PÁGINA DE MITOLOGIA


GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

Editora Brasiliense
São Paulo
1960


Segunda Parte

Filhos de Reis





CAPITULO XIV

COMO A PRINCESA DE TRÓIA FOI LEVADA PARA ALÉM-MAR
E UM HERÓI RECEBEU SUA RECOMPENSA

Não obstante Héracles ver-se livre, agora, de sua sujeição a Euristeu, ainda o perseguia a inimizade da deusa Hera. Seu próximo golpe causou-lhe profundo sofrimento. Voltando a Tebas, depois de ter salvado Teseu e Pirítoo do Mundo Subterrâneo, Heracles surpreendeu sua esposa Mégara, nos braços de outro homem. Matou-o e recambiou sua esposa para a casa do pai, o Rei Creonte, declarando que a partir daquele momento não mais seria sua esposa. Relembrava, porém, como haviam sido felizes no passado e sofreu amargamente com a separação.

Para dissipar seu pesar, resolveu meter-se em novas aventuras; e quando essa notícia s espalhou, muitos se ofereceram para acompanha-lo. Héracles se rejubilou particularmente de ver entre eles seu caro amigo Telamon, cuja formosa esposa tinha morrido, havia pouco, deixando-o solitário e triste em sua Ilha de Salamina.

- Temos de acertar contas com o Rei Laomedonte de Tróia, disse Telamon, porque, quando lhe salvamos a filha do monstro marinho que ia devorá-la, se recusou a entregar a recompensa de seis corcéis brancos que lhe havia prometido.

- É verdade, disse Héracles, e lembro-me bem lhe haver dito que um dia, voltaria para buscá-los. Esse dia, penso eu, já chegou.

Foi assim que Héracles partiu, com seis naus, das costas da Grécia e aportou secretamente às plagas de Tróia. O Rei Laomedonte, já havia muito, tinha esquecido esse caso do compromisso rompido e da ameaça de Héracles; ou, se jamais o recordava, era apenas para rir-se da loucura de um homem que pensava impor sua, vontade ao rico e poderoso Rei de Tróia.

No próprio poder da cidade residia, entretanto, sua fraqueza; como ninguém ousasse atacá-la, longos anos de paz e segurança tornaram seus habitantes desprecavidos. As portas da cidade eram fechadas ao pôr do sol, é verdade, e abertas somente de manhã; dia e noite, porém, as sentinelas que guardavam as fortificações pensavam mais em seu conforto e prazeres do que em repelir um possível ataque de surpresa.

Então Héracles, sagaz na guerra e acompanhado por homens destemidos e aguerridos, encontrou na tomada de Tróia um problema mais fácil de resolver do que supunha o Rei Laomedonte. Introduziu alguns homens na cidade, antes de se fecharem as portas, e aproximou suas forças, mercê da escuridão da noite, do sopé das muralhas. Enquanto a cidade dormia e os guardas cochilavam em seus postos, seus agentes, introduzidos na cidade, abriram-lhe uma porta; Héracles e seus homens precipitaram-se por ela e, em curto espaço de tempo, tanto o palácio de Laomedonte como todas as casas da cidade ardiam em chamas. O próprio Laomedonte foi dos primeiros a serem mortos; porém, Héracles poupou a vida de seu filho e de sua filha.

- Quando seu pai me recusou o prêmio dos seis corcéis brancos,que me foram prometidos, disse ele ao jovem príncipe, que se chamava Príamo, você intercedeu por mim, dizendo que a recompensa fora prometida e ganha honestamente, e não devia, portanto, ser recusada. Por causa disso, não somente pouparei sua vida, como também o elevarei ao trono de Tróia.

- E o que será de minha irmã, a Princesa Hesíone? perguntou Príamo.

- Ela me deve a vida; levá-la-ei comigo, assim como os seis corcéis brancos, objeto desta disputa.

Foi assim que Héracles e suas seis naus, carregadas de despojos, ao zarparem da cidade de Tróia, incendiada e derruída, levavam a bela Princesa Hesíone. Héracles lembrou-se que Telamon, seu amigo leal e companheiro de muitas aventuras, tinha perdido sua jovem esposa e se tinha apaixonado por Hesíone ao salvarem-na do monstro. Entregou a Princesa a Telamon, que se sentiu feliz em levá-la consigo para a Ilha de Salamina.

