ÀS FAVAS A OBRIGATORIEDADE...
Delasnieve Daspet

Já perceberam que nos é imposto
que sejamos felizes
ao menos no Natal e no Ano Novo?

Na sociedade capitalista todos acreditam
que precisam comprar... comprar coisas,
objetos, gente, amor, sexo, afetos,
tudo que possa dar a sensação de felicidade.

E haja tempo para a pressa.
Afinal, para quê tanta correria,
se temos todo o ano para isso?

Aceito que sou uma ET.
Abomino festas de amigo oculto,
festinhas de confraternização,
ir na casa dos outros...
acho tudo isso de uma chatura suprema!

Não! Não tenho nenhum problema.
Cresci no mato. Lá o natal é família,
em casa. Um franguinho, no fogão à lenha,
fazia a festa, e pela manhã todos
iam a igrejinha agradecer.

Consigo sim, passar o natal e o ano novo,
olhando meus filhos, falando com os amigos,
ou numa retrospectiva de tv, e está tudo perfeito,
pois para mim todo dia e natal e ano novo.

Não me sinto obrigada a ser feliz, sorrir,
fingir, magnânima, animada, bonita
- em apenas um dia -
eu sou assim o ano todo!

As pessoas não conseguem ser outras
...e se deprimem.

Não incorpore essa obrigatoriedade de ser feliz
em ocasiões especiais.
Isso apenas nos tornam infelizes.
Para que teu natal não seja triste
faz crescer o espírito natalino que existe
em nós... quanto ao resto?
manda às favas!



TAMBÉM MANDO ÀS FAVAS
Armando Ivo Pinto de Andrade Filho
(copiando Delasnieve Daspet)
iandrade@superig.com.br

Desde pequeno sou inconformado,
não por ter conseguido "vencer",
mas por ser um perdedor, um sensitivo,
alguém que é chorão ante a dor e a miséria.

Berços diferentes de embalos,
mães ricas e pobres,
pés calçados ou no chão,
roupas da Daslu,
liquidação ou doadas,
Natal e Ano Novo
símbolos de falsas alegrias.

Sou utópico orando,
almejo fim de injustiças,
todos serem um só,
sem distinção,
o mesmo prato de comida,
a casinha,
o trabalho,
a terra,
dignidade.
sonhos realizados,
fim das violências,
Amor e Paz.

Me recordo,
moroso no comer,
a mãe dizendo "coma logo",
imaginava famintos,
e entre dentes tragava,
representava aquelas bocas.

Sempre os pobres,
favelas crescentes,
carência do trabalho,
saúde, vida,
direitos roubados,
o falso poder.

Semanas natalinas,
me são tristes,
efêmeras,
aumentam ilusões
de tantos marginalizados.

Somos ou não desonestos,
atores no confraternizar,
doar, dividir,
creches sem mães,
escravidão de mulheres,
maridos e dignidades.

E ante tudo,
alienado,
Me ponho a chorar!

Creio no Santo Espírito,
dadivosas pessoas,
lutantes de causas,
fontes esperançosas,
Dos meus sonhos,
Nossos Sonhos!

Reaproveitei a ode,
escrevendo entre lágrimas,
que confiem nesse Dia,
sem proselitismo,
mentiras,
somente verdades reais,
abraços puros de irmãos,
mundo do Cristo menino,
diários eternos de Noéis,
Naturezas afagantes,
a brincar como jovens,
dizendo:

"EU TE AMO!
VOCÊ SOU EU,
VIDA PERENE,
AMOR, MUITO AMOR!"



*****
Helena Armond

ISSO NÃO É UM POEMA
E NEM UM CONTO QUE CONTO
são contestações
à quem me lê....cumprimentos
==
o verde pinheiro...doação
ao Vaticano
me acalma e anima
por verdadeiro...
eu o vejo... oração

porém os pi-di-nheiros ...???
aquelas coisas de plastificados
(ruído esgarçado o bom gosto....)
imitação do cristal....
vejamos....senão...
para a disputa aos tamanhos
e aos lampadários ... psicodélicos
Freud
diria
"há uma disputa
uma aposta fálica e famélica"
são pênis eretos apontando ao infinito
poderes...
a ver quem ejacula
à maior distância...e primeiro

a árvore do Rio
de Janeiro...
CRISTO ! ! !
que vela entre verdes...!!!?????!!!

aquela grana bem aplicada
poderia ter salvo
mãe e filho massacrados
por elevadores parados ! !!

se eu disser
de... ruídos
com o significado de apenas : barulho...
nada digo

o porém o equivalente que alucina é feito
com objetos não identificáveis
aos sacos sacolas caixas
pacotes monturos embrulhos
embrulhos embrulhos
bolos perus recheados
com
aceleradores de crescimento
cremes tortas
leitões assados
com maçãs enfiadas na boca !
diria meu pai :
NERONE ! ! !
bastaria uma hóstia !
não...não posso pegar leve
se me oferecem prato de gato por lebre...
PAZ



*****
Zeca Pestana

Montei uma árvore de Natal
enfeitada com bichos
ratos sapos lagartixas
representando o mal e a inveja
me disseram que era de bruxa
um mal gosto
mas nem perceberam
que uma estrela brilhava
pisca-pisca
ofuscante
ainda havia uma esperança



*****
Carlos Assis

O ar da cidade faz mal aos pulmões
nunca vi o Sr. Noel passeando por aqui
ele vem sempre a serviço
recebendo salário
Não costuma ter ar sério
vive sorrindo
com aqueles olhinhos de vovô
que posso fazer sinto saudades
no fundo ainda sou uma criança
esperando um presente
um brinquedo
um doce
qualquer coisa
até um beijo seu




ESTE ANO NO NATAL
Marisa cajado

Este ano resolvemos
Que o Natal, vai ser diferente
Há muito que nós queremos,
Mudar o Natal da gente.
Reunião de familia,
É coisa que nós curtimos.
Mas a correria do Natal
Este ano desistimos.
Entre nós, combinamos:
Presentes, só pras crianças
A ceia simples, com planos
De brincadeiras e concordâncias.
A voz do papai Noel,
Vai pedir muita alegria,
Vamos lembrar de Jesus,
O aniversariante do dia.
E entre abraços sinceros,
Vamos compreender cada um,
Deixando de lado, eu quero
Para unir-nos, em voz comum.
Quem sabe este ano,
Coloque um ponto final,
Em todas as desavenças,
Possamos viver, o verdadeiro Natal.



CERTEZA NATALINA
Belvedere

há um desejo
todo meu
de que compreendam
que a vida prosseguirá
com ou sem
a presença de papai Noel...
as flores continuarão
com suas cores
seus perfumes
os pássaros cantarão
e voarão
as ondas do mar
prosseguirão
com seu bailado
tudo será realizado
em plenitude
com ou sem
a presença do velhinho

- tão chatinho
com aquele saquinho -



*****
Lourdinha Biagioni

Natal
deixa de ser
uma canseira,
etcétera e tal,
quando você passa
de bem com os seus
e com você mesma.
O tempo vai acabar não...
apenas outro ano
vai chegar
enquanto um termina.
Todo começo mora no fim.
Continuo eu, então,
com meu coração
de menina.
Tin-tin.



CLONARAM PAPAI NOEL
Asta Vonzodas

Fizeram muitos, inúmeros clones e espalharam pelos shopping centers do mundo inteiro. Conseqüentemente, assassinaram o original. Claro... Não poderia ser diferente!

Os clones servem ao poder aquisitivo. Vendem matéria.

O original atiçava a fantasia, acordava o amor, apregoava a paz.

Apregoar a paz? Como, se persistem os Bushes, rolam CPIs, crianças rolam sujas e famintas pelas ruas, tetos desabam e no nosso planalto... Comem pizza! Bom, é bem verdade que para o bem do desenrolar do contexto, rolam algumas cabeças. Mas isso não vem ao caso. O foco agora, é o Natal.

Natal, ou melhor dizendo: o Espírito do Natal dura apenas dois dias: a véspera e o dia em si. Para uns, porque alguns povos não comemoram este Natal de 25 de dezembro.

O que temos, de fato, é a falsa ilusão de que todos os problemas são esquecidos. Em nome das Boas Festas,nos tornamos repentinamente magnânimos, amigos, de boa paz, sinceros e... gastadores.

No próximo ano, exatamente aos dois dias de qualquer dois, três... quatro mil e trá lá lá, seremos os mesmos, com tudo o que implica em nossa essência.

Então, porque não termos um Natal diferente e além de desejarmos (como fazemos sempre), arregaçarmos as mangas, e realmente gritarmos em uníssono ecoando pelo planeta o BASTA! Que há muito nos trava o peito?

Vamos fazer diferente: Vamos ressuscitar o velhinho.




