PÁGINA DE MITOLOGIA

GEORGE BAKER




Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega



Editora Brasiliense
São Paulo
1960




Primeira Parte

O Advento de Pélops





CAPITULO I


O INICIO DE UMA DURADOURA E IMPLACÁVEL CONTENDA



Em época e terras remotas - há uns três mil anos, num país que se chamava Frígia, hoje conhecido de nós por Turquia - vivia um rei de nome Tros.  Era muito rico como a maioria dos reis daqueles tempos, e consistiam seus tesouros em rebanhos de carneiros e manadas de gado grosso e não em moedas de ouro ou prata. Orgulhava-se especialmente de seus cavalos, em numero de três mil, dos mais belos do mundo.

Aconteceu que na época em que o avô do Rei Tros se estabeleceu naquela região, ele e o povo que o seguia construíram ali moradias, formando pequenos sítios onde residiam, na extensa e larga planície que ia do Monte Ida até o litoral.  Chamava-se Dárdano e dele tomou a planície o nome de Dardânia. Quando subiu ao trono seu filho Erictônio, depois de sua morte, não havia ainda na planície cidades fortificadas onde pudesse o povo abrigar-se contra os ataques das tribos errantes ou dos potentados dos reinos vizinhos. À medida que crescia a riqueza do monarca e do povo, tornavam-se esses ataques mais freqüentes, de modo que resolveu o Rei Tros construir uma povoação com sua cidadela, defendida por muralhas tão sólidas que ninguém a pudesse conquistar.  Dos morros distantes, dos quais era o Monte Ida o mais elevado e formoso, destacava-se prolongado esporão formando um espinhaço no centro da planície, e terminando num penhasco rochoso a seis quilômetros do mar.  Sobre a extremidade deste contraforte edificou o Rei Tros sua cidade fortificada.

De suas espessas muralhas tinha ele vista sobre toda a planície e de seu ponto mais elevado podia contemplar ao longe o embate espumoso das ondas do mar. Para ele e sua família mandou construir uma casa grande, e outras menores de madeira e alvenaria para seus amigos e os chefes da sua raça.  Construíra também acomodações para recolher as ovelhas, o gado grosso e os cavalos em tempo de guerra.  Deram à cidade o nome de Tróia.

Tinha o Rei Tros três filhos dos quais Ilo era o mais velho.  Quando este por sua vez se tornou rei, ficou aquela região sendo conhecida pelo nome de Ílio, derivado de Ilo (*Tróia era também chamada de Ílium*). Chamava-se o segundo filho Assáraco, e o terceiro Ganimedes.  Como soía acontecer naqueles tempos, não ficavam, os três filhos do rei, ociosos em sua casa, mas labutavam nos campos cuidando dos rebanhos e dos cavalos.  Tal era a fertilidade da terra e a excelência das pastagens - regadas por rios e regatos que fluíam das serranias - que cada ano se tornavam melhores e mais abundantes as safras, mais numerosos e sadios, os rebanhos, de maneira que o Rei Tros veio a ser considerado como o soberano mais rico do mundo. Por sua morte, viriam seus três filhos a herdar o seu reino e, dividindo-o em três partes, seria ainda cada um deles muito rico. Desde sua infância, era o filho caçula do rei o mais belo menino que se vira jamais; tanto o Rei Tros como a Rainha Calírroe amavam-no com ternura.  Por ser tão afetuoso e bom quanto belo, era querido de todos, não somente na cidade de Tróia, mas também entre os camponeses e os pastores da planície.  Saía com freqüência a cavalo, sozinho ou em companhia de seus amigos, para caçarem e galoparem pelas Campinas, visitando às vezes os moradores do sopé da serra distante.

Quando tinha dezesseis anos partiu um dia numa dessas excursões, não tornando, porém. Nunca mais voltou ao seu lar.

De início, não atribuiu o Rei Tros grande importância ao fato, pois Ganimedes passava com freqüência uma ou duas noites fora de casa, pousando ao relento ou em casa de amigos; quando, porém, transcorreram quatro ou cinco dias sem que se tivesse notícia do jovem príncipe, começou o rei a preocupar-se, enviando mensageiros à sua procura.

Ganimedes, todavia, não foi encontrado em parte alguma. Um homem que acabava de chegar contou que vira uma grande águia voar para o cume do Monte Ida, levando em suas garras um mancebo parecido com o príncipe. Como supusessem, alguns, que os deuses habitavam no alto das montanhas, logo deduziram que Ganimedes fora raptado pelos deuses, por causa de sua grande beleza, para servi-los à mesa.

O Rei Tros, contudo, permanecia incrédulo. Sabia que não longe do Monte Ida, além dos confins de seu reino, vivia um rei chamado Tântalo, cujos antepassados tinham reinado na Frigia, antes de Dárdano vir de longe para se estabelecer na grande planície.  No início, os frígios fizeram grandes esforços para expulsar Dárdano e seu povo, e foi devido em grande parte às constantes incursões em seu território que o Rei Tros construíra a cidade fortificada de Tróia.  Estava, pois, o Rei Tros convencido de que seu filho Ganimedes fora capturado por um bando de frígios e por eles seqüestrado.  Assim sendo, enviou um mensageiro ao Rei Tântalo, exigindo a devolução de seu filho Ganimedes.

O Rei Tântalo, que era homem de maus bofes e rancoroso, descendente de uma estirpe de guerreiros, observava com inveja a prosperidade crescente do Rei Tros, e viu naquela mensagem a oportunidade de conquistar pelas armas o que seus súditos não podiam adquirir pelo trabalho.  Mandou, em conseqüência, resposta provocadora ao seu vizinho.  O Rei Tros, mais que nunca convencido de que seu filho fora raptado, reuniu seu povo e preparou-se para invadir a Frigia.


