A
ESCADA DO DESEJO E DO MEDO
Jean-Yves
Leloup
É
bom lembrar que o homem evolui através do desejo e do medo. Não há
medo sem um desejo escondido e não há desejo que não traga consigo um
medo. O desejo e o medo estão ligados. Temos medo do que desejamos e
desejamos o que nos faz medo.
Na
evolução de um ser humano, o medo não superado, o desejo bloqueado, vão
gerar patologias. O medo superado, o desejo não bloqueado vão permitir
a evolução. É o que Freud chama o jogo de Eros e Tanatos, do amor e
da morte, o impulso de vida e o impulso de morte. Poderíamos dizer, em
outra linguagem, que há em nós um desejo de plenitude, de Pleroma e o
medo da destruição. E nossa vida evolui assim, através do nosso
desejo de plenitude e o nosso medo de destruição.
Proponho
a vocês uma escala, uma representação, uma imagem, e nós vamos
tentar identificar as diferentes etapas do nosso medo e do nosso desejo,
a fim de situar o medo de Jonas e situar o que na psicologia humanista
chamamos o Complexo de Jonas.
Na
primeira etapa, a partir do momento em que nascemos, temos um impulso de
vida, o desejo de viver, e ao mesmo tempo em que há o medo de morrer. O
desejo e o medo nascem juntos e, desde que o homem nasce, ele é
bastante velho para morrer. Portanto a vida e a morte estão juntas.
Se
este medo de morrer é superado, a criança vai procurar um lugar de
identificação, um lugar de plenitude. E vem o desejo da mãe. De se
fazer uno com a mãe. A mãe é o seu mundo, é o seu corpo. Ao mesmo
tempo em que nasce o desejo de unidade com a mãe, este desejo de
plenitude, nasce o medo da separação da mãe.
Mas
para crescer, a criança deve se separar de sua mãe. Se ela não se
separar de sua mãe, ficará sempre uma criança, não se diferenciará.
E todo o papel de uma boa mãe é não apenas fazer sair a criança de
seu ventre, mas fazê-la ir além de seu desejo. Fazê-la sair deste
mundo que lhe é próprio, a fim de que ela possa atingir um outro
mundo, particular a ela.
Ocorre
então o medo da separação. E este medo da separação se somatiza no
adulto, algumas vezes por regressões, através do álcool e da droga.
Como uma maneira de se dissolver, uma maneira de reabsorver a dualidade
através da bebida e da droga. É uma regressão. Veremos que é preciso
superar a dualidade, mas a superação desta dualidade não é a sua
dissolução, é a sua integração, uma passagem para ir mais longe.
Certas
vezes, alguns dentre nós têm medo de evoluir, têm medo da solidão, têm
medo da separação da mãe e do seu meio. Utilizam produtos ou técnicas
para regredirem à mãe e não irem mais longe.
A
criança, que supera o medo da separação de sua mãe, vai procurar um
novo lugar de identificação. Ela vai descobrir o seu próprio corpo
como sendo diferente do corpo de sua mãe. É uma etapa importante. Mas
ao mesmo tempo em que descobre seu corpo com prazer, ao mesmo tempo em
que brinca com todos os seus membros, em que sente o desejo do corpo, a
criança sente medo da decomposição. Este medo situa-se na fase anal.
No momento em que, através do seu cocô, a criança tem a impressão de
que seu corpo se decompõe. Nessa fase, toda a educação é fazê-la
ter consciência de que ela é seu corpo, mas não é somente este
corpo. É freqüente a observação de crianças que gritam à noite,
quando fazem cocô, necessitando serem tranqüilizadas. Se a criança
superar este medo da decomposição, ela vai descobrir que é maior que
seu próprio corpo.
Na
idade adulta podem persistir um certo número de fixações. Da mesma
forma em que no estágio precedente a criança buscava a unidade através
da fase oral, nesta fase ela vai buscara a unidade através da posse, do
poder. Possuir a matéria. A palavra "possedere", em latim,
quer dizer "sentar- se em cima", possuir. Corresponde, em
Freud, ao estágio sádico-anal, um modo de tratar o outro como uma
coisa, como uma matéria. Nessas pessoas que buscam, freqüentemente, a
posse e o poder, esconde-se um grande medo da decomposição, um dedo da
doença, um medo de tudo o que desfigure o corpo.
