|
A ÁGUIA E O LEÃO
A águia lançou-se sobre a presa, invocando antiga lei infernal - olho por olho, dente por dente - no afã de trazer sob suas garras a carcaça da velha cultura para destroçá-la perante outros bichos, como demonstração de seu poder imperial. Num erro fatal, esqueceu-se a águia de que na cidade dos bichos não há vingança, não há tortura nem crueldade, apenas mata-se para saciar a fome, sem credo nem esperança. A vítima, um leão da montanha, colocou-se sob as garras da águia, não para ser morta, mas para enganá-la. Ardilosamente para mostrar aos outros bichos a crueldade daquela ave de rapina, que pouco se importa com as vidas naquela floresta, como se fossem dejetos de latrina. Mais uma vez a águia cometeu um erro de avaliação, pois se esqueceu que na cidade dos bichos não há poluição, não há torres do templo nem dinheiro-de-ocasião, apenas espécies animais, soltas e livres da corrupção. E o sonho de liberdade duradoura mostrou na densa floresta, negra como a noite, a alma intolerante da velha águia, que acompanhada por outras aves de rapina organizou um ataque fulminante a todos os bichos, sequiosas por sangue e determinadas a impor sua doutrina dominante. Seguiu-se uma batalha infernal. Aos poucos, alguns bichos que se ajoelhavam perante o poder das aves de rapina foram se entreolhando e num gesto animal, lançaram-se sobre as águias mostrando que na cidade dos bichos come-se para matar a fome, não para levar o mundo ao juízo final. Na cidade dos bichos, onde antes havia a liberdade das cores com o verde pintando o balançar das folhas com seus ares de inocência; o negro mostrando a segurança das cavernas a seus animais de olhos grandes; o azul dos mares beijando as terras férteis das belas vivências, hoje o vermelho do poder da petulância destrói ninhos e mata inocentes filhotes que jamais viverão além da pouca infância. A poderosa águia manchou de vergonha toda existência.
De repente, num lance
genial, o velho leão mostrou sua face angelical e entregando-se ao poder das
aves fez um discurso triunfal: Num gesto inusitado, a mostrar-se nu perante o poder das águias que jamais respeitaram a igualdade, muito menos a liberdade ou a fraternidade, o velho leão, agora calado, começou a cortar sua juba, deixando à mostra sua face de muita mocidade. Os outros bichos, vendo seu orgulho milenar agora prostrado, ajoelharam-se perante as águias e imitando o velho leão começaram também a jogar aos pés das aves de rapina todos seus símbolos sagrados. As águias, atordoadas, alcançaram os céus num vôo em formação e compreenderam que o planeta é maior que qualquer poder de dominação. Entenderam finalmente que a morte nunca é justiça a aplacar a dor do coração.
Agora, na cidade dos
bichos não há mais reis nem súditos emirados, apenas bichos livres das
amarras do poder irado, todos caminhando juntos em direção a uma nova ordem
mundial: Todos irmãos vivendo num paraíso social, onde a vida é a maior dádiva
do universo celestial.
História
enviada por
|
Mensagens|index|poetas|especiais|e-book|livros|grupo|busca interna|livro de visitas|e-mail|home
|
|
|