Quando
Héracles partiu da Grécia à procura do país
das Amazonas, se viu retardado por temporais e
ventos contrários, de maneira que muito tempo
se passou antes que sua nau penetrasse no Mar
Negro, transpondo o Helesponto. Mas, por fim,
chegaram ao país agreste e hostil onde viviam
as Amazonas.
Essas
mulheres-guerreiras detestavam os homens, e não
conheciam maior felicidade que a de
combatê-los. Héracles, entretanto, era de
estatura tão avantajada e de tão insinuante
aparência, que se distinguia de todos os homens
que elas até então tinham visto, conseguindo,
por essa razão, dominar-lhes a desconfiança e
a hostilidade. Quando a Rainha Hipólita soube
do objetivo da missão que lhe fora confiada por
Euristeu, concordou prontamente em entregar-lhe
o cinturão, para que o levasse para Micenas.
A
deusa Hera interessava-se vivamente pelos
trabalhos impostos a Héracles, e se sentia
ainda mais desapontada que o próprio Euristeu
com seus contínuos triunfos. Decidiu, pois,
indispor as Amazonas contra ele. Tomando as
aparências de uma das mulheres-guerreiras,
insinuou-se entre elas, propalando o boato de
que Héracles tentara arrebatar à força o
cinturão da Rainha, ameaçando matá-la ou
raptá-la caso continuasse a resistir.
No
mesmo instante, as Amazonas estavam em pé de
guerra, e atacaram Héracles e seus
companheiros. Supondo Héracles que Hipólita
quisera enganá-lo, com falsas promessas para
ganhar tempo, tomou-a nos braços e, junto com
seus amigos, abriu caminho para a nau,
levantando vela com a rainha a bordo.
Durante
a longa viagem de retorno, tinham
freqüentemente que descer à terra, para caçar
animais selvagens a fim de se alimentarem e de
encherem seus barris de água. Ao desembarcarem
nas proximidades de Tróia, vieram a saber que
ali reinava grande tristeza, porque a formosa
Princesa Hesíone ia ser sacrificada a um
monstro marinho. Apressaram-se, Héracles e
Telamon, em ir até à cidade onde pediram
audiência com o soberano, cujo nome era
Laomedonte.
O Rei
Laomedonte era neto do Rei Tros, com quem
começou nossa narração. Sucedera a seu pai, o
Rei Ilo, alguns anos antes, e, de sua esposa
Estrimno, tivera um filho chamado Príamo e uma
filha, Hesíone. O deus marinho Posseidon, e
Apolo, deus da juventude, da música e da
poesia, tinham caído em desagrado e sido
condenados a ajudarem Laomedonte a reconstruir e
fortificar as muralhas de Tróia, pena esta que
eles cumpriram. Porém, para punir Laomedonte
por recusar-lhes a recompensa prometida,
enviaram um monstro marinho para encher de
terror e consternação o coração do povo.
Dissera um adivinho que o monstro só poderia
ser afastado mediante o sacrifício de uma
donzela, que deveria ser acorrentada a uma rocha
onde seria devorada pelo monstro. Durante sete
anos este sacrifício fora oferecido, porém,
agora, a escolha recaíra sobre a filha do
próprio Rei, e um grande prêmio caberia ao
homem que a conseguisse salvar.
- Não
temo esse monstro, declarou Héracles, e me
comprometo a matá-lo e a salvar a princesa.
- Se o
fizer, disse-lhe o Rei Laomedonte, dar-lhe-ei de
presente seis belos cavalos brancos,
descendentes daqueles que o grande deus Zeus
brindou ao meu avô o Rei Tros, quando raptou
Ganimedes para fazer dele seu copeiro no Olimpo.
Héracles
sabia da guerra, na qual o Rei Tros tinha matado
o pai de Pélops.
-
Então o Rei Tros ficou sabendo, afinal, que seu
filho não tinha sido raptado pelos frígios,
disse ele.
- Sim,
aquiesceu o Rei Laomedonte, porém, naquela
altura, o Rei Tântalo já tinha morrido e
Pélops já se havia expatriado.
Não
havia mais tempo para falar daquele assunto,
pois Hesíone ia ser acorrentada ao rochedo, e
os sacerdotes já estavam à sua espera.
Héracles, com sua enorme clava, acompanhava a
triste procissão. Seguia Telamon a seu lado,
carregando lanças e uma acha de armas. Depois
que a princesa foi amarrada e que todo o mundo
tornou à cidade, Héracles e Telamon ficaram
escondidos até o monstro sair do mar,
arrastando seu corpo gigantesco para a praia.
Nesse momento, precipitou-se Héracles com sua
pesada, clava e atacou o monstro, enquanto
Telamon permanecia a seu lado para ajudá-lo em
caso de necessidade. Por fim, o monstro caiu
morto e Hesíone foi levada em triunfo para a
cidade de Tróia, em meio de grande regozijo
popular.
