Depois
da morte de Fedra, sentiu Teseu aprofundar-se
ainda mais a amizade que o ligava a Pirítoo, Rei
dos lápitas, cuja esposa, também falecera. Em
palestra no palácio de Atenas, sobre as
falecidas
esposas,
e a solidão em que se encontravam, disse Teseu:
-
Homens como nós, Pirítoo, não deveriam
esposar mulheres mortais, mas, de preferência,
filhas de deuses.
- Isto
é muito verdadeiro, concordou Pirítoo, e estou
pronto a tentar a sorte.
- Ouvi
dizer, prosseguiu Teseu, que na cidade de
Esparta, no país da Lacedemônia, vive uma
rainha chamada Leda, mulher do Rei Tíndaro, de
tão grande beleza que foi cortejada por Zeus.
Todos os dias ia banhar-se no rio, onde Zeus, a
fim de se acercar dela mais facilmente, tomou a
aparência de um formoso cisne, ao qual Leda se
afeiçoou. Um dia, ao acariciar suas penas, ele
transformou-se num belo homem, que manifestou a
Leda seu amor com tanta veemência que ela veio
a ter dele dois filhos gêmeos, chamados Castor
e Pólux e duas filhas, Clitemnestra e Helena.
Dizem que as filhas, apesar de crianças, são
de beleza incomparável e quando crescerem
serão, sem dúvida, cortejadas por todos os
jovens príncipes da Grécia. Ora, penso que se
eu raptar uma dessas meninas, poderei,
secretamente, entregá-la aos cuidados de minha
mãe até ela atingir a idade de ser minha
esposa. Assim, casar-me-ei com a filha do maior
dos deuses do Olimpo.
-
Quanto a mim, replicou Pirítoo, ouvi muito
falar da grande formosura de Perséfone
(*Proserpina*), que o Deus Hades levou para ser
sua rainha no Mundo Subterrâneo, onde reina
sobre as almas dos mortos. Para provar meu
valor, estou disposto a ir ao Império das
Sombras e raptá-la, para fazer dela minha
esposa.
Isto
constituiria empresa muito temerária, pois que
Hades, logo abaixo de Zeus, era o mais poderoso
dos deuses, e a própria Perséfone era filha da
deusa Deméter (*Ceres*) e de Zeus, seu irmão.
Quando a donzela colhia flores apareceu Hades,
subitamente, num carro puxado por corcéis
negros como carvão, levando-a para o Mundo
Subterrâneo. Queixou-se sua mãe
amarguradamente a Zeus, e este ordenou a seu
irmão que restituísse Perséfone ao reino dos
vivos; ela, porém, já havia comido do fruto da
romãzeira e achava-se, por isso, ligada ao
Mundo das Trevas por laços inquebrantáveis.
Ficou então determinado que durante seis meses
do ano, na primavera e no verão, viveria ela
com sua mãe sobre a terra, passando o outono e
o inverno ao lado de seu marido, como Rainha do
Mundo Subterrâneo.
O que
não passara, de início, de mera conversa entre
Teseu e Pirítoo, empolgou pouco a pouco suas
imaginações, prometendo eles se ajudarem
mutuamente para raptar duas filhas dos deuses e
fazer delas suas esposas. Partiram primeiro para
Esparta, onde o Rei Tíndaro reinava com sua
bela esposa Leda; quando viram as filhas de Zeus
e Leda, acharam que sua fama ainda ficava aquém
da realidade.
Esconderam-se,
permanecendo de atalaia até o dia de certo
festival, em que as meninas participavam de um
Bailado das Donzelas; então, repentinamente,
precipitaram-se sobre a menina Helena e
raptaram-na antes que qualquer pessoa tivesse
tempo de interferir.
Levaram-na
para Trezena, onde Etra ainda vivia com seu pai
Piteu e deixaram-na lá, ordenando Teseu, à sua
mãe, que dispensasse à menina educação
condigna de uma princesa, destinada a ser rainha
de Atenas. Partiram, depois, a caminho do Mundo
Subterrâneo e de sua formosa rainha,
Perséfone. A viagem era longa, pois a sombria
caverna que conduzia ao reino de Hades se
situava no extremo sul da Grécia.
Desassombradamente
penetraram na entrada tenebrosa do Mundo
Subterrâneo, descendo por íngreme senda.
Depararam, enfim, com o portal sombrio, cujo
guarda era o cão de três cabeças chamado
Cérbero, ali postado não para impedir a
entrada dos espíritos dos mortos, mas, sim, a
sua saída para todo o sempre. Ao verem Teseu e
Piritoo, as três cabeças puseram-se a uivar,
pois sabia o mastim que eles não eram
espíritos, mas homens vivos, cuja presença
não se justificava, naquele lugar.
