BREVE HISTÓRIA
DO TURISMO

 

O TURISMO NO MUNDO

I. Introdução

Turismo é um sistema de serviços que tem como finalidade única e exclusiva, o planejamento, a promoção e a execução de viagens, além da existência de infra-estrutura adequada para recepção, hospedagem, consumo e atendimento às pessoas e/ou grupos, oriundos de suas localidades residenciais.

O texto ora apresentado tem como objetivo fundamental descrever a trajetória do turismo desde a Antigüidade Clássica até os dias atuais. Nesse sentido, dividimos este breve histórico em quatro etapas. Na primeira, iremos desenvolver a história do turismo no âmbito internacional procurando definir os marcos de sua inserção na mudança de comportamento de determinados povos. Enfatizando não só personagens, mas também algumas organizações criadas para deslanchar a atividade nos continentes europeu e americano. Na segunda, traçaremos a trajetória do turismo no Brasil, definindo como momentos cruciais as iniciativas de Juscelino Kubitschek, na década de 1950 e as efetivadas pelos governos posteriores, quando são criadas instituições oficiais para comandar o setor. Na terceira, faremos uma rápida explanação sobre o turismo na Região Nordeste, priorizando a década de 90 do século passado, ressaltando alguns avanços e retrocessos nessa indústria. Finalmente, destacaremos a evolução do turismo na Bahia, delimitando a década 1950 como fase inicial, relacionando algumas medidas tomadas nas esferas municipal e estadual para seu desenvolvimento.


II. Trajetória do turismo no âmbito internacional

O fator viagem sempre foi uma atividade comum à maioria dos povos do mundo. Podemos colocá-lo como uma necessidade de deslocamento, tanto do ponto de vista da conquista (guerras, invasões, etc.) como do lazer e da curiosidade de algumas pessoas em conhecer e, ao mesmo tempo, explorar as paisagens naturais ou geográficas existentes em outros pontos, não só do seu próprio território, mas de localidades bem distantes.

Segundo Lage e Milone (1996, p. 16), na Antigüidade Clássica, os gregos faziam deslocamentos constantes para assistir, participar e, concomitantemente, usufruírem de espetáculos culturais, cursos, festivais e jogos que eram, para os cidadãos, uma prova do seu destaque perante as outras categorias sociais existentes na sua região e, principalmente, dos escravos. Todos sabemos que os jogos olímpicos tiveram seu início no mundo grego sendo ainda hoje uma referência mundial. De uma determinada época até a atualidade este evento movimenta milhões e milhões de dólares, não só durante a realização, mas também, na fase de preparação e organização, fazendo convergir para o local realizador um fluxo altamente rentável de turistas, movimentando milhões de dólares.

Outra civilização do período clássico foi a romana. Segundo a historiografia, os romanos foram os primeiros povos a criarem locais exclusivamente destinados ao repouso, com finalidades terapêuticas, religiosas e desportivas. As arenas, palco dos maiores espetáculos populares, as termas para resolver problemas de saúde, e as práticas esportivas variadas, atraiam e concentravam inúmeros integrantes da sua civilização em diversas partes do império, expandido a tal ponto, que se desmembrou em dois: o Império Romano do Ocidente com sede em Roma, e o Império Romano do Oriente, com sede em Constantinopla, extinto em 1498. Apesar do descontrole político-social, em decorrência do seu vastíssimo território, os romanos não perderam o gosto pelas viagens e passeios, permanecendo como uma marca do seu povo a exploração de outras localidades para diversos fins, exclusivamente nas litorâneas em decorrência da fé no provável poder das águas marinhas.

