
que, temiam eles, poderia vir a herdar a coroa.
Assim sendo, entraram em acordo para eliminar a
Crisipo.
Para executarem o que
haviam determinado, o assassinaram secretamente,
arremessando seu cadáver a um poço. Quando
Crisipo desapareceu, organizaram imensa busca,
até que enfim encontraram seu cadáver. Pélops
não nutria dúvida alguma quanto à autoria do
crime. Avisados pela sua mãe, apressaram-se os
três filhos de Pélops em se afastarem do reino
da Élida, a fim de se porem ao abrigo da
cólera paternal. Viajaram por países remotos
à procura de um retiro, passando por muitas
aventuras. Alcatoo separou-se de Atreu e de
Tiestes e foi ter ao reino de Mégara, perto da
estreita língua de terra que reúne as duas
grandes partes da Grécia.
Ali, conquistou
grande prestígio, abatendo um leão que matara
o filho do rei. Em recompensa recebeu a filha do
rei em casamento, vindo a herdar o trono por
morte de seu sogro. Em sua luta com o leão,
porém, fora Alcatoo gravemente ferido, ficando
coxo para o resto da vida. Esta circunstância
pôs termo às suas aventuras.
Alcatoo tinha uma
linda filha chamada Peribéia. Devido talvez ao
azedume causado pelo seu ferimento, tratava-a
muito mal. Quando suspeitou de que ela e Telamon
de Salamina estavam mutuamente apaixonados, não
disse nada a Telamon, a quem detestava, mas
vendeu Peribéia como escrava. A princesa foi
levada para ultramar, e Telamon embarcou à sua
procura, indo encontrá-la na Ilha de Chipre.
Lá se casaram, e Telamon voltou com sua esposa
para sua casa em Salamina, onde Hesíone, filha
do Rei Laomedonte de Tróia vivia em seu
palácio. Isto tornou Alcatoo ainda mais
irascível. Ele não ousava, entretanto,
declarar guerra a um rei tão bravo e destemido
como Telamon.
Atreu e Tiestes
permaneceram juntos durante os primeiros anos de
seu desterro; mas quando souberam que seu
sobrinho Euristeu se tornara Rei de Micenas,
Atreu foi à sua procura e ficou morando na
cidade. Mais tarde desposou a filha de Euristeu,
que se chamava Eropa, e dela teve dois filhos
chamados Agamenon e Menelau.
Como Euristeu não
tivesse filhos, Atreu ficou herdeiro do reino de
Micenas. Quando seus dois filhos ainda eram
crianças, ele se tornou rei. Euristeu ouvira
dizer que Hilo, filho de Héracles, vivia na
corte do Rei Ceix de Tarquínia. Temendo que
Hilo atacasse Micenas à frente de um exército,
para conquistar a soberania, decidiu Euristeu
declarar-lhe guerra antes que estivesse ele em
condições de o fazer. O Rei Ceix, entretanto,
não temia um homem como Euristeu, e ele
próprio conduziu suas forças ao combate.
Durante a batalha defrontou-se Hilo com seu
inimigo e, depois de reprovar o tratamento
tirânico que infligira a Héracles o matou sem
piedade.
Foi assim que Atreu
se tornou Rei de Micenas, pois Hilo não era
ainda bastante poderoso para se apossar do
trono.
Quando mesmo não
tivessem os três filhos de Pélops trucidado
seu irmão Crisipo e sido forçados a se
exilarem, não teriam prosperado mais do que o
fizeram. De fato, um deles era Rei de Mégara e
o outro, de Micenas. Quanto a Tiestes, o
terceiro filho, ainda poderia vir a ter a mesma
sorte que os irmãos. Assim pensava Pélops,
quando já havia esquecido a morte de Crisipo e
procurava saber como se tinha havido cada um de
seus filhos, isoladamente.
Apesar disso,
começava a maldição de Mirtilo a projetar sua
sombra sobre sua estirpe. O assassínio de
Crisipo, a quem Pélops tanto amara, não era
senão o começo de uma longa série de
perversidades e desgraças, que se iriam abater
sobre seus filhos e os filhos de seus filhos,
com o decorrer dos anos, empanando o brilho de
sua fortuna e de seu poderio, maculando-o com as
horríveis nódoas da traição e do homicídio,
que foram os meios empregados por Pélops,
quando ainda simples exilado frígio, para
conquistar seu primeiro reinado na Grécia.
Aproximava-se o castigo. Somente mais tarde,
porém, quando toda a história ficou sendo
conhecida, se tornou claro que a sombra
tenebrosa projetada sobre a sua raça, proveio,
inicialmente, da mão do auriga Mirtilo, no
momento da sua morte.
Envelhecia Pélops.
Antes de morrer, contudo, ainda iria assistir a
mais um ato sanguinário, em sua própria
família.
