Dos filhos de Frixo veio Jasão a saber
que seu pai não tinha sido assassinado pelo Rei
Aetes, como Pélias havia dito, mas pelo contrário,
morrera pacificamente em seu leito. Calcíope,
viúva de seu pai, ainda vivia no palácio real
à espera de notícias dos filhos. Tanto tempo,
entretanto, já se havia passado desde a partida
de seus filhos que ela começava a temer que
tivessem morrido.
Ora, tinha o Rei Aetes outra filha, muito
mais jovem que Calcíope. Seu nome era Medéia e
era a mais bela princesa que jamais existira.
Seus cabelos eram de ouro pálido, seus olhos
azuis como o verão.
Era sacerdotisa de Hécate,
a deusa-feiticeira que ensinara a Medéia
estranhos segredos mágicos, no bosque solitário
que lhe era consagrado.
Especialmente, aprendera
Medéia os mistérios das plantas e das ervas e
a elaboração de drogas e elixires tão
potentes que seus efeitos pareciam milagrosos às
pessoas que desconheciam seus segredos. Medéia
era solteira e tão dedicada ao serviço da
deusa que nunca se apaixonara por ninguém.
Quando os Argonautas aproaram para a
barra do rio que desaguava ao lado da cidade,
lançaram âncora entre os juncos, para
deliberarem. Alguns eram a. favor do desembarque
imediato, para tomarem a cidade de surpresa.
Finalmente, resolveram que Jasão, Telamon e
Augias, juntamente com os quatro filhos de
Frixo, deixariam seus amigos a bordo e iriam
visitar o Rei. Achavam-se na praça, em
frente do palácio real, contemplando admirados
o mais belo edifício que jamais viram, quando
Medéia veio a sair e os avistou. Soltou
um grito de espanto ao deparar com estrangeiros.
Sua irmã Calcíope acudiu prontamente e, ao
reconhecer seus quatro filhos, desfez-se em
prantos de alegria por vê-los sãos e salvos.
Porém, Medéia e Jasão entreolhavam-se,
esquecendo-se Medéia de que estava a caminho do
bosque da deusa-feiticeira Hécate. Pela
primeira vez na vida sentia-se apaixonada.
Então Ídia, esposa do Rei Aetes, mandou
seus criados prepararem uma festa em honra de
seus netos e dos forasteiros que com eles tinham
vindo à Cólquida. Depois de comerem e beberem
à farta, perguntou o Rei Aetes aos filhos de
Frixo de que maneira tinham regressado à pátria,
e quem eram seus companheiros. Argo narrou o
naufrágio e a maneira por que se salvara.
Acrescentando:
- Este homem que aqui está, Jasão, é
meu parente. Foi expulso de sua pátria
por um rei tirânico. Reza uma antiga profecia
que nunca poderá recuperar a sua herança
enquanto não levar consigo, de volta para sua pátria,
o Tosão de Ouro. Assim sendo, veio oferecer-lhe
seus serviços, para poder conquistá-lo em
recompensa.
O Rei Aetes fechou a carranca.
- Essa não é a verdadeira razão,
tornou ele. Você veio para se apoderar de minha
coroa e do meu reino. E vejo que ganhou o apoio
de Jasão à sua causa.
Aprontava-se Telamon para dar uma
resposta à altura quando Jasão o afastou.
- Se eu quisesse conquistar um reino,
respondeu ele com calma, não precisaria viajar
tão longe e navegar por mares tão perigosos.
Estou disposto a servi-lo, lutando contra seus
inimigos, ou executando as tarefas de que me
incumbir, com a condição de eu levar como prêmio
o Velocino de Ouro e, por esta forma, poder
reconquistar meus direitos hereditários.
Apesar de tudo, o Rei não ficou
persuadido com essas palavras moderadas, e, no
seu íntimo, tinha vontade de matar aqueles
forasteiros, naquela mesma hora.
Subitamente, porém, um plano melhor ocorreu ao
seu espírito.
- Se isto for verdade, disse ele,
aceitarei com prazer o oferecimento de seus
serviços e recompensá-lo-ei com o Velocino de
Ouro. Mas primeiro, preciso pô-lo à prova.
Esta dádiva é por demais preciosa para ser
outorgada levianamente. Para comprovar a sua têmpera
dar-lhe-ei a executar tarefa que esteja à minha
altura. Se você puder igualar o Rei Aetes, então
reconhecerei que é um homem, de fato.