SENTIMENTO NATALINO
Arlete Maria

Sou tomada no natal
por uma mistura de sentimentos,
adoro a época pela beleza da decoração
toda aquela iluminação
pela alegria, euforia da população
num entra e sai de lojas
para enfeitar a casa
para comprar presentes
para comprar iguarias...
a euforia das crianças
esperando ganhar o presente
sonhado o ano inteiro
a euforia da mocinha, esperando
ganhar um novo amor,
enfim, todos eufóricos
alegres, sorridentes, confiantes.
Pena que isto dure apenas uma semana
porque no dia dois do próximo ano
o sorriso se apaga
a euforia acaba
e as contas chegam...
triste realidade...gastei demais
e pra que?em desespero nos damos conta
do desperdício que foi...
e pensar que nem todos
podem sonhar assim
nem todos podem comer
nem todos tem sequer
o direito de VIVER...



ÀS FAVAS QUE PERSISTE...
Liane Niremberg

O que posso dizer?
Sou judia, mas sempre tive em minha mente
aquela imagem do natal em família.
Simples, com muito amor, e carinho.
Natal Branco como era festejado na escola em que eu estudei
uma vida inteira...

Uma lástima é esse falso sentimento natalino de amor ao próximo.
Por que não o ano inteiro?
Por que não a todo momento?

Se cada um de nós ao lermos as notícias,
as tragédias, as estatísticas...
Ao invés de simplesmente seguirmos adiante
deixando passar batido...
Fizéssemos o que pudéssemos
o mínimo que fosse...

Um prato de comida, um agasalho,
uma palavra de conforto...
Um trabalho voluntário...
Tantos já o fazem, e anônimos...

Talvez esse tal espírito festivo, e que dizem ser natalino...
Realmente tomasse corpo, e a realidade outra seria.



NATAL: UM OUTRO LADO
Sueli do Espírito Santo

Natal, momento de reflexões
também de algumas "obrigações"
de atitudes e sorrisos forçados
para não deixar o outro magoado

Marqueteiros cheios de altruísmo
induzindo o povo ao consumismo
com seus personagens inventados
e cada vez mais endinheirados

Natal, competição de presentes caros
esquecendo gestos de amor, já raros
perdidos em algum lugar bem distante

Mas que fique muito bem claro
mais que amo o Aniversariante
Com Ele quero estar a cada instante



MENINO JESUS EU PROMETO
Iracema Zanetti

Ah, Menino Jesus...
Todos os anos as promessas se repetem,
E nunca cumprimos os juramentos
De nos tornarmos melhor, a cada dia!

Este ano vai ser diferente,
Serei fiel, comprometo-me, neste instante,
Sem depender da boa vontade de terceiros,
De nenhuma corrente de oração, ultrapassada,
E nunca levada a termo, que cumprirei o prometido!

Menino Jesus...
Faz com que este Natal seja o melhor dos Natais
Dos tempos felizes que já vivemos!
Torne a humanidade consciente, das agruras e desespero,
Que se passa em nosso grande mundo!

Não nos importaremos...
Se houver ou não, fartura à mesa!
Não nos importaremos...
Se não forem colocados nos sapatinhos
Das crianças, os presentinhos costumeiros.
Seremos sinceros e lhes explicaremos, sutilmente,
Os motivos verdadeiros...!

Não nos importaremos...
Se houver ou não, Árvores de Natal
Enfeitadas com bolas coloridas,
Mini lâmpadas piscando ou caixas de presentes
Embaladas em papel com motivos natalinos,
Envoltas em laços de fitilhos vermelhos!

Não nos importaremos,
Se não ouvirmos os sinos tocando
Ou os galos cantando!
Não nos importaremos se Papai Noel
Aterrissar com seu trenó sem nenhum presente!
Nos contentaremos com sua presença, seu amor,
Carinho e um enorme abraço apertado!

Mas, nos importaremos, sim,
Se não cessarem as guerras entre os povos,
Que há milênios vêm se trucidando...
Talvez, até esquecidos dos motivos verdadeiros,
Que os levam a continuar lutando!

Mas, nos Importaremos sim,
Para que o medo sentido pelo povo,
Seja deletado, para sempre, de seu viver...!

Mas, nos importaremos sim,
Que os pais de família,
Possam trabalhar dignamente...
E sejam respeitados pelos seus dirigentes...
Que consigam construir sobre rocha firme,
Um teto decente, para abrigar seus filhos,
Mesmo que, com o suor de seus corpos...
E lágrimas, a lhes escorrer pelas faces...

