POR ENTRE RUAS

Acordei pensando no que tenho para fazer hoje . De repente me lembrei que é domingo e que posso escolher o que desejo. Posso por exemplo, voltar a dormir ouvindo músicas, posso me deixar envolver por um clima de nostalgia, posso entristecer... ou posso respirar fundo e por para tocar "Aleluia" de Händel. Posso também recordar e, sobretudo, escrever. Mas nada disso me faz tanta falta hoje, quanto caminhar por entre ruas. E o meu coração tem tantas ruas! Algumas inesquecíveis. E, parodiando Drummond eu diria "As ruas são tantas e cabem nesta janela". Janela de onde eu as observo. Umas mais estreitas, outras mais largas... algumas que eu gostaria de percorrer agora mas, não tenho resistência para chegar até lá. Mesmo que daqui eu quase consiga avistá-las. É incompreensível como as coisas próximas podem estar situadas tão distantes. Acho que eu teria de estudar geografia para compreender as distâncias, ou estudar física para descobrir que força estranha é essa que implode aqui dentro como se as paredes do meu coração se desmoronassem em pedras que, rolando pelas ribanceiras de mim deixam o meu peito cheio de pó. No entanto, antes que essas incertezas embacem as minhas vistas com suas nuvens invisíveis, desço as escadas e encaro a primeira rua que, como não poderia deixar de ser, é a rua da minha casa. Uma rua pequena e torta. Uma rua que me olha de esguelha e vai se abrindo enquanto eu sigo. Não é todo mundo que tem o privilégio de morar numa rua poética feito a minha. E eu amo essa rua. Engraçado, eu nunca tive coragem de dizer isso. Deve ser porque desde criança fui habituada a esconder os sentimentos de amor. Ainda hoje tenho dificuldades em manifestá-los. Parece que o amor é um tesouro tão valioso que a gente tem de esconder e esconder bem lá no mais profundo esconderijo para que ninguém veja. Então, inibidos de exprimir ou celebrar as coisas do amor - e digo no plural porque sei que a maioria das pessoas têm essa dificuldade - a gente fica dando ênfase na prosódia enquanto engole a tônica.

Mas isso não é problema de cunho gramatical, deixa eu prosseguir antes que o pensamento tome outro rumo e siga pela contramão e hoje é domingo, dia de altar. Domingo lá em casa, era dia sagrado. A gente tinha até determinadas peças de roupas reservadas para vestir. E eu botava meia de seda com rendas. E hoje meia de seda é sinônimo de sensualidade. Mas, toda mulher deve usar meia de seda, pelo menos aos domingos. Mas deixemos esse assunto pra depois, porque a essa altura já estou em outra rua onde ipês rosas prenunciam a primavera. Piso as flores que parecem estender um tapete para eu passar. Sou mulher feita e refeita. Sou livre para caminhar pelas ruas. Sou frágil, mas coleciono lutas que me fizeram forte. Mesmo que pela manhã dores pulsam no peito, tenho essa fúria, essa força, esse amor terno de flores, pedras e miçangas. Esse amor pequenino cravado na retina dos meus olhos que suscita a vontade de vestir uma meia de seda. Mas ninguém sabe. Ninguém sabe que eu amo e que carrego comigo este amor que não sei dizer, não sei cantar, mas que faz, às vezes, gotejar uma lágrima quente... talvez os cães saibam. Os mesmos que me seguiram desde casa e que farejam os meus passos. Os três me olham e se lambem. Parecem que falam de mim. Depois entram no pátio de uma casa de carne. Acho que me enganei. Eles não me seguiam. Quantos pensamentos em vão! O pensamento é assim mesmo, a gente acumula tanta suposição e nem pode confiar no que pensa. Agora, por exemplo, estou pensando que é muito doloroso pisar nessas flores, tenho a sensação de estar pisando o corpo de Cristo. Acho que é porque é domingo. Melhor eu prosseguir com os meus passos e com os meus pensamentos. Há muitas ruas abertas esperando por mim e de repente, eu até descubro que a eternidade seja uma rua sem fim.

Lucilene Machado

 

 Música: Tango
 
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