Imediatamente
os intrusos foram agarrados e arrastados à
presença de Hades, que se achava sentado em seu
trono de tétrico esplendor, tendo ao lado a
deslumbrante beleza de Perséfone, que
rebrilhava como viva chama. Os três juízes dos
mortos - Minos, Radamanto e Éaco - leram em
seus pensamentos o que pretendiam fazer,
comunicando-o a Hades. Foi terrível sua
cólera.
-
Você, Teseu, será preso para sempre a uma
rocha, da qual não se poderá separar sem
perder a pele, disse ele. Porém você, que veio
aqui para roubar minha bela esposa, você
Pirítoo, sofrerá o mesmo castigo que sofreu
seu pai.
Era
terrível esta sentença; pois Ixião, pai de
Pirítoo, convidado por Zeus a comer na mesa dos
deuses, tinha retribuído sua hospitalidade
fazendo a corte a Hera, rainha do Olimpo. Quando
Zeus veio a saber disto ficou tão encolerizado
que ordenou a Hermes que levasse Ixião para o
Reino dos Mortos e o prendesse a uma roda de
fogo, na qual devia girar em tormento eterno.
Assim
é que Teseu foi preso a uma rocha e Pirítoo a
uma roda de fogo; e aprenderam prontamente a
reconhecer a loucura de querer raptar as filhas
dos deuses para fazer delas suas esposas.
Entrementes,
sobre a terra, os irmãos de Helena de Esparta
descobriram onde se escondia sua irmã.
Apresentaram-se a ela, de supetão, e levaram-na
para casa, juntamente com Etra, mãe de Teseu,
que eles obrigaram a servir de aia à jovem
princesa.
Durante
muito tempo o povo de Atenas esperou pelo
regresso de seu rei. Não sabiam onde estava,
pois que nem Teseu nem Pirítoo revelaram os
seus planos a quem quer que fosse. Mais tarde,
os atenienses começaram a perder a esperança
de jamais rever o seu rei e entregaram o governo
da cidade a um homem chamado Menesteu, que se
tornara popular pela sua sabedoria e
moderação. Achava-se Menesteu no palácio de
Atenas quando Héracles, de volta de longa
viagem que empreendera a mandado de Euristeu, se
apresentou para visitar seu velho amigo Teseu,
de quem, havia muito, não tinha notícias.
Ao
voltar de sua expedição contra as Amazonas, na
qual ele e Telamou tinham salvado a Princesa
Hesíone de Tróia das garras do monstro
marinho, Héracles tinha sido enviado à Ilha
Vermelha de Gades, muito longe para, as bandas
do ocidente, onde vivia um rei chamado Gerião,
possuidor de magnífica boiada, que Euristeu
ordenou a Héracles de trazer para a Grécia.
Era
esta décima tarefa, a mais difícil de todas,
por ser Gerião um monstro de três corpos e
três cabeças, que possuía um mastim de duas
cabeças chamado Ortos, guardando sua boiada e
seu rebanho de ovelhas. Além disso, nessa
viagem, Héracles devia passar por terras
selváticas e perigosas, nas quais teve muitas
peripécias; conseguiu, porém, chegar à Ilha
Vermelha, onde matou Gerião e seu mastim,
trazendo para Micenas seus rebanhos de ovelhas e
suas ricas manadas de gado grosso.
Então
Euristeu mandou-o de volta a regiões quase tão
remotas quanto aquelas de onde regressava, para
que se apoderasse do pomo de ouro do Jardim das
Hespérides. Achava-se este jardim encantado no
pais da Mauritânia cujo rei, Atlas, tinha sido
transformado em montanha, ao mostrar-lhe Perseu
a cabeça da Górgona. Não se referia a Perseu,
senão a Héracles, a antiga profecia segundo a
qual um filho de Zeus roubaria um dia os mais
belos frutos daquele jardim. Eram maçãs de
ouro, algumas das quais tinham sido presenteadas
por Hera a Zeus, quando se casaram; cresciam
numa árvore guardada por três belas ninfas
chamadas Hespérides, ou Filhas de Vésper, a
Estrêla da Tarde, e por um terrível dragão
que por ela velava noite e dia. Conquistou
Héracles o favor das belas ninfas. Estas
enfeitiçaram o dragão com suas canções,
adormecendo-o o tempo suficiente para que
Héracles colhesse os três pomos de ouro e
fugisse, desapercebido. Com os três pomos de
ouro voltava ele para Euristeu, quando visitou
Atenas, vindo a saber do desaparecimento de
Teseu e Pirítoo.
