Depoimento da Leda Galvão - prima da PAGU e uma lunática de primeira ordem:

DD, conforme o prometido, estou anexando um resumo da biografia da Pagu.

Papai, Francisco Galvão Freire, casou-se com minha mãe, Maria Luiza Leme, no dia 08 de setembro de 1919, em Pinheiros, SP (não confundir com Pinheiros, bairro de São Paulo), cidadezinha que fica entre Lavrinhas e Queluz e que está resistindo ao tempo. Foram padrinhos de meu pai, Thiers Galvão Freire e Manoel Guedes Júnior (possuo xerocópia autenticada desse documento).

Tio Thiers, nós o chamávamos assim pois ele era tio do meu pai, era casado com Adélia Rehder Galvão e tiveram quatro filhos: Conceição, Homero, Patrícia (Pagu) e Sidéria.

No final de 1930, segundo minha irmã Stella (eu tinha 4 anos de idade e me recordo pouco dos acontecimentos desse tempo) nós morávamos em Cruzeiro. Conta ela: - "Nessa época, governava o Brasil o ditador Getulio Vargas. Idéias comunistas que se alastravam pelo país eram fortemente combatidas. Uma prima de meu pai, era jovem, idealista, uma mulher corajosa bem à frente de seu tempo. Seu nome: Patrícia Rehder Galvão e nós, da família, a chamávamos de Zazá. Uma noite, nós já estávamos recolhidos em nossos quartos. Naquele tempo não havia rádio e televisão e todos iam para a cama mais cedo. Meu pai atendeu alguém que batia na porta e chamava pelo seu nome- Tio Chiquito! Era Zazá com seu pequenino filho Rudá a quem chamávamos de Rodinho. Vinha pedir abrigo porque a polícia a estava procurando e, se a pegassem, ela seria presa, pois era militante do Partido Comunista. Ficou em casa somente dois dias. Minha mãe ficou muito nervosa porque se a descobrissem lá, meu pai também seria preso por abrigar alguém que, segundo o governo, era traidor da Pátria. Então meu pai, para ajudá-la, alugou uma casa pequena na cidade de Pinheiros, que era uma cidadezinha sem muito movimento e longe da Estrada de Ferro Central do Brasil, que era o maior meio de transporte naquela época. Essa casa alguns anos atrás ainda existia. Zazá ficou algum tempo lá. Papai sempre levava uma cesta com frutas e outras coisas para que ela não passasse necessidade. Mas seu temperamento irrequieto não suportou por muito tempo aquela vida monótona". ..."Sua vida é conhecida e até já foi feito um filme sobre ela. No filme, notei que não falam sobre sua mãe Adélia e nem de seu irmão Homero. Citam apenas seu pai Thiers e suas duas irmãs Sidéria e Conceição. No final do filme eles passam a idéia de que ela se suicidou e isso não é verdade.

Seu pai Thiers nos visitou por duas vezes em Pindamonhangaba, onde fomos morar em 1936. Conceição veio também e por duas ocasiões ficou uns dias em casa com seus dois filhos: Geraldo e Cléo. Sobre a vida de Sidéria nada sei, Homero foi para Goiás e faleceu lá tuberculoso, ainda jovem".

Delasnieve, essa é a parte da vida familiar de Pagu sobre a qual você poderá encontrar algumas distorções. Quanto à biografia dela, um resumo, mando abaixo.

 

PATRÍCIA REHDER GALVÃO

- PAGU -

Pagu nasceu no dia 10 de junho de 1910, em São João da Boa Vista. "Um anjo anárquico que veio ao mundo para nos inquietar”, segundo Plínio Marcos.

Três anos após, a família mudou-se para São Paulo, Capital.

A São Paulo que encontram é uma cidade que passa, desde o fim do século XIX por transformações profundas. Ao mesmo tempo em que as lavouras cafeeiras atraem imigrantes, ali proliferam as indústrias que se utilizam da mão-de-obra excedente do campo sem dar conta da densidade populacional já ali existente.

Pagu não somente presenciou como viveu ativamente as questões políticas e sociais de sua época. Suas atividades tiveram início com o envolvimento no grupo dos modernistas, passou pela militância do Partido Comunista, incluiu prisões políticas e a desilusão com a realidade socialista, culminando com intensa atividade jornalística como crítica ativa e combativa apaixonada pelas artes , especialmente o teatro.

Sobre ela, descreve Oliveira Ribeiro Neto, à época estudante de direito, em depoimento ao poeta Augusto de Campos, gravado no Museu da Imagem e do Som de São Paulo: "Era uma menina forte e bonita, que andava sempre extravagantemente maquiada, com uma maquiagem amarelo-escura, meio cor de queijo Palmira, e pintava os lábios de quase roxo, tinha um cabelo comprido assim pelos ombros e andava com os cabelos quase sempre desgrenhados com grandes argolas nas orelhas".

