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Por
hoje, bastava-me uma garrafa de vinho para
embriagar-me. Espírito dionísico para beber um sonho. Mas o
cálice da realidade impede-me conquistar a
eternidade do céu de uma boca ou de qualquer
paraíso feito de suspiros e palavras. A razão
não compreende a emoção. Embates e embustes. A
paixão vale pelo silêncio que engloba. Vale por
tudo que não conseguimos dizer, por tudo que não
conseguimos perguntar, porque muitas vezes as
perguntas não são possíveis.
Debruço-me sobre o parapeito de uma janela que não me pertence.
Nada me pertence. Poucas pessoas no mundo são
tão despidas quanto eu. Tenho uma nudez que
fere. Uma nudez que quer ser dividida. É sublime
doar um pedaço de si. Uma mutilação que constrói
sonhos. Quantos sonhos seriam necessários para
desvendar o mistério de um homem? Talvez nenhum.
Pode-se desintegrar os átomos de um homem com
atitudes. Com algum impulso de sangue latino
pode-se brindar belas descobertas. Mas amor é
outra coisa. Amor é o nome que eu persigo e pelo
qual me perdi algumas vezes. Fui infeliz em
todas as felicidades. Minha alma é uma capela
vazia esperando por um anjo. Um anjo cheio de
pecados a fazer-me confissões.
A lua rasteja o futuro por caminhos inexplorados. Quero estar
suficientemente viva para trafegar com meus
sonhos por esses desígnios. Já não estarei
confinada num canto do mundo com essa sobrecarga
de imagens. Já não estarei precisando pensar,
precisando concentrar-me na amarração do texto
que toma corpo de crônica. Isso estica minha
angustia. Queria pensar sem formas, mas já não
posso. Tudo acaba padronizado. O medo de
decepcionar, o medo de não ter medo... Toda
palavra tem seu preço. Sou vítima de um sistema
coletivo de encadeamento de idéias. Até o amor
tem suas terminologias. Até o amor tem suas
ciências. Mas hoje estou incurável. Quero um
amor de botequim. Amor sem pressa e sem causa. É
porque é, porque tem de ser. Um amor sem
história, acontecendo ao acaso, como se eu nunca
tivesse sonhado isso.
De verdade, quando se vive milhares de noites, já não se pode
precisar em que noite antiga, muito antiga, se
plantou o sonho. Deve ser quando raspei as
pernas pela primeira vez, calcei sapatos de
salto e todo mundo percebeu, "Essa menina
cresceu, tá virando mulher". Estava concluído um
ciclo. Nunca mais voltei ao sótão para brincar
de bonecas. Voltei sim, para ver das alturas o
destino que subia da terra. O destino tinha
corpo e cheiro de homem. Senti vergonha do meu
sentimento sem pudor. Vergonha dos meus
pensamentos ousados. Meu corpo era um mar que
precisava de muitos rios para satisfazê-lo. Era
assim mesmo? Puberdade, ouvi na aula de
ciências. Só não falaram da necessidade de
simbiose de espírito. Mas, instintivamente
iniciei a busca pelo amor real. Raramente o vivi
por inteiro. Queria alcançar com a mão aquilo
que está à altura da inteligência.
Mas essa memória afetiva me cansa! Poderia dizer que hoje estou
pronta para o desafio, mas o amor tem viés que
desconheço. Mal posso falar da anatomia. Tanta
beleza em uma só. Tanto pecado num mesmo pecado.
Resgate, remissão... Eros, Ágape, Fileu...
gravitar em torno do outro... melhor mergulhar
numa taça de vinho e lamber a emoção altruística
(ou seria egoística?) de ter escrito esta
página. |