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A Mulher Perfeita
Certa tarde, conta uma antiga história sufi, Nasrudin tomava chá e
conversava com um amigo sobre a vida e o amor.
- "Por que você nunca se casou, Nasrudin?", perguntou o
amigo.
- "Bem", respondeu, Nasrudin, "para dizer a verdade,
passei toda a minha juventude a procurar a mulher perfeita. No Cairo
conheci uma moça linda e inteligente, com olhos que pareciam olivas
pretas, mas ela não era muito cortês. Depois, em Bagdá, conheci uma
mulher de alma generosa e amiga, mas não tínhamos muitos interesses em
comum. Muitas mulheres passaram pela minha vida, mas em cada uma delas
faltava alguma coisa, ou alguma coisa estava demais. Então, um dia, eu
a conheci. Era linda, inteligente, generosa e bem-educada. Tínhamos
tudo em comum. Na verdade, ela era perfeita".
"E então", replicou o amigo de Nasrudin, "o que
aconteceu? Por que você não se casou com ela?".
Pensativo, Nasrudin sorveu mais um gole de chá e concluiu:
"Infelizmente, parece que ela estava à procura do homem perfeito”.Como
Nasrudin, quase todos nós queremos encontrar a perfeição fora de nós
mesmos. Criamos em nossa cabeça a imagem ideal da mulher ou do homem
que buscamos, projetamos essa imagem em cima do namorado ou namorada, da
esposa ou marido, e queremos que ele ou ela corresponda a essa imagem.
Ao alimentar essa expectativa utópica, perdemos a capacidade de
entender e gostar do ser humano real ao qual nos ligamos. E, muitas
vezes, como ele ou ela não podem corresponder a essa expectativa - pelo
simples fato de que ela é produto da nossa idealização e dos nossos
desejos fantasiosos -, acabamos, frustados, por rejeitar a pessoa com
quem nos relacionamos, quase sempre sem ter sequer "conhecido"
essa pessoa.
Com uma mulher aconteceu algo desse tipo. Passou cinco anos casada, e
deixou o marido quando percebeu que ele não se encaixava no modelo de
príncipe encantado que ela cultivara desde a infância. Ele se casou
novamente com outra mulher. Tempos depois, ao ouvir a nova esposa do seu
ex-marido falar da vida feliz que levava com ele, e de todas as boas
qualidades que faziam dele um esposo excepcional, a mulher - ainda
solitária - ficou perplexa: "Parecia que ela falava de uma pessoa
que eu nunca conhecera."
Certo, ela nunca o conhecera de fato, porque cada vez que olhara para
ele, era capaz de enxergá-lo, mas não de vê-lo. Ao esperar que ele
correspondesse ao modelo idealizado de homem que ela cultivara em sua
cabeça, perdera contato com a realidade do homem com quem se casara.
Uma realidade que, possivelmente, podia ser até muito melhor do que a
do modelo sonhado. Porém diferente.
Conto
Sufi- Histórias de Nasrudin -Edições Dervish
Agradeço a minha
amiga iraniana, Fathemeh Soltani, à mais ou menos 20 anos atrás me fez
conhecer estas histórias maravilhosas, que através do humor nos leva a
uma reflexão séria sobre a vida....
Olga Fonseca |