A PROPÓSITO DA SALA

No cerne da vida, uma sala repleta de convidados e visitas inesperadas. Cada um com suas raridades, verdades e mentiras. Há quem faça desse espaço um lugar para grandes expedições. Expedições que terminam em nada. Uma maneira estúpida de matar o tempo.

Também há os que a usam para os grandes discursos. Estes desistem mais rapidamente. Logo ao perceberem que vivo uma crise de retórica, estética, dessacralização e não sei mais o quê. Há ainda os de humores refinados, os criativos, os insistentes, os sensacionalistas e os que querem massificar com suas "genialidades".

Ouço desde as mais possíveis às mais prováveis variantes de linguagem . Diversas respostas de gente perdida num labirinto de conversas. Digo sim, digo não. Teorias absurdas. Gritos deflagrados em cascatas. Cantos graves e agudos. O mundo cabe na minha sala angulosa.

Tudo tão perfeito, tudo tão imprevisível. Estranho universo dentro de mim. Estranhos exercícios de ouvir, esquecer e livrar-me de. Às vezes parecem que dizem o meu nome, que desejam conhecer o meu perfume, mas sem um mapa a indicar setas e direções obrigatórias, os ânimos se arrefecem e o que contemplo é um olhar de malmequer sem cheiro ou cores.

Todos os dias tento me livrar dos elementos que fazem minha alma pesada. Desperdiço horas jogando pela janela memórias anteriores. Flores murchas, papéis amassados, raízes que tentam brotar... preciso recompor meu deserto. Preciso sair. "Andar, andar, que um poeta não necessita de casa" Cecília Meireles me estimula a sair sempre que as quatro paredes vão se fechando.

Hoje quando eu voltei uma voz me invocava. Mas não era exatamente a mim que chamava. Clamava por aquela que fui e - num pretérito imperfeito - tristemente morreu. A voz tinha o apelo sangrento de quem se deixou ferir por punhal. Trazia na mão uma flor amarela e um riso solitário que crivava meu cérebro. Deixei-o falar por respeito àquela que fui, no que ele debulhou-se num silogismo com todas as premissas. Olhei para as mãos que se perdiam nos gestos. Elas já haviam danificado meu corpo, do mesmo modo que as unhas perfurado os meus pulsos. Um dia, esgotada em minha paciência, cruzei as mãos sobre o peito e morri ouvindo os ecos do silêncio.

Ressuscitei enfim, porém a sala nunca mais fora a mesma. Foram substituídos todos os tijolos. O coração de papel que ornamentava as paredes, amarelou no esquecimento. A eternidade dos meus olhos tombou num abismo rasgando o véu da minha retina. Na ficção recolhida nada mais possuímos. Perdemo-nos na aventura fantástica de um texto. Decomposição lírica. As idéias eram sementes inventadas pela solidão. O muro de pedra erguido pelo silêncio congelou os meus ossos. Perdi a razão no abstrato de querer. Não tive nada a dizer. Faltaram-me as palavras. Faltou-me poesia, mais propriamente, o milagre de dar significado às coisas como mar, flores, sol, pássaros... Mas tenho toda a primavera para reaprender. E como ousou Bachelard "mais do que paisagem, a casa é um estado de espírito."

Lucilene Machado

Música: Tango

 
 
 
 
 
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