PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

 

Terceira Parte

A Maldição do Auriga


 

CAPITULO XV

AS SOMBRAS PROJETAM-SE SOBRE A RAÇA DE PÉLOPS


 

Seu filho mais velho, Piteu, casou-se e estabeleceu-se na Argólida, e tendo sua filha Nícipe casado com Estenelo, filho de Perseu de Micenas, pôs-se Pélops a procurar casamentos vantajosos para os seus três filhos remanescentes, Atreu, Tiestes e Alcatoo, para que, com o tempo, viessem a herdar reinos. Antes, porém, de se ter adiantado muito nesse caminho, veio a sofrer um golpe inesperado que transtornou todos os seus planos.

Tinha Pélops outro filho, que não era filho de Hipodâmia. Chamava-se Crisipo, e Pélops amava-o mais que aos outros filhos. Tornaram-se, seus três filhos legítimos, cada dia mais enciumados da preferência de seu pai pelo seu meio-irmão, que, temiam eles, poderia vir a herdar a coroa. Assim sendo, entraram em acordo para eliminar a Crisipo.

Para executarem o que haviam determinado, o assassinaram secretamente, arremessando seu cadáver a um poço. Quando Crisipo desapareceu, organizaram imensa busca, até que enfim encontraram seu cadáver. Pélops não nutria dúvida alguma quanto à autoria do crime. Avisados pela sua mãe, apressaram-se os três filhos de Pélops em se afastarem do reino da Élida, a fim de se porem ao abrigo da cólera paternal. Viajaram por países remotos à procura de um retiro, passando por muitas aventuras. Alcatoo separou-se de Atreu e de Tiestes e foi ter ao reino de Mégara, perto da estreita língua de terra que reúne as duas grandes partes da Grécia.

Ali, conquistou grande prestígio, abatendo um leão que matara o filho do rei. Em recompensa recebeu a filha do rei em casamento, vindo a herdar o trono por morte de seu sogro. Em sua luta com o leão, porém, fora Alcatoo gravemente ferido, ficando coxo para o resto da vida. Esta circunstância pôs termo às suas aventuras.

Alcatoo tinha uma linda filha chamada Peribéia. Devido talvez ao azedume causado pelo seu ferimento, tratava-a muito mal. Quando suspeitou de que ela e Telamon de Salamina estavam mutuamente apaixonados, não disse nada a Telamon, a quem detestava, mas vendeu Peribéia como escrava. A princesa foi levada para ultramar, e Telamon embarcou à sua procura, indo encontrá-la na Ilha de Chipre. Lá se casaram, e Telamon voltou com sua esposa para sua casa em Salamina, onde Hesíone, filha do Rei Laomedonte de Tróia vivia em seu palácio. Isto tornou Alcatoo ainda mais irascível. Ele não ousava, entretanto, declarar guerra a um rei tão bravo e destemido como Telamon.

Atreu e Tiestes permaneceram juntos durante os primeiros anos de seu desterro; mas quando souberam que seu sobrinho Euristeu se tornara Rei de Micenas, Atreu foi à sua procura e ficou morando na cidade. Mais tarde desposou a filha de Euristeu, que se chamava Eropa, e dela teve dois filhos chamados Agamenon e Menelau.

Como Euristeu não tivesse filhos, Atreu ficou herdeiro do reino de Micenas. Quando seus dois filhos ainda eram crianças, ele se tornou rei. Euristeu ouvira dizer que Hilo, filho de Héracles, vivia na corte do Rei Ceix de Tarquínia. Temendo que Hilo atacasse Micenas à frente de um exército, para conquistar a soberania, decidiu Euristeu declarar-lhe guerra antes que estivesse ele em condições de o fazer. O Rei Ceix, entretanto, não temia um homem como Euristeu, e ele próprio conduziu suas forças ao combate. Durante a batalha defrontou-se Hilo com seu inimigo e, depois de reprovar o tratamento tirânico que infligira a Héracles o matou sem piedade.

Foi assim que Atreu se tornou Rei de Micenas, pois Hilo não era ainda bastante poderoso para se apossar do trono.

Quando mesmo não tivessem os três filhos de Pélops trucidado seu irmão Crisipo e sido forçados a se exilarem, não teriam prosperado mais do que o fizeram. De fato, um deles era Rei de Mégara e o outro, de Micenas. Quanto a Tiestes, o terceiro filho, ainda poderia vir a ter a mesma sorte que os irmãos. Assim pensava Pélops, quando já havia esquecido a morte de Crisipo e procurava saber como se tinha havido cada um de seus filhos, isoladamente.

Apesar disso, começava a maldição de Mirtilo a projetar sua sombra sobre sua estirpe. O assassínio de Crisipo, a quem Pélops tanto amara, não era senão o começo de uma longa série de perversidades e desgraças, que se iriam abater sobre seus filhos e os filhos de seus filhos, com o decorrer dos anos, empanando o brilho de sua fortuna e de seu poderio, maculando-o com as horríveis nódoas da traição e do homicídio, que foram os meios empregados por Pélops, quando ainda simples exilado frígio, para conquistar seu primeiro reinado na Grécia. Aproximava-se o castigo. Somente mais tarde, porém, quando toda a história ficou sendo conhecida, se tornou claro que a sombra tenebrosa projetada sobre a sua raça, proveio, inicialmente, da mão do auriga Mirtilo, no momento da sua morte.