Respondeu Jasão que estava pronto a se
submeter à prova. O Rei aquiesceu:
- Muito bem. Nos campos do deus da
guerra pastam dois formidáveis touros. Seus
cascos são de bronze, e eles vomitam fogo e
fumaça pela boca. Ponho-lhes a canga e
atrelo-os ao arado, com o qual lavro as terras
as mais ingratas. Em seguida semeio, não
sementes de trigo, senão dentes de dragão dos
quais nascem no mesmo instante homens armados. A
estes, eu mato até o último com minha lança,
quando me atacam. Todas essas coisas eu as faço
entre a aurora e o ocaso de um mesmo dia. Se você,
Jasão, for capaz de faze-las, será seu o Tosão
de Ouro. Desista, porém, de possuí-lo se
fracassar. Não é justo que eu ceda essa
preciosidade a um homem que não esteja à minha
altura. Se você recusar submeter-se à prova,
terei a certeza de que pretende roubar-me a
coroa e será tratado de maneira exemplar, para
que seu castigo sirva de lição a outros que
porventura alimentarem a mesma pretensão.
Calou-se Jasão, não de medo, mas porque
sentia que era difícil executar tanta coisa num
só dia. Era mais do que cabia a um simples
mortal. Porém, quando Peleu, e, depois, seu irmão
Telamon e outros se ofereceram para tomar o
lugar de Jasão, animou-se este e resolveu
tentar o que lhe tinha sido prescrito, ou morrer
com honra esforçando-se por realizá-lo.
Foi então então que Argo, filho mais
velho de Calcíope teve uma idéia.
- Se pudéssemos ganhar à nossa causa
Medéia, irmã de nossa mãe, disse ele,
poderiam talvez suas poções mágicas domar os
touros de casco de bronze, e vencer os
guerreiros que nascem dos dentes do dragão.
Assim poderíamos efetuar a tarefa prescrita e
conquistar o Velo de Ouro.
Agradou este alvitre aos Argonautas e
Argo foi falar com sua mãe, para que
determinasse a Medéia a auxiliá-los.
Meditou Calcíope longamente sobre o assunto,
porque temia sua irmã e hesitava em pedir o seu
auxilio para traírem o Rei. Mas, no momento em
que Calcíope confabulava com seu filho, veio
uma aia dizer que no quarto de Medéia se ouviam
prantos amargurados. Quando Calcíope foi
consolar a sua irmã, disse-lhe esta que chorava
de medo que Jasão viesse a perder a vida.
Quando as duas irmãs compreenderam que
estavam de acordo, combinaram que Jasão se
encontraria com Medéia no bosque consagrado à
deusa-feiticeira, para ali receber os
encantamentos e as poções que o ajudariam a
ganhar o prêmio. No dia seguinte, pela
manhã, Jasão foi ao bosque onde estava Medéia
à sua espera. Cada um deles achava que o outro
era o mais belo do mundo, de maneira que seus
corações estavam presos pelos laços do amor.
Então Medéia ensinou a Jasão como devia
oferecer sacrifício à deusa-feiticeira.
Entregou-lhe uma erva que ele devia
macerar na água em que iria banhar-se no dia da
prova. Tornar-se-ia, assim, tão forte e ágil
que nenhum mortal o poderia sobrepujar. Seu
efeito, contudo, duraria apenas algumas horas.
Deu-lhe, finalmente, o mesmo conselho que a
deusa Atena dera a Cadmo em iguais circunstâncias,
e Jasão regressou ao convívio de seus amigos
confiante na vitória.
No dia da prova o Rei Aetes estava com
uma grande quantidade de gente no Campo de Ares.
Jasão banhou-se na água na qual havia macerado
a erva misteriosa, e sentiu no mesmo instante um
terrível influxo de energia e de poder.
Aspergiu com a mesma água encantada seu escudo
e suas armas, e correu célere para o campo da
luta tão ansioso de lutar quanto no início se
achara indeciso.
Ao enfrentarem Jasão, os grandes e
ferozes touros bufaram batendo com as patas no
chão, baixaram as cabeças poderosas e
investiram, enquanto ele permanecia imóvel com
o escudo erguido. Com tremendo estrépito os
touros sofreram o impacto daquele sólido
escudo, firme e inabalável como uma montanha.
Soltando uma gargalhada Jasão alijou o escudo.
Agarrou um chifre de cada uma das enormes cabeças
com as duas mãos, lutou com os touros que se
debatiam, até forçá-los a se ajoelharem.
