Lemos
em O LIVRO DE OURO DA MITOLOGIA, de Thomas
Bulfinch (ediouro, 2000) o seguinte texto sobre
o dilúvio, na concepção dos gregos de
antigamente:
"Estando
assim povoado o mundo, seus primeiros tempos
constituíram uma era de inocência e ventura,
chamada a Idade de Ouro. Reinavam a verdade e a
justiça, embora não impostas pela lei, e não
havia juízes para ameaçar ou punir. As
florestas ainda não tinham sido despojadas de
sua árvores para fornecer madeira aos navios,
nem os homens haviam construído fortificações
em torno de suas cidades. Espadas, lanças, ou
elmos eram objetos desconhecidos. A terra
produzia tudo necessário para o homem, sem que
este se desse ao trabalho de lavrar ou
colher.Vicejava uma primavera perpétua, as
flores cresciam sem sementes, as torrentes dos
rios eram de leite e de vinho, o mel dourado
escorria
dos carvalhos. Seguiu-se a Idade da Prata,
inferior à de Ouro, porém melhor do que a de
Cobre. Júpiter reduziu a primavera e dividiu o
ano em estações. Pela primeira vez o homem
teve de sofrer os rigores do calor e do frio, e
tornaram-se necessárias as casas. As primeiras
moradas foram as
cavernas, os abrigos das árvores frondosas e
cabanas feitas de hastes. Tornou-se necessário
plantar para colher. O agricultor teve de semear
e de arar a terra, com a ajuda do boi. Veio, em
seguida, a Idade de Bronze, já mais agitada e
sob a ameaça das armas, mas ainda não
inteiramente má. A pior foi a Idade do Ferro. O
crime irrompeu, como uma inundação; a
modéstia, a verdade e a honra fugiram, deixando
em seus lugares a fraude e a astúcia, a
violência e a insaciável cobiça. Os
marinheiros estenderam as velas aos ventos e as
árvores foram derrubadas nas montanhas para
servir de quilhas dos navios e ultrajar o face
do oceano. A terra, que até então fora
cultivada em comum, começou a ser dividida
entre os possuidores. Os homens não se
contentaram com o que produzia a superfície;
escavou-se então a terra e tirou-se do seu seio
os minérios e metais. Produziu-se o danoso
ferro e o ainda mais danoso ouro. Surgiu a
guerra, utilizando-se de um e de outro como
armas; o hóspede não se sentia mais em
segurança em casa de seu amigo; os genros e
sogros, os irmãos e irmãs, os maridos e
mulheres não podiam confiar uns nos outros. Os
filhos desejavam a morte dos pais, a fim de lhes
herdarem a riqueza; o amor familiar caiu
prostrado. A terra ficou úmida de sangue, e os
deuses a abandonaram, um a um, até que ficou
somente Astréia [1], que, finalmente, acabou
também partindo.
Vendo aquele estado de coisas, Júpiter
indignou-se e convocou os deuses para um
conselho. Todos obedeceram à convocação e
tomaram o caminho do palácio do céu. Esse
caminho pode ser visto por qualquer um nas
noites claras, atravessando o céu, e é chamado
de Via Láctea. Ao longo dele ficam os palácios
dos deuses ilustres; a plebe celestial vive à
parte, um lado ou de outro. Dirigindo-se à
assembléia, Júpiter expôs as terríveis
condições que reinavam na Terra e encerrou
suas palavras anunciando a intenção de
destruir todos os seus habitantes e fazer surgir
uma nova raça, diferente da primeira, que seria
mais digna de viver e saberia melhor cultuar os
deuses. Assim dizendo, apoderou-se de um raio e
estava prestes a atirá-lo contra o mundo,
destruindo-o pelo fogo, quando
atentou para o perigo que o incêndio poderia
acarretar para o próprio céu (*lembram-se de
Faetonte?*). Mudou, então, de idéia e resolveu
inundar a terra. O vento norte, que espalha as
nuvens, foi encadeado; o vento sul foi solto e
em breve cobriu todo o céu com escuridão
profunda. As nuvens, empurradas em bloco,
romperam-se com fragor; torrentes de chuva
caíram; as plantações inundaram-se; o
trabalho de um ano do lavrador pereceu numa
hora. Não satisfeito com suas próprias
águas, Júpiter pediu a ajuda de seu irmão
Netuno [2]. Esse soltou os rios e lançou-os
sobre a terra. Ao mesmo tempo, sacudiu-a com um
terremoto e lançou o refluxo do oceano sobre as
praias. Rebanhos, animais, homens e casas foram
