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AMANHÃ, TALVEZ Acordo com o trinado artificial de um pássaro. É o despertador do relógio que violenta a natureza e os meus tímpanos. Lá fora uma chuva lenta escorre pelas paredes. Será mais um dia úmido e quente. Levanto tropeçando nos calçados e papéis amassados. Tentativas de cartas de uma noite de insônia. Palavras naturais expelidas das entranhas. Um erro crasso. O bom escritor não deve escrever com palavras naturais. Mesmo a escrita autobiográfica deve ser recriada, revivida com palavras artificiais. Mas, não sei se pela falta de comprometimento com a literatura de primeira grandeza, não aprendi, nem ousei me recriar com palavras polidas. A minha verdade é bruta. O meu sentimento é bruto. Acho que sou toda bruta. A vida fica desajeitada em mim. Uma vida crua e rasa. Sinto-me uma estranha neste mundo civilizado, catequizado, humanizado... e todos os outros "zados". Problemas com meu código lingüístico? O espelho do banheiro mostra a gengiva sangrando. Estou viva. O sangue é o horror de se saber viva. La vida que traigo entre los dientes. A vida primária escorrendo garganta adentro. A vida sem contornos que quis fugir para outras paisagens, para qualquer lugar que fosse melhor que ficar remoendo minha ira silenciosa. Agora esta terra úmida quer me vomitar. Sente ânsias do meu sangue. Rejeita o meu beijo na boca. O vínculo de amor não aconteceu. Flertamos, chegamos perto de algo definitivo, mas faltou cheiros e gostos, faltou fantasias. Ou, se elas existiram, deixei escapar num momento de dúvida e desamor. Meus fracassos amorosos... Escovo os dentes em pequenos movimentos, pequenos rituais do meu silêncio. Meu pensamento navega na espuma branca de um riso antártico. Os olhos se enchem de água salgada. Saudades do meu mar. A lua do meu mar. "Quando Ismália enlouqueceu,/Pôs-se na torre a sonhar.../Viu uma lua no céu,/ Viu outra lua no mar."Alphonsus Guimaraens criou essa Eulália enlouquecida, ou teria ela, de fato, existido? É tão fácil enlouquecer. Visto um vestido azul de alças e tento combiná-lo com uma echarpe cor de vinho. Se eu tivesse os olhos cor de violeta... ai, essa indefectível mania de achar que a vida poderia ser diferente se eu fosse um pouco mais bonita. Tenho uma grave tendência para a burrice. Sempre que estou a um passo de me compreender, numa fração de segundo algo explode e nem ao menos me recordo do último pensamento. Deve ser por isso que escrevo, para não perder o pensamento, e assim, quem sabe, as coisas vão caminhando e um dia me encontro no ponto certo de mim e deixo de ser tão insípida. Abro a echarpe de seda. Tão linda e suave que me inspira a dançar um bolero. E eu que nem sei dançar. Pareço-me mais com uma toureira driblando o destino. Ele vem furioso com seus chifres afiados. "Una mujer luchando contra su destino", poderia narrar um locutor de touradas. Por pouco não nasci na Espanha. Mas nasci toureira por determinação da natureza. As leis do universo falharam. Se é que existe uma política de leis que determina um lugar para você existir. Eu sou cidadã do mundo. Trinta e tantos anos, uma inquietação que me leva a dançar diante do espelho e essa sensação idiota de se sentir convocada a participar da grande luta da redenção da humanidade. Seria notável, não é? Mas o mundo não precisa de salvação, eu sim, preciso. Preciso salvar-me de mim mesma, dos meus sonhos e da minha ingenuidade. Qualquer sonho ou promessa de amor me deslumbra. É como o mar. Forte como a fúria do mar a precipitar-se em suas recifes, muitas vezes determinada pela lua. A lua já essencialmente morta em suas águas. A lua de Eulália. Na verdade todas essas reflexões são
endereçadas à loucura. A loucura de existir desnudamente. Preciso
estar um pouco mais escondida. Tenho de aprender a caminhar pelos
meandros das mulheres sedutoras. Das mulheres que se revelam aos poucos,
ou que nunca se revelam. Já tentei cavar um túnel pelas linhas das
palavras e jogar com as situações. Mas minha essência é o amor de
braços abertos sangrando numa cruz. Talvez amanhã eu aprenda a ser uma
mulher fatal. Mas como hoje é hoje e amanhã é amanhã, ainda me
permito a liberdade de amar sem passagens subterrâneas. Lucilene Machado |
Música: Tango
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