No entanto, podemos definir como marco para uma modelagem e representação turística mais organizada, a fase renascentista, visto que o incentivo à ciência e às artes, provocou uma revolução nos hábitos e no comportamento do europeu mais abastado, que em função do seu status passou a utilizar as viagens como uma forma de explorar novos lugares e, na mesma dimensão, demonstrar maior capacidade econômico-financeira, além de um maior cabedal de conhecimentos em relação às pessoas que não podiam realizar as mesmas proezas devido ao baixo poder aquisitivo, quando comparado aos burgueses, classe social que já despontava hegemonicamente na Europa nesse período e disputava o poder temporal com a Igreja.

Desta forma, num processo cada vez mais irreversível, a idéia de se organizar viagens para fins comerciais, bélicos ou não, já era uma realidade na sociedade européia. Em 1552 (segunda metade do século XVI), foi elaborado na França, por Charles Estiene, o primeiro guia de estradas, com roteiro e descrição de vários espaços atrativos para a prática turística. Quase 60 anos depois, no início do século XVII, por volta do ano de 1612, apareceram outras publicações direcionadas para sensibilizar e orientar aqueles que tinham interesse por viagens. Dentre elas podemos citar o primeiro manual de guia turístico, denominado Of Travel (das viagens), escrito por Francis Bacon, com roteiros e indicações para viajantes de todas as modalidades e tipos. Essas inovações associadas à nova estruturação urbana provocaram mais facilidades para os deslocamentos de diversas pessoas gerando mais contatos entre os povos e uma maior troca de informações. Há de se ressaltar que o primeiro sistema de transportes coletivos surgiu, também, na França por volta de 1600 (século XVI), durante o Reinado de Francisco I, proporcionando mais comodidade e segurança aos usuários.

Entretanto, o grande divisor de águas na história da humanidade, foi a Revolução Industrial ocorrida, aproximadamente, por volta de 1760 (segunda metade do século XVIII) na Inglaterra, quando houve verdadeiras e definitivas transformações na qualidade de vida e, acima de tudo, nos meios de comunicação e transportes trocando-se a carruagem pela locomotiva, tornando mais rápidas as viagens e oferecendo mais tranqüilidade, conforto e proteção para os viajantes.

De acordo com Lage e Milone (op. cit.), a história do turismo, nos moldes atuais, começa, efetivamente, na segunda metade do século XIX, a partir do ano de 1841, quando foram organizadas as primeiras atividades turísticas, devido à intervenção de personalidades exponenciais da sociedade inglesa, como: Thomas Cook, Henry Wells, George Pullmann, Thomas Bennett, Louis Stangen e Cesar Ritz.

Thomas Cook, foi o primeiro empreendedor a efetivar uma viagem eminentemente turística, fretando um trem, que transportou cerca de 570 pessoas, para um Congresso Anti-alcoólico, organizado por evangélicos, em 1841, na cidade de Leicester e Loughborough, na Inglaterra (Andrade: 1995, 190).

Durante muito tempo, Cook promoveu outros passeios pela Europa (Espanha, França, Holanda, Itália, Bélgica, Portugal, Áustria) e Estados Unidos da América, através de sua empresa, além de gerar idéias imprescindíveis, visando melhora a qualidade das viagens, objetivando dinamizar e desenvolver o turismo dentro e fora do velho continente.

Dentre suas inovações podemos citar:

a) Handbook of the trip (o primeiro itinerário descritivo de viagens oficiais);

b) Tour (excursão com cerca de 350 turistas, para a Escócia em 1846);

c) Organização e transporte de uma caravana com estada para 165 pessoas, a uma exposição mundial de artes em Londres, capital da Inglaterra, em 1851;

d) A primeira volta ao mundo com um grupo de 9 pessoas. Viagem que durou 222 dias, coberto pelo Times em Londres;

e) Cupom de hotel ou voucher, criado em 1851;

f) Os deslocamentos periódicos, denominados viagens de férias.

