A CONCHA

A madrugada está tão silente que posso ouvir o barulho do mar numa concha. Concha que eu mesma encontrei enterrada na areia da praia. E já faz tanto tempo! Pulseiras, colares, chaveiros e outras quinquilharias também lembram o mesmo episódio, mas nada é tão primitivo e íntimo quanto a concha.

A mim, ela passa a ilusão do formato de uma alma (Veja que pensamento estúpido!) Indefinida na forma e nas cores, além de guardar no vazio, o barulho do mar. A alma também é assim, “tem um vazio do tamanho de Deus” e um mar interior marulhando em ondas. Sem contar a semelhança na textura externa. Ambas são ásperas, cheias de cicatrizes por ser, constantemente, alvo de ataques, mas não se desgastam e têm a resistência do que é eterno.

Tá certo que a concha não é tão imortal quanto à alma. A concha é relativa. Se eu quisesse poderia quebrá-la agora ou transformá-la em pó, mas a alma é invisível aos olhos, a alma é emoção e só através dos sentimentos seremos capazes de tocá-la. Que coisa mais perfeita!

Penso que as coisas mais perfeitas que Deus criou, são as invisíveis, porque elas anulam a nossa inteligência. E, acho que o nosso maior pecado é a inteligência, essa estranha capacidade que faz de nós pequenos deuses além de alimentar as raízes da nossa ignorância. Aí a gente fica ingerindo o próprio nutriente, respirando o próprio ar, o próprio hálito... e se Deus chegar e nos tocar o ombro, jamais iremos reconhecê-lo porque estamos abastados de nós mesmos.

Que seres complicados somos nós! E nem vou continuar nesta linha de raciocínio porque isso se torna um estado vicioso. Meditar é um vício. É um ato que atinge o êxtase no momento em que conseguimos perder as multiplicidades ilusórias desse sistema terrestre e nos conscientizamos que Deus paira sobre todas as coisas. Inclusive sobre aquelas que desconhecemos. Então, ficamos fortes, equilibrados e queremos repetir a singularidade até que se torne um ritual e diga-se, o ritual se torna mais importante que a busca. Quero dizer, no fundo até perdemos de vista a busca e o que queremos é um equilíbrio centrado em nós, claro. É aquela velha história de ficar atento ao ritual da fé e perder o objetivo da fé. Às vezes, aqueles que não se valem de ritual algum, estão mais apto a receber o “maná” que aqueles que detêm conhecimentos. Todo conhecimento está sujeito à conseqüências. É o preço. Aí a gente pergunta para Deus o porquê disso e ele responde com uma outra pergunta e a coisa vai tomando uma dimensão ainda maior, vai se alargando dentro da gente, abrindo espaço para nascer uma criança que seja capaz de pegar uma concha pela madrugada para ouvir o barulho do mar.

É esse o estado em que me encontro. Seria isso uma epifania? Ou seria a fragilidade do corpo diante de uma alma em crescimento? Às vezes penso, aliás, sempre penso, que a alma me esbarra num canto e noutro feito um filho que quer nascer e por isso fico tão inquieta pensando essas coisas impensáveis e escrevendo essas palavras que ninguém diria. Mas, tudo está tão definitivamente pensado e as palavras tão conclusivamente escritas que ninguém questionaria se eu me arriscasse a dizer que, se minha alma resolvesse nascer agora, ela iria direto para o aconchego de Deus.

Lucilene Machado

Música: Tango

 
 
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