PÁGINA DE MITOLOGIA


GEORGE BAKER


 

Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega



Editora Brasiliense
São Paulo
1960



Segunda Parte

Filhos de Reis





CAPITULO XIII

AS FILHAS DO CISNE; E A RAINHA DO MUNDO SUBTERRÂNEO


 

Depois da morte de Fedra, sentiu Teseu aprofundar-se ainda mais a amizade que o ligava a Pirítoo, Rei dos lápitas, cuja esposa, também falecera. Em palestra no palácio de Atenas, sobre as falecidas

esposas, e a solidão em que se encontravam, disse Teseu:

- Homens como nós, Pirítoo, não deveriam esposar mulheres mortais, mas, de preferência, filhas de deuses.

- Isto é muito verdadeiro, concordou Pirítoo, e estou pronto a tentar a sorte.

- Ouvi dizer, prosseguiu Teseu, que na cidade de Esparta, no país da Lacedemônia, vive uma rainha chamada Leda, mulher do Rei Tíndaro, de tão grande beleza que foi cortejada por Zeus. Todos os dias ia banhar-se no rio, onde Zeus, a fim de se acercar dela mais facilmente, tomou a aparência de um formoso cisne, ao qual Leda se afeiçoou. Um dia, ao acariciar suas penas, ele transformou-se num belo homem, que manifestou a Leda seu amor com tanta veemência que ela veio a ter dele dois filhos gêmeos, chamados Castor e Pólux e duas filhas, Clitemnestra e Helena. Dizem que as filhas, apesar de crianças, são de beleza incomparável e quando crescerem serão, sem dúvida, cortejadas por todos os jovens príncipes da Grécia. Ora, penso que se eu raptar uma dessas meninas, poderei, secretamente, entregá-la aos cuidados de minha mãe até ela atingir a idade de ser minha esposa. Assim, casar-me-ei com a filha do maior dos deuses do Olimpo.

- Quanto a mim, replicou Pirítoo, ouvi muito falar da grande formosura de Perséfone (*Proserpina*), que o Deus Hades levou para ser sua rainha no Mundo Subterrâneo, onde reina sobre as almas dos mortos. Para provar meu valor, estou disposto a ir ao Império das Sombras e raptá-la, para fazer dela minha esposa.

Isto constituiria empresa muito temerária, pois que Hades, logo abaixo de Zeus, era o mais poderoso dos deuses, e a própria Perséfone era filha da deusa Deméter (*Ceres*) e de Zeus, seu irmão. Quando a donzela colhia flores apareceu Hades, subitamente, num carro puxado por corcéis negros como carvão, levando-a para o Mundo Subterrâneo. Queixou-se sua mãe amarguradamente a Zeus, e este ordenou a seu irmão que restituísse Perséfone ao reino dos vivos; ela, porém, já havia comido do fruto da romãzeira e achava-se, por isso, ligada ao Mundo das Trevas por laços inquebrantáveis. Ficou então determinado que durante seis meses do ano, na primavera e no verão, viveria ela com sua mãe sobre a terra, passando o outono e o inverno ao lado de seu marido, como Rainha do Mundo Subterrâneo.

O que não passara, de início, de mera conversa entre Teseu e Pirítoo, empolgou pouco a pouco suas imaginações, prometendo eles se ajudarem mutuamente para raptar duas filhas dos deuses e fazer delas suas esposas. Partiram primeiro para Esparta, onde o Rei Tíndaro reinava com sua bela esposa Leda; quando viram as filhas de Zeus e Leda, acharam que sua fama ainda ficava aquém da realidade.

Esconderam-se, permanecendo de atalaia até o dia de certo festival, em que as meninas participavam de um Bailado das Donzelas; então, repentinamente, precipitaram-se sobre a menina Helena e raptaram-na antes que qualquer pessoa tivesse tempo de interferir.

Levaram-na para Trezena, onde Etra ainda vivia com seu pai Piteu e deixaram-na lá, ordenando Teseu, à sua mãe, que dispensasse à menina educação condigna de uma princesa, destinada a ser rainha de Atenas. Partiram, depois, a caminho do Mundo Subterrâneo e de sua formosa rainha, Perséfone. A viagem era longa, pois a sombria caverna que conduzia ao reino de Hades se situava no extremo sul da Grécia.

