"Febo Apolo, ou simplesmente Apolo, como é
mais conhecido, é o deus benfazejo da luz; seus
atributos indicam nitidamente seu caráter
solar.
Era Apolo filho de Zeus e Leto (Latona), uma
titanide.
Sua mãe foi por muito tempo perseguida pelo ciúme
de Hera, vendo-se constrangida a vagar pelo
mundo à procura de uma terra que a acolhesse;
todas elas, porém, com receio de Hera,
recusavam-lhe hospitalidade.
Um dia passava ela perto de um pântano da Lícia
e, querendo matar a sede, foi repelida de
maneira injuriosa pelos habitantes; vingou-se
deles transformando-os em rãs e é este o
motivo pelo qual ainda hoje as rãs coaxam à
beira dos charcos.
Após haver percorrido muitas terras, chegou,
enfim, à pedregosa Delos, que Poseidon, deus do
mar, por compaixão de Leto, arrancara à
montanha e que, ao contrário das demais ilhas,
vogava à superfície das águas;
e foi ali, à sombra das árvores, que Leto deu
nascimento a duas lindas crianças: Apolo e Ártemis
(Diana).
Apenas nascido, realizou Apolo grandes feitos,
pois estava isento das fraquezas da infância.
Primeiramente pagou sua dívida de gratidão a
Delos, tornando-a imóvel e estável no meio das
Cícladas, que formam um círculo em torno dela.
Depois vingou sua mãe da perseguição que lhe
havia sido infligida, por ordem de Hera, pela
mostruosa serpente Piton, nascida do lodo da
terra.
Apolo a assaltou num vale junto ao monte Parnaso
e a matou com a primeira das flexas de sua
aljava de ouro.
Esse triunfo de um deus sobre um monstro se
encontra em todas as mitologias e simboliza o
triunfo da luz do sol sobre as nuvens
tempestuosas.
A cidade de Delfos, cujos pântanos próximos
eram particularmente infestados por essa
serpente, tornou-se desde então o santuário
favorito de Apolo, cognominado Pítico como
recordação de sua vitória, e, de quatro em
quatro anos, os chamados jogos píticos
lembravam aos habitantes de Delfos essa luta
memorável.
A serpente morta foi esfolada e sua pele serviu
para cobrir a trípode sobre a qual se sentava a
sacerdotiza de Apolo, denominada pitoniza, para
pronunciar os oráculos no santuário de Delfos.
Uma lei rigorosa proibia aos imortais a
contemplação de um cadáver e Apolo,
comtemplando o da serpente Piton, se havia
maculado; para se purificar dessa mácula teve
de se empregar como pastor, pelo espaço de nove
anos, na corte de Admeto, rei da Tessália,
expressão alegórica das provações a que o
sol parece se submeter quando a vinda
do inverno como que o reduz ao exílio e à
escravidão.
Ali, na guarda dos rebanhos de Admeto, foi Apolo
vencedor do lobo, animal dos países frios; este
triunfo significa a vitória do sol sobre o
inverno e o termo da má estação.
Deus solar, exerce Apolo sobre a vegetação a
dupla influência do sol que amadurece os frutos
da terra, mas que desseca e queima as plantas.
A concepção de Apolo como destruidor de
plantas se prende a lenda de Jacinto.
Este jovem lacônio, de extraordinária beleza,
foi amado apaixonadamente por Apolo. Um dos
deuses representativos dos ventos, Zéfiro
segundo uns ou Bóreas conforme outros, nutria o
mesmo sentimento, ficando indignado com a preferência
concedida pelo jovem a Apolo. Um dia em que
Apolo e Jacinto jogavam juntos, esse vento
soprando com
violência, desviou o disco lançado por Apolo,
fazendo-o atingir a fronte de Jacinto, que caiu
morto. Experimentou Apolo todos os seus recursos
para chamá-lo à vida, mas seus esforços foram
inúteis; transformou-o então na flor que ainda
hoje conserva o seu nome.
O disco lançado por Apolo representa os raios
solares; a flor, o jacinto, que o recebe,
desabrocha na primavera, mas quando, no verão,
ele se torna ardente fenece e morre.
