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MULHERES
DE IDADE MÉDIA
Chega uma idade
em que vamos recuando, vamos ficando longe da linha de ataque, vamos
enterrando os sonhos nas trincheiras, limpando o pó de alguma ternura
boba e nos conformando com as migalhas que sobejaram das ilusões.
Chega uma idade
em que aprendemos a desistir, esquecer... calar. Vamos nos habituando a
conviver com nossas mordaças, nossas amarras... De que vale a liberdade
se conhecemos tão pouca gente livre?
Chega uma idade
em que vamos escondendo o romantismo nas fronhas dos travesseiros e nos
contentando com o prazer efêmero com hora marcada para acontecer.
Acomodamo-nos a um gozo mecânico sem a sonoridade dos "eu-te-amo"
e dos "para sempre". Aprende-se técnicas, métodos, estratégias
racionais capazes de desentranhar a libido e compensar o amargo na boca.
Aos poucos vamos
escondendo nossos tentáculos, vamos nos adaptando aos ditames da razão,
obedecendo aos assobios, às leis primárias e ficando quietas em nossas
menopausas sem mais questionar os "que teria sido se..."
A gente se
habitua com um jeito sem jeito de ser conquistada. Um jeito sem festa,
sem brindes, sem flores... um jeito prescrito que não esconde grandes
surpresas. Falta criatividade e persistência, mas a gente aprende a
viver sem o exercício da arte de seduzir e sem os remorsos da carne.
Chega um tempo em
que a gente se obriga a compreender a teoria da relatividade,
objetividade, contabilidade... tudo tem um preço. Tudo envolve perdas.
Que importa? A esta altura, dominamos a arte de perder sem muitas
dificuldades. Somos mulheres equilibradas e fortes. Sabemos esconder
dores sem precisar disfarçar cansaços.
Nos acostumamos
às mentiras puídas e acreditamos nas palavras para não comprometer
momentos de ternura. Não porque momentos sejam poucos, mas porque viver
é uma arte, a arte de acreditar. A realidade que se acredita é a mais
real do mundo. Em nenhum tempo se está preparado para conviver com a
franqueza.
Chega uma idade
em que descobrimos que podemos perfeitamente viver sem grandes amores. O
amor é parte da vida, mas apenas uma parte, e aquela história de ser tão
indispensável quanto o ar que se respira é para os compêndios literários.
Por mais que a idéia nos desagrade ou nos entristeça, grande parte das
pessoas não vive ou não tem um grande amor.
Dia chega em que
nos conscientizamos de que vida e morte são fatores biológicos.
Independem da nossa participação. Que coragem e covardia têm
similaridade. Que a vida jogou conosco. Que nossa história não tem
nada de extraordinário, porque todas temos a mesma história para
contar. Histórias que ouvimos femininamente comovidas até morrermos,
profundamente desabitadas.
Lucilene Machado
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