Se
a criança é capaz de assumir este medo e de ultrapassá-lo, ela vai
procurar um outro lugar de identificação. Ela vai entrar no desejo de
unidade com outro sexo. É a fase edipiana. O homem e a mulher descobrem
suas diferenças sexuais e, ao mesmo tempo em que há esta busca de
unidade através da sexualidade, vem o medo da castração. O medo de
perder este poder, dentro de uma relação com um outro que é diferente
dele.
E
alguns podem ficar fixados nesta etapa de evolução. Aqueles que
buscam, por exemplo, a unidade, a felicidade, unicamente através de sua
genitália. Ou ainda, aqueles que têm medo de viver esta relação, o
que pode levar às situações de impotência e frigidez.
Se
o homem e a mulher se descobrem sexuados, mas não sendo apenas isso, de
novo vão poder crescer. Ocorrerá o desejo de corresponderem à imagem
que seus pais têm deles. Na psicologia freudiana, este desejo é
chamado Imago parental ou Persona. E, ao mesmo tempo em que aparece o
desejo de corresponder a esta imagem, surge o medo de não corresponder
a ela.
Existem
adultos que vivem ainda com este medo de não corresponder à imagem que
seus pais tiveram delas. Eles não vivem seus próprios desejos, mas o
desejo de suas mães ou o desejo de seus pais. Aí entra o trabalho da
análise - descobrir qual é o meu próprio desejo e diferenciá-lo
daquele do meu pai ou da minha mãe. Isto não quer dizer rejeitá-los,
mesmo que dê margem a alguns conflitos. É por esta razão que o
conflito entre adolescentes e seus pais é tão importante. É o momento
em que o filho adolescente experimenta diferenciar o seu desejo do
desejo de seus pais. Quando ele procura descobrir sua própria palavra,
diferente da palavra de seus pais. E se ele é capaz de superar este
medo, o medo de não agradar a seus pais, o medo de ser rejeitado ou
julgado por eles, ele então vai crescer no sentido de sua autonomia.
Surge
o despertar para um novo desejo de unidade, o da identidade dele mesmo.
É nesta fase que aparece o desejo de corresponder à imagem do
"homem de bem" e da "mulher de bem", tal como
considerado em nossa sociedade. Não é mais somente a Imago parental,
mas sim a Imago social. Ao mesmo tempo em que ele tem o desejo de
corresponder a esta imagem social, nasce o medo de ser rejeitado pela
sociedade. O medo de não ser como os outros, o medo de não parecer
conforme o que é considerado "bem" dentro dos padrões
sociais esperados.
O
medo de não parecer semelhante é um medo muito profundo, que nós
vamos ver com mais detalhes em Jonas. O medo do ostracismo, o medo de
ser rejeitado pelo seu grupo, o medo de ser rejeitado pela sociedade. Aí
o homem se encontra num conflito interior difícil, porque o seu desejo
interior impele-o à ação, a dizer palavras que são às vezes
consideradas como loucas pela sociedade. Ele tem medo de estar louco.
Ele tem medo de ser anormal. Mas se ele é capaz de superar este medo,
se é capaz de aceitar que os outros não o compreendam, se é capaz de
assumir a rejeição do seu meio, ele vai crescer no sentido da sua
autonomia. O que motiva a sua ação não é o que pensam os seus pais,
não são os seus impulsos anais ou genitais, não são as suas imagens
sociais, mas é sua própria voz interior.
E
ele chega a um nível de evolução bem elevado, que é uma liberdade em
relação ao mundo do Id (na tipologia freudiana do termo) e livre, mas
também, em relação ao mundo do Superego. Livre das expectativas
geradas pelos pais, no que concerne à sua vontade, seus desejos, suas
palavras.
Mas
ao mesmo tempo que nasce este desejo de autonomia, esta experiência de
liberdade, há também o medo de perder esta autonomia, de perder o Ego,
o Eu que está em sua pele, o Eu bem diferenciado do seu meio, dos seus
pais e de seus impulsos. É o momento em que o Eu se sente ameaçado
pelo Self. É preciso um grande trabalho para atingirmos o Eu autônomo,
para se diferenciar da mãe, da sociedade, do meio.