Castor e Pólux levantaram a canga, e Jasão
colocou-a com jeito no pescoço dos touros,
empunhando os cabos do arado. Tangendo os touros
com a lança, conduziu-os de um lado para outro
até se achar o campo completamente arado. Em
seguida semeou os dentes de dragão que trazia
em seu capacete. Seus companheiros soltaram um
gemido de horror quando viram, um após outro,
guerreiros armados surgirem dos sulcos da terra
e acometerem, aos gritos, contra Jasão; porém
este, lembrando-se do conselho de Medéia,
ergueu um enorme seixo que quatro homens não
conseguiriam levantar e o arrojou contra os seus
agressores.
No mesmo instante eles viraram-se
uns contra os outros, golpeando e talhando,
enquanto Jasão percorria os sulcos de espada em
punho, prostrando ao solo os que ainda surgiam,
alguns enterrados na terra até o joelho, outros
até a cintura, e ainda outros até os ombros.
Saltando e desferindo golpes, Jasão matava-os a
todos, ao passo que aqueles no meio dos quais caíra
o seixo se golpeavam e se feriam de morte.
Aos derradeiros raios do sol do ocaso caíram os
últimos combatentes. Então Jasão tirou o jugo
dos possantes touros, e sorriu orgulhoso para o
Rei Aetes.
- Executei o que me foi ordenado,
bradou ele.
O Rei não respondeu. Subiu na sua biga e
partiu para a cidade, amuado e taciturno. Sabia
perfeitamente que sem o auxílio de sua filha
Medéia nenhum homem poderia ter dominado os
fogosos touros, ou vencido os guerreiros que
nasciam dos dentes do dragão. Era intensa
sua ira contra Medéia e estava determinado a
matá-la.
Avisada, porém, pela deusa Hera, que
velava pelo destino de Jasão, pensou Medéia
embarcar para a Grécia para fugir à vingança
do pai. Estava Jasão mais que desejoso de levá-la
consigo, mas não queria partir sem o Tosão de
Ouro. Medéia foi com ele ao bosque de Ares,
pronunciou palavras mágicas para adormecer o
terrível dragão que enrolava seus caracóis
reluzentes ao pé do carvalho, do qual pendia o
troféu glorioso. A cabeça sibilante do
dragão inclinou-se até o chão. Jasão
arrancou o Velocino de Ouro dos galhos folhudos
e correu com Medéia para a nau que os esperava.
Os Argonautas o cercavam pressurosos,
querendo todos tocar o maravilhoso Velocino!
Terminada sua missão remaram com vigor para
percorrerem, de novo, a grande distância que os
separava de seus lares, mas que lhes parecia,
agora, mais curta, depois de tantos perigos
superados!
Não tardariam, contudo, a constatar que
estes não haviam cessado.
Ao saber de sua fuga, o Rei Aetes mandou
chamar seu filho Absirto.
- Persigam esses gregos impudentes, com
uma frota de galeras, comandou ele. Tragam-me
esses homens para que eu lhes inflija a morte.
Quanto a Medéia, ela também receberá o
castigo que merece. Partam imediatamente e
não voltem sem eles. Se fracassarem hão de
pagar com suas próprias vidas.
Convocou Absirto os homens da Cólquida
para tripularem suas esguias e velozes galeras,
e a frota singrou os mares em perseguição do
Argo. Jasão navegava velozmente, mas se viu
obrigado a desembarcar para se abastecer de água
e alimentos. Três dias depois da partida da Cólquida,
ao anoitecer, avistou, de sua nau, ancorada na
barra de um rio, as galeras da Cólquida
bloqueando a saída para alto mar.
- Que faremos agora? perguntou a Medéia.
Esta sabia que seu irmão Absirto estava, com
toda a certeza, no comando da frota e que, por
isso, os do litoral não deixariam de ajudar os
colcos, de preferência aos gregos estrangeiros.
- Meu irmão mandará mensageiros
propondo sua submissão, disse ela. Deixe-me
falar com eles a sós. Um dos arautos
apresentou-se a Jasão; recusou-se ele a
restituir o Velocino de Ouro, alegando que o
tinha conquistado lealmente; quanto a Medéia,
algum grande rei deve ser escolhido para julgar
dos direitos recíprocos dela e de seu pai.
Antes de eles voltarem para a frota, confabulou
Medéia secretamente com os arautos colcos.
- Digam a meu irmão, segredou-lhes ela,
que estes gregos pretendem levar-me para a Grécia
contra a minha vontade. Mas tenho um plano
para escapar-lhes, levando comigo o Tosão de
Ouro. Existe neste rio uma ilha que tem um
templo consagrado a Ártemis. Diga a meu irmão
que lá me espere, a altas horas da noite,
trazendo apenas um pequeno barco que não seja
percebido pelos gregos. Estarei à sua
espera, com o Velocino.
