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Largo
os
sapatos
na
escada,
troco
a
roupa,
esqueço
o
corpo
numa
poltrona
e
me
faço
espiã
dos
próprios
pensamentos.
Às
vezes
é
difícil
ser
mulher,
ter
essa
envolvência
de
fêmea
que
pressente
o
nascimento
antes
da
concepção.
Essa
intuição
de
que
vai
amar,
essa
certeza
de
que
vai
sofrer....
e
mesmo
assim
ama,
carrega
afetos,
carrega
laços
indissolúveis,
sentimentos
distorcidos
que
sempre
soube
e
que
defende
numa
fúria
indecifrável.
Nem
sempre
é
fácil
ser
mulher
vivendo
esse
dilema
de
caminhar
a
beira
do
acaso,
ser
orientada
pelos
imprevistos
e
quase
enlouquecer
sem
saber
ao
certo
o
que
sente
e
o
que
está
condicionada
a
sentir.
Nada
é
tão
simples
para
uma
mulher.
Como
explicar
que
hoje
me
deixei
molhar
na
chuva?
E
todo
mundo
correndo
enquanto
eu
caminhava
va-ga-ro-sa-men-te
aproveitando
a
sensação
de
ser
molhada
pelos
céus.
Com
o
cabelo
escorrido
sobre
os
olhos,
cantei
o
refrão
“You
are
so
beautiful”.
Cantei
pra
mim.
Sempre
minto
para
mim.
Desde
criança
quando
dizia
não
gostar
de
berinjela
e
que
o
único
homem
da
minha
vida
haveria
de
ser
meu
pai.
Mulher
adora
mentir
para
si
própria
e
também
jurar.
Jura
pela
mãe,
pelo
filho
ou
mesmo
pela
chuva
que
escorre
sobre
o
corpo
penetrando
a
boca,
ouvidos
e
narinas
num
“Singing
in
the
rain”
sem
beijos
ou
guarda-chuvas.
E
depois
conserva
a
imagem
para
recordar,
porque
a
vida
para
a
mulher
é
sempre
retardatária,
nunca
acontece
ao
vivo.
Cansa-me
um
pouco
ser
mulher.
Ter
de
carregar
essas
saudades,
esses
pedaços
de
histórias
grudados
em
papéis,
esse
romantismo
de
final
de
noite,
essa
insanidade
e
essa
lucidez
de
viver
cada
coisa
além
do
limite.
Cansa-me
carregar
na
palma
da
mão
essas
linhas
sem
motivos,
esses
traçados
contraditórios,
essas
raízes
misteriosas,
essas
fibras
úmidas...
cansa-me!
Cansa-me,
sobretudo,
esses
sonhos
que
não
cabem
no
quarto,
essa
origem
latina,
esse
oceano
interno,
esses
vegetais
aquáticos,
essas
folhas
brotando,
incansavelmente,
a
procura
de
sol...
Não
é
tão
simples
ser
mulher.
Toda
estatística
humana
passa
pelos
nossos
ventres.
Toda
falha
como
todo
sucesso
tem
o
nosso
dedo.
Há
sempre
um
sopro
de
mulher
num
coração
que
palpita.
Soberana
ou
submissa
é
rainha.
Será
que
fujo
à
regra?
Eu
aqui
com
esse
cabelo
molhado
e
uma
fraqueza
fora
de
moda,
a
vigiar
a
vida
com
o
rabo
do
olho,
tentando
encaixar
as
coisas
onde
não
alcanço,
tateando
no
escuro
os
momentos
que
vão
acontecer
dos
quais
não
posso
prever
minha
reação.
As
mulheres
reagem
estranhamente
conforme
cada
estação,
conforme
cada
curva,
cada
chuva...
e
se
modificam
a
cada
vento,
a
cada
corrente
de
ar,
cada
mudança
de
tempo
e
menstruam,
engravidam
e
choram
sem
ser,
necessariamente,
nesta
ordem.
Mulher
chora
sem
motivos
mas
nunca
sem
emoção.
Chora
olhando
os
cantos
escuros
da
casa,
olhando
os
cantos
escuros
da
alma...
e
às
vezes
nem
se
lembra
direito
porque
está
chorando,
talvez
uma
maneira
de
dizer
coisas
sem
palavras,
vomitar
memórias,
ressentimentos,
desordens.
E
,
antes
que
comece
essa
acidez
na
minha
boca,
adio
a
tristeza
e
canto
novamente:
“You
are
so
beautiful”.
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