Héracles, por seu lado, ainda sofria com a infidelidade de sua esposa Mégara. Pouco depois de sua expedição contra Tróia, porém, encontrou uma formosa princesa por quem se apaixonou, perdidamente. Era filha do Rei Eneu de Calidon, pai de Meleagro, um dos Argonautas, e do infeliz jovem Rei Cízico, que Jasão matara em seu caminho para a Cólquida. Seu nome era Dejanira. Héracles e Meleagro eram velhos amigos, e grande foi o pesar do primeiro ao saber que seu companheiro de armas tinha morrido. Contava-se estranha história a respeito da morte de Meleagro. Diziam que quando nasceu, um adivinho profetizou que só viveria, enquanto uma certa acha de lenha em brasa não acabasse de queimar.

Sua mãe, imediatamente, tirou a acha do fogo, mergulhou-a n'água, e trancou-a com seus mais preciosos tesouros. Alguns anos mais tarde, quando Meleagro já era moço, pouco depois do seu regresso da busca do Velo de Ouro, seu pai, o Rei Eneu, incorreu no desagrado da deusa Ártemis por não lhe ter ofertado um sacrifício que lhe era devido. Ela enviou um enorme javali para destruir os rebanhos do rei, tão feroz e possante que matava todos os pastores que o atacavam.

Meleagro mandou recado a seus amigos. Muitos dos jovens que marearam com ele no Argo acorreram prontamente a Calidon para matarem aquele perigoso e terrível javali. Entre eles achava-se uma bela jovem chamada Atalanta, cuja perícia na caça igualava a de qualquer homem. Meleagro apaixonou-se por Atalanta, e persuadiu seus amigos que a deixassem participar da caça.

Ao depararem com o javali, ficaram convencidos de que a deusa o protegia, pois nada lhes saía bem.

Os caçadores erravam o alvo, ou então suas armas se quebravam ou ricocheteavam contra o couro espesso da fera brutal. Foi uma flecha do arco de Atalanta que primeiro a feriu e enfraqueceu; e, quando, por fim, conseguiram matá-la, Meleagro presenteou com sua cabeça à bela caçadora.

Porém, dois tios de Meleagro, irmãos de sua mãe, não aprovaram que o maior prêmio da caça fosse brindado a uma mulher. Originou-se daí violenta disputa, em conseqüência da qual Meleagro teve o infortúnio de matar seus dois tios. Quando soube disto, sua mãe ficou tão pesarosa e enfurecida que, sem saber o que fazia, retirou a acha carbonizada de seu cofre e deitou-a ao fogo. À medida que ela queimava crepitando, seu filho Meleagro, que ia para casa ao regressar da caçada, se sentia gradativamente enfraquecer e desmaiar. E, finalmente, quando a acha se transformou inteiramente em cinzas, Meleagro caiu morto.

Compreendendo, então, a rainha, o que havia feito, ficou tão desesperada que pôs termo à existência, deixando o Rei Eneu solitário e acabrunhado. A única felicidade que restava ao restava ao rei era sua jovem e linda filha Dejanira. Tanto receava ele, perdê-la que, quando ela foi requestada em casamento, decretou que só daria a sua mão ao homem que conseguisse vencer, pela força e pela destreza, todos os outros na luta. Muitos jovens demonstraram suas pretensões, vindo alguns a morrer na competição, até que um só remanesceu, o maior e o mais forte de todos.

Apareceu, então, Heracles, lançando seu desafio. Depois de demorada e acérrima luta, conquistou a palma da vitória e, como nenhum outro homem em toda a Grécia o pudesse vencer, conquistou a mão da bela Dejanira.

Por muito tempo, viveram juntos, na maior felicidade, parecendo que, afinal, arrefecera, o ódio da deusa Hera. Esta, porém, estava apenas à espera de uma oportunidade, com a paciência própria dos deuses imortais, para quem os anos terrenos não são mais que instantes da eternidade. Um dia, viajando juntos, chegaram Héracles e Dejanira a um rio transbordante, cuja caudal era tão rápida e poderosa que nem mesmo o próprio Héracles a podia atravessar com sua esposa. Enquanto pensavam no que deveriam fazer, apareceu um centauro chamado Nesso, oferecendo-se para atravessar o rio a nado com Dejanira às costas, ao passo que Héracles seguiria sozinho, atrás. Aceitaram, com prazer, a proposta do centauro.

