Em época e terras remotas - há uns três mil
anos, num país que se chamava Frígia, hoje
conhecido de nós por Turquia - vivia um rei de
nome Tros. Era muito rico como a maioria
dos reis daqueles tempos, e consistiam seus
tesouros em rebanhos de carneiros e manadas de
gado grosso e não em moedas de ouro ou prata. Orgulhava-se especialmente
de seus cavalos, em numero de três mil, dos
mais belos do mundo.
Aconteceu que na época em que o avô do Rei
Tros se estabeleceu naquela região, ele e o
povo que o seguia construíram ali moradias,
formando pequenos sítios onde residiam, na
extensa e larga planície que ia do Monte Ida até
o litoral. Chamava-se Dárdano e dele
tomou a planície o nome de Dardânia. Quando subiu ao trono seu filho
Erictônio, depois de sua morte, não havia
ainda na planície cidades fortificadas onde
pudesse o povo abrigar-se contra os ataques das
tribos errantes ou dos potentados dos reinos
vizinhos. À medida que crescia a riqueza do
monarca e do povo, tornavam-se esses ataques
mais freqüentes, de modo que resolveu o Rei
Tros construir uma povoação com sua cidadela,
defendida por muralhas tão sólidas que
ninguém a pudesse conquistar. Dos morros
distantes, dos quais era o Monte Ida o mais
elevado e formoso, destacava-se prolongado esporão
formando um espinhaço no centro da planície, e
terminando num penhasco
rochoso a seis quilômetros do mar. Sobre
a extremidade deste contraforte edificou o Rei
Tros sua cidade fortificada.
De suas espessas muralhas tinha ele vista sobre
toda a planície e de seu ponto mais elevado
podia contemplar ao longe o embate espumoso das
ondas do mar. Para ele e sua família mandou
construir uma casa grande, e outras menores de
madeira e alvenaria para seus amigos e os chefes
da sua raça. Construíra também acomodações
para recolher as ovelhas, o gado grosso e os
cavalos em tempo de guerra. Deram à
cidade o nome de Tróia.
Tinha o Rei Tros três filhos dos quais Ilo era
o mais velho. Quando este por sua vez se
tornou rei, ficou aquela região sendo conhecida
pelo nome de Ílio, derivado de Ilo (*Tróia era
também chamada de Ílium*). Chamava-se o
segundo filho Assáraco, e o terceiro Ganimedes.
Como soía acontecer naqueles tempos, não
ficavam, os três filhos do rei, ociosos em sua
casa, mas labutavam nos campos cuidando dos
rebanhos e dos cavalos. Tal era a
fertilidade da terra e a excelência das
pastagens - regadas por rios e regatos que fluíam
das serranias - que cada ano se tornavam
melhores e mais abundantes as safras, mais
numerosos e sadios, os rebanhos, de maneira que
o Rei Tros veio a ser considerado como o
soberano mais rico do mundo. Por sua morte,
viriam seus três filhos a herdar o seu reino e,
dividindo-o em três partes, seria ainda cada um
deles muito rico. Desde sua infância, era o
filho caçula do rei o mais belo menino que se
vira jamais; tanto o Rei Tros como a Rainha Calírroe
amavam-no com ternura. Por ser tão
afetuoso e bom quanto belo, era querido de
todos, não somente na cidade de Tróia, mas
também entre os camponeses e os pastores da
planície. Saía com freqüência a
cavalo, sozinho ou em companhia de seus amigos,
para caçarem e galoparem pelas Campinas,
visitando às vezes os moradores do sopé da
serra distante.
Quando tinha
dezesseis anos partiu um dia numa dessas excursões,
não tornando, porém. Nunca mais voltou ao seu
lar.
De início, não atribuiu o Rei Tros grande
importância ao fato, pois Ganimedes passava com
freqüência uma ou duas noites fora de casa,
pousando ao relento ou em casa de amigos;
quando, porém, transcorreram quatro ou cinco
dias sem que se tivesse notícia do jovem príncipe,
começou o rei a preocupar-se, enviando
mensageiros à sua procura.
Ganimedes, todavia, não foi encontrado em parte
alguma. Um homem que acabava de chegar contou
que vira uma grande águia voar para o cume do
Monte Ida, levando em suas garras um mancebo
parecido com o príncipe. Como supusessem,
alguns, que os deuses habitavam no alto das
montanhas, logo deduziram que Ganimedes fora
raptado pelos deuses, por causa de sua grande
beleza, para servi-los à mesa.
O Rei Tros, contudo, permanecia incrédulo.
Sabia que não longe do Monte Ida, além dos
confins de seu reino, vivia um rei chamado Tântalo,
cujos antepassados tinham reinado na Frigia,
antes de Dárdano vir de longe para se
estabelecer na grande planície. No início,
os frígios fizeram grandes esforços para
expulsar Dárdano e seu povo, e foi devido em
grande parte às constantes incursões em seu
território que o Rei Tros construíra a cidade
fortificada de Tróia. Estava, pois, o Rei
Tros convencido de que seu filho Ganimedes fora
capturado por um bando de frígios e por eles
seqüestrado. Assim sendo, enviou um
mensageiro ao
Rei Tântalo, exigindo a devolução de seu
filho Ganimedes.
O Rei Tântalo, que era homem de maus bofes e
rancoroso, descendente de uma estirpe de
guerreiros, observava com inveja a prosperidade
crescente do Rei Tros, e viu naquela mensagem a
oportunidade de conquistar pelas armas o que
seus súditos não podiam adquirir pelo
trabalho. Mandou, em conseqüência,
resposta provocadora ao seu vizinho. O Rei
Tros, mais que nunca convencido de que seu filho
fora
raptado, reuniu seu povo e preparou-se para
invadir a Frigia.