Menino Jesus,
Que a Paz em nosso planeta seja restaurada...
E, se meu amor, piedade, compaixão,
E meu pequeno quinhão material puder ajudar
Em alguma coisa aos desamparados...
Unirei minhas mãos em prece...
Louvarei Seu Nome no dia de Seu Aniversário,
E em cada um dos dias, e noites
Que me restarem de vida,
Em nosso Planeta abençoado...!

Menino Jesus, não nos desampare,
Segura nossas mãos...
Fica sempre ao nosso lado...!



DESOBRIGAÇÃO NATALÍCIA
Sônia Maria Grillo (Baby®)

Desculpe-me meus amigos poetas
Se vou decepcioná-los
Mas nesse Natal tenho como meta
Me desobrigar e também desobrigá-los

Não enviarei cartões natalícios,
Também não preciso receber nenhum
Partindo desse princípio
Tornarei tudo mais comum

Presentes? Nem pensar!
Festinha de amigo oculto?
Não quero participar,
E nem de confraternização de vulto!

Quero sim, seu carinho e amizade
Mas não em dia pré-determinado
Quero mesmo na verdade
Que em todos os dias estejamos ligados

Trocando emoções, compartilhando amor
Fazendo o bem a todos sem distinção
Tentando melhorar essa vida de desamor
Colorindo nossos dias com os tons da união

Assim procedendo, estarei me sentindo
Mais próxima de todos vocês na realidade,
Pois em todos os dias desse ano que está se esvaindo
Demonstramos toda a nossa fraternidade

Todo o nosso carinho e atenção,
Tudo mesclado de muita sinceridade
E como se fôssemos notas de canção
Fortalecendo cada vez mais, o hino da amizade

Portanto meus amigos, meus irmãos,
Mesmo distante da maioria de vocês,
Quero que saibam que moram em meu coração
Independente de um dia específico num mês!



NOITE (IN)FELIZ
Rosangela Aliberti

Passaram-se mais de 2000 anos
Papai Noel não irá descer na chaminé
de todas as casas
Cristo-rei ainda não conseguiu bater nas portas
Meu conceito de Natal
Joga fora qualquer papel de presente
da o b r i g a t o r i e d a de
Noite feliz é um estribilho brilhante
A saudade não é um refrão imaginário
Rodas-gigantes giram sem nervosismo
(In)felicidades fazem parte do cotidiano...
consumismo com os demais terrorismos
...contra o artificialismo
O Espírito de Boa Vontade Real

Sorriu com os sonhos das 'Crianças'
os excessos formam movimentos de pêndulos
nos corações dos simples...
sinos pequeninos tocam em todas as ilhas
querendo ou não...
alguns buscam suas próprias renovações
Não destruo natais caminho e canto com eles...
NoiTe FELIZ NoiTe INFELIZ...
mais uma NoiTe mais infeliz do que feliz?
As pessoas sempre decidem... a cor de seus dias
...a coloração de suas mil e uma noites



SONHO DE NATAL
Iracema Zanetti

Ah, como eu esperava com ansiedade,
E emoção, a vinda de Papai Noel,
Deslizando lá do céu em seu trenó mágico,
Todo enfeitado de fitas e sinos dourados...!

As renas me enlouqueciam!
Da cozinha, eu saía sorrateira
Ao jardim da minha casa,
Levando um pequeno balaio
Escondido às minhas costas,
Carregado de guloseimas para distribuir
Às renas ofegantes e cansadas,
Porque num embalo desenfreado,
Cruzavam os céus onde quer que
Papai Noel as levasse...
Para distribuir, antes da meia noite,
Os brinquedos encomendados...

...Dezembro, Verão em meu país...
E, dai?
Minha mãe não queria saber, se, fazia frio
Se, nevava ou se o Sol iluminava a noite!
Olhava-me com àquele olhar, que,
Somente eu entendia, e sabia, quando era,
Ou não, simples brincadeira!

Dizia em tom grave e cenho fechado...
Que, se eu quisesse ficar pertinho do céu,
Para ver Papai Noel chegar com os
Presentes, eu tinha que me agasalhar...
Sem choro e sem teimosia!

Mal minha mãe terminava de falar
E, eu me via vestida de agasalhos mofados,
E em suas mãos, botas e luvas de couro,
Aguardavam-me!

Cansada de tanto esperar,
E olhar para o céu, eu via, e sentia,
Minhas esperanças perderem-se no espaço,
Porque nem de leve a visão de Papai Noel
Surgiu uma só vez à minha frente...!