Chegou Dejanira sã e salva ao outro lado do rio, enquanto Heracles permaneceu na ribanceira, pronto para acudir no caso de Nesso ser sobrepujado pela corrente. Quando o centauro atingiu a outra margem, do rio, porém, em vez de deixar Dejanira apear-se, partiu a galope levando-a consigo.

Vendo isto, Héracles armou o seu arco. Assestou uma flecha com pontaria segura, ferindo Nesso no braço. Este soltou um grito de dor, pois a seta estava envenenada com a bílis da Hidra, que queimava as suas veias como fogo. Percebendo que ia morrer, despojou-se o centauro de sua túnica envenenada, entregando-a a Dejanira.

- Guarde esta túnica, disse num suspiro, e se seu marido se apaixonar por outra mulher, dê-lhe a túnica para que a vista. Esquecerá ele imediatamente o outro amor, voltando aos seus braços. Dito isto o centauro expirou.

Heracles atravessou o rio a nado. Quando chegou ao pé de sua mulher ela já havia enrolado a túnica do centauro, escondendo-a debaixo de suas vestes. Não comunicou a Héracles o que o centauro Nesso lhe dissera antes de morrer.

Héraeles e Dejanira tinham três filhos. Ao mais velho, chamado Hilo, contaram que o pai de Euristeu tinha usurpado o trono de Micenas que, por direito, cabia a Anfitrião, pai de Héracles. Prometera o rapazelho que, quando fosse homem, exigiria a coroa - como de fato o fez mais tarde. Passou-se perto de um século, porém, antes que a raça de Héracles reinasse em Micenas, tão acirrada foi a perseguição que sofreu por parte da deusa Hera.

Quando moço, Héracles se apaixonara profundamente por uma bela princesa chamada Iole, filha do Rei Eurito de Ecália. Era o rei forte e hábil arqueiro, e só daria a mão de sua filha ao homem que o conseguisse vencer no manejo do arco. Conseguiu-o Héracles. Apesar disso, recusou-se o rei a dar-lhe a mão de Iole. Lembrando-se daquela antiga disputa, voltou Héracles a Ecália, matando o rei e raptando a bela Iole.

Isto constituiu, contudo, lamentável erro de sua parte. Ao sabê-lo, Dejanira imaginou que Héracles não mais a amava, pretendendo substituí-Ia por Iole. Assim foi que ao preparar-se Héracles para ofertar um sacrifício aos deuses e mandando-lhe pedir uma outra túnica, entregou ela ao mensageiro o manto do centauro Nesso e Héraeles, depois de erigir o altar no monte Eta, revestiu-se com a túnica escarlate.

Revelou-se então a perfídia do centauro agonizante. Contaminara, o veneno da seta que o tinha matado, o seu sangue, passando em seguida para a túnica e desta para o corpo de Héracles. Este, compreendeu que ia morrer. Deu o grande arco, que pertencera ao Rei Eurito, ao seu amigo Filoctete, que o ajudara a construir a pira. Deu-lhe, também, as setas envenenadas, revelando-lhe seu poder mortal. Filoctete, que fora companheiro de Héracles na expedição do Argo, verteu lágrimas ao ver às portas da morte aquele herói de coração tão magnânimo. Deitou-se Héracles sobre a pira. Filoctete pôs fogo às achas embebidas de azeite e escutou silencioso a poderosa voz de Héracles pedindo a seu pai, Zeus, que o recebesse no convívio dos deuses.

Por fim, sua voz emudeceu. Quando o fogo baixou e a fumaça não formava mais que um tênue véu, Filoctete soltou um grito de espanto. Nada sobrava de Héracles. Nem ossos nem cinzas remanesciam, e Filoctete ficou convencido, então, de que Zeus ouvira as preces de seu filho, na hora da morte, tirando-o do meio das chamas e da fumaça para ir viver eternamente entre os deuses imortais.

Assim deixou a terra um grande e poderoso herói. Quando Dejanira veio a saber do que tinha feito, tão profundo foi o seu pesar que pôs termo à própria existência. Dizem que, quando a deusa, Hera viu Héracles entrar no Olimpo conduzido por Zeus, se esqueceu de seu ódio renitente e, relembrando somente a paciência e a coragem com que ele suportara a sua inimizade, o recebeu com um amável sorriso e deu-lhe as boas-vindas. Contam, também, que Heracles desposou sua filha Hebe, copeira dos deuses. Se for verdade, ele a mereceu, pois era considerado pelos povos antigos como o maior herói que jamais existira.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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