"Corriam em São Paulo, cidade provinciana, histórias malucas a seu respeito: fugas, pulando janelas e muros da escola, cabelos cortados e eriçados, blusas transparentes de decotes arrojados, cigarros fumados em plena rua. Escândalos para a época", afirma o teatrólogo Alfredo Mesquita em texto de 1971.

Aos 12 anos de idade, Pagu presencia Semana de Arte Moderna de 1922 e o início do movimento modernista, do qual iria participar mais tarde.

Além da Escola Normal, Pagu freqüenta com a irmã Sidéria o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde lecionava o escritor e poeta Mário de Andrade. Numa crônica escrita alguns anos depois para o Diário de São Paulo, Pagu rememoraria o professor: "Mário de Andrade tinha um riso largo de criança, eu roubando frutas no tabuleiro da casa que tinha perto do Conservatório, na Avenida São João, e nós, meninas, sem saber que aquele professor comprido e feio, de riso de criança grande, era um poeta".

Em 1928 Pagu completa o curso normal e entra em contato com o grupo da Antropofagia, uma evolução do pensamento modernista. É nesse momento que ganha de Raul Bopp o apelido que a acompanharia pela vida inteira. É ainda ele quem a introduz no salão da Alameda Barão de Piracicaba, nas reuniões oferecidas por Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.

O movimento antropofágico, lançado em 1928 com o "Manifesto Antropófago" escrito por Oswald de Andrade, era uma radicalização do modernismo de 1922. Esse texto foi publicado no primeiro número da Revista de Antropofagia, criada para difundir o movimento. Depois de dez números, a revista passa por uma reformulação e inicia sua segunda fase, ainda mais radical que a primeira. É nessa "segunda dentição" – como os autores se referem à nova fase – iniciada em 1929, que Pagu inicia sua colaboração, basicamente com desenhos. Em junho desse mesmo ano, ela se apresenta numa festa beneficente no Teatro Municipal em que, vestida por Tarsila, declama poemas modernistas, incluindo "Coco" de Raul Bopp e um poema de sua autoria, presente no "Álbum de Pagu", de 1929, livro não publicado que ela ilustrou com desenhos. Esse livro "Álbum de Pagu" ou - Pagu " Nascimento, Vida, Paixão e Morte", teve apenas publicação póstuma nas revistas “Código”, de Salvador, em 1975 e "Através", de São Paulo, em 1978.

A relação de Pagu com Tarsila e Oswald era cada vez mais estreita, especialmente com Oswald com quem inicia um romance em 1929. Oswald descreve, de forma bem humorada e em versos, o abalo na relação com Tarsila: "Se o lar de Tarsila/ vacila/ é por causa/ do angu/ de Pagu".

Nesse mesmo ano de 1929 o mundo sofria grande impacto econômico com a quebra da bolsa de Nova Iorque e, no Brasil, a conseqüência imediata foi a queda no preço do café. Essa turbulência aumentaria em 1930, com a Revolução que levaria Getúlio Vargas ao poder. Na Europa ganhavam força rapidamente os movimentos nazista e fascista que aqui no Brasil inspiraram a criação da Ação Integralista Brasileira.

Nessa época, quando Oswald rompeu com Tarsila ligando-se a Patrícia Galvão, foi repudiado pela sociedade e a situação financeira de Oswald ficou seriamente abalada. Para fugir dos credores, ambos se isolaram na Ilha das Palmas em Santos, ou então na Vila Rafael, uma chácara existente no atual bairro de Santo Amaro.

Em 25 de setembro de 1930, nasceu Rudá, o filho que Patrícia estava esperando. Três meses depois, Patrícia viaja para Buenos Aires para participar de um Festival de Poesias. Lá conhece Luís Carlos Prestes e volta entusiasmada com os ideais comunistas.

Ingressa então no Partido Comunista e convence Oswald a se filiar também. Começa então para ambos um período de intensa militância política.

Em março de 1931 fundam o jornal tablóide "O Homem do Povo". O jornal, no qual Pagu escrevia artigos, fazia desenhos, charges e vinhetas, além de assinar a seção "A Mulher do Povo" em que criticava as feministas da elite e as classes dominantes, durou apenas oito números, tendo sua circulação sendo impedida pela polícia.

Pagu que já havia sido atuante nas manifestações de rua por ocasião da Revolução de 1930, participa em 1931 de movimentos de operários da construção civil em Santos.. Em 23 de agosto é presa como agitadora e Oswald, na tentativa de ajudá-la, se faz passar por seu advogado e também é detido. Quando Pagu é libertada, o Partido Comunista para se eximir de culpa, a obriga a assinar um documento em que se declara "agitadora individual, sensacionalista e inexperiente". Segundo o jornalista Geraldo Ferraz que viria a ser seu marido, Pagu foi a primeira mulher presa, no Brasil, por motivos políticos.

