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Ontem à noite fui ao supermercado. Muitos foram ao supermercado. Famílias inteiras fazendo suas compras à noite. Corredores cheios de maridos. Esposas pesando tomates entre um beijo e outro em seus bebês. Pêssegos lindos! Maçãs brilhantes. É possível tirar versos desse ambiente quase natureza. Creme de leite com uma embalagem de dar água na boca e um homem, com músculos à mostra, comprando leite em pó. Um homem musculoso criando oportunidades para se exibir. Seria um ato de inteligência ou de vaidade? Grande parte das mulheres pensa que os homens inteligentes não são musculosos. Homens inteligentes não têm tempo para um desenvolvimento corporal tão intenso, nem força para carregar uma montanha sobre os ombros. Também já pensei assim. Mas agora pluralizaram a inteligência e facilitaram o desenvolvimento da massa muscular. Logo, todo homem pode ser tanto musculoso quanto inteligente, embora toda verdade seja relativa. Mas isso não é assunto para discutir aqui, além de que, os senhores musculados não estão nem um pouco interessados na opinião feminina. É como as mulheres que lutam para se tornarem magérrimas, dispensando a opinião do sexo oposto.
Todavia, peço licença ao homem musculoso, esta é uma crônica restrita a um supermercado e não vejo forma de enquadrá-lo como personagem. Mesmo que eu quisesse recortá-lo num horizonte teórico, faria das palavras algo tão fixo quanto seus músculos. E eu sou fiel a minha nostalgia. Prossigo ouvindo palavras em pedaços. Cenas mixadas entre o paladar e o poder. Poder de compra. E pela mercadoria no carrinho é possível traçar o perfil do consumidor. Gente que só compra legumes e verduras. Gente que vai passar o final de semana bebendo. Gente que compra tudo embalado. Gente que conheço e que me dá a mão, rapidamente, com medo de que eu machuque seus dedos. Gente de abraços frouxos, gente que muda de corredor para não ter o trabalho de trocar duas ou três palavras, gente que não vejo há muito, e não sei se ainda vai me cumprimentar, se ainda me conhece... gente que não é povo. Gente que não é coletivo de fome e compra batata importada. Gente que não tem diminutivo. Gente que pensa ser livre. Gente como eu, ou como diz Affonso Romano de Sant’ana "com a passividade estrangulada do índio carregando as armas do invasor".
Esqueça a ideologia, Lucilene. Essa coisa de opressor e oprimido me faz perder de vista o verso, além da raiva de me ver novamente pensando no assunto. É um soco no estômago. Ainda bem que soco em estômago cheio não dói tanto. Alguém aqui tem cara de oprimido? Fico quieta como todos os outros e vou esbarrando nas pessoas, nas solidões disfarçadas que tecem a vida. Nunca consigo falar de política de forma completa.Tenho medo de chegar atrasada ao que quero dizer. Tenho medo de perder este silêncio. Tenho medo de ficar revoltada e levantar bandeiras pelas esquinas. Penso que todo mundo tem esses medos, e por isso ignora, deixa a política amarrada do lado de fora do quintal até que apareça novamente o mesmo letreiro, os mesmos outdoor, as mesmas frases de efeitos, as mesmas palavras de ordem e até o mesmo homem beijando crianças no supermercado.
Tenho vontade de pôr a alma num carro de compras e ir para praça pública ouvir estrelas e metaforizar uma esperança triste. Mas não sou poeta. Volto para casa com o carro cheio de compras e alma vazia. |