|
ALÉM DA DESPEDIDA
Perdôo-lhe, também, todas as vezes que você dormiu enquanto eu lhe falava do meu dia, das crianças que não quiseram comer, do menor que teve febre, do gás que acabou na hora do jantar... mas que conversa, né, você sempre cansado com os seus afazeres e eu lhe falando do gás. Logo você que morria de raiva daqueles caminhões tocando "Pour Elise". Ah, e o que eu tinha de ficar comentando essas histórias?! Pobre de você, já tinha que ouvir tantas histórias durante o dia! Por isso eu lhe perdôo e estendo também esse perdão a todas as vezes que você não adivinhou os meus desejos secretos, que nem eram tão secretos assim, estavam expostos na minha cara, na minha roupa, no meu perfume... e eu ficava me encostando, achando um jeito de mudar os significados das palavras pra que você entendesse e transgredisse as formalidades uma vez na vida... mas você dizia boa noite e pronto. E eu ficava ali olhando para as paredes, fixando o olhar num ponto e noutro tentando domar o que havia dentro de mim. Ah, JB, eu lhe perdôo por você não ter me ensinado o que eu precisava aprender. A minha alma dissimulada vivia se jogando ao mar, mas na verdade eu nunca passei dos lençóis. E você sabia JB, você sabia de geografia, de essência... conhecia a dimensão da atmosfera e até os mistérios das galáxias, mas nunca quis dividir comigo. Nem por amor, nem por pecado, nem por nada. Entretanto, não lhe guardo rancor e ainda lhe perdôo pelos bilhetes
que você não respondeu. Pelos convites de jantar que você não fez.
Pelas flores que você não mandou. Pelas palavras de amor que você
não disse. Pela falta de entusiasmo e por aquela tua maneira
preguiçosa de achar que até pensar era inútil... eu lhe perdôo por
aquela admiração tola que você tinha por você mesmo, pelo sucesso
arrogante que você julgava só seu e pela maneira de me fazer sentir
tão pequena. Não tem problema JB, eu sei que chegou a hora da verdade,
a hora em que a vida presta as contas e você ficou com o saldo
negativo. Saldo negativo é eufemismo, JB. Você ficou mesmo foi com um
grito entalado na garganta. E nem gritar você pode, porque o grito é
mudo e seco. Um grito que corta o peito, rasga a alma e não sangra.
Como é horrível a dor que não sangra! Por isso, consternada, lhe dou
o perdão. Quem sabe ele ameniza a sua angústia. Prometo não mais
lembrar das mentiras, nem da sua insanidade. Tantas vezes você
enlouqueceu, não é mesmo? E deu murro na mesa, chute na porta, gritos
ao vento... e às vezes algum objeto caía, quebrava... e eu ficava com
medo, me escondia numa ausência distante, mas depois ouvia sua voz e
voltava numa vertigem estúpida. E tinha a visão duplicada, a cabeça
rodando, ruídos perturbando meu raciocínio e aquela impressão de
coisa já vivida, reprisada... uma desproteção de casa derrubada. E
ficava, e chorava... e tinha vontade de saltar do prédio num só
impulso e me imaginava lá em baixo de braços em cruz , a roupa suja,
cabelo sujo, lágrimas e sangue misturados sob o sol ardente e você em
pé fingindo não entender o porquê de tudo. E esse pensamento foi
crescendo JB, foi tomando forma, ficou próximo de um sonho, às vezes
me dava um quase prazer ter a carne contraída naquela espécie de
sentimento... comecei a ter o desespero calmo dos que enlouquecem, você
percebeu, não é? e isso eu não perdôo JB, não perdôo, não
perdôo! Lucilene Machado |
Música: Tango
|
|
|