Em janeiro de 1933, Pagu lança seu primeiro romance: "Parque Industrial - Romance Proletário", sob o pseudônimo de Mara Lobo e financiado por Oswald.

Em dezembro de 1933, Pagu sai em viagem pelo mundo e Oswald custeia a viagem e fica tomando conta de Rudá. Ela atua como correspondente dos jornais Diário da Noite, Diário de Notícias e Correio da Manhã.

Visita primeiro os Estados Unidos, o Japão e a China. Da China parte para Moscou, em maio de 1934 e a realidade que vê a deixa profundamente decepcionada. De Moscou parte para a França, filiando-se ao Partido Comunista francês com identidade falsa (Leonnie) e participa das manifestações ao lado da Frente Popular. Passa por três detenções rápidas antes de ser presa como militante comunista estrangeira, em julho de 1935. É salva de ser submetida a um Conselho de Guerra ou deportada para a Itália ou Alemanha, pelo embaixador Souza Dantas, que consegue sua repatriação.

Volta para o Brasil no fim do ano, separando-se definitivamente de Oswald.

Passa a colaborar no jornal A Platéia, mas é presa em razão da Intentona Comunista. Condenada a dois anos de prisão, fica nos presídios Paraíso e Maria Zélia, em São Paulo. Foge da cadeia antes de completar a pena e é novamente presa e condenada a dois anos e meio de prisão, que cumpre dessa vez na Casa de Detenção do Rio de Janeiro. Segundo sua irmã Sidéria, que também ficou presa por algum tempo em São Paulo, "no Rio Pagu foi torturada, sim, inclusive aquela tortura estúpida, de unha e tudo (agulhas enfiadas sob as unhas e apanhou bastante". Cumprida a pena, ela fica mais seis meses na prisão como castigo por se recusar a prestar homenagem a Adhemar de Barros, então interventor federal que visitava a cadeia.

Foi libertada em julho de 1940, muito doente e pesando 44 quilos. Segundo, ainda, sua irmã Sidéria, Pagu tentou o suicídio logo após sair da prisão e além disso, teve depressões gravíssimas passando tempos sem falar com ninguém.

A saída da prisão, entretanto, marca uma nova fase na vida de Pagu. Passa a viver com Geraldo Ferraz, que seria seu companheiro até o fim. Rompe com o Partido Comunista, tem seu segundo filho, Geraldo Galvão Ferraz, em 1941 e passa a colaborar em diversas publicações como redatora, cronista ou crítica. Em 1942, publica crônicas no jornal paulistano "A Noite" , sob o pseudônimo de Ariel.

Em 1945, Pagu lança seu segundo romance, "A Famosa Revista".

A década de 1950 se inicia com uma nova incursão de Pagu na política. Concorre a uma vaga na Assembléia Legislativa de São Paulo, pelo Partido Socialista Brasileiro. Além disso, se aproxima cada vez mais do teatro. Passa a freqüentar a Escola de Arte Dramática de São Paulo - EAD - sob a direção de Alfredo Mesquita. Seus professores: Alfredo Mesquita, Décio de Almeida Prado, Ziembinsky entre outros.

Em Santos: lidera a campanha para a construção do Teatro Municipal, funda a Associação dos Jornalistas Profissionais de Santos, cria e preside a União do Teatro Amador de Santos, por onde passaram talentos como Aracy Balabaniam, José Celso Martinez Correa, Sérgio Mamberti e Plínio Marcos.

Na imprensa: dedicou-se à cultura, publicando artigos e páginas especiais de escritores, poetas e dramaturgos, tais como Ionesco, Brecht, Fernando Pessoa, Dostoievski, Rilke, Pirandello.

Traduziu escritores como Blaise Cendras, Svevo e Arrabal.

Quando a doença se revelou - estava com câncer - viajou em 1962 para ser operada. A operação fracassou e Pagu tenta novamente o suicídio, que não se consuma. Volta ao Brasil e morre no dia 12 de dezembro de 1962.

BIBLIOGRAFIA:

FRESCA, Camila Ventura. Pagu. Coleção Caros Amigos - Rebeldes Brasileiros - Homens e Mulheres que desafiaram o poder.

CAMPOS, Augusto de. Através nº 2. São Paulo: livraria Duas Cidades, 1978

CONTI, Mário Sérgio. A verdade de Pagu, por Augusto de Campos São Paulo: Folha de S.Paulo, Folhetim nº 278, 16 de maio de 1982

Edição: Neli Neto
08.03.05
Música: Bushel

 

 
 

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