Desassombradamente penetraram na entrada tenebrosa do Mundo Subterrâneo, descendo por íngreme senda. Depararam, enfim, com o portal sombrio, cujo guarda era o cão de três cabeças chamado Cérbero, ali postado não para impedir a entrada dos espíritos dos mortos, mas, sim, a sua saída para todo o sempre. Ao verem Teseu e Piritoo, as três cabeças puseram-se a uivar, pois sabia o mastim que eles não eram espíritos, mas homens vivos, cuja presença não se justificava, naquele lugar.

Imediatamente os intrusos foram agarrados e arrastados à presença de Hades, que se achava sentado em seu trono de tétrico esplendor, tendo ao lado a deslumbrante beleza de Perséfone, que rebrilhava como viva chama. Os três juízes dos mortos - Minos, Radamanto e Éaco - leram em seus pensamentos o que pretendiam fazer, comunicando-o a Hades. Foi terrível sua cólera.

- Você, Teseu, será preso para sempre a uma rocha, da qual não se poderá separar sem perder a pele, disse ele. Porém você, que veio aqui para roubar minha bela esposa, você Pirítoo, sofrerá o mesmo castigo que sofreu seu pai.

Era terrível esta sentença; pois Ixião, pai de Pirítoo, convidado por Zeus a comer na mesa dos deuses, tinha retribuído sua hospitalidade fazendo a corte a Hera, rainha do Olimpo. Quando Zeus veio a saber disto ficou tão encolerizado que ordenou a Hermes que levasse Ixião para o Reino dos Mortos e o prendesse a uma roda de fogo, na qual devia girar em tormento eterno.

Assim é que Teseu foi preso a uma rocha e Pirítoo a uma roda de fogo; e aprenderam prontamente a reconhecer a loucura de querer raptar as filhas dos deuses para fazer delas suas esposas.

Entrementes, sobre a terra, os irmãos de Helena de Esparta descobriram onde se escondia sua irmã. Apresentaram-se a ela, de supetão, e levaram-na para casa, juntamente com Etra, mãe de Teseu, que eles obrigaram a servir de aia à jovem princesa.

Durante muito tempo o povo de Atenas esperou pelo regresso de seu rei. Não sabiam onde estava, pois que nem Teseu nem Pirítoo revelaram os seus planos a quem quer que fosse. Mais tarde, os atenienses começaram a perder a esperança de jamais rever o seu rei e entregaram o governo da cidade a um homem chamado Menesteu, que se tornara popular pela sua sabedoria e moderação. Achava-se Menesteu no palácio de Atenas quando Héracles, de volta de longa viagem que empreendera a mandado de Euristeu, se apresentou para visitar seu velho amigo Teseu, de quem, havia muito, não tinha notícias.

Ao voltar de sua expedição contra as Amazonas, na qual ele e Telamou tinham salvado a Princesa Hesíone de Tróia das garras do monstro marinho, Héracles tinha sido enviado à Ilha Vermelha de Gades, muito longe para, as bandas do ocidente, onde vivia um rei chamado Gerião, possuidor de magnífica boiada, que Euristeu ordenou a Héracles de trazer para a Grécia.

Era esta décima tarefa, a mais difícil de todas, por ser Gerião um monstro de três corpos e três cabeças, que possuía um mastim de duas cabeças chamado Ortos, guardando sua boiada e seu rebanho de ovelhas. Além disso, nessa viagem, Héracles devia passar por terras selváticas e perigosas, nas quais teve muitas peripécias; conseguiu, porém, chegar à Ilha Vermelha, onde matou Gerião e seu mastim, trazendo para Micenas seus rebanhos de ovelhas e suas ricas manadas de gado grosso.

Então Euristeu mandou-o de volta a regiões quase tão remotas quanto aquelas de onde regressava, para que se apoderasse do pomo de ouro do Jardim das Hespérides. Achava-se este jardim encantado no pais da Mauritânia cujo rei, Atlas, tinha sido transformado em montanha, ao mostrar-lhe Perseu a cabeça da Górgona. Não se referia a Perseu, senão a Héracles, a antiga profecia segundo a qual um filho de Zeus roubaria um dia os mais belos frutos daquele jardim. Eram maçãs de ouro, algumas das quais tinham sido presenteadas por Hera a Zeus, quando se casaram; cresciam numa árvore guardada por três belas ninfas chamadas Hespérides, ou Filhas de Vésper, a Estrêla da Tarde, e por um terrível dragão que por ela velava noite e dia. Conquistou Héracles o favor das belas ninfas. Estas enfeitiçaram o dragão com suas canções, adormecendo-o o tempo suficiente para que Héracles colhesse os três pomos de ouro e fugisse, desapercebido. Com os três pomos de ouro voltava ele para Euristeu, quando visitou Atenas, vindo a saber do desaparecimento de Teseu e Pirítoo.

