ALMAS GÊMEAS

Conheceram-se numa noite prateada. Palavras despedaçadas ecoavam pelos labirintos das conversas. Ele tinha o olhar manso de quem conhecera os sete mares. Um olhar que discretamente a vigiou. Mas ela custou a perceber. Tinha uma certa lentidão em convergir para um mesmo ponto as nervuras das sentenças. Até que o canto da lira debruçou-se em seus ouvidos numa cantiga que atraía os dois pólos. Canção tardia, versou ele. E ela, timidamente, deixou-se enlevar. Cantar de beira de rio. Barulho das águas batendo nas pedras. Noite que vem do acaso depois de muitas luas. Noite que atravessou abismos, equilibrou-se na fina linha do tempo e estabeleceu-se na mão da eternidade.
 
Fizeram-se heróis. Heróis de relógios no pulso a lutar contra casualidade. As horas tremiam sobre a face das trevas. Um universo movendo-se com a respiração do tempo. O mundo deve ter começado assim. O que fazer para que a noite não durma? Ou para que não acorde retalhada pelo sol? Um céu longínquo, calado. Silêncio pousado nos lábios. Cheiro de flores a arranhar os olhos. Pupilas crescendo e ajustando-se na pequena distância. Amores de retinas fatigadas.
 
Num gesto intuitivo, ela oferece o corpo para uma leitura. A verdade mais despida que ele já lera. Palavras desdobrando-se pelos percursos das curvas. Tênues linhas desenhando letras irreverentes. Signos generosos indicando um oásis. Um fio de água subterrâneo pulsando entre as circunstâncias. Sangue aceso nas faces. Deveria tocá-la?
 
Deve ser para isso que aprendeu, desde sempre, a escrever a palavra amor. Olhou para uma costa extensa inclinada para o sul. Comportaria um poema todo. Mas sentiu as mãos ásperas. Argila debaixo das unhas. Ela era uma estrangeira de corpo e alma. A pele pálida sulcada por veias cotidianas, relatava uma história desconhecida. Por onde havia andado todos esses anos? Há muito seriam íntimos, não fosse uma geografia que os separassem.
 
Sonhos de artifícios moviam-se pelo corpo dela como se pintados com giz de cor. E ele tentando uma expressão sensível para atingir a mesma sintonia. Por que sentia pudor? Mãos cheias de pecado. Catedral plena de silêncio. Na sua frente, um corpo em libação. Ósculo santo! implorou com os olhos. Adivinhavam-se por impulsos. Redimiam-se com salivas. Jamais ele vivera algo tão espiritual. No abraço contra o peito, um palpitar sem tato. Tão perto as estrelas! Desejou recitar salmos. "Despertai saltério e harpa." Quem mesmo havia escrito os salmos? "O pardal encontrou casa e a andorinha ninho para si". O que está no verbo, está na carne. Por Cristo, nosso Senhor! Vinho agradável ao paladar. O tempo tremulava entre améns e aleluias. Um sino dentro de cada templo. Taça de mel para brindar a vida. Temeu um orgasmo mortal. Suaram frio. Em nome do pai, do filho e do santo espírito. E houve luz.

 Lucilene Machado

Música: Tango

Crônicas|poetas|especiais|busca interna|livro de visitas|e-mail|home 
 


Para receber nosso
Boletim de Atualizações
cadastre AQUI o seu email


Envie esta página
para alguém especial