SEM MEDO DA DOR

 

 
 

 

 

Ultimamente a solidão tem me chamado pelo nome. Ouço a voz aguda penetrando as células dos meus tímpanos assim que a noite encosta a barriga no horizonte.

O escuro tem o ritmo do vazio, mas não é por isso que caio na loucura de escrever. Escrever é meu estado de lucidez mais completo. Escrever é um lugar para onde eu sigo por escolha. Sigo só, de mãos vazias, na mais cruel sensatez, às vezes sem uma palavra para dizer, apenas uma escrita sem voz que grita por dentro.

Tenho letras secas incrustadas no meu pensamento. Estão lá há muito, desde que eu quis ser escritora. São fósseis das quais não consigo me livrar. São dores que não consigo dizer e nem deixar de dizer. As dores foram as grandes conquistas da minha vida.

Tudo passa, a dor não, essa ocupou todo o meu corpo. Mas já me acostumei com o jeito dela. Tenho aprendido a tomar distanciamento e a analisá-la como se não fosse minha, embora nem sempre seja regra para se evitar um choro. Às vezes tenho cóleras porque meus sentimentos se dão no superlativo, o que dificulta o exercício de obter isenção de mim. Mas que importa isso ao mundo? Ele existe normalmente sem a nossa interferência. Embora as pessoas continuam serpenteando pelas ruas a procura de companhia. Os velhos descem dos ônibus cambaleando com os ossos desgastados pela solidão. Vozes fracas saem dos corpos frios que tentam encontrar um amor de fim de noite. É a solidão descendo pelas paredes e escorrendo pelas ruas feito lágrimas sobre a pele.

Sempre que olho para fora me entristeço. O tempo a correr na minha frente não deixa esperanças. Tenho pena dessa gente que passa indiferente embaixo da minha janela. Volta-me inesperadamente a vontade infantil de querer mudar o mundo. Mas como, se não sei resolver minha a própria solidão? Se minha escrita é um muro de lamentações esquecido à sombra do sol? Se passo horas com o nariz grudado nesse vidro para sofrer menos a ausência dos que não me pertencem?

Eu sempre quis atingir o ápice da felicidade e quando atingi senti-me culpada pelos não-felizes. Foi também uma sensação de dor. O clímax da vida dói. O ar purificado batendo no rosto faz rebentar lágrimas de purificação. A felicidade precisa ser redimida de sua culpa para podermos gozá-la em paz. As pessoas que não escrevem são mais felizes porque não têm a perseguição do pensamento. A palavra vai nos desmistificando, fazendo-nos cada vez mais frágeis e menos inocentes. Os insensíveis são mais fortes. Os que mentem são mais compreendidos e as pessoas que nos fazem sofrer, sorriem sem a menor culpa.

Assim a vida segue seu curso. Às vezes, é pura tolice ser sincera, mas não sei mentir para mim e também não sei não-pensar. Poderia negar o arrependimento de ter descido daquele trem antes dele parar. Poderia negar a frustração de ficar olhando a vida passar por essa janela... Mas a verdade nunca me será tirada. Está amalgamada às entrelinhas. Faço o possível para escrever palavras ao acaso, mas a verdade sempre pede passagem. É meu exercício de libertação. Sinto-me como se tivesse alcançado o que eu queria e continuasse a não saber o que eu quero. Uma espécie de felicidade merecida que surgiu da dor. Aliás, a evolução da dor. Uma sensação que faz transcender sem nos imputar culpa.

A arte redime porque permanece na imanência do sagrado. Mas não tenho opinião certa sobre isso. Tenho mais incertezas que certezas. Eu - eu que existo numa noite de feições arredondadas. Por algum motivo secreto, eu vivo num plano convexo. E o resultado são esses escritos. Tenho tanto medo de me trair. Medo da falsa inspiração. Tenho mais facilidade em dizer, que em entender. Deve haver um meio de se equilibrar emoções e epistemologia (essa veio por conta da sonoridade) sem cair no pragmatismo e sem ser piegas. Eu bem que sei disso, mas não sei se quero. Sei lá, me muero sin dolor así. Bandeira vermelha esfarrapada. Você não sente a dor quando está preocupada com a luta.

Quando eu morrer não saberei o que fazer sem minhas dores. Acho que vou "morrer" de saudades.

Lucilene Machado

 

 

 

Música: Tango

 

 
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