PÁGINA DE MITOLOGIA

GEORGE BAKER




Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega





Editora Brasiliense
São Paulo
1960




Segunda Parte

Filhos de Reis






CAPITULO X


A FEITICEIRA E OS MONSTROS


 



  Dos filhos de Frixo veio Jasão a saber  que seu pai não tinha sido assassinado pelo Rei Aetes, como Pélias havia dito, mas pelo contrário, morrera pacificamente em seu leito. Calcíope, viúva de seu pai, ainda vivia no palácio real à espera de notícias dos filhos. Tanto tempo, entretanto, já se havia passado desde a partida de seus filhos que ela começava a temer que tivessem morrido.

  Ora, tinha o Rei Aetes outra filha, muito mais jovem que Calcíope. Seu nome era Medéia e era a mais bela princesa que jamais existira. Seus cabelos eram de ouro pálido, seus olhos azuis como o verão. 

  Era sacerdotisa de Hécate, a deusa-feiticeira que ensinara a Medéia estranhos segredos mágicos, no bosque solitário que lhe era consagrado.

  Especialmente, aprendera Medéia os mistérios das plantas e das ervas e a elaboração de drogas e elixires tão potentes que seus efeitos pareciam milagrosos às pessoas que desconheciam seus segredos. Medéia era solteira e tão dedicada ao serviço da deusa que nunca se apaixonara por ninguém.

  Quando os Argonautas aproaram para a barra do rio que desaguava ao lado da cidade, lançaram âncora entre os juncos, para deliberarem. Alguns eram a. favor do desembarque imediato, para tomarem a cidade de surpresa.  Finalmente, resolveram que Jasão, Telamon e Augias, juntamente com os quatro filhos de Frixo, deixariam seus amigos a bordo e iriam visitar o Rei.  Achavam-se na praça, em frente do palácio real, contemplando admirados o mais belo edifício que jamais viram, quando Medéia veio a sair e os avistou.  Soltou um grito de espanto ao deparar com estrangeiros. Sua irmã Calcíope acudiu prontamente e, ao reconhecer seus quatro filhos, desfez-se em prantos de alegria por vê-los sãos e salvos. Porém, Medéia e Jasão entreolhavam-se, esquecendo-se Medéia de que estava a caminho do bosque da deusa-feiticeira Hécate.  Pela primeira vez na vida sentia-se apaixonada.

  Então Ídia, esposa do Rei Aetes, mandou seus criados prepararem uma festa em honra de seus netos e dos forasteiros que com eles tinham vindo à Cólquida. Depois de comerem e beberem à farta, perguntou o Rei Aetes aos filhos de Frixo de que maneira tinham regressado à pátria, e quem eram seus companheiros. Argo narrou o naufrágio e a maneira  por que se salvara.  Acrescentando:

  - Este homem que aqui está, Jasão, é meu parente.  Foi expulso de sua pátria por um rei tirânico. Reza uma antiga profecia que nunca poderá recuperar a sua herança enquanto não levar consigo, de volta para sua pátria, o Tosão de Ouro. Assim sendo, veio oferecer-lhe seus serviços, para poder conquistá-lo em recompensa.

  O Rei Aetes fechou a carranca.

  - Essa não é a verdadeira razão, tornou ele. Você veio para se apoderar de minha coroa e do meu reino. E vejo que ganhou o apoio de Jasão à sua causa.

  Aprontava-se Telamon para dar uma resposta à altura quando Jasão o afastou.

  - Se eu quisesse conquistar um reino, respondeu ele com calma, não precisaria viajar tão longe e navegar por mares tão perigosos. Estou disposto a servi-lo, lutando contra seus inimigos, ou executando as tarefas de que me incumbir, com a condição de eu levar como prêmio o Velocino de Ouro e, por esta forma, poder reconquistar meus direitos hereditários.

  Apesar de tudo, o Rei não ficou persuadido com essas palavras moderadas, e, no seu íntimo, tinha vontade de matar aqueles forasteiros, naquela mesma hora.  Subitamente, porém, um plano melhor ocorreu ao seu espírito.

  - Se isto for verdade, disse ele, aceitarei com prazer o oferecimento de seus serviços e recompensá-lo-ei com o Velocino de Ouro. Mas primeiro, preciso pô-lo à prova.  Esta dádiva é por demais preciosa para ser outorgada levianamente. Para comprovar a sua têmpera dar-lhe-ei a executar tarefa que esteja à minha altura. Se você puder igualar o Rei Aetes, então reconhecerei que é um homem, de fato.