Talvez porque até então fizera o Rei Tros o
possível para preservar a paz, não atacando
nunca as outras nações, antevia, o Rei da
Frigia, fácil vitória, pois comandava um povo
de natureza belicosa. Não contava, porém, com
o amor que os súditos do Rei Tros dedicavam ao
Príncipe Ganimedes, e a cólera de que se
encheram quando acreditaram no seu rapto.
Quando as duas nações se defrontaram no campo
de batalha, por conseguinte, o resultado foi
muito diverso daquele que o Rei Tântalo
previra. O povo de Dardânia levou tudo de
vencida. Os frígios foram completamente
derrotados, e tão gravemente ferido o Rei, que
ele sentiu estar às portas da morte. Chamou então
à sua presença seu filho
primogênito, Pélops.
- Meu filho, disse ele, os fados nos foram contrários
e receio que meu reino nunca se restabeleça
deste desastre. Reconheço que o Rei Tros
tem em suas mãos o poder de dominar toda a Frígia.
Em vista disto, peço-lhe, meu filho, que parta
em busca de novo lar para você e aqueles que o
quiserem acompanhar, porque se permanecer aqui,
não será mais do que um rei vassalo. Na
verdade não havia outra alternativa para o Príncipe
Pélops e seu povo, visto que os troianos
vitoriosos arrebanhavam suas manadas,
incendiavam suas searas e seus lares e invadiam
seus celeiros.
Em conseqüência, escondeu-se no mato com os
poucos companheiros que lhe restavam, levando
consigo seu pai agonizante. Quando passou
todo perigo, conduziu seu bando para o litoral,
onde se empenhou com afinco na construção de
pequena frota.O Rei Tântalo faleceu antes de
terminada sua construção, tendo o filho que
tanto o amara lamentado profundamente sua morte.
Como nunca ouvira
falar em Ganimedes, antes daquela mensagem vinda
de Tróia, Pélops estava convencido de que o
Rei Tros inventara aquele pretexto para invadir
a Frigia. Sobre o túmulo do pai jurou eterna
inimizade à gente de Tróia e de Dardânia,
que não somente lhe roubara o pai, mas também
a herança, obrigando-o a se expatriar em
completa indigência para outras plagas, à
procura de novo lar.
Para onde se dirigir? No oriente, ao longo
do litoral sul do Mar Negro, as terras eram
acidentadas, agrestes e cheias de perigos.
Mais além viviam os ferozes e cruéis hititas,
cujo sangue corria em suas próprias veias; ao
sul, muito além das montanhas, moravam os
belicosos assírios. Não era para aqueles
lados que Pélops volvia o olhar, senão para o
ocidente onde, além dos mares salpicados de
ilhas, se estendiam as férteis e aprazíveis
terras da Grécia. Foi para oeste que seu
povo assestou as proas de seus barcos, ao
deixarem para sempre os lares de seus
antepassados.
Naquelas épocas remotas, na alvorada, dos
tempos históricos, não existiam mapas nem
fronteiras, nem livros, nem ciência.
Pouco se sabia do mundo exterior e de tudo o que
existia fora da bacia do mar, que denominamos
Mediterrâneo. Também não sabiam muito,
a respeito uns dos outros, os povos que
habitavam o litoral. Constituía, pois,
grande aventura para Pélops e seus
companheiros, navegarem para oeste ao longo das
costas da Frígia e da Dardânia, através do
estreito canal hoje em dia chamado Dardanelos
(podem verificar como este nome relembra o rei
que na remota. antigüidade fundou a nação
troiana) e rumo ao sul, ao longo da costa
oriental do Grande Mar. Eram escassas as populações
daquele mundo primitivo. Excetuando-se
alguma cidade ou algum porto aqui e acolá,
bastante fortes para resistirem aos ataques dos
piratas
ou dos corsários do mar, apresentavam-se
desertas e agrestes as costas do Mediterrâneo.
Era raro encontrar, Pélops, em sua peregrinação,
alguém que o pudesse informar do que existia além
da terra mais próxima, e, menos ainda, além do
horizonte.
Tampouco podiam seus barcos escolher
livremente as rotas que singravam,
como fazem os navios de hoje. Eram
pequenos, lentos e toscos, com uma única vela
a, meia-nau, que só podia ser utilizada quando
soprava o vento pela popa. Tinham bancos
para os remadores, grandes remos presos aos balaústres
da amurada por eslingas de couro. Remar
era, porém, trabalho ingrato e cansativo,
preferindo os nautas esperar que o vento
soprasse de novo, a manejar aqueles remos
pesados, a menos que houvesse calmaria. Pélops
não tinha pressa. Sua nau seria a sua
casa, enquanto não arranjasse outra melhor.
Durante a noite, acampavam os tripulantes em
terra, firme, onde geralmente conseguiam matar
uma ou outra caça, um veado ou uma cabra
selvagem, com que se alimentavam.
Assim, velejou ele lentamente rumo ao sul e, em
seguida, de ilha em ilha para oeste, até
atingir enfim o sul da grande península grega,
que foi mais tarde e ainda é até hoje chamada
Peloponeso, em sua memória. Contudo, as
semanas e os meses empregados em viajar, em
conhecer novas gentes e terras estranhas não
conseguiram aplacar, em seu coração, o
profundo ódio que votava ao Rei Tros e ao seu
povo, por terem roubado a vida a seu pai e
expulsado a ele de sua terra natal.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior