Não
obstante Héracles ver-se livre, agora, de sua
sujeição a Euristeu, ainda o perseguia a
inimizade da deusa Hera. Seu próximo golpe
causou-lhe profundo sofrimento. Voltando a
Tebas, depois de ter salvado Teseu e Pirítoo do
Mundo Subterrâneo, Heracles surpreendeu sua
esposa Mégara, nos braços de outro homem.
Matou-o e recambiou sua esposa para a casa do
pai, o Rei Creonte, declarando que a partir
daquele momento não mais seria sua esposa.
Relembrava, porém, como haviam sido felizes no
passado e sofreu amargamente com a separação.
Para
dissipar seu pesar, resolveu meter-se em novas
aventuras; e quando essa notícia s espalhou,
muitos se ofereceram para acompanha-lo.
Héracles se rejubilou particularmente de ver
entre eles seu caro amigo Telamon, cuja formosa
esposa tinha morrido, havia pouco, deixando-o
solitário e triste em sua Ilha de Salamina.
-
Temos de acertar contas com o Rei Laomedonte de
Tróia, disse Telamon, porque, quando lhe
salvamos a filha do monstro marinho que ia
devorá-la, se recusou a entregar a recompensa
de seis corcéis brancos que lhe havia
prometido.
- É
verdade, disse Héracles, e lembro-me bem lhe
haver dito que um dia, voltaria para buscá-los.
Esse dia, penso eu, já chegou.
Foi
assim que Héracles partiu, com seis naus, das
costas da Grécia e aportou secretamente às
plagas de Tróia. O Rei Laomedonte, já havia
muito, tinha esquecido esse caso do compromisso
rompido e da ameaça de Héracles; ou, se jamais
o recordava, era apenas para rir-se da loucura
de um homem que pensava impor sua, vontade ao
rico e poderoso Rei de Tróia.
No
próprio poder da cidade residia, entretanto,
sua fraqueza; como ninguém ousasse atacá-la,
longos anos de paz e segurança tornaram seus
habitantes desprecavidos. As portas da cidade
eram fechadas ao pôr do sol, é verdade, e
abertas somente de manhã; dia e noite, porém,
as sentinelas que guardavam as fortificações
pensavam mais em seu conforto e prazeres do que
em repelir um possível ataque de surpresa.
Então
Héracles, sagaz na guerra e acompanhado por
homens destemidos e aguerridos, encontrou na
tomada de Tróia um problema mais fácil de
resolver do que supunha o Rei Laomedonte.
Introduziu alguns homens na cidade, antes de se
fecharem as portas, e aproximou suas forças,
mercê da escuridão da noite, do sopé das
muralhas. Enquanto a cidade dormia e os guardas
cochilavam em seus postos, seus agentes,
introduzidos na cidade, abriram-lhe uma porta;
Héracles e seus homens precipitaram-se por ela
e, em curto espaço de tempo, tanto o palácio
de Laomedonte como todas as casas da cidade
ardiam em chamas. O próprio Laomedonte foi dos
primeiros a serem mortos; porém, Héracles
poupou a vida de seu filho e de sua filha.
-
Quando seu pai me recusou o prêmio dos seis
corcéis brancos,que me foram prometidos, disse
ele ao jovem príncipe, que se chamava Príamo,
você intercedeu por mim, dizendo que a
recompensa fora prometida e ganha honestamente,
e não devia, portanto, ser recusada. Por causa
disso, não somente pouparei sua vida, como
também o elevarei ao trono de Tróia.
- E o
que será de minha irmã, a Princesa Hesíone?
perguntou Príamo.
- Ela
me deve a vida; levá-la-ei comigo, assim como
os seis corcéis brancos, objeto desta disputa.
Foi
assim que Héracles e suas seis naus, carregadas
de despojos, ao zarparem da cidade de Tróia,
incendiada e derruída, levavam a bela Princesa
Hesíone. Héracles lembrou-se que Telamon, seu
amigo leal e companheiro de muitas aventuras,
tinha perdido sua jovem esposa e se tinha
apaixonado por Hesíone ao salvarem-na do
monstro. Entregou a Princesa a Telamon, que se
sentiu feliz em levá-la consigo para a Ilha de
Salamina.
Héracles,
por seu lado, ainda sofria com a infidelidade de
sua esposa Mégara. Pouco depois de sua
expedição contra Tróia, porém, encontrou uma
formosa princesa por quem se apaixonou,
perdidamente. Era filha do Rei Eneu de Calidon,
pai de Meleagro, um dos Argonautas, e do infeliz
jovem Rei Cízico, que Jasão matara em seu
caminho para a Cólquida. Seu nome era Dejanira.
