|
PATRÍCIA
REHDER GALVÃO
- PAGU -
Pagu nasceu no dia 10 de junho de 1910, em
São João da Boa Vista. "Um anjo anárquico
que veio ao mundo para nos inquietar”,
segundo Plínio Marcos.
Três anos após, a família mudou-se para
São Paulo, Capital.
A São Paulo que encontram é uma cidade que
passa, desde o fim do século XIX por
transformações profundas. Ao mesmo tempo
em que as lavouras cafeeiras atraem
imigrantes, ali proliferam as indústrias
que se utilizam da mão-de-obra excedente
do campo sem dar conta da densidade
populacional já ali existente.
Pagu não somente presenciou como viveu
ativamente as questões políticas e sociais
de sua época. Suas atividades tiveram
início com o envolvimento no grupo dos
modernistas, passou pela militância do
Partido Comunista, incluiu prisões
políticas e a desilusão com a realidade
socialista, culminando com intensa
atividade jornalística como crítica ativa
e combativa apaixonada pelas artes ,
especialmente o teatro.
Sobre ela, descreve Oliveira Ribeiro Neto,
à época estudante de direito, em
depoimento ao poeta Augusto de Campos,
gravado no Museu da Imagem e do Som de São
Paulo: "Era uma menina forte e bonita, que
andava sempre extravagantemente maquiada,
com uma maquiagem amarelo-escura, meio cor
de queijo Palmira, e pintava os lábios de
quase roxo, tinha um cabelo comprido assim
pelos ombros e andava com os cabelos quase
sempre desgrenhados com grandes argolas
nas orelhas".
"Corriam em São Paulo, cidade provinciana,
histórias malucas a seu respeito: fugas,
pulando janelas e muros da escola, cabelos
cortados e eriçados, blusas transparentes
de decotes arrojados, cigarros fumados em
plena rua. Escândalos para a época",
afirma o teatrólogo Alfredo Mesquita em
texto de 1971.
Aos 12 anos de idade, Pagu presencia
Semana de Arte Moderna de 1922 e o início
do movimento modernista, do qual iria
participar mais tarde.
Além da Escola Normal, Pagu freqüenta com
a irmã Sidéria o Conservatório Dramático e
Musical de São Paulo, onde lecionava o
escritor e poeta Mário de Andrade. Numa
crônica escrita alguns anos depois para o
Diário de São Paulo, Pagu rememoraria o
professor: "Mário de Andrade tinha um riso
largo de criança, eu roubando frutas no
tabuleiro da casa que tinha perto do
Conservatório, na Avenida São João, e nós,
meninas, sem saber que aquele professor
comprido e feio, de riso de criança
grande, era um poeta".
Em 1928 Pagu completa o curso normal e
entra em contato com o grupo da
Antropofagia, uma evolução do pensamento
modernista. É nesse momento que ganha de
Raul Bopp o apelido que a acompanharia
pela vida inteira. É ainda ele quem a
introduz no salão da Alameda Barão de
Piracicaba, nas reuniões oferecidas por
Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.
O movimento antropofágico, lançado em 1928
com o "Manifesto Antropófago" escrito por
Oswald de Andrade, era uma radicalização
do modernismo de 1922. Esse texto foi
publicado no primeiro número da Revista de
Antropofagia, criada para difundir o
movimento. Depois de dez números, a
revista passa por uma reformulação e
inicia sua segunda fase, ainda mais
radical que a primeira. É nessa "segunda
dentição" – como os autores se referem à
nova fase – iniciada em 1929, que Pagu
inicia sua colaboração, basicamente com
desenhos. Em junho desse mesmo ano, ela se
apresenta numa festa beneficente no Teatro
Municipal em que, vestida por Tarsila,
declama poemas modernistas, incluindo
"Coco" de Raul Bopp e um poema de sua
autoria, presente no "Álbum de Pagu", de
1929, livro não publicado que ela ilustrou
com desenhos. Esse livro "Álbum de Pagu"
ou - Pagu " Nascimento, Vida, Paixão e
Morte", teve apenas publicação póstuma nas
revistas “Código”, de Salvador, em 1975 e
"Através", de São Paulo, em 1978.
A relação de Pagu com Tarsila e Oswald era
cada vez mais estreita, especialmente com
Oswald com quem inicia um romance em 1929.
Oswald descreve, de forma bem humorada e
em versos, o abalo na relação com Tarsila:
"Se o lar de Tarsila/ vacila/ é por causa/
do angu/ de Pagu".
Nesse mesmo ano de 1929 o mundo sofria
grande impacto econômico com a quebra da
bolsa de Nova Iorque e, no Brasil, a
conseqüência imediata foi a queda no preço
do café. Essa turbulência aumentaria em
1930, com a Revolução que levaria Getúlio
Vargas ao poder. Na Europa ganhavam força
rapidamente os movimentos nazista e
fascista que aqui no Brasil inspiraram a
criação da Ação Integralista Brasileira.
Nessa época, quando Oswald rompeu com
Tarsila ligando-se a Patrícia Galvão, foi
repudiado pela sociedade e a situação
financeira de Oswald ficou seriamente
abalada. Para fugir dos credores, ambos se
isolaram na Ilha das Palmas em Santos, ou
então na Vila Rafael, uma chácara
existente no atual bairro de Santo Amaro.
Em 25 de setembro de 1930, nasceu Rudá, o
filho que Patrícia estava esperando. Três
meses depois, Patrícia viaja para Buenos
Aires para participar de um Festival de
Poesias. Lá conhece Luís Carlos Prestes e
volta entusiasmada com os ideais
comunistas.
Ingressa então no Partido Comunista e
convence Oswald a se filiar também. Começa
então para ambos um período de intensa
militância política.