Jurou Héracles que tão logo se libertasse de Euristeu, partiria à procura de seus amigos; iria, porém, encontrá-los mais cedo do que esperava, em condições nunca por ele sonhadas.

Acontece que Euristeu, sabendo que Héracles só ficaria mais um ano sob suas ordens, estava desesperado de medo e, para seu décimo segundo trabalho, ordenou-lhe que descesse ao reino de Hades e trouxesse de volta o cão tricéfalo, Cérbero, que guardava as portas do inferno. Isto, tinha certeza, estava acima de suas forças; e o próprio Héracles duvidava que jamais conseguisse realizar essa temerária e perigosa façanha. Ofertou grandes sacrifícios aos deuses, pedindo sua proteção; suas preces foram ouvidas. A deusa Atena, e Hermes, mensageiro dos deuses, apresentaram-se a ele, acompanhando-o até à sombria caverna, pelo túnel longo e escuro que levava às portas do Mundo Subterrâneo. Ao percebê-los, as três cabeças de Cérbero puseram-se a uivar de maneira horrível, o que chamou a atenção de Hades; mas ao ver um deus e uma deusa em companhia de Héracles, perguntou~lhes o que procuravam.

- Meu senhor Euristeu ordenou-me de levar à terra o cão tricéfalo Cérbero que guarda esta porta, disse Héracles, e é pela vontade de Zeus, senhor da terra e do céu, que eu lhe obedeço. Deixe-me levar seu cão de guarda para poder cumprir as ordens recebidas. Prometo-lhe que Cérbero nada sofrerá e lhe será restituído, são e salvo.

Hades fechou a carranca e respondeu:

- Se você for capaz de carregar Cérbero nos ombros, sem feri-lo, então poderá levá-lo ao seu senhor Euristeu; mas, prometa trazê-lo de volta, ileso.

Então Héracles aproximou-se de Cérbero e, apesar de suas três enormes bocarras guarnecidas de dentes afiados e cruéis, ergueu o animal aos ombros e subiu pelo caminho que levava da caverna tenebrosa à luz do dia. O caminho era longo, áspero e íngreme, e pesada a sua carga; as três cabeças rosnavam e mordiam, durante todo o trajeto, porém Héracles, concentrando-se no pensamento de próxima libertação, não lhes dava atenção. Afinal chegou a Micenas. Euristeu ficou tão apavorado quando soube que Héracles trazia nos ombros o terrível cão tricéfalo, que se escondeu debaixo da cuba de bronze, mandando-lhe uma mensagem na qual lhe ordenava que se afastasse de Micenas para todo o sempre.

Então, de coração leve, dirigiu-se Héracles para a caverna. Desceu pelo longo túnel e depositou Cérbero às portas do Inferno. Quando se preparava para voltar à terra, ouviu uma voz que o chamava e deparou com seu amigo Teseu, acorrentado a enorme bloco de granito.

- É você Teseu, como é que veio parar aqui?

Teseu contou-lhe sua história e Héracles franziu o sobrolho.

- Em breve o libertarei, disse ele.

Porém aquela não era uma sujeição vulgar. Apesar de Héracles prontamente soltar as correntes, Teseu continuava preso à rocha, porque a pele de suas costas se lhe tinha incorporado de maneira que não podia mover-se. Héracles, entretanto, não se conformava em abandonar seu amigo. Puxou, fez força, apesar dos gemidos e gritos de dor de Teseu ao sentir sua pele dilacerar-se. Mas afinal ficou livre. Sentou-se para descansar, enquanto Héracles partiu à procura da roda de fogo a que Pirítoo estava preso. Encontrou-o afinal e libertou seu amigo; e os dois cativos alegraram-se tanto de recuperar a liberdade que quase esqueceram seus sofrimentos.

Ao se aproximarem de Cérbero, de passagem para o túnel, temeram que o monstro se pusesse a uivar de tal maneira que traísse sua presença; porém, seja, por ter aprendido a temer a Héracles ou por se lhe haver tornado familiar, deixou-o passar sem gritos de alerta; pouco tempo depois, os três heróis voltavam à luz do dia, gratos por ainda estarem vivos, após a aventura da qual saíram incólumes.
 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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