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Todo comportamento humano decorre da concepção que nós temos da realidade, e nesta realidade existe dois pólos bastante distintos: nós e aquilo que nós somos... nós e aquilo que nos cercam... nós e as outras pessoas... Nossa postura na vida depende de como nós estabelecemos esta relação, a relação entre nós e os outros, entre nós e os membros da nossa família, entre nós e outros membros da sociedade, entre nós e as coisas... a relação entre nós e o trabalho, entre nós e a realidade externa... A nossa maneira de sentir e de viver depende de como cada um de nós interioriza a relação entre essas duas partes da realidade, entre estes dois blocos da realidade, uma das formas que aprendemos de relacionarmos com os outros é a postura que designamos por vítima! O
que é a vítima? Vítima é a pessoa que se sente inferior a realidade,
é a pessoa que se sente esmagada pelo mundo externo, é a pessoa que se
sente desgraçada face aos acontecimentos, é aquele que é acostumada a
ver a realidade nos seus aspectos negativos, ela sempre sabe o que não
pode, o que não deve, o que não dá certo, ela só consegue ver a
sombra da realidade, em paralelo com uma incrível capacidade para
diagnosticar os problemas existentes, há nela uma incapacidade
estrutural de procurar o caminho das soluções e neste sentido ela
transfere os problemas dela para os outros... Justificar-se é o sinal de que não queremos mudar, para não assumirmos o erro nos justificamos ou seja transformamos o que está errado em injusto, e de justificativa em justificativa... paralisamo-nos, impedimo-nos de crescer! A
vítima é incompetente com a sua relação com o mundo externo,
enquanto colocarmos a responsabilidade total dos nossos problemas nas
outras pessoas e circunstancias, tiraremos de nós mesmos a
possibilidade de crescimento... E como as pessoas não agem segundo nosso padrão, sentimo-nos infelizes e sofredores, realmente a melhor maneira de sermos infelizes é acreditarmos que compete à outra pessoa nos dar felicidade... e assim mascaramos nossa própria vida frente aos problemas A
postura de vítima é a máscara que usamos para não assumir a
realidade difícil quando ela se apresenta, a falta da vontade de
crescer, de mudar da vítima é escondida pela capa da pressão externa,
essa é uma das maiores ilusões de nossa vida, desejarmos transferir
para a realidade que não nos pertence, sobre a qual não possuímos
nenhum controle as deficiências das partes que nos cabe, toda relação
humana é bi-lateral: nós e a sociedade, nós e a família, nós e o
que nos cerca, o fato do mundo externo nos apresentar os aspectos
negativos não quer dizer que nós sejamos perfeitos, e o fato de nós
possuirmos uma deficiência não significa que o outro
também à possua...
estas duas partes da realidade não são antagônicas, não são uma
simples relação causal, Assim,
usamos o sistema como bode expiatório para nossa acomodação no
sofrimento, é a pessoa que transformou sua vida numa grande
reclamação... O que mais caracteriza a vítima é a sua falta de vontade de crescer, sofrendo de uma doença chamada perfeccionismo, que é a não aceitação dos erros humanos, a intolerância com a imperfeição humana, a vítima desiste do próprio crescimento, ela se tortura com a idéia perfeccionista, com a imagem de como deveria ser e tortura também os outros relativamente à aquilo que as pessoas deveriam ser. Há na vítima uma tentativa de enquadrar o mundo no modelo ideal que ela própria criou, e sempre que temos um modelo ideal na cabeça, é para evitar entrar em contacto com a realidade. A vítima não se relaciona com as pessoas, aceitando-as como são mas da maneira que ela gostaria que fossem. É comum querermos que os outros sejam aquilo que não estamos conseguindo ser, desejar que o filho, a mulher e o amigo sejam o que nós não somos, colocar-se como vítima é uma forma de se negar na relação humana. Por esta postura não estamos presentes, não valemos nada, somos meros objetos da situação, querendo ser o todo colocamo-nos na situação de sermos nada, todavia as dificuldades e as limitações do mundo externo são apenas o desafio ao nosso desenvolvimento, se assumirmos o nosso espaço e estivermos presentes. Assim quanto pior for um doente tanto mais competente deve ser o médico, quanto pior for um aluno mais competente deve ser o professor, assim também quanto pior for o sistema ou a sociedade que nos cerca mais competentes devemos ser com pessoas que fazem parte desta sociedade... quanto pior for nosso filho mais competentes devemos ser como pais e mães, quanto pior for nossa mulher mais competentes devemos ser como maridos, quanto pior for nosso marido mais competentes devemos ser como esposa e assim por diante... Desta forma, colocamo-nos em posição de buscar o crescimento e tomamos a deficiência alheia como incentivo para nossas mudanças existenciais, só podemos crescer naquilo que nós somos, naquilo que nos pertence, a nossa fantasia está em querermos mudar o mundo inteiro para sermos felizes. Todos nós, temos parte da responsabilidade naquilo que está ocorrendo, não rara às vezes atribuímos à sociedade atual, ao mundo a causa de nossas atribulações e problemas.... Talvez seja esta a mais comum das posturas da vítima, generalizar para não resolver, os problemas de nossa vida só podem se resolver no concreto e em particular, dizer por exemplo que somos pressionados pela sociedade a levar uma vida que não nos satisfaz é colocar o problema de maneira insolúvel. Todavia, perguntar a nós mesmos quais são as pessoas que concretamente estão nos pressionando para fazermos o que nos desagrada, pode trazer uma solução, só podemos lidar com a sociedade com termos concretos, palpáveis... Conforme nos relacionamos com cada pessoa, em