Em março de 1931 fundam o jornal tablóide
"O Homem do Povo". O jornal, no qual Pagu
escrevia artigos, fazia desenhos, charges
e vinhetas, além de assinar a seção "A
Mulher do Povo" em que criticava as
feministas da elite e as classes
dominantes, durou apenas oito números,
tendo sua circulação sendo impedida pela
polícia.
Pagu que já havia sido atuante nas
manifestações de rua por ocasião da
Revolução de 1930, participa em 1931 de
movimentos de operários da construção
civil em Santos.. Em 23 de agosto é presa
como agitadora e Oswald, na tentativa de
ajudá-la, se faz passar por seu advogado e
também é detido. Quando Pagu é libertada,
o Partido Comunista para se eximir de
culpa, a obriga a assinar um documento em
que se declara "agitadora individual,
sensacionalista e inexperiente". Segundo o
jornalista Geraldo Ferraz que viria a ser
seu marido, Pagu foi a primeira mulher
presa, no Brasil, por motivos políticos.
Em janeiro de 1933, Pagu lança seu
primeiro romance: "Parque Industrial -
Romance Proletário", sob o pseudônimo de
Mara Lobo e financiado por Oswald.
Em dezembro de 1933, Pagu sai em viagem
pelo mundo e Oswald custeia a viagem e
fica tomando conta de Rudá. Ela atua como
correspondente dos jornais Diário da
Noite, Diário de Notícias e Correio da
Manhã.
Visita primeiro os Estados Unidos, o Japão
e a China. Da China parte para Moscou, em
maio de 1934 e a realidade que vê a deixa
profundamente decepcionada. De Moscou
parte para a França, filiando-se ao
Partido Comunista francês com identidade
falsa (Leonnie) e participa das
manifestações ao lado da Frente Popular.
Passa por três detenções rápidas antes de
ser presa como militante comunista
estrangeira, em julho de 1935. É salva de
ser submetida a um Conselho de Guerra ou
deportada para a Itália ou Alemanha, pelo
embaixador Souza Dantas, que consegue sua
repatriação.
Volta para o Brasil no fim do ano,
separando-se definitivamente de Oswald.
Passa a colaborar no jornal A Platéia, mas
é presa em razão da Intentona Comunista.
Condenada a dois anos de prisão, fica nos
presídios Paraíso e Maria Zélia, em São
Paulo. Foge da cadeia antes de completar a
pena e é novamente presa e condenada a
dois anos e meio de prisão, que cumpre
dessa vez na Casa de Detenção do Rio de
Janeiro. Segundo sua irmã Sidéria, que
também ficou presa por algum tempo em São
Paulo, "no Rio Pagu foi torturada, sim,
inclusive aquela tortura estúpida, de unha
e tudo (agulhas enfiadas sob as unhas e
apanhou bastante". Cumprida a pena, ela
fica mais seis meses na prisão como
castigo por se recusar a prestar homenagem
a Adhemar de Barros, então interventor
federal que visitava a cadeia.
Foi libertada em julho de 1940, muito
doente e pesando 44 quilos. Segundo,
ainda, sua irmã Sidéria, Pagu tentou o
suicídio logo após sair da prisão e além
disso, teve depressões gravíssimas
passando tempos sem falar com ninguém.
A saída da prisão, entretanto, marca uma
nova fase na vida de Pagu. Passa a viver
com Geraldo Ferraz, que seria seu
companheiro até o fim. Rompe com o Partido
Comunista, tem seu segundo filho, Geraldo
Galvão Ferraz, em 1941 e passa a colaborar
em diversas publicações como redatora,
cronista ou crítica. Em 1942, publica
crônicas no jornal paulistano "A Noite" ,
sob o pseudônimo de Ariel.
Em 1945, Pagu lança seu segundo romance,
"A Famosa Revista".
A década de 1950 se inicia com uma nova
incursão de Pagu na política. Concorre a
uma vaga na Assembléia Legislativa de São
Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro.
Além disso, se aproxima cada vez mais do
teatro. Passa a freqüentar a Escola de
Arte Dramática de São Paulo - EAD - sob a
direção de Alfredo Mesquita. Seus
professores: Alfredo Mesquita, Décio de
Almeida Prado, Ziembinsky entre outros.
Em Santos: lidera a campanha para a
construção do Teatro Municipal, funda a
Associação dos Jornalistas Profissionais
de Santos, cria e preside a União do
Teatro Amador de Santos, por onde passaram
talentos como Aracy Balabaniam, José Celso
Martinez Correa, Sérgio Mamberti e Plínio
Marcos.
Na imprensa: dedicou-se à cultura,
publicando artigos e páginas especiais de
escritores, poetas e dramaturgos, tais
como Ionesco, Brecht, Fernando Pessoa,
Dostoievski, Rilke, Pirandello.
Traduziu escritores como Blaise Cendras,
Svevo e Arrabal.
Quando a doença se revelou - estava com
câncer - viajou em 1962 para ser operada.
A operação fracassou e Pagu tenta
novamente o suicídio, que não se consuma.
Volta ao Brasil e morre no dia 12 de
dezembro de 1962.
BIBLIOGRAFIA:
FRESCA,
Camila Ventura. Pagu. Coleção Caros Amigos
- Rebeldes Brasileiros - Homens e Mulheres
que desafiaram o poder.
CAMPOS, Augusto de. Através nº 2. São
Paulo: livraria Duas Cidades, 1978
CONTI, Mário Sérgio. A verdade de Pagu,
por Augusto de Campos São Paulo: Folha de
S.Paulo, Folhetim nº 278, 16 de maio de
1982 |