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A PROCURA DE MIM

Estranha essa minha capacidade em ficar tanto tempo parada tentando ouvir o compasso do coração. Você já tentou localizar o seu? Tenho recorrentes sintomas que levam a crer que eu seja uma pessoa totalmente descentrada do grande eixo que move o mundo. Gosto de cerejas e sou fascinada pela figura do coração. Desde criança arrisco seus traços com o lápis no papel, com os dedos nos vidros embaçados, com batom no espelho... e atualmente ando fazendo uma nova tentativa: coreldraw. Mesmo assim pouco sei a respeito dessa engrenagem que faz circular o sangue pelo corpo. A não ser dessa ligadura primária que me faz viva. Ainda que os dias vão caindo inertes sobre minha mão estendida, ele põe um pouco de ritmo em minha existência. É um indispensável piano que faz dançar melodiosas valsas sobre minha alma sombria.

Deve ser esse o fio invisível que conduz a vida. Mas ando tão preguiçosa para pensar que me satisfaço apenas com o pulsar desta minha máquina humana. É muito bom se deixar levar pela ignorância. Acho que cansei de filosofar. Cansei dos meus argumentos femininos. Cansei de parir. A contração uterina é muito dolorida. Principalmente quando ela se dá em nível de cérebro. Hoje eu queria escrever sob a ótica masculina. Queria o prazer do esperma que é expelido sem dor. Queria sofrer de egocentrismo. Que verdades ou mentiras há nisso? Será que o homem é mesmo tão mecânico? Queria ter essa capacidade de falar do último envolvimento como se fala de marcas de carro, de motores três ponto zero,quatro por quatro... e depois tomar um chope, mais outro, outro... e enxergar a Madona na loirinha da mesa da frente... a vida parece tão simples! Começa no primeiro passo e depois vai se repetindo, vai se teorizando no mesmo enredo. O homem tem sempre valores diferentes para as perdas emocionais. Tem no coração um ponteiro sentido horário. Não há um problema que não possa ser superado. Tempo é solução e mais rápido do que se pensa. E depois, tudo funcionando novamente com a maior perfeição, feito os motores turbinados.

Por que a mim, deram um coração tão diferente? Um coração que dilacera e não sangra. Um coração vencido sobre um azul profundo. Besteiras. Palavras que vieram do infinito. Palavras com as quais não me acostumo. Minha confusa subjetividade objetiva. Não sei nada, nem de infinito, nem de coração. Mal conheço o corpo. Água fria. Tristezas adoecendo celulites. O corpo vai se embrutecendo? Que romântica eu era! Comia uvas pela madrugada, falava de poesia e jurava tudo o que ele pedia. E depois estufava o peito, coluna ereta e seguia com ares de gente desprendida, de quem aprendeu cedo a lidar com a vida. Ele fingia que acreditava, eu fingia que enganava. A vida é mais ou menos assim, engana-se com o mesmo engano com que se é enganado.

Mas meu ideal, hoje, é desenhar corações. Coração vermelho e lúcido. Bem, lucidez é um convite ao cientificismo. E como essas palavras não fazem parte do meu contexto natural, não posso partilhá-las com vocês. Exatidões me confundem. Vou embrulhar meus corações em papel de seda e em névoa de sonho. Embrulho do mesmo modo com que sou embrulhada. Um dia serão encontrados. Ou um dia me encontro pendurada num fio de esperança.

Lucilene Machado

Música: Tango

 
 


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