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Não
sei o que pensam os pássaros quando, nas
tardes de sábado, dormem sobre os fios de
alta tensão. Os pássaros têm sábados
frustrados. Todas as coisas que podiam ter
sido, não foram. Também não sei o que
pensam os homens enquanto dormem os
pássaros pelos sábados adentro. Sei que os
homens têm insônia e fecham as janelas.
Instituem a escuridão, apagam as palavras
e desintegram-se em longos silêncios. As
coisas que podiam ter sido? Tornaram-se
banalidades. Em qualquer tempo há fios de
alta tensão e pernas de mulheres com
sangue fervendo. Tantas que chegam a ser
ignoradas. Despojos do amor? A
desproporção criou homens-deuses vulgares
e divinizados. Criou profissionais
especialistas em argumentação. Braços em
torno do pescoço, bocas de estátuas
coladas e música para preencher os vazios.
Mas o objeto deste texto é o amor. O
sujeito também. Amor em construção. Quatro
paredes lentas e penosas do lado de cá do
horizonte onde pretendo improvisar ninhos
e desprender pássaros do sonho.
Mas o tempo urge, razão pela qual me
deito, mesmo, à terra. Todas as coisas se
revelam e se negam continuamente. Finjo
não perceber. Repouso minha cabeça sobre o
seio da ignorância. A metafísica rodeia os
meus limites. Há coisas se encontrando,
também, fora de nós. A ficção quer
escrever minha história. Que imagem faria?
Oh! vida, esse tempo desperdiçado dentro
do olhar. Minha única tristeza não é
triste. Incongruência? Limpe os olhos que
este texto tem a loucura da forma.
Plasticidade e linguagem. Os literatos, os
eruditos e eu, e nada de concreto. Que
sabemos sobre os pássaros frustrados sobre
o fio de alta tensão? Somos carentes de
amor, sexo e sonhos. Somos carentes de
sabedoria. Um dia Deus apareceu homem
entre os homens e o crucificaram. Daí meu
medo de existir. Daí esse silêncio áspero
de Sábado. Meus conflitos me apequena.
Gritos surdos por dentro. Somente as
palavras são capazes de secar as lágrimas.
Palavras e dedos. Dedos escalavrados
pelo tempo percorrendo traços e linhas do
meu rosto. Doce ternura para quem partiu
todos os espelhos e já não mais se
reconhece. Eu que tenho em mim o movimento
dos outros, o conhecimento dos outros, o
idioma dos outros, a reação dos outros...
eu sulcada pelos outros e estrangulada
pelas minhas próprias mãos. Só o amor me
salva. Só o amor produz essa lentidão
sagrada de observar pássaros cheio de
vôos. O amor sabe de cor os vôos e os
movimentos. Conhece o lugar, o istmo onde
os homens choram. Os homens são belos,
sobretudo, quando choram. Homem-mar numa
ilha de chuva. Uma imagem onde me
completo. Não totalmente. Uma mulher
satisfeita traz em si um ponto final. Eu
tenho vocação para reticências e excessos.
Amanheço e todas as bocas se abrem.
Famigerada fome de idealismo. Não nos
basta a vida?
O pássaro olha com todos os olhos mas nada
avista. Tem os sentidos esquecidos.
Esqueceu-se de quem era, de como era... só
sabe cantar, cantar. Se respirasse uma
idéia, tornar-se-ia gente com todo
niilismo inerente. Gente que nega qualquer
coisa a qualquer hora. Que nega a palavra,
a raça, as idéias.. gente que nega a cruz,
a história, a colonização... gente que
ignora as tardes de sábado quando
discretamente um pássaro voa estabelecendo
ligações entre as coisas visíveis. |