Recebendo Absirto esta mensagem, esperou
anoitecer e dirigiu-se numa pequena embarcação
para a ilha deserta onde Medéia o esperava.
Enquanto confabulava com a irmã, porém, surgiu
Jasão inesperadamente de um esconderijo onde se
encontrava, e com possante golpe de espada,
prostrou morto Absirto. Voltou em seguida
com Medéia para o Argo, e se fizeram à vela
para fora da barra, na calada da noite, sem
serem pressentidos pela frota colca.
Quando nasceu o dia, não sendo encontrado
Absirto, lembraram-se os homens da Cólquida do
destino que os esperava se voltassem sem o
Velocino. Decidiram então fundar uma nova colônia
no lugar onde se achavam, desistindo de
perseguir o Argo que, àquelas horas, já se
achava longe de suas vistas.
Jasão ficou muito pesaroso com o assassínio
traiçoeiro do irmão de Medéia, mas, na
verdade, na situação em que se achava, não
encontrara outra saída. Não poderiam os
Argonautas defender-se contra a quantidade de
homens que o Rei Aetes enviara contra eles.
Teriam todos perecido ou sido levados em
cativeiro para a Cólquida, e Medéia junto com
eles. Apesar de tudo, sentia que não
teria sossego enquanto não passasse pela cerimônia
da purificação. Com essa intenção aproou o
Argo para a Ilha de Éia , onde vivia uma irmã
de Aetes, chamada Circe.
Circe era uma feiticeira que possuía
poderes mágicos ainda superiores aos de Medéia.
Se bem que nem esta nem Jasão lhe houvessem
dito o nome da pessoa que Jasão assassinara,
ela sabia que se tratava de seu sobrinho
Absirto. Não podia recusar-se a purificar Jasão
do derramamento de sangue, mas o preveniu de que
o assassínio que cometera lhe traria conseqüências
funestas. Chegou o Argo, finalmente, são
e salvo a Iolco, depois de enfrentar grandes
perigos durante a viagem. Quando o Rei Pélias
viu Jasão de volta, maior e mais forte do que
quando partira, trazendo nos braços o Velocino
de Ouro, compreendeu que não poderia conservá-lo
por mais tempo afastado do trono.
Entregou, pois, a Jasão, a coroa e o título de
Rei.
Casaram-se Medéia e Jasão, no palácio
de Iolco, em meio de grandes festejos e
regozijos. Eson, pai de Jasão, veio para as núpcias,
e Medéia, que amava seu marido a ponto de achar
que nunca fazia bastante por ele, resolveu
restituir ao seu sogro a mocidade e o vigor.
Com essa intenção colheu ervas e plantas
medicinais, e, misturando-as com o sangue de um
cordeiro, fez uma preparação mística com a
qual encheu as veias do ancião em substituição
de seu próprio sangue. No mesmo instante
tornaram-se róseas e viçosas as faces pálidas
e murchas de Eson. Recuperou ele pouco a pouco
suas forças, levantando-se da cama, andando e,
depois, mesmo, correndo como se fosse um moço.
Ao presenciarem este milagre, as filhas
de Pélias foram à procura de Medéia.
- Também nosso pai está velho e
debilitado, disseram elas. Não poderia
você fazer por ele o mesmo que fez pelo pai de
Jasão?
- Com prazer, disse Medéia.
Enquanto colho as ervas e preparo o líquido mágico,
esvaziem as veias de seu pai.
Assim fizeram as filhas de Pélias. Porém
Medéia, sabedora do que Pélias tinha tramado
contra seu querido Jasão, deu-lhes um líquido
destituído de propriedades mágicas. Pélias
morreu. Ficou o povo de Iolco tão furioso
com Medéia que ela e Jasão foram compelidos a
partir à procura de outro reino.
Durante algum tempo viveram felizes
juntos. Era Medéia tão formosa e amava
tanto a seu marido, que Jasão não lamentava a
perda de seu reino. Quando, porém, veio Medéia
a saber que Jasão fizera a corte a Glauce,
filha do Rei, revelou toda a maldade de seu coração.
Brindou a moça com um belo vestido impregnado
de veneno, de maneira que, ao vesti-lo, veio a
falecer. Não satisfeita, Medéia matou os dois
filhos que tivera de Jasão; abandonou-o e
partiu para Atenas, onde desposou o Rei Egeu,
pai de Teseu.
Quanto a Jasão, viveu infeliz e solitário
durante alguns anos, até o dia em que, estando
sentado embaixo do casco decrépito do Argo, lhe
caiu sobre a cabeça uma viga, que lhe causou a
morte. Ficou assim vingado o assassínio
de Absirto.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense,
1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior