PÁGINA DE MITOLOGIA

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega


 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960


Segunda Parte

Filhos de Reis





CAPITULO XII

VITÓRIA, SALVAMENTO E PROMESSA FRUSTRADA.
O FILHO DA AMAZONA


 

Quando Héracles partiu da Grécia à procura do país das Amazonas, se viu retardado por temporais e ventos contrários, de maneira que muito tempo se passou antes que sua nau penetrasse no Mar Negro, transpondo o Helesponto. Mas, por fim, chegaram ao país agreste e hostil onde viviam as Amazonas.

Essas mulheres-guerreiras detestavam os homens, e não conheciam maior felicidade que a de combatê-los. Héracles, entretanto, era de estatura tão avantajada e de tão insinuante aparência, que se distinguia de todos os homens que elas até então tinham visto, conseguindo, por essa razão, dominar-lhes a desconfiança e a hostilidade. Quando a Rainha Hipólita soube do objetivo da missão que lhe fora confiada por Euristeu, concordou prontamente em entregar-lhe o cinturão, para que o levasse para Micenas.

A deusa Hera interessava-se vivamente pelos trabalhos impostos a Héracles, e se sentia ainda mais desapontada que o próprio Euristeu com seus contínuos triunfos. Decidiu, pois, indispor as Amazonas contra ele. Tomando as aparências de uma das mulheres-guerreiras, insinuou-se entre elas, propalando o boato de que Héracles tentara arrebatar à força o cinturão da Rainha, ameaçando matá-la ou raptá-la caso continuasse a resistir.

No mesmo instante, as Amazonas estavam em pé de guerra, e atacaram Héracles e seus companheiros. Supondo Héracles que Hipólita quisera enganá-lo, com falsas promessas para ganhar tempo, tomou-a nos braços e, junto com seus amigos, abriu caminho para a nau, levantando vela com a rainha a bordo.

Durante a longa viagem de retorno, tinham freqüentemente que descer à terra, para caçar animais selvagens a fim de se alimentarem e de encherem seus barris de água. Ao desembarcarem nas proximidades de Tróia, vieram a saber que ali reinava grande tristeza, porque a formosa Princesa Hesíone ia ser sacrificada a um monstro marinho. Apressaram-se, Héracles e Telamon, em ir até à cidade onde pediram audiência com o soberano, cujo nome era Laomedonte.

O Rei Laomedonte era neto do Rei Tros, com quem começou nossa narração. Sucedera a seu pai, o Rei Ilo, alguns anos antes, e, de sua esposa Estrimno, tivera um filho chamado Príamo e uma filha, Hesíone. O deus marinho Posseidon, e Apolo, deus da juventude, da música e da poesia, tinham caído em desagrado e sido condenados a ajudarem Laomedonte a reconstruir e fortificar as muralhas de Tróia, pena esta que eles cumpriram. Porém, para punir Laomedonte por recusar-lhes a recompensa prometida, enviaram um monstro marinho para encher de terror e consternação o coração do povo. Dissera um adivinho que o monstro só poderia ser afastado mediante o sacrifício de uma donzela, que deveria ser acorrentada a uma rocha onde seria devorada pelo monstro. Durante sete anos este sacrifício fora oferecido, porém, agora, a escolha recaíra sobre a filha do próprio Rei, e um grande prêmio caberia ao homem que a conseguisse salvar.

- Não temo esse monstro, declarou Héracles, e me comprometo a matá-lo e a salvar a princesa.

- Se o fizer, disse-lhe o Rei Laomedonte, dar-lhe-ei de presente seis belos cavalos brancos, descendentes daqueles que o grande deus Zeus brindou ao meu avô o Rei Tros, quando raptou Ganimedes para fazer dele seu copeiro no Olimpo.

Héracles sabia da guerra, na qual o Rei Tros tinha matado o pai de Pélops.

- Então o Rei Tros ficou sabendo, afinal, que seu filho não tinha sido raptado pelos frígios, disse ele.

- Sim, aquiesceu o Rei Laomedonte, porém, naquela altura, o Rei Tântalo já tinha morrido e Pélops já se havia expatriado.

Não havia mais tempo para falar daquele assunto, pois Hesíone ia ser acorrentada ao rochedo, e os sacerdotes já estavam à sua espera. Héracles, com sua enorme clava, acompanhava a triste procissão. Seguia Telamon a seu lado, carregando lanças e uma acha de armas. Depois que a princesa foi amarrada e que todo o mundo tornou à cidade, Héracles e Telamon ficaram escondidos até o monstro sair do mar, arrastando seu corpo gigantesco para a praia. Nesse momento, precipitou-se Héracles com sua pesada, clava e atacou o monstro, enquanto Telamon permanecia a seu lado para ajudá-lo em caso de necessidade. Por fim, o monstro caiu morto e Hesíone foi levada em triunfo para a cidade de Tróia, em meio de grande regozijo popular.

