"Esculápio, filho de Apolo, foi dotado por seu
pai de tal habilidade
na arte de curarque chegava a restituir a vida aos mortos.
Plutão (Hades) alarmou-se
com isso e
conseguiu que Júpiter (Zeus) o fulminasse com um
raio. Apolo,
indignado com a
morte do filho, tratou de vingar-se nos
inocentes trabalhadores que
haviam construído o raio. Eram os ciclopes, que
tinham sua oficina sob o
Monte Eta, do
qual estão constantemente saindo as chamas e a
fumaça provindas
daquela oficina.
Apolo desfechou suas flechas contra os ciclopes,
o que irritou Júpiter
a tal ponto que
o condenou a tornar-se servo de um mortal,
durante um ano. Assim,
Apolo foi servir
a Admeto, Rei da Tessália, tomando conta de seus
rebanhos, nas
verdejantes
margens do Rio Afrisos.
Admeto era um dos pretendentes à mão de Alcestes,
filha de Pélias, que
a prometera
àquele que a fosse procurar num carro puxado por
leões e javalis.
Admeto executou
uma tarefa, com a ajuda de seu divino pastor, e
foi premiado com
Alcestes. Admeto,
porém, adoeceu e, estando às portas da morte,
Apolo conseguiu que as
Parcas o
poupassem, com a condição de que alguém se
dispusesse a morrer em seu lugar.
Muito alegre com essa esperança, Admeto não se
preocupou muito com o
resgate,
talvez se lembrando dos protestos de dedicação
que ouvira muitas vezes
da boca dos
cortesãos e dos servos. Pensou que seria muito
fácil encontrar um
substituto. Tal não
se deu, porém. Guerreiros valentes, que, de boa
vontade, arriscavam a
vida por seu
príncipe, recuavam ante a idéia de morrer por
ele num leito de
enfermo, e os servos
que lhe deviam benefícios e que se encontravam a
serviço de sua casa
desde a infância não se dispunham a sacrificar
os poucos dias que lhes
restavam para mostrar sua gratidão.
"Por que um de seus pais não se sacrifica?"
perguntavam.
"De acordo com as leis da natureza, eles não
poderão viver muito mais
e quem estará mais indicado que eles para
resgatar uma vida a que deram
origem?"
Os pais, contudo, por mais pesarosos que
estivessem ante a iminência
de perder o filho, não atendiam ao apelo para
salvá-lo.
Então, Alcestes, com admirável abnegação,
ofereceu-se como substituta.
Admeto, por mais amor que tivesse à vida, não
desejava mantê-la a tal custo,
mas não havia remédio. A condição imposta pelas
Parcas fora satisfeita e o
decreto era irrevogável. Alcestes adoeceu, ao
passo que Admeto se
restabelecia, e aproximava-se rapidamente da
sepultura.
Justamente nessa ocasião, Hércules chegou ao
Palácio de Admeto e
encontrou todos os moradores pesarosíssimos,
ante a iminência da morte da
dedicada esposa e querida senhora. Hércules,
para quem não havia trabalho
bastante árduo, resolveu tentar salvar a rainha.
Ficou na porta do seu
quarto e, quando a Morte chegou à procura de sua
presa, agarrou-a e
obrigou-a a desistir de sua vítima. Alcestes
restabeleceu-se e foi
restituída ao marido.
Milton faz alusão à Alcestes em seu "Soneto
sobre a esposa morta":
Tive a impressão de ver minha esposa querida
Voltando a consolar a minha desventura,
Como Alcestes também roubada à sepultura
Pelo filho de Jove, pálida e abatida."
Thomas Bulfinch em O LIVRO DE OURO DA MITOLOGIA,
Ediouro, 2000
adaptado por
Moacir Índio da Costa Júnior
2003