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Estaciono
em
frente
à
escola
e
fico
observando
as
meninas.
Elas
são
peculiares.
Usam
batom,
têm
dentes
miúdos,
sorrisos
frágeis
e
são
doces.
Dulcíssimas.
Cúmplices
de
lágrimas
e
risos.
Cumprimentam-se
com
beijinhos,
trocam
poemas
e
escrevem
bilhetes
carinhosos:
“Você
é
minha
melhor
amiga”.
E
desenham
uma
porção
de
corações
no
caderno.
E
sonham.
Como
sonham
as
meninas!
Depois
caminham
com
passos
curtos
e
um
jeito
de
moça
que
sabe
que
está
sendo
observada.
As
meninas
vivem
num
mundo
à
parte.
Num
mundo
cor-de-rosa
que
aos
meninos
não
é
dada
a
oportunidade
de
conhecer.
E
eles
rondam
de
perto
o
mundo
delas
mas
não
conseguem
penetrá-lo.
Elas
têm
códigos
de
segurança.
Escrevem
um
diário
trancado
a
sete
chaves.
E
riem
de
alguns
meninos
e
choram
juntas
por
aquele
garoto
liiinnnndo
da
4a
série.E
eles,
coitados,
se
empenham,
num
esforço
sobrenatural,
para
adivinhar
aquela
língua
esquisita
do
“P”,
e
quando
conseguem
decifrá-la,
elas
já
inventaram
outra.
Inventar
é
coisa
de
menina!
E
uma
delas
me
disse,
assim
com
o
chiclete
na
boca,
e
um
jeito
de
quem
esconde
algum
segredo,
que
iria
ganhar
um
cisne
de
presente.
“Um
cisne?!”
admirei.
O
que
uma
menina
pode
querer
com
um
cisne?
É
claro
que
eu
não
precisaria
fazer
essa
pergunta,
pois
cada
uma
dessas
meninas
pode
ser
encontrada
dentro
de
mim.
Eu
também
quis
ter
um
cisne
que
entrasse
pela
janela
do
meu
quarto
sem
quê
nem
porquê
e
deixasse
lá
fora
aquela
arrogância
de
senhor
das
águas
e
pulasse
sobre
a
minha
cama
e
a
revirasse
até
transformá-la
em
ninho.
Engraçado,
o
cisne
nunca
veio.
Mas
tivemos
uma
relação
secreta
através
da
música.
O
Lago
dos
Cisnes.
Tchaikovsky
foi
o
nosso
cúmplice.
Foi
por
ele
e
através
dele
que
nos
tocamos
a
primeira
vez.
Eu
vestia
meias-brancas,
saia
de
tule
e
dançava
com
elegância
na
ponta
dos
pés.
E
me
transformava
numa
mulher-ave
ou
numa
ave-mulher
de
pescoço
alongado
e
sinuoso.
E
vivemos,
no
imaginário
do
palco,
uma
história
de
amor.
Ele
elogiava
meu
collant
azul.
Azul
da
cor
do
lago.
E
eu
admirava
o
branco
brilhante
da
sua
de
plumagem.
E
ondeava
o
corpo
diante
dos
seus
olhos
.
Olhos
vorazes
querendo
descobrir
a
vida,
querendo
descobrir
o
mundo
cheio
de
imagens
metafóricas.
Fui
ficando
cada
vez
menos
racional,
menos
literal
e
mais
literária.
E
tirava
poesia
das
penas
dele.
Das
asas
abertas
que
tocavam
muito
de
leve
o
meu
corpo.
E
passava
a
noite
escrevendo.
Até
o
dia
em
que
ele
me
abraçou
forte.
E
toda
ternura
do
mundo
se
concentrou
num
instante
inesquecível.
E
foi
aquele
o
último
momento
da
menina.
O
cisne
desapareceu.
Quase
acreditei
que
tudo
não
passara
de
uma
alucinação,
não
fosse
a
pena
que
guardei
num
diário
e
tranquei
com
cadeado.
Pena
dele
ter
voado
para
tão
longe.
Desde
então
percorri
todos
os
palcos,
todos
os
lagos,
todos
os
mundos...
e
em
todos
esses
lugares
esteve
presente
o
azul
do
céu,
o
azul
da
água,
o
azul
da
minha
roupa
que
ele
não
viu....
“Você
conhece
um
cisne?”
me
pergunta
a
menina
vestida
de
collant
azul
e
meias-brancas
de
ballet.
Interrompida
em
meus
pensamentos,
respondo
que
sim
e
recomendo
cuidado.
Ela
agradece
e
diz
que
alguém
já
lhe
havia
prevenido
para
ter
cuidado
com
os
olhos.
Rio
e
reforço
a
idéia.
Ah,
sim,
tenha
cuidado
para
não
ter
de
olhar
o
mundo
depois
com
os
olhos
feridos
por
um
cisne.
Ela
me
dá
um
abraço
afetuoso
e
se
vai
como
se
tivesse
entendido
tudo.
Apanho
o
meu
filho
cheio
de
curiosidades
em
saber
do
que
falávamos.
Coisas
de
menina,
meu
filho.
Coisas
de
menina!
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