De repente, o tilintar de sinos
Interrompeu meu devaneio,
Senti-me acordar de um sonho lindo,
Ao ver Papai Noel
Em seu trenó a me acenar muito ligeiro!

As renas sustentavam-se no ar!
Papai Noel tomou-me em seus braços,
Sentou-me a seu lado e falou...
...Hoje é Noite de Natal...
Ainda temos tempo para um passeio...
Antes que os anjos cantem,
Proclamando o nascimento de Deus Menino!

Mais perto do céu estávamos...
Eu via milhões de estrelas piscando
E, de quando em quando,
Avistava um cometa azul passeando pelo espaço...

Vi um menino guiando renas
Que voavam, fazendo o vento soprar!
E lá ia ele, em seu trenó abarrotado
De presentes...
Sem medo de nada!
Eu não tinha idéia, para onde ele ia
E nem a quem ia ofertar tantos mimos
Como àqueles...

Vi seus olhos faiscarem, ao me olhar,
E o sopro de mil beijos...
Meu rosto acarinhar...

Eu nunca perguntei à minha mãe,
Se criança tinha coração,
E se batia ou não...!
Foi aí a primeira vez que senti
Doer meu peito, tanta, a emoção!

Notei a coragem e a audácia do menino,
Deslocando-se no espaço,
Entre estrelas adormecidas...

Minha alma de criança então se derreteu...
Amei de pronto àquele garoto...
E lhe tomei por meu herói...

Papai Noel olhou-me estranhamente...
E perguntou...

...A quem você atira beijos, se à minha volta
Não vejo ninguém, não vejo nada!?...

Encabulada, senti meu rosto arder...
Mas tive que responder...!

...Papai Noel, eu apenas retribuo beijos
A um lindo guri solitário dirigindo seu trenó,
Guiando as renas para frente...

Ah, Papai Noel...
O senhor poderia me fazer um favor?

...Faço sim minha menininha...
O que você quer,
De que está precisando?

Eu gostaria que o senhor desse uma ordem
Às renas, para pararem no ar
No instante em que seu trenó
Cruzasse com o do menino,
E me ajudasse a pular
Para junto dele...!

Sinto falta de um amigo verdadeiro
Que queira brincar somente comigo!
Eu penso que nos conhecemos...
Parece-me que já brincamos
Em algum jardim do ontem!

...Ah, minha criança linda...
Nesta vida tudo pode acontecer
Como num passe de magia!
Podemos mudar, transformar,
Partir, regressar, e recomeçar...
Porque o mundo não pára de girar!

Vamos combinar uma coisa...
Darei a você como presente de Natal,
O menino lindo que lhe sopra beijos,
Seu trenó, as renas e todas as caixas
De presentes que ele comprou

À menina que mais amou
E continua amando em sua vida!

A menina sem saber o que fazer...
A Papai Noel... perguntou?

...Papai Noel... Oi, Papai Noel...
E eu... que presente lhe dou?

Sorrindo, Papai Noel respondeu...
...Dá somente seu amor!...
Você é o presente...
Que ele sempre esperou...!

Minha mãe colocou os lábios em minha testa,
Dizendo em surdina a meu pai...

...Querido... Que bom... A febre passou!...



