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No
lugar
onde
eu
nasci,
todos
os
dias
às
seis
da
tarde,
ouve-se
uma
Ave
Maria
num
alto-falante
e
uma
voz
grave
de
homem
elevando
aos
ares
uma
oração.
Na
distância
curta
entre
as
casas
ouvem-se
os
gritos
das
mães
chamando
os
filhos
para
o
banho
enquanto
as
chaminés
fazem
a
boca
da
noite
engolir
sombria
fumaça.
A
voz
da
vizinha
da
direita
me
é
familiar:
“Fabiaaaaaaaaano!!!!”
que
pequeno
o
mundo
diante
de
sua
garganta!
Brincávamos
de
“betse”
quando
ela
era
a
Celinha.
Agora
é
Dona
Célia,
uma
senhora
gorda
e
brava
que
lava
as
paredes
da
casa.
Do
lado
esquerdo,
outras
mães,
também,
com
fôlego
para
ópera,
ensaiam
seus
agudos.
É
a
hora
do
rasgar
do
silêncio.
Os
meninos
fogem
com
seus
cães,
suas
bicicletas
e
a
esperança
de
adentrarem
a
noite
sem
molharem
os
joelhos
sujos
e
feridos.
Entretanto,
o
escorrer
da
água
vai
umedecendo
a
cega
fé
de
que
o
banho
é
indolor,
e
a
espuma
do
sabão
atinge
a
alma
com
sua
mais
cáustica
função.
É
a
infância
sendo
corroída
pelo
tempo.
Daqui
a
pouco
as
feridas
serão
outras.
As
águas,
ondas
salgadas
com
orlas
capazes
de
arranhar
o
coração.
Daqui
a
pouco
a
dolorida
hora
de
perceber
que
um
homem
não
se
sustenta
à
força
de
unhas
e
dentes,
mas
à
força
de
interesses.
E
a
poesia
prosaica
da
sujeira
impregnada
dá
lugar
à
árvore
do
ódio.
Árvore
com
ramos
extensos
brotando
indiscriminadamente
por
todo
o
corpo.
É
uma
sujeira
hostil.
Cada
dia,
um
exercício
de
percepção:
o
miserável
homem
defendendo
seu
miserável
tesouro
(Neruda).
Minha
mente
tenta
rejeitar
essas
comparações.
Aqui
ainda
sou
criança
que
cuida
o
aparecer
da
primeira
estrela
e
recebe
o
pólen
da
“boa-noite”
sobre
as
pálpebras
pesadas.
Eu,
morta
de
amores
pelo
namorado
da
vizinha
que
estudava
para
ser
doutor.
No
travesseiro
escondia
esse
único
sonho:
crescer
para
me
casar
com
ele.
O
que
poderia
haver
de
melhor
na
vida
que
se
casar
com
um
médico?
Com
a
ajuda
da
noite
eu
crescia.
Revestia-me
de
brilho
celestial,
pérolas,
grinalda,
flores
brancas..
erguendo
as
mãos
enluvadas
para
jogar
o
bouquet.
Depois
descobri
que
não
era
a
única
na
rua
a
alimentar
esse
sonho.
“Mulheres”
perigosas
me
avizinhavam.
Aí
o
espaço,
a
magnitude
e
outros
elementos
iam
crescendo
dentro
da
noite.
Eu
já
não
era
apenas
uma
noiva,
era
a
mulher
maravilha,
a
mulher
biônica...
era
a
Kate
de
“As
panteras”
que
chegava
furiosa
nocauteando
todas
as
mulheres
e
roubando
o
príncipe
encantado.
Quando
a
vizinha
estendeu
solenemente
os
dedos
para
a
colocação
da
aliança,
eu
quase
morri
de
dor.
Mas
suportei
firmemente
como
uma
estátua
dura
e
implacável
segurando
uma
almofada
branca.
E
pensava
lá
com
meus
botões
de
pérola:
quase
consegui!
Agora,
enquanto
me
vejo
fotografada
na
cena
de
um
casamento,
vejo
também
o
pó
fosfóreo
do
sonho
destruído.
Sempre
fica
do
lado
de
fora
a
decoração.
A
moldura
do
sonho
permanece
pendurada
na
parede
da
nossa
memória.
Quase
ignoro
o
questionamento
da
menina
Amanda
que
curiosa
diz:
“tia,
é
verdade
que
essa
aqui
no
colo
do
meu
avô
é
você?”
Acaricio
seus
cabelos
castanhos
e
me
indago
se
não
há
sonhos
parecidos
por
baixo
das
madeixas.
As
luzes
das
casas
vizinhas
vão
se
acendendo.
As
cortinas
vão
se
fechando.
O
mesmo
arbusto
da
“boa-noite”
teimosamente
estende
os
braços
sobre
o
muro.
Cheiro
da
infância
que
ainda
resiste
ao
tempo.
Sei
que
em
algum
lugar
debaixo
desses
novos
nomes,
debaixo
desses
novos
fatos
corre
uma
menina
atrás
de
uma
bola
de
betse.
Uma
menina
que
sonha
com
bordados
em
pérolas
e
príncipe
encantado.
E
se
eu
recostar
a
cabeça
sobre
o
travesseiro
e
fechar
os
olhos,
serei
capaz
de
ouvir
a
voz
da
Celinha
a
me
chamar:
“Lucileeeeeeene!
Vem
brincar!”
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