Neste
momento, uma voz interior recoloca tudo isto em questão. Entra- se no
desejo do Self e do medo de perder o Ego. O Ego ou eu é uma abertura do
ser humano a toda a sua potencialidade e o Self é esta realidade
transcendental, que relativiza a beleza desta autonomia e que nos revela
que há um Eu maior que o eu, que há um Eu mais inteligente que o eu,
que há um Eu mais amoroso que o eu.
Mas
para ter acesso a este Eu mais elevado deve-se soltar as rédeas deste
Eu. E passamos a uma etapa superior, que é a de entrarmos no desejo de
nos fazermos um, com aquele que chamamos Deus. Esta imagem de um Deus
bom, de um Deus justo, que é a projeção, no Absoluto, das mais
elevadas qualidades humanas. Diante de determinadas situações, Deus não
se mostra justo como a idéia que nós temos da justiça. Ele não se
mostra bom como a idéia que temos da bondade. Ele não é amor como a
idéia que temos do amor. Ele não é luz como a idéia que temos da
luz.
Surge,
então, um medo que os místicos conhecem bem, o medo de perder Deus.
Sua imagem de Absoluto, sua representação de Absoluto. Passa- se pela
experiência do vazio e esta experiência do vazio é a condição para
ir a este país onde não há desejo nem medo. Não é o desejo de
alguma coisa em particular nem o medo de alguma coisa em particular.
Nossa
vida passa sobre esta escada. Não paramos de subir e descer. Seria
interessante verificar quais são as fixações, quais são os nós,
porque o terapeuta, na escuta daquele a quem acompanha, deverá voltar
ao ponto onde houve um bloqueio. E, para reconhecer o ponto onde houve
esta parada, este bloqueio, é suficiente interrogar onde está o medo.
Será
o nosso medo, simplesmente, o medo de viver, o medo de existir? Quando
nos sentimos demais na existência? Então podemos encontrar em nós
mesmo o não-desejo de nossos pais. Descobrimos que não fomos queridos
na nossa existência. É preciso passar pela aceitação deste não-desejo
para descobrir, além do não-desejo de nossos pais, o desejo da vida
que, em certos momentos, nos fez existir.
Nosso
medo poderá ser o medo da separação. É interessante observar o modo
como as pessoas morrem. O medo da morte é diferente para cada um. Para
alguns é realmente o medo da decomposição, do sofrimento, da doença.
Para outros é o medo da separação, de serem cortados daqueles que
lhes são mais caros.
Assim
nosso medo se enraíza em momentos muito particulares das nossa existência,
e escutar o nosso medo nos permite entrar em contato com esse momento. O
terapeuta está ali para nos ensinar a não termos medo do medo, mas a
fazer dele um instrumento para nossa evolução, descobrindo o desejo de
viver que se esconde atrás deste medo, e que vai nos permitir ir mais
longe.
Nosso
medo pode estar, também, ao nível da sexualidade. O medo do outro
sexo. Este medo foi bem estudado por Freud. Não é suficiente
superarmos o medo a este nível para atingirmos o nível seguinte. Ter
uma sexualidade normal, estar bem adaptado à sociedade, o que é, na
maioria das vezes, um critério de saúde, em outra antropologia não é,
obrigatoriamente, um critério de saúde. Estar bem adaptado a uma
sociedade doente não é, necessariamente, um sinal de saúde. É isto
que eu chamo de "normose", ao lado da neurose e da psicose.
É
neste ponto que nos reunimos a Jonas. Jonas é alguém que sente nele
asas para voar, um desejo de espaço, um desejo de infinito, mas não
tem coragem. Ele apara suas asas, para continuar adaptado à sociedade
na qual ele se encontra e que o proíbe de ir ao outro, de ir ao
inimigo, de ir ao diferente.
Aqui
começa o Complexo de Jonas. Este desejo de irmos além da imagem que
nossos pais têm de nós. Este desejo de irmos além das imagens que a
sociedade nos propõe, do que é o "homem de bem" ou uma
"mulher de bem". Este desejo de irmos além do Eu, além do
que o Ego considera como sendo o bem. E irmos também além da imagem
que temos
de Deus. |