Jurou
Héracles que tão logo se libertasse de
Euristeu, partiria à procura de seus amigos;
iria, porém, encontrá-los mais cedo do que
esperava, em condições nunca por ele sonhadas.
Acontece
que Euristeu, sabendo que Héracles só ficaria
mais um ano sob suas ordens, estava desesperado
de medo e, para seu décimo segundo trabalho,
ordenou-lhe que descesse ao reino de Hades e
trouxesse de volta o cão tricéfalo, Cérbero,
que guardava as portas do inferno. Isto, tinha
certeza, estava acima de suas forças; e o
próprio Héracles duvidava que jamais
conseguisse realizar essa temerária e perigosa
façanha. Ofertou grandes sacrifícios aos
deuses, pedindo sua proteção; suas preces
foram ouvidas. A deusa Atena, e Hermes,
mensageiro dos deuses, apresentaram-se a ele,
acompanhando-o até à sombria caverna, pelo
túnel longo e escuro que levava às portas do
Mundo Subterrâneo. Ao percebê-los, as três
cabeças de Cérbero puseram-se a uivar de
maneira horrível, o que chamou a atenção de
Hades; mas ao ver um deus e uma deusa em
companhia de Héracles, perguntou~lhes o que
procuravam.
- Meu
senhor Euristeu ordenou-me de levar à terra o
cão tricéfalo Cérbero que guarda esta porta,
disse Héracles, e é pela vontade de Zeus,
senhor da terra e do céu, que eu lhe obedeço.
Deixe-me levar seu cão de guarda para poder
cumprir as ordens recebidas. Prometo-lhe que
Cérbero nada sofrerá e lhe será restituído,
são e salvo.
Hades
fechou a carranca e respondeu:
- Se
você for capaz de carregar Cérbero nos ombros,
sem feri-lo, então poderá levá-lo ao seu
senhor Euristeu; mas, prometa trazê-lo de
volta, ileso.
Então
Héracles aproximou-se de Cérbero e, apesar de
suas três enormes bocarras guarnecidas de
dentes afiados e cruéis, ergueu o animal aos
ombros e subiu pelo caminho que levava da
caverna tenebrosa à luz do dia. O caminho era
longo, áspero e íngreme, e pesada a sua carga;
as três cabeças rosnavam e mordiam, durante
todo o trajeto, porém Héracles,
concentrando-se no pensamento de próxima
libertação, não lhes dava atenção. Afinal
chegou a Micenas. Euristeu ficou tão apavorado
quando soube que Héracles trazia nos ombros o
terrível cão tricéfalo, que se escondeu
debaixo da cuba de bronze, mandando-lhe uma
mensagem na qual lhe ordenava que se afastasse
de Micenas para todo o sempre.
Então,
de coração leve, dirigiu-se Héracles para a
caverna. Desceu pelo longo túnel e depositou
Cérbero às portas do Inferno. Quando se
preparava para voltar à terra, ouviu uma voz
que o chamava e deparou com seu amigo Teseu,
acorrentado a enorme bloco de granito.
- É
você Teseu, como é que veio parar aqui?
Teseu
contou-lhe sua história e Héracles franziu o
sobrolho.
- Em
breve o libertarei, disse ele.
Porém
aquela não era uma sujeição vulgar. Apesar de
Héracles prontamente soltar as correntes, Teseu
continuava preso à rocha, porque a pele de suas
costas se lhe tinha incorporado de maneira que
não podia mover-se. Héracles, entretanto, não
se conformava em abandonar seu amigo. Puxou, fez
força, apesar dos gemidos e gritos de dor de
Teseu ao sentir sua pele dilacerar-se. Mas
afinal ficou livre. Sentou-se para descansar,
enquanto Héracles partiu à procura da roda de
fogo a que Pirítoo estava preso. Encontrou-o
afinal e libertou seu amigo; e os dois cativos
alegraram-se tanto de recuperar a liberdade que
quase esqueceram seus sofrimentos.
Ao se
aproximarem de Cérbero, de passagem para o
túnel, temeram que o monstro se pusesse a uivar
de tal maneira que traísse sua presença;
porém, seja, por ter aprendido a temer a
Héracles ou por se lhe haver tornado familiar,
deixou-o passar sem gritos de alerta; pouco
tempo depois, os três heróis voltavam à luz
do dia, gratos por ainda estarem vivos, após a
aventura da qual saíram incólumes.
[transcrição
e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES
E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir
Índio da Costa Júnior