"Filha de Chronos e Rhéa, irmã e esposa
de Zeus, Hera (Juno) é a grande divindade
feminina do céu, do qual Zeus é o grande deus
masculino. Seus atributos correspondem quase
exatamente aos de Zeus, embora revestidos, por
se tratar de uma deusa, de forma mais branda.
Os poetas no-la representam dotada de uma beleza
austera e grave, de grandes olhos calmos e
modestos, e , principalmente, de braços
brancos, roliços e formosos, que constituiam o
seu principal atributo físico.
As núpcias de Zeus e Hera foram celebradas na
ilha de Creta, próximo ao rio Thereno. Para
torná-las mais solenes, foram convidados todos
os deuses e semi-deuses. Atenderam todos ao
convite, com a exceção da ninfa Cheloné, que
chegou atrasada devido às sandálias lhe
machucarem os pés. Juno, indignada com este
atraso e atribuindo-a a pouco caso com o
casamento, transformou a ninfa em tartaruga.
Hera foi exemplarmente casta e fiel a seu
esposo, sendo
venerada como o símbolo da fidelidade conjugal.
Esta virtude se realça na lenda de Ixion, rei
dos Lápitas, o qual, convidado a participar do
banquete celeste, ousou cortejar a rainha dos
deuses. Ela, porém, advertiu seu marido e este,
para provar a má fé do hóspede, forjou com
uma nuvem uma figura idêntica à de Hera e
surpreendeu Ixion enlaçando amorosamente a
nuvem e dizendo palavras ternas. Para castigar
este gesto insensato, Zeus atirou Ixion aos
infernos, onde ele foi amarrado por cordas
feitas de serpentes a uma roda que gira
incessantemente.
Este atributo moral tornou Hera a protetora das
mulheres
casadas, motivo pelo qual recebeu o nome de Hera
Gamelios; e daí, por extensão, igualmente
protetora dos partos e dos recém-nascidos.
Além disso, ela velava pelos deveres dos filhos
para com os pais, principalmente para com a mãe.
Uma lenda, contada por Heródoto, nos mostra
como ela sabia recompensar a piedade filial.
A sacerdotisa de um templo de Hera, na Argólida,
tinha dois
filhos, Cleobis e Bitão. Devia ela, como exigia
o ritual, se dirigir de carro para o altar, mas
à hora da cerimônia os bois ainda não haviam
voltado do pasto. Vendo sua mãe aflita, Cleobis
e Bitão se atrelaram ao carro e puxaram até o
templo. Orgulhosa do gesto de seus filhos, o
qual provocara o aplauso geral de toda a população
e a particular inveja das mulheres, pediu a
sacerdotisa que Hera lhes concedesse como
recompensa aquilo que os deuses podiam dar de
melhor aos homens. No dia seguinte Cleobis e Bitão
morreram. Esta lenda melancólica significa ser
a vida uma provação e a morte um favor dos
deuses.
Zeus e Hera não viviam, no entanto, em boa
harmonia; são, ao contrário, célebres as
querelas que frequentemente irrompiam entre
eles. Por mais de uma vez foi Juno espancada e
maltratada por seu esposo, devido ao seu gênio
obstinado e ao seu humor azedo.
Estas querelas são alegorias para representar
as perturbações atmosféricas. Assim, enquanto
Zeus seria o ar puro e o firmamento sereno, Hera
seria a atmosfera carregada, obscura e ameaçadora.
Eram estas rusgas as mais das vezes, provocadas
pelas infidelidades de Zeus, que exercitavam o
ciúme e o ódio de Hera.
De uma feita, enfurecida, jurou ela abandoná-lo
e, deixando o Olimpo, retirou-se para a ilha de
Eubéa. Após uma longa espera, começou Zeus a
sentir saudades dela, mas, não querendo
abaixar-se a lhe implorar perdão, urdiu um
estratagema para fazê-la voltar. Assim, fez
espalhar
que ele iria desposar uma bela ninfa, com a qual
ele iria percorrer de carro a ilha. Preparou,
então, um fantoche de madeira, cobriu-o de
ricas roupagens e jóias e colocou-o na assento
de um magnífico carro. Hera, que ouvira falar
do novo casamento de Zeus, vai, inflamada de
indignação, ao encontro de sua rival e,
avistando-a, sobre ela se atira,
furiosa, lacerando-lhe as roupas. Aparece então
o lenho nú e, em meio a grandes risadas,
celebraram os deuses a sua reconciliação.
Hera, que experimentava pelas mulheres
inconscientes e culpadas uma profunda aversão,
perseguiu ferozmente, não só as concubinas de
Zeus, como também os filhos nascidos desses
amores.
Ao contrário de Zeus, não se origina Hera da
mitologia ariana, como o comprova a etimologia
até hoje impenetrável do seu nome.
Há quem pretenda encontrar nas discórdias do
casal olímpico um reflexo do lar de algum
invasor ariano, que se tenha consorciado com uma
mulher do povo vencido.
Se, posteriormente, foi Hera identificada com
Zeus, como deusa do céu, primitivamente
representava a Terra-Mãe.
Confirmam essa suposição a fato dela ser a
deusa propícia aos nascimentos e,
principalmente, o seu característico
"casamento sagrado" com Zeus.
Hera inspirava uma veneração misturada de
temor e seu culto era quase tão solene e
difundido quanto o de Zeus, sendo principalmente
adorada nas cidades de costumes austeros: Argos,
que parece ter sido o centro primitivo, Micenas,
Esparta. Inimiga dos costumes dissolutos da Ásia,
protegeu constantemente os gregos durante a
Guerra de Tróia.
nota: esta guerra será contada em episódios
mais adiante.
A vítima de ordinário imolada em sua honra era
uma ovelha ainda muito jovem, mas, no primeiro
dia de cada mes, imolava-se uma porca; nunca se
sacrificavam vacas, porque tinha sido sob a
forma desse animal que ela se escondera no
Egito, por temor do monstruoso Typhão.
O tipo de Hera foi fixado por uma admirável estátua
de ouro e mármore, que, no templo de Argos,
tinha sido esculpida por Policleto de Licyone,
contemporâneo de Fídias; infelizmente, não se
conhece essa estátua, senão por uma descrição
deixada pelo autor grego Pausânias.
Seus traços são de uma mulher robusta, já
completamente formada mas ainda jovem, sentada
sobre um trono, segurando com uma das mãos uma
semente de romã, símbolo da fecundidade, e com
a outra o cetro encimado
por um cuco, pássaro símbolo da vegetação
primaveril."
Trecho extraído da obra de Mario Guedes Naylor,
"Pequena Mythologia"
F. Briguiet e cia. editores, Rio de Janeiro,
1933.
nota:
Alexandre A. Mattiuzzi em sua
"Mitologia ao alcance de todos", Nova
Alexandria, 2000, nos esclarece o seguinte:
Via Láctea - esse nome dado à galáxia onde se
encontra o nosso sistema solar deve-se
justamente ao que os antigos gregos acreditavam
ser a parte visível dela no céu escuro: uma
longa mancha branca de leite espirrado do seio
divino da deusa Hera. Fica claro por que Via Láctea
é o mesmo que "caminho do leite".
Hoje sabemos que a grande mancha
é na verdade uma parte das cerca de 100 bilhões
de estrelas que formam a nossa galáxia.
nota final: algumas das histórias de Juno e
suas rivais serão contadas em outras Páginas
de Mitologia.
[adaptado por MOACIR ÍNDIO DA COSTA JÚNIOR,
POA,RS, 08 de julho de 2002]
[PMXI]