ÀS FAVAS A FALTA DE AMOR
Carvalho Branco

Natal... Quem disse que o Natal é alegria,
que nessa época reina solta a fantasia
e que as crianças são só sorrisos e felicidade?
Por que gosta de se enganar essa nossa humanidade?...
Trocar abraços e beijos, brincar de fraternidade,
fazer de conta que se amam de verdade
é comum na gente grande...
isso na frente dos demais... mas pelas costas,
não falta quem nos mande...
exatamente para aquele lugar...
enquanto fala, tranqüilamente, no celular...
Presépios vivos... anjos de mãos postas...
Lindo de apreciar!...
Natais de minha infância...
A família me parecia maior...
Na véspera, dia da consoada,
minha mãe trabalhava e ficava cansada
para à noite se ceiar...
Pobre coitada!...
Horas e horas, preparando a rabanada!...
Pensando no Papai Noel,
já não continha eu a ânsia...
As músicas, sabia-as de cor...
A cortina da janela do quarto era um véu
que ocultava a vinda do bom velhinho,
que pra mim sempre trazia presentinho...
Mas a menina da casa em frente,
nem botando lente,
enxergava o seu presente...
e eu à mamãe perguntava,
por que Pai Noel não a presenteava?
Minha mãe respondia
que ela com os avós teimava...
Era tão quietinha
aquela menininha!...
Eu não entendia...
Minha mãe, num gesto nobre,
não me dizia que a família era pobre...
Injustiça social!...
Pobre não tem presente de Natal!
Hoje, são tristes os meus Natais...
antigos parentes, já não existem mais...
filhos e nora...
são os mais próximos agora...
E a cada nova festa de Natal,
busco a antiga alegria sem igual
do rostinho infantil
de cada filho... Natal do Brasil!...
Só se vê, em cada face, desesperança...
até mesmo em cada criança...
Já não se fazem Natais como antigamente!...
Pobres e ricos já não crêem em Noel,
nem que o presente venha do Céu...
E cada um traz na sua mente
que só ganha presente quem tem dinheiro
e quem não o tem, acaba roubando do parceiro...
Espírito natalino!...
Quem ainda nele crê?...
Acho que nem menino!...
Ei!... Psiu, você!...
Ainda pensa em encontrar a felicidade
nos shoppings e caras lojas da cidade?
Mande às favas a obrigatoriedade
da mesa farta, embora o coração esteja frio...
Aqueça seu coração... busque, do amor, o rio
e reconheça que um Natal de verdade,
só precisa de paz e total fraternidade!...



ALUCINAÇÕES DO NATAL
Dácio Helene Júnior

Continuo achando o natal, a época mais triste do ano! Certamente dirão alguns que continuo louco! Direi que certamente eles continuam enganados! Dirão outros que ainda sofro de alucinações passageiras... Gostaria imensamente que fossem alucinações, apenas alucinações...

Que o miserável, sujo, ferido na alma que me olha através do vidro do carro sob a garoa, fosse uma alucinação...

Que a menina de corpo ainda não formado, sorrindo triste à margem da rodovia para levar trocados para casa ao final do dia, fosse uma alucinação...

Que o lixão da cidade disputado por urubus e crianças, fosse uma alucinação...

Que o idoso sem recursos morrendo a espera de atendimento em uma maca suja na fila de um pronto atendimento qualquer, fosse uma alucinação...

Que as crianças que fazem do "pedir" um meio de vida, fossem uma alucinação...

Que os recurso públicos criminosamente roubados da saúde, segurança e educação, fossem mais uma alucinação....

Que tudo que nos coloca nessa desgraçada condição de ver um semelhante à margem da vida, fosse apenas uma alucinação, uma adorável alucinação!

Mas não é. Infelizmente, não!

Passei por todo o ano, vendo desemprego, miséria, violência, abandono, dor, injustiça, frio, doença, medo, solidão e diante da brutalidade dos acontecimentos não me permito achar que o natal seja lindo. Eu estaria sendo desonesto comigo e para com todos aqueles que “assistem” ao natal passar...

Busco, mas não encontro graça nem beleza nessa alegria idiota, movida por uma compulsão mais idiota ainda, que determina que comprar, presentear, iluminar e comer são prazeres indispensáveis...

O aspecto religioso que serve como pano de fundo ao natal, também é discutível.

Apenas rezar em agradecimento pelo que acha que Deus lhe concedeu, enquanto tantos não tiveram a mesma sorte, é se auto excluir das mazelas da vida por merecimentos que só existem na sua cabeça!

Claro que há o lado mágico do natal, o lado que embriaga, seduz e apaixona. O lado doce, alegre e festivo. O lado maravilhoso que não está disponível para todos, por razões que somente o criador deve conhecer... e que o lado vil da alma humana, faz por manter...

Então o que podemos nós, estúpidos mortais, diante das fatalidades impostas pela vida?

- Muito pouco, é claro!

Mas em contra partida, o que pedem os incomodados pela fome, pela dor, pelo frio e pela solidão?

Certamente não desejam ouro. Nem poder. Nem glória.

Talvez estejam a nos oferecer uma oportunidade para diminuir a nossa culpa... E isso não é nenhuma alucinação!

Que você possa ter uma noite de muita paz neste Natal, sem cobranças da consciência, a única e verdadeira manifestação de Deus no homem!