Quando Atreu subiu ao
trono de Micenas, foi logo informado o seu
irmão Tiestes, que se apressou em reclamar
para, si uma parte do reino. Tiestes era um
homem selvagem e de maus instintos e Atreu
repeliu sua pretensão. Então, planejou Tiestes
uma pérfida vingança. Cortejou secretamente a
bela e jovem esposa de Atreu. Como fosse muito
bem apessoado e soubesse fazer-se insinuante
quando o desejava, conquistou Eropa e teve dela
um filho.
Ao saber disto, Atreu
matou a criança, apresentando seu cadáver a
Tiestes que ele enxotou, a seguir , proibindo-o
de pisar em seus domínios, sob pena de morte.
Tiestes viajou por países longínquos, remoendo
as injustiças de que se dizia vítima e
tramando vingança contra seu irmão.
Aconteceu que, ao
transitar por um vale do país de Sicião,
deparou com uma moça tão formosa que por ela
se apaixonou no mesmo instante. Porém não foi
correspondido em seu amor. Era tão exacerbada
sua paixão que a violentou, sem saber sequer o
seu nome. Quando se afastava, tirou-lhe a
donzela um punhal do cinturão, punhal este que
conservou com grande cuidado, na esperança de
poder com ele, um dia, identificar e punir o
homem que a violentara de maneira tão brutal.
Foi a donzela a Micenas, contar ao Rei Atreu o
que sucedera. Condoeu-se o rei de sua sorte e
ficou tão encantado com a sua beleza que a
tomou por esposa, para substituir Eropa que ele
havia repudiado.
Não era Tiestes
homem para se preocupar com a moça do Vale de
Sicião, ou para sentir remorsos do que fizera.
Com o correr do tempo, até mesmo a própria
Pelopéia - que era como se chamava a moça -
já pensava menos no caso por se sentir muito
feliz na companhia de Atreu. Teve um filho de
nome Egisto. A criança foi adotada por Atreu e
criada na companhia de seus outros filhos
Agamenon e Menelau, na qualidade de meio-irmão.
Porém, ninguém imaginava que ele fosse de fato
filho de Tiestes e, portanto, primo de Agamenon
e Menelau.
Tiestes, por seu
lado, desprezava a proibição de seu irmão,
tornando-se tão turbulento e indesejável que
Atreu se viu obrigado a prendê-lo em Argos. Um
dia chamou o Rei a Egisto, agora já homem
feito.
- Nunca gozaremos a
paz ou a segurança neste reino enquanto Tiestes
viver, disse-lhe ele. São de tal monta as suas
ofensas que ele bem merece a morte. Tome este
punhal, Egisto; vá à prisão de Argos e mate
esse homem perverso.
Então Egisto rumou
para Argos a fim de cumprir as ordem do rei. Mas
quando Tiestes pôs os olhos no punhal na mão
de Egisto, soltou um grito, apontando para ele.
- Onde achou você
esse punhal? exclamou.
- Foi-me entregue
pelo Rei Atreu, respondeu Egisto. Recebi-o de
suas próprias mãos.
- Sabe você como ele
o obteve?
- Sei.
- Egisto, esta faca
me pertenceu. Eu a perdi, num vale do país de
Sicião.
Egisto contemplou
Tiestes com espanto.
- Então você deve
ser meu pai! exclamou.
Tiestes sorriu com
amargor, e, abrindo os braços, disse:
- Você veio aqui a
mandado de seu rei para me matar. Apunhale-me
então. Não resistirei.
Egisto, porém,
prostrou-se aos pés de seu pai pedindo-lhe
perdão. Libertou Tiestes da prisão e
dirigiu-se com ele para Micenas. O Rei Atreu,
certo de que àquelas horas seu perverso irmão
já estava morto, se dirigia para o templo, onde
ia ofertar um sacrifício em ação de graças.
No momento, porém, em que lhe transpunha o
limiar, Egisto precipitou-se contra ele,
inesperadamente, brandindo o punhal de Tiestes.
- Homicida e
assassino! exclamou ele, apunhalando o Rei Atreu
que caiu morto a seus pés.
Ficaram horrorizados
os habitantes de Micenas com este acontecimento.
Como o filho mais velho do rei não tivesse
atingido a maioridade, não era possível
recusar o trono a Tiestes, por ele ser irmão de
Atreu. Assim ele ficou sendo Rei de Micenas
enquanto Agamenon e Menelau, temendo sofrer a
mesma, sorte que seu pai, fugiram secretamente
da cidade, procurando refúgio em outro reino, e
ali permanecendo até atingir a maioridade,
quando poderiam reclamar seus direitos
hereditários.
Ao saber Pelopéia da
morte de seu marido, e que o assassino era o seu
próprio filho, pôs fim a existência.
Mais uma vez, tinha a
maldição do auriga ferido fundo à estirpe de
Pélops.
[transcrição e
adaptação do texto original de George Baker,
em