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ARTÍFICE

A parte da minha casa que mais gosto é a sacada. A partir dela vejo coisas que não veria de outro ponto. Coloridos jardins, por exemplo, de onde surgem arbustos enfeitados de flores. Pássaros diversos, borboletas, um azul suave em meio a nuvens brancas... e outros pequenos milagres que parecem não fazer parte da teoria existencial, mas me ensinam a entender a vida. Entender em partes, porque muita coisa permanece enigmaticamente incompreensível. E eu escrevi “coisa” novamente. Uma especialista na arte de escrever disse que eu não deveria escrever “coisa”. Não tem significado, reforçou ela. Estranho o modo como cada um vê as palavras. É exatamente a falta de significado que me atrai. Coisa é um susto, uma notícia, uma sensação, um “de repente”... é uma palavra que tenta comportar o infinito, por isso é tão supérflua e tão essencial. Por que as palavras necessitam de formas? Queria escrever como Manoel de Barros e dar às palavras um novo significado. Emprestar a beleza do lírio para qualificar o cisco. Mas Deus deu esse talento apenas a ele, então, escrevo pérola, esmeralda, púrpura, açucena... que palavra linda: açucena! E construo frases que por si só já são bonitas, como por exemplo: “Cidade exaustiva de flores!” Já vem com orvalho, brilho, mel, magia... basta escrever e pronto. Ou então: “A fibra suave da seda esvoaçando ao vento.” Dá quase para ouvir um zunido. As palavras bem trabalhadas chegam a cantar. Mas isso é arte para poeta. Eu não sou poeta. Não quero ser. Pesa-me muito carregar o inconsciente coletivo das pessoas. É mais fácil carregar sobre os ombros a leveza de ser cronista e escrever uma coisa e outra coisa... coisas.

Como eu ia dizendo, há um outono verde aqui embaixo da minha sacada. Há um outono claro que chega a doer os olhos. As folhas não caem sobre os automóveis, nem dançam o balé lento do mês de abril. Um outono que não quer se despedir do verão. Também tenho pena de despedir-me da minha juventude. Vou relutando, relutando... vejo-me com meus 20 anos despedindo-me no horizonte de uma fotografia... uma saudade, uma vontade de ter cuidado mais de mim para que eu não fosse embora... devia ter usado todos aqueles artifícios milagrosos, tomado todas as vitaminas... entretanto, fui-me. E isso é irrecuperável! Se custamos a nos despedir, de nada vale, vem um outro tempo e nos suplanta. Daqui a pouco será inverno e as folhas vão tremer diante do frio cruel. Da mesma forma tremerão nossas mãos diante da crueldade do tempo. Cruzes! Nego-me a pensar nisso.

Por enquanto ainda posso exercer o papel que Eva nos legou: sedutora e seduzida. Um dia isso muda? A mulher deixa de ser sensual? Fiz, outro dia, essa pergunta a um homem e ele não entendia nada de sensualidade. Deixou-me ainda mais confusa. Sensualidade para ele é um desfile de mulheres com caras e bocas esquisitas. Um ar despótico quase sádico. Depois, arrependi-me da pergunta. Cada um deve ter lá seu próprio conceito. Já até ouvi homens dizendo que acham sensual uma mulher fumando. Tenho minhas dúvidas. Acho que gostam mesmo é daquela submissão da mulher ao pedir isqueiro a eles.

Desisti de definir a sensualidade. Se um dia ela termina, o amor permanece. A mulher está sempre viva! E pode morrer de amor a hora que quiser. Uma fraqueza que já se espera dela. O homem não. Tem de ser duro e frio para ser reconhecido como macho. Que triste! Culpa dos significados que atribuímos a um e a outro. Falei demais. Meu espaço acabou. Mas aqui na sacada continuarei conversando com minhas estranhas, e o mundo continuará acontecendo com todas as suas definições.

Lucilene Machado

 Música: Tango

 
 


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