NATAL DIFERENTE!
Marinez Stringheta ou Marapoeta

Um Natal diferente
Que agradasse a Deus somente
Ou a força que direciona a mente.
Que a boca se abrisse para dizer
Somente o que lhe vai ao coração.
E a voz a ser ouvida soasse
Como corda de violão.
Que a mesa posta não tivesse
Além do vinho e do pão.
E que todos se fartassem
Com essa refeição!
Que o ganho fosse abençoado
E chegasse do primeiro
Ao último habitante
Do povoado!!
Que ninguém partisse
Para que alguém sorrisse!
Que o poder não se fixasse
No topo da pirâmide.
Que entrasse na roda
Do direito e do dever!!
Que viver e vencer
Não caminhassem
Na corda bamba!
Que o Natal do Menino-Deus
Brindasse a Paz entre os meus
E os teus!!
Um Natal diferente...



*****
Peixão89

Frestas, labaredas e a noite!
Na fresca que passa a noite
Paira um sinal entre as estrelas
O olhar marca a lágrima distante
Feito o pão que amanhece fora
Do cesto, a espera do dia...
Brindes embrulhados em papel simples
Latas aquecendo o leite de ontem
Uma fria batata esmola o prato
Basta de apelos ao ar noturno
Barrigas vazias, sonhos cheios!
Luzes apontam pela cidade
Nem tanto como no passado
Lampejos de um ano que se espera melhor
Bate as angústias do retorno a fartura
Bate tantas saudades dos que já foram
O olhar brilhante da criança no bom velhinho
O encanto que permanece sempre
O pequeno embrulho debaixo do braço
Fagulhas de castanhas nas sobras do jantar
Músicas enternecem todas as vitrines
Os parcos recursos se multiplicam em uma ceia
Da fartura vem o espelho almejado
De um dia estar em tantas companhias
Trocar embrulhos distintos e sorrisos
Tocar fundo a alma e o coração
Trocar um beijo tão amado
Do presente o olhar que enleva
Amigos, família e outros que chegam,
Congraçam seja qual for à mesa posta
A meia que paira tão próxima da árvore
Pacotinhos brilhantes, brinquedos & roupas...
Acessórios, perfumes & outros quetais,
A calça reformada do primo maior,
Camisa que passou mais de ano esperando por você
O sapato com uma sola nova
Algumas bolinhas de gude, um jogo de botão...
Cadernos & lápis, um brinquedo mais simples...
Para alguns, somente a vez...
De olhar para tantas vitrines
Vejam os fogos, vejam a noite,
Chuva ou Lua, terra ou o mar,
Pobres ou ricos ou outros remediados,
Do ilustre ao desconhecido,
Mais uma noite de Natal que chega,
Outra passagem para um Novo Ano,
E um eterno renovar de esperanças...
O Espírito de Natal deve sempre prevalecer,
ele faz parte do bom da
vida!



O PEDIDO DO MENINO
Simone Borba Pinheiro

Senhor, é Natal, mais uma vez aqui estou aos pés do altar,
pedindo em oração o que todo mundo quer, de coração,
peço saúde para poder crescer forte e bonito como mamãe sonhou,
ela já não pode mais me ver, mas desde já quero agradecer.
Peço, Senhor, uma casinha para morar,
pois nos dias frios não tenho onde me abrigar.
Gostaria, Senhor. de poder me alimentar todos os dias
e sempre que com fome eu estiver.
Senhor, um banho quentinho todos os dias, seria bom,
pois de chuveiro só conheço o chafariz da praça onde moro.
Mas como é Natal as esperanças se renovam,
por isso, aqui estou Senhor,na verdade não peço muito,
mas o que peço é tudo o que necessito para viver e ser feliz.
Ah! Senhor, já ia esquecendo, gostaria também de ir a escola
e aprender a escrever uma oração bem bonita para Lhe agradecer,
pois eu mal sei rezar.
Antes de partir, mamãe me ensinou alguma coisa
que eu tento sempre lembrar.
Desejo Senhor, neste Natal, que todos tenham paz no coração,
muito amor e união... e tudo que pedi em oração.
Feliz Natal a todos .
Obrigado Senhor por me  ouvir!...



*****
Armando A. C. Garcia

Senhor!
Eu O espero novamente neste Natal.

Balsamiza Senhor, os corações sofridos
Leva conforto, aonde há desesperança,
Derrama sobre seus corpos combalidos
Excelsa recompensa, bem-aventurança !

Acena com ventura a todos no caminho
Ampara, cura, protege, dá guarida
Estende tuas mãos, alivia seu espinho
Senhor, é Natal. É esperança, é vida !

Leva a cada coração o renascer.
Se muito sofre aquele que não tem consolo
Mais sofre o que enxerga e não pode ver
Onde falta o caldo, o pão e o bolo.