A força do sol de verão, vitimando os que
imprudentemente se expõem aos seus raios, faz
de Apolo, não obstante a clara e límpida
poesia de sua lenda, não só uma divindade
guerreira, irresistível e sempre vitoriosa,
como também um deus da morte: na imaginação
popular da Grécia antiga dele provinham as
mortes súbitas.
Era Apolo considerado o causador das febres e
das epidemias, porque é na época dos grandes
calores que elas se manifestam, como que
trazidas pelo sol do verão.
Homero narra na Ilíada que, quando Agamenon
sitiava Tróia, fez certo dia prisioneira
Criseis, filha de Crisés, sacerdote de Apolo. Não
conseguindo recuperar a liberdade, invocou
Criseis o auxílio do seu deus. Indignado,
desceu Apolo do alto do Olimpo e se pôs a
atirar flexas mortíferas no acampamento grego.
Estas flexas determinaram
epidemias de peste, que somente cessaram quando
Criseis obteve satisfação.
O sol, porém, é igualmente um agente de cura e
uma fonte de vida, e por isso, o caráter
benfazejo de Apolo assume nas tradições um
desenvolvimento muito mais considerável que
suas atribuições de divindade da morte; ele é
considerado como o médico celeste que socorre a
humanidade enferma.
Neste sentido é ele considerado amante da ninfa
Coronis (a gralha, pássaro de vida longa, símbolo
da saúde) e pai de Asclépio (Esculápio), deus
da medicina.
Este último, tendo usado dos segredos de sua
arte para ressuscitar um mortal, sem o
consentimento dos deuses, caiu fulminado por
Zeus.
Apolo, furioso, não se podendo vingar do rei
dos deuses, trespassou com as suas flexas os cíclopes
que haviam forjado o raio.
Esta vingança, considerada como um atentado, fê-lo
expulso, por algum tempo, do Olimpo.
Exilado do céu e obrigado a viver sobre a
terra, refugiou-se Apolo na corte de Laomedonte,
rei de Tróia, onde, juntamente com Poseidon,
deus do mar, ajudou a construir as muralhas de
Tróia.
Não tendo recebido salário algum de
Laomedonte, os dois deuses, castigaram essa
ingratidão, enviando a esse povo uma peste que
praticou grandes devastações.
Mas, se Apolo relega a seu filho Asclépio a função
de médico do corpo, ele próprio é o médico
das almas, que cura os males morais pelas práticas
da purificação, dissipa as trevas da ignorância
e do pecado e redime os culpados.
Apolo é, por excelência, o deus salvador e a
expiação por ele
facilitada, um dos principais artigos de fé da
religião grega."
Trecho extraído da obra de Mario Guedes Naylor,
"Pequena Mythologia"
F. Briguiet e cia. editores, Rio de Janeiro,
1933.
Thomas Bulfinch, em sua obra "O Livro de
Ouro da Mitologia", Ediouro, 2000,
narra-nos o seguinte:
Latona e os camponeses
Alguns acham que, neste caso, a deusa foi mais
severa que justa, enquanto outros louvam sua
conduta, como rigorosamente de acordo com seu
recato virginal. Como sempre, um acontecimento
recente traz ao espírito outro mais antigo e um
dos que ouviram o episódio contou esta história:
"Alguns camponeses da Lícia insultaram,
certa vez, a deusa Latona, mas não impunemente.
Quando eu era jovem, meu pai, que estava velho
demasiadamente para certos trabalhos, mandou-me
à Lícia, para de lá trazer um rebanho de gado
selecionado e ali tive ocasião de ver o lago e
os pântanos onde se passou o maravilhoso
acontecimento. Perto fica um pequeno altar,
enegrecido pela fumaça dos sacrifícios e quase
escondido entre os juncos. Indaguei que altar
seria aquele, se dos Faunos ou das Náiades, ou
de algum deus das montanhas vizinhas, e um
habitante da região respondeu-me:
- Nenhum deus da montanha ou de rio possui este
altar, mas sim aquela a quem a real Juno, em seu
ciúme, expulsou de terra em terra, negando-lhe
um recanto qualquer onde pudesse criar os Gêmeos.
