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Nos meus
tempos idos, era comum entre casais
de namorados uma tal “prova” de amor. É claro
que a tal prova tinha de ser demonstrada, e
porque não oferecida, pela moça (sempre as
mulheres!), já que os jovens cavalheiros não
eram submetidos
a nenhum
teste que viesse comprovar o suposto amor. Eram
sim, obrigados a casar. Às vezes na delegacia
ameaçado pela arma do pai da moça. Aí, a
história passava a ser de homem pra homem. E se
a moça tivesse irmãos, tios, primos... a coisa
se tornava ainda mais complicada. Alguns
conseguiam fugir. Outros, com menos sorte,
acabavam casados. Tenho um primo que ficou três
dias escondido num armário até conseguir uma
estratégia de fuga. Pobrezinho! O pai da moça
era o delegado da cidade. Nada mais desolador. E eu nem
devia sentir pena dele, porque era um belo Dom
Juan! Colecionava as mais diversas espécies de
conquista. Como dizia nossa avó, que corria
atrás dele com uma caçarola: mamando a
caducando, não escapava uma.
No entanto, foi inevitável o pesar diante
da situação. Não me lembro de ter visto maior
angústia no olhar de um homem. Ser
obrigado a contrair núpcias - que o leitor
queira desculpar a expressão tão arcaica - não
deve ser uma das coisas mais agradáveis. Mas não
posso deixar de dizer que era cômico.
Pois bem,
tudo aconteceu quando meu
primo encontrou uma “donzela” facilmente
disposta a tudo, inclusive a casar-se. A garota,
nem um pouco ingênua, após dar a tal prova de
amor, botou a boca no trombone acusando o
“favorecido” de malfeitor. E não se falou mais
outra coisa na cidade a não ser de fazer
justiça, lavar a honra e essas coisas de lugares
pequenos em meados dos anos
oitenta. Meu primo, que jurava não ser o
primeiro a desposar a menina – desculpa
usada por todos -
quase teve um enfarto quando a
polícia revirou a casa e atirou para o alto. E
ele ali todo encolhido, feito piolho de cobra,
quase se entregou. Mas com muita sorte conseguiu
fugir. Para sempre. Nunca mais teria nenhuma
credibilidade na terra natal.
As moças
também caiam em descrédito. Pior, passavam pelo
vexatório exame ginecológico para fins
comprobatório do selo de honra. Sem o lacre,
podia-se mover uma ação contra o suspeito. E
haja coragem para tanto constrangimento. O
médico emitia um laudo com os termos “vestígios
himenais dilacerados” que era
a desonra
final. Restava
à família
mandar a jovem para outra cidade, obrigá-la a
uma espécie de cárcere domiciliar ou arranjar um
casamento de conveniência. Que horror! E olha
que não faz tanto tempo assim.
Hoje quando
vi meu filho com uma namorada, todas essas
lembranças borbulharam na minha mente. Por um
segundo, imaginei meu pimpolho de 1,90 tendo de
se esconder num armário. A polícia, o pai da
moça, a delegacia... casamento. Só uma mãe
consegue pensar essas coisas impensáveis. Mas
não posso deixar de mencionar que há situações
perfeitamente possíveis. Embora não se façam
mais exames para comprovação de virgindade, não
escapamos ao DNA, e, pior que casar é ter um
filho. Vínculo eterno com a moça, mãe da moça,
pai da moça... Ah, que Deus me perdoe essa
fraqueza, mas fiquei examinando a moça e
pensando se ela estava apta para ser a mãe do
meu neto. Cruzes! Que ninguém me queira para
sogra, descobri que não fujo à regra, sou megera
como todas, ou quase todas. E que o leitor me
desculpe a revelação tão grotesca, sou também
poeta, e esta ainda é minha melhor parte.
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