cada lugar, em cada momento, estamos nos relacionando com a sociedade, pois cada pessoa específica num determinado lugar e momento é a sociedade para nós naquela hora, generalizamos de maneira comum para não solucionarmos, e como tudo aquilo que nos acontece está vinculado com a realidade, toda vez que quisermos encontrar desculpas para nós basta olhar a imperfeição externa. Colocar-se como vítima é economizar coragem para assumir a limitação humana, é não querer admitir que a morte antecede a vida, que a semente morre antes de nascer, que a noite antecede o dia. A vítima transforma as dificuldades em conflito, a sua vida é um beco sem saída... Ser vítima é querer fugir da realidade, do erro, da imperfeição, dos limites humanos, todas as evidências de nossa vida demonstram que o erro existe, existe em nós... nos outros e no mundo, é a pessoa que não quer ver o óbvio. Fazemos o jogo daqueles que nos querem controlar quando nos colocamos na posição de vítimas, não aceitando a fragilidade, as dificuldades humanas. A vítima é uma pessoa orgulhosa que veste a capa da humildade... o orgulho dela vem de acreditar que ela é perfeita e que os outros que não prestam, crê que o mundo não fosse do jeito que ele é, se sua esposa não fosse do jeito que é, se seus filhos não fossem do jeito que eles são, se seu marido fosse diferente, ela estaria bem... Porque, ela, vítima é boa... os outros que tem deficiências, apenas os outros tem que mudar, a este jogo chama-se o jogo da infelicidade... A vítima é uma pessoa que sofre e gosta de fazer os outros sofrerem com o sofrimento dela... É a pessoa que usa suas dificuldades físicas, afetivas, financeiras, conjugais, profissionais para não crescer mas para permanecer nelas, e a partir disso fazer chantagem emocional com as outras pessoas... A maioria de nossas mágoas e ressentimentos resultam de que nós achamos se sangrarmos outras pessoas sofrerão, e se cairmos outros ficarão tristes, é uma atitude de vingança à outras pessoas. A vítima é a pessoa que não se perdoou por não ser perfeita e transformou o sofrimento num modo de ser, no modo de se relacionar com o mundo, é como se olhasse para a luz e dissesse que pena que tenha sombra! É como olhasse para a vida e dissesse que pena que haja a morte! É como se olhasse para o sim e dissesse que pena que haja o não! E todas as vezes que quiser ser feliz é fácil basta ver o que há de negativo...A luz e a sombra são faces de uma mesma moeda, a vida é feita de vales e de montanhas, não são as circunstâncias que nos oprimem, é a maneira que nos posicionamos diante dessas circunstâncias, porque nas mesmas circunstâncias que uns procuram o caminho do crescimento, outros procuram o caminho da loucura, o caminho da alienação. As circunstâncias são as mesmas, o que muda é a disposição para o alvorecer, para o desabrochar ou a disposição pra murchar e fenecer... Viver
é resolver problemas e para cada problema existe uma solução, porque
um problema só pode ser verdadeiro se houver solução, um problema sem
solução é um problema falso. Às vezes, preferimos ficar com os
problemas falsos para evitar a solução dos problemas verdadeiros, um
dos jogos preferidos pela vítima para sofrer e para fazer os outros
sofrerem é o jogo do passado... O jogo do passado consiste em
atribuirmos ao passado a responsabilidade do que nos está ocorrendo no
presente, é quando transpomos o passado para a realidade se tivéssemos
estudado, se tivéssemos casado com outra pessoa, se nossos pais não
fossem como são, se nossa infância não fosse como foi, se não
tivéssemos perdido aquela oportunidade... Através
deste jogo, selamos nossa vida com a crença num destino predeterminado
e com isso escondemos a nossa falta de coragem para mudar hoje o que tem
que ser mudado. As pessoas podem viver olhando para a frente, entendendo
que hoje é o primeiro dia do resto de suas vidas ou então ficar
olhando para trás, de costas para a vida, são aquelas pessoas que não
conseguem viver o que está acontecendo hoje, pois estão muito pressas
a tudo o que já passou, a tudo aquilo que já morreu, mais cedo ou mais
tarde temos que nos perguntar: é o passado que cria nosso presente? Ou
é o presente que cria o nosso passado? Evidentemente, aprendemos que é
o passado que faz o presente, que o momento presente é o fruto de tudo
o que já passou... mas temos, em nome da nossa felicidade, reaprender
que é o presente que cria o passado... Em outras palavras, tudo antes
de ser passado, teve primeiro que ser presente, tudo o que estamos
fazendo agora daqui a pouco será passado... A vida é um momento sem retorno, é o aqui e o agora... não podemos substituir o nosso presente pelas preocupações com o futuro e nem tão pouco substituir a gratuidade e o calor do momento presente pelas friezas das lembranças do passado pois recordar é morrer. O passado tem um profundo significado na nossa vida mas somente como aprendizado, apenas como referência para o nosso presente e não como determinante da vida que vivemos hoje. Nós somos o mundo e a vida em transformação, o presente é o único momento que de fato existe em nossa vida. A maneira mais desvitalizada de ser é transformar-se numa estátua de sal voltada para trás ... Mas há pessoas que preferem viver o frio, o morno o fantasma do ontem ao invés da inebriante alegria, a vida e o calor do momento presente! Viver o presente é aceitar que humanamente só podemos ser felizes apesar de alguma coisa, que nós somos o que somos e não o que os outros querem que sejamos e que viver é aceitar a co-autoria vivencial entre nós e o mundo, fazendo uma síntese com a vida que nos rodeia...
Antonio Roberto Soares (texto transcrito das fitas de Desenvolvimento Comportamental - Rosa Cruz)
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