Envelhecia Pélops. Antes de morrer, contudo, ainda iria assistir a mais um ato sanguinário, em sua própria família.

Quando Atreu subiu ao trono de Micenas, foi logo informado o seu irmão Tiestes, que se apressou em reclamar para, si uma parte do reino. Tiestes era um homem selvagem e de maus instintos e Atreu repeliu sua pretensão. Então, planejou Tiestes uma pérfida vingança. Cortejou secretamente a bela e jovem esposa de Atreu. Como fosse muito bem apessoado e soubesse fazer-se insinuante quando o desejava, conquistou Eropa e teve dela um filho.

Ao saber disto, Atreu matou a criança, apresentando seu cadáver a Tiestes que ele enxotou, a seguir , proibindo-o de pisar em seus domínios, sob pena de morte. Tiestes viajou por países longínquos, remoendo as injustiças de que se dizia vítima e tramando vingança contra seu irmão.

Aconteceu que, ao transitar por um vale do país de Sicião, deparou com uma moça tão formosa que por ela se apaixonou no mesmo instante. Porém não foi correspondido em seu amor. Era tão exacerbada sua paixão que a violentou, sem saber sequer o seu nome. Quando se afastava, tirou-lhe a donzela um punhal do cinturão, punhal este que conservou com grande cuidado, na esperança de poder com ele, um dia, identificar e punir o homem que a violentara de maneira tão brutal. Foi a donzela a Micenas, contar ao Rei Atreu o que sucedera. Condoeu-se o rei de sua sorte e ficou tão encantado com a sua beleza que a tomou por esposa, para substituir Eropa que ele havia repudiado.

Não era Tiestes homem para se preocupar com a moça do Vale de Sicião, ou para sentir remorsos do que fizera. Com o correr do tempo, até mesmo a própria Pelopéia - que era como se chamava a moça - já pensava menos no caso por se sentir muito feliz na companhia de Atreu. Teve um filho de nome Egisto. A criança foi adotada por Atreu e criada na companhia de seus outros filhos Agamenon e Menelau, na qualidade de meio-irmão. Porém, ninguém imaginava que ele fosse de fato filho de Tiestes e, portanto, primo de Agamenon e Menelau.

Tiestes, por seu lado, desprezava a proibição de seu irmão, tornando-se tão turbulento e indesejável que Atreu se viu obrigado a prendê-lo em Argos. Um dia chamou o Rei a Egisto, agora já homem feito.

- Nunca gozaremos a paz ou a segurança neste reino enquanto Tiestes viver, disse-lhe ele. São de tal monta as suas ofensas que ele bem merece a morte. Tome este punhal, Egisto; vá à prisão de Argos e mate esse homem perverso.

Então Egisto rumou para Argos a fim de cumprir as ordem do rei. Mas quando Tiestes pôs os olhos no punhal na mão de Egisto, soltou um grito, apontando para ele.

- Onde achou você esse punhal? exclamou.

- Foi-me entregue pelo Rei Atreu, respondeu Egisto. Recebi-o de suas próprias mãos.

- Sabe você como ele o obteve?

- Sei.

- Egisto, esta faca me pertenceu. Eu a perdi, num vale do país de Sicião.

Egisto contemplou Tiestes com espanto.

- Então você deve ser meu pai! exclamou.

Tiestes sorriu com amargor, e, abrindo os braços, disse:

- Você veio aqui a mandado de seu rei para me matar. Apunhale-me então. Não resistirei.

Egisto, porém, prostrou-se aos pés de seu pai pedindo-lhe perdão. Libertou Tiestes da prisão e dirigiu-se com ele para Micenas. O Rei Atreu, certo de que àquelas horas seu perverso irmão já estava morto, se dirigia para o templo, onde ia ofertar um sacrifício em ação de graças. No momento, porém, em que lhe transpunha o limiar, Egisto precipitou-se contra ele, inesperadamente, brandindo o punhal de Tiestes.

- Homicida e assassino! exclamou ele, apunhalando o Rei Atreu que caiu morto a seus pés.

Ficaram horrorizados os habitantes de Micenas com este acontecimento. Como o filho mais velho do rei não tivesse atingido a maioridade, não era possível recusar o trono a Tiestes, por ele ser irmão de Atreu. Assim ele ficou sendo Rei de Micenas enquanto Agamenon e Menelau, temendo sofrer a mesma, sorte que seu pai, fugiram secretamente da cidade, procurando refúgio em outro reino, e ali permanecendo até atingir a maioridade, quando poderiam reclamar seus direitos hereditários.

Ao saber Pelopéia da morte de seu marido, e que o assassino era o seu próprio filho, pôs fim a existência.

Mais uma vez, tinha a maldição do auriga ferido fundo à estirpe de Pélops.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 

 
 
 


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