PÁGINA DE MITOLOGIA




"Let us first make an announcement to the gods, saying that we are not going to investigate about them, for we do not claim to be able to do that." [Socrates, 469-399 BC. Plato, Cratylus 401a]

"Façamos primeiramente uma declaração aos deuses dizendo que não os iremos investigar, porque não temos a pretensão de sermos capazes de fazer isso." [Sócrates, 469-399 AC, Crátilo 401a]
 

MYTHOLOGIA GREGA

Considerações geraes

"Os Gregos não constituiam uma raça pura; foram formados por uma combinação de raças diversas, entre as quaes os Mediterraneos (cretenses e mycenianos) e os Nordicos (dorios, eolios, jonios e acheus). Estes últimos impuzeram sua lingua, o mesmo não acontecendo, pelo menos de maneira completa e absoluta, no concernente à religião. Vamos assim encontrar na mythologia grega uma mistura de divindades mediteraneas e nordicas, não sendo muito facil distinguir umas das outras. Fosse possível decifrar as inscripcões cretenses, muito provavelmente semelhante tarefa seria, quando menos, extraordinariamente facilitada, porquanto ellas nos poderiam elucidar sobre a influencia da religião minoana sobre a mythologia da Grecia.
(*nota do adaptador: as inscricões denominadas Escrita Linear
B ja foram traduzidas ...)

Além disso, soffreu a mythologia grega a influencia dos mythos dos povos orientaes, com quem os gregos tiveram relações de commercio, e, principalmente, dos povos da Asia Menor, cujas costas, como sabemos, foram colonizadas pelos gregos, povos esses que, embora não fossem semitas, soffreram, por sua vez, o ascendente dos grandes imperios orientaes dessa raça. Finalmente, os gregos tiveram não só uma consideravel mythologia, como também um grande conjuncto de lendas épicas, sendo muito diffícil de saber onde cessam os episodios puramente épicos e os mythos começam. Por essa razão, nesse pequeno e despretencioso trabalho, dividiremos o apanhado sobre a mythologia grega em duas partes, estudando na primeira dellas, os deuses e na segunda os semi-deuses e os heróes."

Trecho extraído da obra de Mario Guedes Naylor, "Pequena Mythologia"
F. Briguiet e cia. editores, Rio de Janeiro, 1933.
 

I - Os deuses

"Os gregos, com a sua poderosa imaginação poética, povoaram de deuses não só toda a natureza física, como também o mundo intelectual e moral.

A sua religião e a sua mitologia eram, pelo menos durante o período histórico, antropomórficas. Possivelmente, em épocas anteriores, haviam os gregos adorado animais, plantas e até pedras, mas, na época histórica, eram as divindades concebidas sob a forma de seres humanos.

Talvez por uma sobrevivência dessas épocas anteriores figuravam em muitos mitos gregos entidades que se revestem de formas diferentes da humana, mas eram elas consideradas como monstros e não como verdadeiros deuses e em todos ou quase todos esses mitos o papel preponderante era desempenhado por seres divinos, aos quais se emprestava a forma humana.

Esses deuses estavam, na verdade, isentos e livres da maior parte das misérias que afligem a humanidade, como a morte e a velhice, mas possuíam, no entanto, e em grau mais elevado, tanto as virtudes como os defeitos e as paixões dos homens.

Eram naturalmente muito mais fortes e poderosos do que estes; regiam o mundo físico, dirigindo os elementos e os fenômenos da natureza, e também o domínio das idéias morais, sociais e políticas, vigiando as relações dos indivíduos, presidindo à formação dos seus diversos agrupamentos, orientando as várias manifestações da atividade social.

Todas as divindades, porém, quer as que personificavam os fenômenos físicos, quer as que representavam idéias morais, sociais e políticas, possuíam uma personalidade precisa, distinta da atividade que dirigiam; para isso concorreram, de maneira intensa e forte, a poesia e as artes plásticas.

Para o grego a vida humana, em todas as suas vicissitudes, estava submetida à ação dessas inúmeras divindades, concebidas sob a forma de seres humanos.

A indiferença dos deuses pelo destino dos homens foi apenas uma teoria filosófica, emitida por Epicuro [1] e seus discípulos; o sentimento religioso inspirava a crença da participação deles nos prazeres e nas tristezas da humanidade.

Essa participação não era sempre favorável, nem tampouco desfavorável ao homem.

É incontestável que muitos mitos emprestam às divindades sentimentos e atos hostis quer ao gênero humano em sua totalidade, quer a alguns indivíduos particulares; essa atitude era provocada pelo sentimento de inveja que os gregos atribuíam aos deuses.

Por outro lado, em muitos outros mitos, os seres divinos eram benevolentes para com a humanidade, protegendo os indivíduos, socorrendo as cidades e os povos.

Essas atitudes dos deuses eram idênticas às observadas pelos seres humanos em suas mútuas relações, porquanto nutriam eles os mesmos sentimentos e as mesmas paixões dos homens, com a simples diferença de que, sendo mais poderosos, as ações resultantes de seus sentimentos se manifestavam com mais intensidade.

Posteriormente, porém, os gregos atingiram a uma noção mais elevada das relações entre os homens e as divindades, com a concepção da Moira ou destino.

A Moira representava as leis naturais, a força inteligente que governa o universo, fazendo dele um conjunto harmonioso e equilibrado.

Os deuses vigiavam os homens para que eles não transgredissem essas leis, os puniam quando isso sucedia, recompensando-os caso contrário.

Um passo a mais e os espíritos superiores substituíram a noção dessa
divindade cega, a Moira, pela lei moral, atribuindo aos deuses a missão
de velar pela observância dessa lei.

Dessa concepção derivaram os deveres que a religião impunha aos homens em relação às divindades e os diversos ritos pelos quais procuravam eles agradar aos deuses."

[1] Epicuro: filósofo grego (Samos ou Atenas, 341-270 AC). Ensinava que o prazer é o bem máximo; mas, longe de o fazer consistir nos gozos materiais, Epicuro situava-o na cultura do espírito e na prática da virtude. Foi, pois, em conseqüência de uma falsa interpretação de sua doutrina que esse homem de conduta exemplar passou a ser considerado como um libertino que buscava apenas os prazeres materiais. A doutrina epicurista constitui o assunto principal de De natura rerum (Sobre a natureza das coisas) de Lucrécio.

Trecho extraído da obra de Mario Guedes Naylor, "Pequena Mythologia" F. Briguiet e cia. editores, Rio de Janeiro, 1933

 

Adaptado por MOACIR ÍNDIO DA COSTA JÚNIOR, POA,RS, 25 de abril de 2002
[PMII]

 

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