Definição
encontrada no Dicionário Michaelis (versão
eletrônica UOL):
mi.to
s. m. 1. Fábula que relata a história dos
deuses, semideuses e heróis da Antiguidade
pagã.
2. Interpretação primitiva e ingênua do mundo
e de sua origem.
3. Coisa inacreditável.
4. Enigma.
5. Utopia.
6. Pessoa ou coisa incompreensível.
deus
s. m.
1 O ser supremo; o espírito infinito e eterno,
criador e preservador do Universo; divindade.
2 Cada uma das divindades masculinas do
politeísmo.
he.rói
s. m.
1. Mit. gr. Denominação dada aos descendentes
de divindades e seres humanos da era
pré-homérica (semideuses).
2. Homem que se distingue por coragem
extraordinária na guerra ou diante de outro
qualquer perigo.
3. O protagonista de qualquer aventura
histórica ou drama real. Fem.: heroína.
mi.to.lo.gi.a
s. f.
1. Descrição geral dos mitos.
2. Estudo dos mitos.
3. História dos mistérios, cerimônias e culto
com que
os pagãos reverenciavam os seus deuses e
heróis.
"Desde
os tempos mais antigos, povos de todo o mundo
criaram histórias de deuses e de deusas, de
criaturas fabulosas e de lugares misteriosos,
além de relatos sobre os feitos de heróis e
heroínas - sempre com o objetivo de explicar os
mistérios da vida."
"Contados,
repetidos e em evolução constante através das
gerações, os mitos que conhecemos hoje formam
um elo vivo com o surgimento da Terra e as
origens da Humanidade."
Philip
Wilkinson em O LIVRO ILUSTRADO DA MITOLOGIA,
Publifolha, 2001.
Agora,
vamo-nos ater à obra de Mario Guedes Naylor,
"Pequena Mythologia" F. Briguiet e
cia. editores, Rio de Janeiro, 1933, para
começar a nossa "odisséia", apesar
da ortografia já em desuso.
I.
MYTHOLOGIA INDO-EUROPEA
Os
povos aryanos, ou indo-europeus (gregos,
romanos, celtas, germanos, slavos e indús)
falavam outrora a mesma lingua e habitavam as
mesmas regiões. Anteriormente à sua
separação elles se entregavam à caça e à
criação, mas já praticavam, embora
rudimentarmente, a agricultura;
participavam com certeza das mesmas idéias e
dos mesmos costumes religiosos, embora seja
difficil precisar o numero de divindades que
veneravam. Os primitivos aryanos adoravam os
espíritos dos mortos e as divindades da
natureza; já haviam conferido ao carvalho um
caracter sagrado, delle fazendo uma divindade da
força expansiva da vegetação; consideravam o
hydromel como uma bebida dos deuses e admittiam,
nos seus mythos, relações frequentes entre os
deuses
e os homens e até mesmo a incarnação de uma
divindade. Quanto às divindades que os aryanos
conheceram antes de sua separação e aos mythos
a ellas referentes, a questão se nos apresenta
demasiadamente complexa, porque todas as
mythologias dos povos da raça indo-européa
são forçosamente uma mistura de elementos
aryanos e não aryanos, sendo muito difficil
separar esses dois elementos. Acresce que muitos
mythos, embora não sejam de origem não aryana,
não o são igualmente de origem integralmente
aryana: são mythos que esses povos ajuntaram
por elles proprios aos oriundos dessas duas
fontes - o que é racional, pois nada ha que nos
obrigue a acceitar a paralisação do
desenvolvimento religioso e mythologico dos
povos de raça aryana, após o seu
desmembramento.
Assim pois, além dos mythos de origem aryana,
encontram-se, nas mythologias dos povos dessa
raça, duas outras classes: a dos mythos
formados ou evoluidos, após a separação das
tribus independentemente de influencias
extranhas, e as dos mythos de origem não
aryana. Os mythologos estabeleceram certos
principios para apurar, tanto quanto possivel,
os deuses dos povos aryanos e reconstitutir os
respectivos mythos.
Assim, para que um deus ou um mytho possa ser
considerado aryano, é necessário que:
1°.
exista em dois povos de raça aryana não
vizinhos;
2°. seja baseado sobre idéias muito
rudimentares;
3°. não exista na mythologia de povos não
aryanos ou, na caso dessa existencia, se prove
que foram estes ultimos os imitadores dos
aryanos.
De
acordo com esse critério, podemos deprehender
que, antes de sua separação, conheciam os
aryanos os seguintes deuses:
1°-
um deus do céo de designação dupla, conforme
o aspecto brilhante ou encoberto da atmosphera;
2°- a
deusa-terra, que, pelo seu casamento com o
precedente, dava origem às plantas e aos
animaes;
3°-
um deus do trovão, talvez, primitivamente,
identico ao deus do céo;
4°-
um deus da fertilidade, quer vegetal, quer
animal, semelhante, sob alguns aspectos, com o
deus do trovão, com o qual se funde na
mythologia de uma parte da Germania;
5°-
um deus do gado, dos pastores e dos caminho,
fundido na mythologia grega com o deus da
fertilidade e numa parte da Germania com o deus
do trovão;
6°-
uma deusa da aurora, cujos caracteres, bastante
vagos, não se revestiram posteriormente de
maior significação.
Da
mesma fórma chagaremos à conclusão de serem
os seguintes os principais mythos de origem
incontestavelmente aryana:
1°- o
casamento sagrado do deus do céo com a
deusa-terra, e a separação brutal e violenta
de ambos por um de seus filhos;
2o-
pilastras, arvores ou mesmo animaes servindo
para sustentar
a abobada celeste;
3°- a
criação do mundo pelo sacrificio de um
gigante, ou de um animal, geralmente touro ou
vacca, mytho este que parece não só posterior
ao primeiro como um substitutivo delle,
indicando, provavelmente, a substituição dos
sacrificios humanos pelos dos animais;
4o- a
existência de um gigante bi-sexual, do qual
descenderia o gênero humano;
5°-
aleitamento de um deus por um animal sagrado;
6°-
guerras entre os deuses e os demonios;
7°-
luta de um herói com um monstro fabuloso,
geralmente dotado de um numero extraordinario de
mãos e de cabeças;
8°- o
furto do fogo celeste ou de uma beberagem de
carater divino;
9°- o
comércio de um deus com uma mortal, assumindo o
deus para esse fim, o aspecto de esposo;
10°-
o disfarce de um mortal em deus para obter o
accesso a uma mulher.
Tais
são os mythos, aos quaes se póde attribuir,
com segurança, uma origem indo-européa; é,
porém, possivel e mesmo provavel, que o seu
numero cresça com o desenvolvimento dos estudos
sérios sobre o folklore indo-europeu.
Após a sua divisão, os aryanos formaram grupos
de povos que só mais tarde se tornaram
independentes uns dos outros: esse facto se
reflectiu
sobre o aspecto de suas religiões. Os indús e
os iranianos permaneceram por mais tempo unidos,
fazendo parte de um povo unico, que, a
principio, abrangia igualmente aquelles que
depois se tornaram os slavos. A religião desses
aryanos orientaes deu origem ao polytheismo
iraniano
e ao vedismo da Índia, fontes, por sua vez, do
mazdeismo e do brahmanismo. Por isso os mythos
dos Vedas apresentam grande semelhança com o
polytheismo iraniano.