  Respondeu Jasão que estava pronto a se submeter à prova.  O Rei aquiesceu:

  - Muito bem.  Nos campos do deus da guerra pastam dois formidáveis touros. Seus cascos são de bronze, e eles vomitam fogo e fumaça pela boca.  Ponho-lhes a canga e atrelo-os ao arado, com o qual lavro as terras as mais ingratas. Em seguida semeio, não sementes de trigo, senão dentes de dragão dos quais nascem no mesmo instante homens armados. A estes, eu mato até o último com minha lança, quando me atacam. Todas essas coisas eu as faço entre a aurora e o ocaso de um mesmo dia. Se você, Jasão, for capaz de faze-las, será seu o Tosão de Ouro. Desista, porém, de possuí-lo se fracassar. Não é justo que eu ceda essa preciosidade a um homem que não esteja à minha altura. Se você recusar submeter-se à prova, terei a certeza de que pretende roubar-me a coroa e será tratado de maneira exemplar, para que seu castigo sirva de lição a outros que porventura alimentarem a mesma pretensão.

  Calou-se Jasão, não de medo, mas porque sentia que era difícil executar tanta coisa num só dia. Era mais do que cabia a um simples mortal. Porém, quando Peleu, e, depois, seu irmão Telamon e outros se ofereceram para tomar o lugar de Jasão, animou-se este e resolveu tentar o que lhe tinha sido prescrito, ou morrer com honra esforçando-se por realizá-lo.

  Foi então então que Argo, filho mais velho de Calcíope teve uma idéia.

  - Se pudéssemos ganhar à nossa causa Medéia, irmã de nossa mãe, disse ele, poderiam talvez suas poções mágicas domar os touros de casco de bronze, e vencer os guerreiros que nascem dos dentes do dragão.  Assim poderíamos efetuar a tarefa prescrita e conquistar o Velo de Ouro.

  Agradou este alvitre aos Argonautas e Argo foi falar com sua mãe, para que determinasse a Medéia a auxiliá-los.  Meditou Calcíope longamente sobre o assunto, porque temia sua irmã e hesitava em pedir o seu auxilio para traírem o Rei. Mas, no momento em que Calcíope confabulava com seu filho, veio uma aia dizer que no quarto de Medéia se ouviam prantos amargurados. Quando Calcíope foi consolar a sua irmã, disse-lhe esta que chorava de medo que Jasão viesse a perder a vida.

  Quando as duas irmãs compreenderam que estavam de acordo, combinaram que Jasão se encontraria com Medéia no bosque consagrado à deusa-feiticeira, para ali receber os encantamentos e as poções que o ajudariam a ganhar o prêmio.  No dia seguinte, pela manhã, Jasão foi ao bosque onde estava Medéia à sua espera. Cada um deles achava que o outro era o mais belo do mundo, de maneira que seus corações estavam presos pelos laços do amor. Então Medéia ensinou a Jasão como devia oferecer sacrifício à deusa-feiticeira.

  Entregou-lhe uma erva que ele devia macerar na água em que iria banhar-se no dia da prova. Tornar-se-ia, assim, tão forte e ágil que nenhum mortal o poderia sobrepujar. Seu efeito, contudo, duraria apenas algumas horas. Deu-lhe, finalmente, o mesmo conselho que a deusa Atena dera a Cadmo em iguais circunstâncias, e Jasão regressou ao convívio de seus amigos confiante na vitória.
 
  No dia da prova o Rei Aetes estava com uma grande quantidade de gente no Campo de Ares.  Jasão banhou-se na água na qual havia macerado a erva misteriosa, e sentiu no mesmo instante um terrível influxo de energia e de poder. Aspergiu com a mesma água encantada seu escudo e suas armas, e correu célere para o campo da luta tão ansioso de lutar quanto no início se achara indeciso.

  Ao enfrentarem Jasão, os grandes e ferozes touros bufaram batendo com as patas no chão, baixaram as cabeças poderosas e investiram, enquanto ele permanecia imóvel com o escudo erguido. Com tremendo estrépito os touros sofreram o impacto daquele sólido escudo, firme e inabalável como uma montanha. Soltando uma gargalhada Jasão alijou o escudo. Agarrou um chifre de cada uma das enormes cabeças com as duas mãos, lutou com os touros que se debatiam, até forçá-los a se ajoelharem. Castor e Pólux levantaram a canga, e Jasão colocou-a com jeito no pescoço dos touros, empunhando os cabos do arado. Tangendo os touros com a lança, conduziu-os de um lado para outro até se achar o campo completamente arado. Em seguida semeou os dentes de dragão que trazia em seu capacete. Seus companheiros soltaram um gemido de horror quando viram, um após outro, guerreiros armados surgirem dos sulcos da terra e acometerem, aos gritos, contra Jasão; porém este, lembrando-se do conselho de Medéia, ergueu um enorme seixo que quatro homens não conseguiriam levantar e o arrojou contra os seus agressores.

