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MEU PÉ DE MARACUJÁ

Há um pé de maracujá no meu quintal carregado de frutas. Nasceu da minha displicência em jogar as cascas num quadradinho de terra na saída da cozinha. Nasceu espremido entre a calçada e a parede do vizinho. De início, com todo o meu conhecimento botânico, tentei arrancá-lo, achando que fosse um cipó qualquer, mas a raiz já era profunda e o talo quebrou-se rente a terra. Dias depois percebi que o cipó crescia numa rapidez intrigante e, arranco hoje arranco amanhã, o cipó floresceu.

Ora, a flor de maracujá é inconfundível, além de ser uma das mais bonitas da face da terra. Exagerei, né? Isso é uma hipérbole. Melhor eu me limitar à América do sul, já que, segundo o dicionário, maracujazeiro é nome dado a várias trepadeiras sublenhosas, sul-americanas. Mas, como explicar aquele poema do Catulo Paixão Cearense que diz que as flores do maracujá são manchadas de roxas em virtude do sangue de Cristo, considerando que havia em Jerusalém um maracujazeiro bem ao pé da cruz(?).

Mas esta crônica não é para provar a origem do maracujá. É que hoje me ligou uma amiga para contar que comprou uma casa onde há uma parreira de uvas produzindo. Claro que não troco a uva pelo maracujá. As flores são incomparáveis. E eu estou mais para flores que para os frutos. Você já viu beija-flor em parreira de uvas? Pois meu maracujazeiro é ponto de encontro desses colibris. Estou tendo apenas um probleminha. Minto, um problemão: lagartas pretas e peludas.

Hoje levantei cedo com o intuito de resolver isso de uma vez por todas. De forma justa, claro. Fiquei observando as larvas devorando as folhas num mesmo ritual. Começando pelo broto mais novo e seguindo em direção ao caule. As que estão a dois palmos da ponta, já estão gordas e lentas. Num primeiro momento, pensei em pegar um veneno spray e acabar com todas de uma vez. Depois passei a observá-las com uma paciência oriental. Acabei emocionada. Penso que minha emoção se confundiu com o comportamento delas. Que vontade têm de viver! Além da audácia de se deixarem dormir em talos verdes enquanto o vento acaricia seus sonhos de borboletas. Porque lagarta mesmo não tem sonho. Lagarta não ama, e se não ama, evidentemente, não sonha. Os sonhos são frutos do amor. E a lagarta é fruto do amor das borboletas. E quando acordam levantam a cabeça com dezenas de pernas. O que estariam fazendo? Decerto agradecendo a Deus. Todo ser vivente louva a Deus. E se eu matá-las serão alguns seres a menos louvando a Deus. Se ao menos todo homem louvasse a Deus! Mas o homem louva a si mesmo. E assina o nome com néon e diz: eu fiz, eu construí, eu fui melhor... e até eu assino o nome embaixo deste texto com a pretensão de que alguém leia e se possível teça algum comentário agradável. As lagartas, porém, não têm nenhuma pretensão. Nem significação. Têm existência e só. Agora, EU, vou tirar a única coisa que elas têm?

Ah, meu Deus! Se todos fossem poetas o mundo seria destruído por uma peste de lagartas. Ainda bem que nem todas as pessoas são orientadas por sentimentos como eu. Se bem que a racionalidade também é repleta de insuficiência além de suprimir da pauta da existência, um momento de reflexão onde a simples idéia de sentir basta. Tudo pode parecer inútil, mas alguma coisa fica impressa, não se sabe exatamente o quê, um quase entendimento ou um quase acontecimento que não se define. E eu olhei para o céu azul e perguntei o porquê das lagartas num pé de maracujá ... A única coisa que passou pela minha cabeça foi uns versos de Fagundes Varela: “Por tudo o que o céu revela!/Por tudo o que a terra dá,/Eu te juro que minh’alma/ de tua alma escrava está.../ guarda contigo este emblema/ da flor do maracujá!”

Lucilene Machado

 Música: Tango

 


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