Outros nomes foram muito importantes na história e desenvolvimento do turismo: Cesar Ritz, por exemplo, foi um dos primeiros empreendedores hoteleiros. George Pullmann, organizou a primeira viagem turística a bordo de uma locomotiva, com padrão de primeira classe, propiciando mais conforto e prazer aos que se dispusessem a fazer um deslocamento mais requintado e por um preço diferenciado dos cobrados naquela época, e Thomas Bennett, funcionário da Embaixada inglesa na Noruega, organizava viagens para os ingleses que visitavam este país. Alguns anos depois, Bennett criou uma agência de viagens disponibilizando aos interessados uma infra-estrutura apropriada para os clientes.

Outra revolução no sistema turístico foi a invenção do automóvel no século XX. Esta inovação viabilizou deslocamentos mais constantes e independentes de um maior número de pessoas, já que, a aquisição de um veículo particular garantia essa exclusividade. Na mesma dimensão, podemos mencionar o avião que reduziu significativamente a categoria tempo, propiciando maior rapidez e conforto ao usuário, apesar de ser um meio de transporte bastante restrito devido ao valor das passagens ficando além das possibilidades de vários segmentos da população mundial.

Do ponto de vista organizacional e estrutural, os anos de 1925 e 1927, são muito importantes para a indústria do turismo. Em 1925, realizou-se o Primeiro Congresso Internacional de Associações Oficiais de Propaganda de Turismo. Dois anos depois, aconteceu o Congresso Internacional de Organismos Oficiais de Turismo, no qual foi criada a primeira organização voltada, única e exclusivamente, para esta atividade denominada União Internacional de Organizações Oficiais para a Propaganda Turística, os dois eventos ocorreram na cidade de Haya na Holanda. A partir de 1938, devido à Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a entidade teve suas operações suspensas, sendo reativada após a Grande Guerra, em 1947.

Como desfecho das atividades iniciadas na década de 1920, surge em 1947, a União Internacional dos Organismos Oficiais de Turismo (UIOOT), em Paris, na França, durante o II Congresso de Organismos Nacionais de Turismo. Neste evento procurou-se resgatar todo o histórico da Organização surgida em 1927. O principal objetivo desta entidade era divulgar e promover as empresas que operavam no sistema turístico mundial. Na mesma dimensão, pretendia-se congregar tanto os órgãos geridos pela iniciativa privada, como os administrados pelo setor público, intencionando demonstrar os estágios e os rumos que o turismo tomava na Europa e nos outros continentes. No entanto, na década de 1970, na cidade do México, durante a XXI Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), esta Instituição passou a chamar-se Organização Mundial do Turismo (OMT). Um pouco antes, em 1967, esta entidade ganha a condição de Organismo Internacional, vinculada à própria ONU.

Com as medidas e empreendimentos descritos acima, começaram a ocorrer mais investimentos, na área turística em todo o mundo. Assim, em 1931, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos, publica uma obra chamada “Promocion travel by foreign”, (Promoções de viagens para o exterior). O trabalho procurava justificar uma proposta de destinação de verbas para a atividade turística e no mesmo sentido a projeção do país no setor. Comenta-se que este acontecimento foi o marco para os EUA entrarem definitivamente na Indústria do Turismo, sendo hoje uma das maiores potências neste setor comercialmente.

Ainda no continente americano, no ano de 1948, foi criada a Organização do Estados Americanos (OEA), envolvendo diversos países das três partes da América (Cuba, apesar de ser um dos países latino-americanos que tem um excelente fluxo turístico, foi expulso da entidade em 1962, por pressão norte-americana, em função de ter aderido ao regime socialista soviético em 1959).

A OEA possui, na sua estrutura, um setor denominado Divisão de Fomento ao Turismo, vinculado à Secretaria Geral da entidade tendo como principal função promover e organizar congressos, simpósios, reuniões e seminários ligados ao desenvolvimento e dinamização da indústria turística, agindo como um órgão fomentador de projetos direcionados ao setor em análise, via Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e Banco Mundial (conhecido como Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento-BIRD).


Edição: Neli Neto
01.09.05
Música: The Accidental Tourist

 
 
 


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