Héracles e Meleagro eram velhos amigos, e
grande foi o pesar do primeiro ao saber que seu
companheiro de armas tinha morrido. Contava-se
estranha história a respeito da morte de
Meleagro. Diziam que quando nasceu, um adivinho
profetizou que só viveria, enquanto uma certa
acha de lenha em brasa não acabasse de queimar.
Sua mãe, imediatamente, tirou a acha do fogo,
mergulhou-a n'água, e trancou-a com seus mais
preciosos tesouros. Alguns anos mais tarde,
quando Meleagro já era moço, pouco depois do
seu regresso da busca do Velo de Ouro, seu pai,
o Rei Eneu, incorreu no desagrado da deusa
Ártemis por não lhe ter ofertado um
sacrifício que lhe era devido. Ela enviou um
enorme javali para destruir os rebanhos do rei,
tão feroz e possante que matava todos os
pastores que o atacavam.
Meleagro
mandou recado a seus amigos. Muitos dos jovens
que marearam com ele no Argo acorreram
prontamente a Calidon para matarem aquele
perigoso e terrível javali. Entre eles
achava-se uma bela jovem chamada Atalanta, cuja
perícia na caça igualava a de qualquer homem.
Meleagro apaixonou-se por Atalanta, e persuadiu
seus amigos que a deixassem participar da caça.
Ao
depararem com o javali, ficaram convencidos de
que a deusa o protegia, pois nada lhes saía
bem.
Os
caçadores erravam o alvo, ou então suas armas
se quebravam ou ricocheteavam contra o couro
espesso da fera brutal. Foi uma flecha do arco
de Atalanta que primeiro a feriu e enfraqueceu;
e, quando, por fim, conseguiram matá-la,
Meleagro presenteou com sua cabeça à bela
caçadora.
Porém,
dois tios de Meleagro, irmãos de sua mãe, não
aprovaram que o maior prêmio da caça fosse
brindado a uma mulher. Originou-se daí violenta
disputa, em conseqüência da qual Meleagro teve
o infortúnio de matar seus dois tios. Quando
soube disto, sua mãe ficou tão pesarosa e
enfurecida que, sem saber o que fazia, retirou a
acha carbonizada de seu cofre e deitou-a ao
fogo. À medida que ela queimava crepitando, seu
filho Meleagro, que ia para casa ao regressar da
caçada, se sentia gradativamente enfraquecer e
desmaiar. E, finalmente, quando a acha se
transformou inteiramente em cinzas, Meleagro
caiu morto.
Compreendendo,
então, a rainha, o que havia feito, ficou tão
desesperada que pôs termo à existência,
deixando o Rei Eneu solitário e acabrunhado. A
única felicidade que restava ao restava ao rei
era sua jovem e linda filha Dejanira. Tanto
receava ele, perdê-la que, quando ela foi
requestada em casamento, decretou que só daria
a sua mão ao homem que conseguisse vencer, pela
força e pela destreza, todos os outros na luta.
Muitos jovens demonstraram suas pretensões,
vindo alguns a morrer na competição, até que
um só remanesceu, o maior e o mais forte de
todos.
Apareceu,
então, Heracles, lançando seu desafio. Depois
de demorada e acérrima luta, conquistou a palma
da vitória e, como nenhum outro homem em toda a
Grécia o pudesse vencer, conquistou a mão da
bela Dejanira.
Por
muito tempo, viveram juntos, na maior
felicidade, parecendo que, afinal, arrefecera, o
ódio da deusa Hera. Esta, porém, estava apenas
à espera de uma oportunidade, com a paciência
própria dos deuses imortais, para quem os anos
terrenos não são mais que instantes da
eternidade. Um dia, viajando juntos, chegaram
Héracles e Dejanira a um rio transbordante,
cuja caudal era tão rápida e poderosa que nem
mesmo o próprio Héracles a podia atravessar
com sua esposa. Enquanto pensavam no que
deveriam fazer, apareceu um centauro chamado
Nesso, oferecendo-se para atravessar o rio a
nado com Dejanira às costas, ao passo que
Héracles seguiria sozinho, atrás. Aceitaram,
com prazer, a proposta do centauro.
Chegou
Dejanira sã e salva ao outro lado do rio,
enquanto Heracles permaneceu na ribanceira,
pronto para acudir no caso de Nesso ser
sobrepujado pela corrente. Quando o centauro
atingiu a outra margem, do rio, porém, em vez
de deixar Dejanira apear-se, partiu a galope
levando-a consigo.