Talvez porque até então fizera o Rei Tros o possível para preservar a paz, não atacando nunca as outras nações, antevia, o Rei da Frigia, fácil vitória, pois comandava um povo de natureza belicosa. Não contava, porém, com o amor que os súditos do Rei Tros dedicavam ao Príncipe Ganimedes, e a cólera de que se encheram quando acreditaram no seu rapto.  Quando as duas nações se defrontaram no campo de batalha, por conseguinte, o resultado foi muito diverso daquele que o Rei Tântalo previra.  O povo de Dardânia levou tudo de vencida.  Os frígios foram completamente derrotados, e tão gravemente ferido o Rei, que ele sentiu estar às portas da morte. Chamou então à sua presença seu filho primogênito, Pélops.

- Meu filho, disse ele, os fados nos foram contrários e receio que meu reino nunca se restabeleça deste desastre.  Reconheço que o Rei Tros tem em suas mãos o poder de dominar toda a Frígia.  Em vista disto, peço-lhe, meu filho, que parta em busca de novo lar para você e aqueles que o quiserem acompanhar, porque se permanecer aqui, não será mais do que um rei vassalo. Na verdade não havia outra alternativa para o Príncipe Pélops e seu povo, visto que os troianos vitoriosos arrebanhavam suas manadas, incendiavam suas searas e seus lares e invadiam seus celeiros.

Em conseqüência, escondeu-se no mato com os poucos companheiros que lhe restavam, levando consigo seu pai agonizante. Quando passou todo perigo, conduziu seu bando para o litoral, onde se empenhou com afinco na construção de pequena frota.O Rei Tântalo faleceu antes de terminada sua construção, tendo o filho que tanto o amara lamentado profundamente sua morte.  Como nunca ouvira falar em Ganimedes, antes daquela mensagem vinda de Tróia, Pélops estava convencido de que o Rei Tros inventara aquele pretexto para invadir a Frigia. Sobre o túmulo do pai jurou eterna inimizade à gente de Tróia e de Dardânia,
que não somente lhe roubara o pai, mas também a herança, obrigando-o a se expatriar em completa indigência para outras plagas, à procura de novo lar.

Para onde se dirigir?  No oriente, ao longo do litoral sul do Mar Negro, as terras eram acidentadas, agrestes e cheias de perigos.  Mais além viviam os ferozes e cruéis hititas, cujo sangue corria em suas próprias veias; ao sul, muito além das montanhas, moravam os belicosos assírios.  Não era para aqueles lados que Pélops volvia o olhar, senão para o ocidente onde, além dos mares salpicados de ilhas, se estendiam as férteis e aprazíveis terras da Grécia.  Foi para oeste que seu povo assestou as proas de seus barcos, ao deixarem para sempre os lares de seus antepassados.

Naquelas épocas remotas, na alvorada, dos tempos históricos, não existiam mapas nem fronteiras, nem livros, nem ciência.  Pouco se sabia do mundo exterior e de tudo o que existia fora da bacia do mar, que denominamos Mediterrâneo.  Também não sabiam muito, a respeito uns dos outros, os povos que habitavam o litoral.  Constituía, pois, grande aventura para Pélops e seus companheiros, navegarem para oeste ao longo das costas da Frígia e da Dardânia, através do estreito canal hoje em dia chamado Dardanelos (podem verificar como este nome relembra o rei que na remota. antigüidade fundou a nação troiana) e rumo ao sul, ao longo da costa oriental do Grande Mar. Eram escassas as populações daquele mundo primitivo.  Excetuando-se alguma cidade ou algum porto aqui e acolá, bastante fortes para resistirem aos ataques dos piratas ou dos corsários do mar, apresentavam-se desertas e agrestes as costas do Mediterrâneo.  Era raro encontrar, Pélops, em sua peregrinação, alguém que o pudesse informar do que existia além da terra mais próxima, e, menos ainda, além do horizonte.

Tampouco podiam seus barcos escolher livremente as rotas que singravam, como fazem os navios de hoje.  Eram pequenos, lentos e toscos, com uma única vela a, meia-nau, que só podia ser utilizada quando soprava o vento pela popa. Tinham bancos para os remadores, grandes remos presos aos balaústres da amurada por eslingas de couro.  Remar era, porém, trabalho ingrato e cansativo, preferindo os nautas esperar que o vento soprasse de novo, a manejar aqueles remos pesados, a menos que houvesse calmaria.  Pélops não tinha pressa.  Sua nau seria a sua casa, enquanto não arranjasse outra melhor.  Durante a noite, acampavam os tripulantes em terra, firme, onde geralmente conseguiam matar uma ou outra caça, um veado ou uma cabra selvagem, com que se alimentavam.

Assim, velejou ele lentamente rumo ao sul e, em seguida, de ilha em ilha para oeste, até atingir enfim o sul da grande península grega, que foi mais tarde e ainda é até hoje chamada Peloponeso, em sua memória.  Contudo, as semanas e os meses empregados em viajar, em conhecer novas gentes e terras estranhas não conseguiram aplacar, em seu coração, o profundo ódio que votava ao Rei Tros e ao seu povo, por terem roubado a vida a seu pai e expulsado a ele de sua terra natal.




[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


Para receber nosso
Boletim de Atualizações
cadastre AQUI o seu email


Envie esta página
para alguém especial