  No mesmo instante eles viraram-se uns contra os outros, golpeando e talhando, enquanto Jasão percorria os sulcos de espada em punho, prostrando ao solo os que ainda surgiam, alguns enterrados na terra até o joelho, outros até a cintura, e ainda outros até os ombros.  Saltando e desferindo golpes, Jasão matava-os a todos, ao passo que aqueles no meio dos quais caíra o seixo se golpeavam e se feriam de morte.  Aos derradeiros raios do sol do ocaso caíram os últimos combatentes. Então Jasão tirou o jugo dos possantes touros, e sorriu orgulhoso para o Rei Aetes.

  -  Executei o que me foi ordenado, bradou ele.

  O Rei não respondeu. Subiu na sua biga e partiu para a cidade, amuado e taciturno. Sabia perfeitamente que sem o auxílio de sua filha Medéia nenhum homem poderia ter dominado os fogosos touros, ou vencido os guerreiros que nasciam dos dentes do dragão.  Era intensa sua ira contra Medéia e estava determinado a matá-la.

  Avisada, porém, pela deusa Hera, que velava pelo destino de Jasão, pensou Medéia embarcar para a Grécia para fugir à vingança do pai. Estava Jasão mais que desejoso de levá-la consigo, mas não queria partir sem o Tosão de Ouro. Medéia foi com ele ao bosque de Ares, pronunciou palavras mágicas para adormecer o terrível dragão que enrolava seus caracóis reluzentes ao pé do carvalho, do qual pendia o troféu glorioso.  A cabeça sibilante do dragão inclinou-se até o chão.  Jasão arrancou o Velocino de Ouro dos galhos folhudos e correu com Medéia para a nau que os esperava.

  Os Argonautas o cercavam pressurosos, querendo todos tocar o maravilhoso Velocino! Terminada sua missão remaram com vigor para percorrerem, de novo, a grande distância que os separava de seus lares, mas que lhes parecia, agora, mais curta, depois de tantos perigos superados!

  Não tardariam, contudo, a constatar que estes não haviam cessado.

  Ao saber de sua fuga, o Rei Aetes mandou chamar seu filho Absirto.

  - Persigam esses gregos impudentes, com uma frota de galeras, comandou ele. Tragam-me esses homens para que eu lhes inflija a morte.  Quanto a Medéia, ela também receberá o castigo que merece.  Partam imediatamente e não voltem sem eles. Se fracassarem hão de pagar com suas próprias vidas.
   
  Convocou Absirto os homens da Cólquida para tripularem suas esguias e velozes galeras, e a frota singrou os mares em perseguição do Argo. Jasão navegava velozmente, mas se viu obrigado a desembarcar para se abastecer de água e alimentos. Três dias depois da partida da Cólquida, ao anoitecer, avistou, de sua nau, ancorada na barra de um rio, as galeras da Cólquida bloqueando a saída para alto mar.

  - Que faremos agora? perguntou a Medéia. Esta sabia que seu irmão Absirto estava, com toda a certeza, no comando da frota e que, por isso, os do litoral não deixariam de ajudar os colcos, de preferência aos gregos estrangeiros.

  - Meu irmão mandará mensageiros propondo sua submissão, disse ela. Deixe-me falar com eles a sós. Um dos arautos apresentou-se a Jasão; recusou-se ele a restituir o Velocino de Ouro, alegando que o tinha conquistado lealmente; quanto a Medéia, algum grande rei deve ser escolhido para julgar dos direitos recíprocos dela e de seu pai.  Antes de eles voltarem para a frota, confabulou Medéia secretamente com os arautos colcos.

  - Digam a meu irmão, segredou-lhes ela, que estes gregos pretendem levar-me para a Grécia contra a minha vontade.  Mas tenho um plano para escapar-lhes, levando comigo o Tosão de Ouro.  Existe neste rio uma ilha que tem um templo consagrado a Ártemis. Diga a meu irmão que lá me espere, a altas horas da noite, trazendo apenas um pequeno barco que não seja percebido pelos gregos.  Estarei à sua espera, com o Velocino.

  Recebendo Absirto esta mensagem, esperou anoitecer e dirigiu-se numa pequena embarcação para a ilha deserta onde Medéia o esperava.  Enquanto confabulava com a irmã, porém, surgiu Jasão inesperadamente de um esconderijo onde se encontrava, e com possante golpe de espada, prostrou morto Absirto.  Voltou em seguida com Medéia para o Argo, e se fizeram à vela para fora da barra, na calada da noite, sem serem pressentidos pela frota colca.  Quando nasceu o dia, não sendo encontrado Absirto, lembraram-se os homens da Cólquida do destino que os esperava se voltassem sem o Velocino. Decidiram então fundar uma nova colônia no lugar onde se achavam, desistindo de perseguir o Argo que, àquelas horas, já se achava longe de suas vistas.

  Jasão ficou muito pesaroso com o assassínio traiçoeiro do irmão de Medéia, mas, na verdade, na situação em que se achava, não encontrara outra saída. Não poderiam os Argonautas defender-se contra a quantidade de homens que o Rei Aetes enviara contra eles.  Teriam todos perecido ou sido levados em cativeiro para a Cólquida, e Medéia junto com eles.  Apesar de tudo, sentia que não teria sossego enquanto não passasse pela cerimônia da purificação. Com essa intenção aproou o Argo para a Ilha de Éia , onde vivia uma irmã de Aetes,  chamada Circe.

  Circe era uma feiticeira que possuía poderes mágicos ainda superiores aos de Medéia.  Se bem que nem esta nem Jasão lhe houvessem dito o nome da pessoa que Jasão assassinara, ela sabia que se tratava de seu sobrinho Absirto. Não podia recusar-se a purificar Jasão do derramamento de sangue, mas o preveniu de que o assassínio que cometera lhe traria conseqüências funestas.  Chegou o Argo, finalmente, são e salvo a Iolco, depois de enfrentar grandes perigos durante a viagem.  Quando o Rei Pélias viu Jasão de volta, maior e mais forte do que quando partira, trazendo nos braços o Velocino de Ouro, compreendeu que não poderia conservá-lo por mais tempo afastado do trono.  Entregou, pois, a Jasão, a coroa e o título de Rei.

  Casaram-se Medéia e Jasão, no palácio de Iolco, em meio de grandes festejos e regozijos. Eson, pai de Jasão, veio para as núpcias, e Medéia, que amava seu marido a ponto de achar que nunca fazia bastante por ele, resolveu restituir ao seu sogro a mocidade e o vigor.  Com essa intenção colheu ervas e plantas medicinais, e, misturando-as com o sangue de um cordeiro, fez uma preparação mística com a qual encheu as veias do ancião em substituição de seu próprio sangue.  No mesmo instante tornaram-se róseas e viçosas as faces pálidas e murchas de Eson. Recuperou ele pouco a pouco suas forças, levantando-se da cama, andando e, depois, mesmo, correndo como se fosse um moço.

  Ao presenciarem este milagre, as filhas de Pélias foram à procura de Medéia.

  - Também nosso pai está velho e debilitado, disseram elas.  Não poderia você fazer por ele o mesmo que fez pelo pai de Jasão?

  - Com prazer, disse Medéia.  Enquanto colho as ervas e preparo o líquido mágico, esvaziem as veias de seu pai.

  Assim fizeram as filhas de Pélias. Porém Medéia, sabedora do que Pélias tinha tramado contra seu querido Jasão, deu-lhes um líquido destituído de propriedades mágicas. Pélias morreu.  Ficou o povo de Iolco tão furioso com Medéia que ela e Jasão foram compelidos a partir à procura de outro reino.

  Durante algum tempo viveram felizes juntos.  Era Medéia tão formosa e amava tanto a seu marido, que Jasão não lamentava a perda de seu reino. Quando, porém, veio Medéia a saber que Jasão fizera a corte a Glauce, filha do Rei, revelou toda a maldade de seu coração.  Brindou a moça com um belo vestido impregnado de veneno, de maneira que, ao vesti-lo, veio a falecer. Não satisfeita, Medéia matou os dois filhos que tivera de Jasão; abandonou-o e partiu para Atenas, onde desposou o Rei Egeu, pai de Teseu.

  Quanto a Jasão, viveu infeliz e solitário durante alguns anos, até o dia em que, estando sentado embaixo do casco decrépito do Argo, lhe caiu sobre a cabeça uma viga, que lhe causou a morte.  Ficou assim vingado o assassínio de Absirto.


[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS,  editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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