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Não me pareço com nenhuma dessas mulheres que contam suas histórias e sorriem desprendidas. Tenho vontade de correr, tão defasada me sinto no exercício da vida. Observo-as atentamente. Talvez possam ensinar-me a eliminar frustrações, já que a psicologia, a filosofia e todas as teorias possíveis não me fizeram compreender as próprias perdas. Essa história de criar defesas e inventar amuletos não funciona comigo, cética que sou.
Coloco os pés nus e indefesos na água morna e me deixo ouvir as mulheres em suas felizes gargalhadas. Por certo nunca perderam pessoas. Porque perder pessoas deixa sulcos na face e um ponto triste no olhar. Perder pessoas é algo irremediável. Elas vão e nunca mais voltam. E se voltam, não são mais as mesmas, porque já estão mortas dentro nós. Uma crueldade. Algumas morrem de uma vez, na velocidade de um raio. Outras ficam sobrevivendo. Um respiro aqui, outro ali e vão sumindo devagarzinho no horizonte do nosso universo. Há outras que morrem antes do tempo. Imprevisíveis. Essas deixam dores muito maiores, e parece que nunca nos libertaremos delas, são como sombras a nos perseguirem por toda a vida. Sempre aquela impressão de que vão aparecer a qualquer instante para explicar a própria morte, como se houvesse explicação justificável. E não adianta esperar. O telefone fica calado, a casa vazia, os sonhos se esticando para outras direções... Melhor não acordar cedo para que o dia não se torne tão longo. Doravante, ninguém passa as mãos nos seus cabelos, ninguém pede para você se cuidar ou para que você não o esqueça. Tudo é esquecido: as promessas, os sonhos, o passado feliz. Um luto que desencadeia emoções turbulentas e, pior, ninguém pode nos confortar. Porque nesse período as outras pessoas se revelam de uma inutilidade absoluta.
Quero dizer, as mulheres que freqüentam esse salão de beleza parecem não ter essas inquietudes ou aprenderam um método que as capacitam gerir as perdas. As únicas dores das quais reclamam são do alicate de cutícula a lhes picotar a pele. A morena de cabelos compridos, uns dez anos mais nova que eu, diz à manicura que capriche na preparação das unhas que pela noite terá um encontro com um motoqueiro de metro e oitenta que apareceu há pouco aqui no bairro. As outras respiram invejando-na como se o tal sujeito se encaixasse perfeitamente ao perfil de qualquer uma delas. Querem tão pouco! Deve ser isso, o meu egoísmo. A outra, mais ou menos a minha idade e casada três vezes, ensina suas lições. Tento tirar algum proveito, não é de hoje que ando batendo a cara no muro das lamentações. Abro os olhos e os ouvidos, e não é que ela tem experiência sobre o assunto?! Diz que não gosta de relações longas. Perde-se o entusiasmo pelo parceiro. No começo são todos maravilhosos. Contam as sardas do nosso corpo, massageiam nossos pés, escrevem bilhetes, mandam flores... depois tudo vai ficando monótono e a gente tem de inventar mecanismos para fingir que tem prazer. Melhor uma voz pré-disposta a dizer todas as mentiras que queremos ouvir, ainda que por pouco tempo. O importante é a qualidade, prossegue ela. Isso não quer dizer que não podemos amar, sem amor nada tem sentido, e homem adora um amor na medida certa. Nós temos é que saber dosar. A qualquer sinal em contrário, transferimos o amor para outro e depois outro e assim segue a vida....
Meus pés maltratados pela solidão gelam dentro d’água. Queria mesmo é que gelasse o meu coração e que eu tivesse essa facilidade em descartar pessoas. Tira-se o máximo de proveito possível e depois, cada um segue o próprio destino, sem dores. Nada de ter o cheiro do outro grudado em sua pele. Nada de ter o gosto do outro grudado no palato do seu desejo.
Sinto-me a última de uma espécie em extinção: eu que me apaixono com a primeira massagem nos pés e exercito o verbo esperar às últimas declinações. Com o Tito é assim. Sempre volto a pensar nele. Um dia mais, uma semana mais, um mês mais... Tentei usar a velha tática de aumentar os defeitos até estes suplantarem as qualidades. Comecei pelo ponto mais visível: Tito é mais baixo que eu, tem uma barriga saliente e parcos cabelos na cabeça. Comecei a olhar isso com uma lupa. A princípio parecia funcionar porque de alguma forma eleva minha auto-estima. Ora, ele devia dar-se por feliz por ter uma mulher como eu: bonita, inteligente e como se não bastasse, apaixonada. Mas, ainda assim meu cérebro voltava a recuperar um turbilhão de lembranças mais forte que o tal método, o que me levou a constatar que não é o tamanho de um homem que molda o seu caráter. Também a reconhecer que não me importo, nem nunca me importei com uma barriga saliente e muito menos com o fato de ter ou não ter cabelos. São referências ocas, eu gosto mesmo é daquele jeito silencioso como ele me olhava, das palavras ditas na hora certa, da cumplicidade, do sorriso infantil e, sobretudo, de poder ser eu mesma, do jeito que eu sou. Melhor tentar outra técnica em esquecimento: arrumar outro homem. Sabe como é, segundo as amigas, a cidade está cheia de homens mais interessantes que o Tito e não será difícil conquistá-los. Aceito o desafio. Agora o Tito me paga, hora da vingança. As amigas não estão de todo enganadas. Há muitos homens solteiros pela cidade, mas a experiência me deixou pior. O sujeito que conheci era alto, bonito, em forma e uma boa cabeleira. Mas era atrevido, pernóstico e não entendia meu modo de ser e pensar. "Tem que mudar, potranca, senão vai passar o resto da vida sofrendo." Auto lá! Um homem me chamando de potranca? Fiz uma ginástica danada com os olhos para que as lágrimas não rolassem em público e saí pela rua escura, pela cidade escura, pela vida escura a arrastar um coração com dez toneladas a mais. Tito era tão educado, tão discreto... Tanto que saiu da minha vida e eu custei a me dar conta.
Voltei a pensar em Tito com muito mais força. No trabalho me perturbava, no estudo também. Não houve um dia sequer que ele não estivesse comigo. Em cada frase que eu tentasse escrever: "o método... Tito.... fenomenológico... Tito... se define como uma volta... Tito... às coisas mesmas." Seria isso neurose? Melhor procurar ajuda na psicanálise. Não é para isso que serve os planos de saúde? Foi a terceira tentativa frustrada. Era obrigada a falar de Tito para me libertar de Tito. E o psicanalista me ouvia com o mesmo silêncio de Tito e era tão difícil elaborar um discurso com minhas coisas secretas! Parece que eu me tornava ainda mais humanizada e capaz de amar com muito mais intensidade. Melhor desistir e seguir com o meu fantasma.
Por um instante as mulheres do salão se calam. Olham-me esperando qualquer comentário, mas não ouso. A manicura massageia meus pés brancos com veias azuis ressaltadas, mas, não me pergunta nada. Mantém a cabeça baixa. Sabe que eu tenho um ponto triste no olhar. Sabe que quem não mata, morre e quem não morre, mata. Sabe que eu faço parte do grupo dos que morrem, daqueles que não sabem dosar, que sentem um coração bater desordenadamente no peito e mesmo com os pés escalavrados pelas tantas idas e vindas estão sempre prontos a percorrer longas distâncias, mesmo quando a maioria se conforma em seus espaços limitados. |