Trazendo em seus braços as divindades
infantes, Latona chegou a esta terra, cansada
e sedenta. Por acaso, viu, no fundo do vale,
esta lagoa de águas claras, onde a gente da
região trabalha, colhendo o junco e o vime. A
deusa aproximou-se e, ajoelhando-se à margem da
lagoa, ia saciar a sede em suas água, mas os rústicos
a impediram que o fizesse.
- Porque me recusais a água? - indagou. - A água
pertence a todos. A natureza não permite que
ninguém reclame direitos de posse sobre a luz
do sol, o ar ou a água. Venho compartilhar do
meu direito a um bem
comum. Peço-vos, no entanto como um favor. Não
pretendo lavar nelas meus membros, por mais
extenuada que esteja, mas apenas matar minha
sede. Tenho a boca tão seca, que mal consigo
falar. Um gole de água será o néctar para
mim; há de reviver-me, e ser-vos-ei grata como
pela própria vida. Possam estas crianças, que
estendem os bracinhos, como que pedindo por mim,
mover-vos à piedade!
Realmente, as crianças, enquanto ela falava,
estendiam os bracinhos.
Quem não se comoveria com estas ternas palavras
da deusa? Mas aqueles rústicos persistiram em
sua rudeza; chegaram a acrescentar insultos e
ameaças de violência se ela não abandonasse o
local. E não se limitaram a isso. Entraram na
lagoa e agitaram a lama com os pés,
de maneira a tornar a água imprópria para ser
bebida. Latona sentiu-se indignada a tal ponto
que nem mais pensou na sua sede. Já não
implorava aos rústicos, mas, levantando os braços
para o céu, exclamou:
- Possam eles jamais deixar esta lagoa, mas
passar nela suas vidas!
E isto aconteceu. Eles agora vivem na água, às
vezes inteiramente submergidos, outras vezes
levantando as cabeças à superfície ou nela
nadando. Às vezes, saem para a margem da
lagoa, mas logo pulam de novo para dentro d'água.
Ainda continuaram a usar suas vozes de vilões
nos vitupérios e , embora a água os cubra
todos, não se
envergonham de coaxar no meio dela. Sua voz
tornou-se rude, a garganta intumesceu, a boca
distendeu-se com o constante coaxar, os pescoços
encolheram-se e desapareceram e a cabeça se
juntou ao corpo. As costas
tornaram-se verdes, o ventre desproporcionado,
branco, em resumo, eles são agora rãs e moram
na lamacenta lagoa."
Este episódio explica a alusão em um dos
sonetos de Milton "Sobre as calúnias que
se seguiram à redação de certos
tratados":
Ante os asnos e os cães, raças malsãs,
Que visavam, rastejando como um verme
Nada mais fiz que confiar na História.
Também a raça transformada em rãs
De Latona insultou a prole inerme,
Que a lua e o sol depois regeu em glória.
O episódio, como se viu, alude à perseguição
sofrida por Latona da parte de Juno. A tradição
contava que a futura mãe de Apolo e Diana,
fugindo da ira de Juno, andou por todas as ilhas
do Mar Egeu, procurando um lugar de repouso, mas
todos temiam demasiadamente a poderosa rainha do
céu para proteger sua rival. Somente Delos
concordou em se tornar o berço das futuras
divindades. Delos era, então, uma ilha
flutuante, mas, quando Latona ali chegou, Zeus
prendeu-a com cadeias fortíssimas ao fundo do
mar, de maneira que pudesse tornar-se um abrigo
seguro para os seus bem-amados.
Byron alude a Delos em seu "Don Juan":
Verdes ilhas da Grécia! Ilhas da Grécia!
Onde amou e cantou a ardente Safo,
Onde a arte nasceu, na paz e guerra,
Onde Delos se ergueu e ergue-se Febo!"
[adaptado por MOACIR ÍNDIO DA COSTA JÚNIOR,
POA,RS, 30 de julho de 2002]
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