Vendo
isto, Héracles armou o seu arco. Assestou uma
flecha com pontaria segura, ferindo Nesso no
braço. Este soltou um grito de dor, pois a seta
estava envenenada com a bílis da Hidra, que
queimava as suas veias como fogo. Percebendo que
ia morrer, despojou-se o centauro de sua túnica
envenenada, entregando-a a Dejanira.
-
Guarde esta túnica, disse num suspiro, e se seu
marido se apaixonar por outra mulher, dê-lhe a
túnica para que a vista. Esquecerá ele
imediatamente o outro amor, voltando aos seus
braços. Dito isto o centauro expirou.
Heracles
atravessou o rio a nado. Quando chegou ao pé de
sua mulher ela já havia enrolado a túnica do
centauro, escondendo-a debaixo de suas vestes.
Não comunicou a Héracles o que o centauro
Nesso lhe dissera antes de morrer.
Héraeles
e Dejanira tinham três filhos. Ao mais velho,
chamado Hilo, contaram que o pai de Euristeu
tinha usurpado o trono de Micenas que, por
direito, cabia a Anfitrião, pai de Héracles.
Prometera o rapazelho que, quando fosse homem,
exigiria a coroa - como de fato o fez mais
tarde. Passou-se perto de um século, porém,
antes que a raça de Héracles reinasse em
Micenas, tão acirrada foi a perseguição que
sofreu por parte da deusa Hera.
Quando
moço, Héracles se apaixonara profundamente por
uma bela princesa chamada Iole, filha do Rei
Eurito de Ecália. Era o rei forte e hábil
arqueiro, e só daria a mão de sua filha ao
homem que o conseguisse vencer no manejo do
arco. Conseguiu-o Héracles. Apesar disso,
recusou-se o rei a dar-lhe a mão de Iole.
Lembrando-se daquela antiga disputa, voltou
Héracles a Ecália, matando o rei e raptando a
bela Iole.
Isto
constituiu, contudo, lamentável erro de sua
parte. Ao sabê-lo, Dejanira imaginou que
Héracles não mais a amava, pretendendo
substituí-Ia por Iole. Assim foi que ao
preparar-se Héracles para ofertar um
sacrifício aos deuses e mandando-lhe pedir uma
outra túnica, entregou ela ao mensageiro o
manto do centauro Nesso e Héraeles, depois de
erigir o altar no monte Eta, revestiu-se com a
túnica escarlate.
Revelou-se
então a perfídia do centauro agonizante.
Contaminara, o veneno da seta que o tinha
matado, o seu sangue, passando em seguida para a
túnica e desta para o corpo de Héracles. Este,
compreendeu que ia morrer. Deu o grande arco,
que pertencera ao Rei Eurito, ao seu amigo
Filoctete, que o ajudara a construir a pira.
Deu-lhe, também, as setas envenenadas,
revelando-lhe seu poder mortal. Filoctete, que
fora companheiro de Héracles na expedição do
Argo, verteu lágrimas ao ver às portas da
morte aquele herói de coração tão
magnânimo. Deitou-se Héracles sobre a pira.
Filoctete pôs fogo às achas embebidas de
azeite e escutou silencioso a poderosa voz de
Héracles pedindo a seu pai, Zeus, que o
recebesse no convívio dos deuses.
Por
fim, sua voz emudeceu. Quando o fogo baixou e a
fumaça não formava mais que um tênue véu,
Filoctete soltou um grito de espanto. Nada
sobrava de Héracles. Nem ossos nem cinzas
remanesciam, e Filoctete ficou convencido,
então, de que Zeus ouvira as preces de seu
filho, na hora da morte, tirando-o do meio das
chamas e da fumaça para ir viver eternamente
entre os deuses imortais.
Assim
deixou a terra um grande e poderoso herói.
Quando Dejanira veio a saber do que tinha feito,
tão profundo foi o seu pesar que pôs termo à
própria existência. Dizem que, quando a deusa,
Hera viu Héracles entrar no Olimpo conduzido
por Zeus, se esqueceu de seu ódio renitente e,
relembrando somente a paciência e a coragem com
que ele suportara a sua inimizade, o recebeu com
um amável sorriso e deu-lhe as boas-vindas.
Contam, também, que Heracles desposou sua filha
Hebe, copeira dos deuses. Se for verdade, ele a
mereceu, pois era considerado pelos povos
antigos como o maior herói que jamais existira.
[transcrição
e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES
E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir
Índio da Costa Júnior