BARCO DE PAPEL

Alguma coisa cresce dentro de mim. Selvagem. As horas passam lenta neste mundo que não tem mais cara de jardim. A cor do concreto fere os meus olhos. Entro. Tranco a porta. O mundo também fica trancado lá fora. Um mundo com jeito de pombal. Cada um preso no seu próprio vazio. Vazio de um beijo que foi o último. Vazio deixado pelo suave olhar de um amigo numa manhã de domingo que nunca mais existirá. Por mais que se recupere o amigo, não se recupera o tempo, essa coisa deteriorante com cheiro de mofo.

Mas ontem choveu e talvez por isso algumas gotas de lucidez umedecem meus pensamentos, antes que a aridez de espírito  me vire de ponta-cabeça e me faça ver o mundo no reflexo de uma poça d´água amanhecida. Fiz isso quando criança. Penso que todos já fizeram. E depois, soltava barcos de papéis na enxurrada. Minha paixão? Era um navio no mar. Ainda hoje o é. Mas tenho medo de não ter em que me agarrar quando as ondas azuis dos seus olhos cobrirem o meu corpo. Não sei nadar o suficiente para sobreviver a esse maremoto. Então fico na praia jogando pedrinhas, molhando os pés na espuma branca e dizendo: boa viagem!

Talvez seja essa uma maneira de não ter de enfrentar o gigante que mora no fundo do mar, esse gigante Adamastor que representa o sentido profundo da vida. Mas de que vale isso se a água me povoa por dentro? Lido diuturnamente com essa coisa líquida borbulhando no meu cérebro. Você acreditaria se eu dissesse que faço chover? Chovo em qualquer estação, além de carregar esse cheiro de terra molhada, essa umidade que faz brotar algas e sargaço, essa semente  inchada, essa coisa perigosa germinando...  e como diria Leminski  “Cresce a vida/ cresce o tempo/ cresce tudo e vira sempre esse momento.” Sempre esse instante que parece já vivido, essas duas palavras pousadas no parapeito da minha sacada, essas árvores que recitam, esse eco do vento entrando pelas frestas das janelas trancadas, essa vontade de sair correndo e mostrar escandalosamente o rosto, de atravessar as estações de trem, de me infiltrar nas multidões, entrar nos ônibus, fazer discursos e ver o olhar assustado das pessoas me fitando. Pessoas que pertencem ao mesmo gênero humano, porém divididas em suas milhares de idiossincrasias e religiões. Seria possível ver uma mãe protegendo seu filho, um marido se colocando a frente da mulher e outros gestos que conduziriam ao ponto ômega: o medo que o ser humano tem de seu semelhante. Talvez por isso, todos temos um jeito especial de esconder o rosto; uma filosofia na qual nos escoramos; observações nas quais  adequamos  nossos propósitos e assim segue a vida, porque a paixão, como já escreveu alguém, leva à utopia e a desgraça. Mesmo discordando, também me protejo em minha tristeza justa e procuro evitar esses pensamentos.

Mas os pensamentos incomodam, tanto quanto pisar na poça d´água acumulada no desnível da calçada. Descobri que   meu cérebro é uma folha de papel em branco. Por isso esta necessidade de estar organizando idéias, de estar pintando com tintas imaginárias as letras da minha paixão. Mas agora, que você me dê licença,  farei dessa folha um barco de papel, sem fins, nem razões, porque o mar salgado escorre  pelas minhas veias atlânticas, pela minha vida pacífica, pelo meu riso ártico... e eu preciso desaguar em algum lugar.

Lucilene Machado

Música: Tango

 
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