Apresentou-se então Héracles ao soberano, para reclamar a prometida recompensa. Vendo Laomedonte que o monstro estava morto e salva a sua filha, se sentiu arrependido do trato que fizera - porque os famosos cavalos brancos se destinavam exclusivamente aos reis de Tróia. Assim sendo, recusou-se o rei a entrega-los a Héracles, demonstrando com este gesto ser pouco criterioso.

- Dar-lhe-ei qualquer outra coisa que me pedir, disse Laomedonte.

Héracles, porém, estava determinado a levar consigo os famosos cavalos brancos, ou nada.

- Se não mos der agora, voltarei um dia para levá-los, replicou ele.

Porém, sabendo Laomedonte que Héracles ainda estaria ao serviço do Rei de Micenas por mais três anos, desprezou suas ameaças. Partiu Héracles de Tróia sem receber o prêmio de seus serviços, pois que não aceitaria nada em lugar dos cavalos brancos. Seu amigo Telamon, que se apaixonara violentamente pela Princesa Hesíone, esperava pressuroso o dia em que voltariam a Tróia para cobrar aquela dívida.

Muito tempo, entretanto, iria passar-se antes que isto acontecesse, pois assim que Héracles depositou nas mãos de Euiristeu o cinturão da Rainha das Amazonas, foi por ele enviado em outra missão ainda mais perigosa, em lugar mais distante. Antes de partir para essa nova empresa, todavia, passou por Atenas e entregou Hipólita ao Rei Teseu. Não queria deixá-la exposta aos insultos e ao escárnio da filha de Euristeu.

Teseu, apesar de feliz com sua esposa Fedra, filha do Rei Minos Segundo e da Rainha Pasífae, de Creta, apaixonou-se loucamente pela bela Rainha das Amazonas, sendo por ela retribuído. Dessa união nascera um filho chamado Hipólito. Ao crescer, tornou-se este um guapo e belo rapaz tão bem apessoado quanto bom e afável. Por grande infortúnio apaixonou-se, a Rainha Fedra, violentamente por ele. Tinha tanta certeza que o rapaz não poderia resistir à sedução dos seus encantos que ofereceu um sacrifício a Afrodite, a deusa do Amor. Um dia em que Teseu se achava ausente, empenhado em longa viagem, declarou sua paixão a Hipólito. Ficou este horrorizado e disse-lhe que não se esquecesse de que era a esposa de seu pai. Com estas palavras ficou a rainha tão enfurecida que, ao retornar Teseu de sua viagem, ela acusou Hipólito de ter querido conquistá-la durante a ausência de Teseu.

Acreditou este piamente na pérfida mentira, pedindo ao deus marinho que castigasse Hipólito. Baniu-o de Atenas, dizendo-lhe que nunca mais regressasse àquela cidade. Com o coração sangrando, o rapaz atrelou dois cavalos ao seu carro e partiu, abandonando sua pátria, à procura de abrigo e segurança em terras estranhas. Quando conduzia seu carro à beira-mar, o deus marinho Posseidon espantou seus cavalos e estes dispararam assustados. A biga capotou. Hipólito foi arrastado e arremessado contra os rochedos, encontrando assim a morte.

Quando seu corpo lhe foi trazido, Teseu se encheu de arrependimento, chorando amargamente o destino de seu filho, pois que o amava com ternura. Quando a Rainha Fedra pôs os olhos no cadáver de Hipólito, foi tomada de tão agudo remorso que confessou a Teseu sua mentira, acrescentando que acusara falsamente Hipólito por este se negar a trair seu pai.

Ouvindo isso, tornou-se cruciante a dor do Rei Teseu, a ponto de sentir que seu coração se despedaçava. Afastou-se enojado do convívio social, enquanto Fedra, de desespero, enforcava-se numa viga do teto. A deusa Ártemis, porém, condoeu-se de Teseu e de seu filho, pois sabia perfeitamente que a pérfida Afrodite instigara Fedra a seduzir o rapaz. Logo que Fedra morreu,

tomou Ártemis a aparência de uma das mulheres que preparavam o corpo de Hipólito para os funerais. Fechou-lhe as feridas e, recorrendo a seus poderes divinos, curou-as, devolvendo a vida a Hipólito. Quando foram dizer ao Rei Teseu que seu filho se levantara do ataúde, de início recusou-se a acreditá-lo. Mas quando, com os próprios olhos, avistou Hipólito, estendeu-lhe os braços e apertou-o contra o coração, agradecendo aos deuses misericordiosos que se mostravam tão prontos a socorrer os homens no seu infortúnio, como a abatê-los em sua soberbia.

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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