engolidos e os templos, com seus recintos
sacros, profanados. Todo edifício que
permanecera de pé foi submergido e suas torres
ficaram abaixo das águas. Tudo se transformou
em mar, num mar sem praias. Aqui e ali, um
indivíduo refugia-se num cume e alguns poucos,
em barcos, apóiam o remo no mesmo solo que
ainda há pouco o arado sulcara. Os peixes nadam
sobre os galhos das árvores; a âncora se
prende num jardim. Onde recentemente os
cordeirinhos brincavam, as focas cabriolam
desajeitadamente. O lobo nada entre as ovelhas,
os fulvos leões e os tigres lutam nas águas. A
força do javali de nada lhe serve, nem a
ligeireza do cervo. Os seres vivos que a água
poupara caem como presas da fome. De todas as
montanhas, apenas o Parnaso ultrapassa as
águas. Ali, Deucalião (*filho de Prometeu*) e
sua esposa Pirra (*filha de Epimeteu
e Pandora*), da raça de Prometeu, encontram
refúgio - ele é um homem justo, ela, uma
devota fiel dos deuses. Vendo que não havia
outro vivente além desse casal, e lembrando-se
de sua vida inofensiva e de sua conduta piedosa,
Júpiter ordenou aos ventos do norte que
afastassem as nuvens e mostrassem o céu à
terra e a terra ao céu. Também Netuno ordenou
a Tritão[3] que soasse sua concha determinando
a retirada das águas. As águas obedeceram; o
mar voltou às suas costas e os rios, aos seus
leitos. Deucalião assim se dirigiu, então, à
Pirra: "Ó esposa, única mulher
sobrevivente, unida a mim primeiramente pelos
laços do parentesco e do casamento, e agora por
um perigo comum,
pudéssemos nós possuir o poder de nosso
antepassado Prometeu e renovar a raça, como ele
fez, pela primeira vez! Como não podemos,
porém, dirijamo-nos àquele templo e indaguemos
dos deuses o que nos resta fazer." Entraram
num templo coberto de lama e aproximaram-se do
altar, onde nenhum fogo crepitava. Prostraram-se
na terra e rogaram à deusa que os esclarecesse
sobre a maneira de se comportar naquela
situação miserável. "Saí do templo com
a cabeça coberta e as vestes desatadas e atirai
para trás os ossos de vossa mãe" -
respondeu o oráculo. Estas palavras foram
ouvidas com assombro. Pirra foi a primeira a
romper o silêncio: "Não podemos obedecer;
não vamos nos atrever a profanar os restos de
nossos pais." Seguiram pela fraca sombra do
bosque, refletindo sobre o oráculo. Afinal,
Deucalião falou: "Se minha sagacidade não
me ilude, poderemos obedecer à ordem sem
cometermos qualquer impiedade. A terra é a mãe
comum de todos nós; as pedras são seus ossos;
poderemos lançá-las para trás de nós; e
creio ser isto que o oráculo quis dizer. Pelo
menos, não fará mal tentar." Os dois
velaram o rosto, afrouxaram as vestes, apanharam
as pedras e atiraram-nas para trás. As pedras
(maravilha das maravilhas!) amoleceram e
começaram a tomar forma. Pouco a pouco, foram
assumindo uma grosseira semelhança com a forma
humana, como um bloco ainda mal acabado nas
mãos de um escultor. Aumidade e o lodo que
havia sobre elas transformaram-se em carne; a
parte pétrea transformou-se nos ossos; as veias
ou veios de pedra continuaram veias, conservando
seu nome e mudando apenas sua utilidade. As
pedras lançadas pelas mãos do homem
tornaram-se homens. as lançadas pela mulher
tornaram-se mulheres. Era uma raça forte e bem
disposta para o trabalho como até hoje somos,
mostrando bem a nossa origem."
Pode
parecer surpreendente a semelhança desta
história com a lenda de Nóe (o Dilúvio
bíblico) mas saiba o leitor que o mito do
dilúvio se repete em muitas culturas como a
babilônica (Gilgamesh); a chinesa; a azteca; a
hindú; a maia, etc.
[1]Deusa
da inocência e da pureza. Depois de sair da
Terra, foi colocada entre as estrelas, onde se
transformou na constelação Virgo. Era filha de
Têmis (Justiça), representada com uma
balança, em que pesa as alegações das partes
adversárias. Uma idéia favorita dos antigos
poetas era a de que aquelas deusas um dia
regressarão à Terra, trazendo de volta a Idade
do Ouro.
[2] deus do Mar.
[3] deus marinho
[adaptação
de MOACIR ÍNDIO DA COSTA JÚNIOR - 11 de abril
de 2002]