Apresentou-se
então Héracles ao soberano, para reclamar a
prometida recompensa. Vendo Laomedonte que o
monstro estava morto e salva a sua filha, se
sentiu arrependido do trato que fizera - porque
os famosos cavalos brancos se destinavam
exclusivamente aos reis de Tróia. Assim sendo,
recusou-se o rei a entrega-los a Héracles,
demonstrando com este gesto ser pouco
criterioso.
-
Dar-lhe-ei qualquer outra coisa que me pedir,
disse Laomedonte.
Héracles,
porém, estava determinado a levar consigo os
famosos cavalos brancos, ou nada.
- Se
não mos der agora, voltarei um dia para
levá-los, replicou ele.
Porém,
sabendo Laomedonte que Héracles ainda estaria
ao serviço do Rei de Micenas por mais três
anos, desprezou suas ameaças. Partiu Héracles
de Tróia sem receber o prêmio de seus
serviços, pois que não aceitaria nada em lugar
dos cavalos brancos. Seu amigo Telamon, que se
apaixonara violentamente pela Princesa Hesíone,
esperava pressuroso o dia em que voltariam a
Tróia para cobrar aquela dívida.
Muito
tempo, entretanto, iria passar-se antes que isto
acontecesse, pois assim que Héracles depositou
nas mãos de Euiristeu o cinturão da Rainha das
Amazonas, foi por ele enviado em outra missão
ainda mais perigosa, em lugar mais distante.
Antes de partir para essa nova empresa, todavia,
passou por Atenas e entregou Hipólita ao Rei
Teseu. Não queria deixá-la exposta aos
insultos e ao escárnio da filha de Euristeu.
Teseu,
apesar de feliz com sua esposa Fedra, filha do
Rei Minos Segundo e da Rainha Pasífae, de
Creta, apaixonou-se loucamente pela bela Rainha
das Amazonas, sendo por ela retribuído. Dessa
união nascera um filho chamado Hipólito. Ao
crescer, tornou-se este um guapo e belo rapaz
tão bem apessoado quanto bom e afável. Por
grande infortúnio apaixonou-se, a Rainha Fedra,
violentamente por ele. Tinha tanta certeza que o
rapaz não poderia resistir à sedução dos
seus encantos que ofereceu um sacrifício a
Afrodite, a deusa do Amor. Um dia em que Teseu
se achava ausente, empenhado em longa viagem,
declarou sua paixão a Hipólito. Ficou este
horrorizado e disse-lhe que não se esquecesse
de que era a esposa de seu pai. Com estas
palavras ficou a rainha tão enfurecida que, ao
retornar Teseu de sua viagem, ela acusou
Hipólito de ter querido conquistá-la durante a
ausência de Teseu.
Acreditou
este piamente na pérfida mentira, pedindo ao
deus marinho que castigasse Hipólito. Baniu-o
de Atenas, dizendo-lhe que nunca mais
regressasse àquela cidade. Com o coração
sangrando, o rapaz atrelou dois cavalos ao seu
carro e partiu, abandonando sua pátria, à
procura de abrigo e segurança em terras
estranhas. Quando conduzia seu carro à
beira-mar, o deus marinho Posseidon espantou
seus cavalos e estes dispararam assustados. A
biga capotou. Hipólito foi arrastado e
arremessado contra os rochedos, encontrando
assim a morte.
Quando
seu corpo lhe foi trazido, Teseu se encheu de
arrependimento, chorando amargamente o destino
de seu filho, pois que o amava com ternura.
Quando a Rainha Fedra pôs os olhos no cadáver
de Hipólito, foi tomada de tão agudo remorso
que confessou a Teseu sua mentira, acrescentando
que acusara falsamente Hipólito por este se
negar a trair seu pai.
Ouvindo
isso, tornou-se cruciante a dor do Rei Teseu, a
ponto de sentir que seu coração se
despedaçava. Afastou-se enojado do convívio
social, enquanto Fedra, de desespero,
enforcava-se numa viga do teto. A deusa
Ártemis, porém, condoeu-se de Teseu e de seu
filho, pois sabia perfeitamente que a pérfida
Afrodite instigara Fedra a seduzir o rapaz. Logo
que Fedra morreu,
tomou
Ártemis a aparência de uma das mulheres que
preparavam o corpo de Hipólito para os
funerais. Fechou-lhe as feridas e, recorrendo a
seus poderes divinos, curou-as, devolvendo a
vida a Hipólito. Quando foram dizer ao Rei
Teseu que seu filho se levantara do ataúde, de
início recusou-se a acreditá-lo. Mas quando,
com os próprios olhos, avistou Hipólito,
estendeu-lhe os braços e apertou-o contra o
coração, agradecendo aos deuses
misericordiosos que se mostravam tão prontos a
socorrer os homens no seu infortúnio, como a
abatê-los em sua soberbia.
[transcrição
e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES
E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir
Índio da Costa Júnior