Perambulam multidões de desabrigados
Pelas cidades, sem aconchego ou abrigo
Senhor se tu és pai, por quê enjeitados,
E os deixas desamparados em vil castigo

Senhor ! liberta da miséria os desvalidos
Do frio e da fome, que punge na rua
Tua cruz generosa, salve os oprimidos
O sacrifício de fel, por Deus, atenua

Já sei. Queres nos ver socorrer a desventura
Repartindo o pão com justiça e amor
Tudo quanto reste das sobras da fartura
Restaurando a fé divina, com fervor

Senhor! fecunda nossas pequeninas mentes
P’ra com Tua luz a angústia mitigar
Nutrindo de amor e paz tuas sementes
Ternura que jamais possamos olvidar

Sublime esta migalha generosa
Lágrimas alivia, fatia d’ conforto
Nesta noite de paz santa, caridosa
A irmãos desvalidos, náufragos sem porto

Descortina a luz que a vida aprimora
Espalha o bem, que a doutrina exalta
Verás que o mundo se eleva à luz da aurora
E nada que deres, no amanhã te fará falta

Caridade é a fonte viva, cristalina
Que te depura no caminho da verdade
É o pão, que alimenta a alma. A oficina
Que burila a pedra bruta à eternidade !

Que este Natal dissipe as trevas do caminho
Incompreensões, angústias e desencanto
Que traga a cada ser a luz do Teu carinho
Que o mundo inteiro se cubra com teu manto!



NADA CONTRA O PERU DE NATAL
Thereza Pires

25 de dezembro: apenas uma data no calendário... mas como dói

Nos jurássicos Natais antes da globalização, o quesito consumo - salvo nas casas milionárias - era fraquíssimo.

Cada criança recebia "O" presente, e que lambesse os beiços.

Lá pelas tantas ganhei a tão esperada boneca, acrescida de cabelos naturais, um plus originário dos bulbos de alguma trança desconhecida.

Encantada com as madeixas e com o brinquedo, batizei-a, imediatamente, de Elizabeth. Eu e a torcida do Flamengo demos às bonecas daquele e dos outros Natais da década o nome da então Princesa da Inglaterra, hoje Rainha.

Comida havia, e muita, ao redor da mesa de Natal. Culpa? Sim, mas enrustida.. talvez na tentativa de suprir o que faltava nos outros 364 dias. E ao descobrir que Papai Noel não existia, era uma tragédia íntima. A gente se sentia totalmente imbecil por ter acreditado na farsa injusta. Se era pra acabar, por que começaram?

Mesmo com as famílias estraçalhando a cabeça das crianças não havia a popularização da análise e, quem ia a um psi, dizia que a consulta era com um neurologista. E passava a ser olhado de lado, com desconfiança.

Em compensação a mentira dava seus frutos: não havia endividamento estimulado pela mídia.

Quem você compra agora, meio enfeitiçado pelos anestesiantes comerciais de tv, fica devendo em 12 vezes,até a próxima data magna da cristandade.

A verdadeira História

Teria sido bem mais simples se tivessem nos contado a verdade

Com jeitinho, seria como ouvir uma história

Inspirado em São Nicolau (uma figura de barba branca,que trajava um manto vermelho), o Papai Noel da lenda viajava num trenó puxado por renas .

A reforma protestante do século 16 eliminou a festa de São Nicolau, mas os holandeses a preservaram, sem abandonar seu Sinter Klaas (nome holandês para São Nicolau).

Quando ocorreu a corrente imigratória para os Estados Unidos, Sinter Klaus virou Santa Claus.

Mais tarde, um conto de 1821, de autoria de Clement Clarke, "The night before Christmas" (A véspera de Natal), contava que Papai Noel visitava aTerra em sua carruagem puxada por 9 renas.

Em 1863, o ilustrador Thomas Nast, do jornal novaiorquino "Harper's Illustrated Weekly" , desenhou a figura barriguda, jovial, de barbas brancas e nariz lustroso que chegou até nós.

Esqueceram do aniversariante

Curioso que no Brasil, salvo no Nordeste, no interior e em alguns lares mais conscientizados das cidades grandes, o aniversariante do dia 25, o que nasceu na manjedoura, é esquecido, em prol da figura criada em 1931 para campanha publicitária de um refrigerante.

Com fins específicos de incrementar o consumo da bebida e o comércio dos brinquedos.

Contam os historiadores que os primeiros presépios apareceram nas igrejas no século 16, montados pelos jesuítas. .

Aos poucos foram entrando nas casas e eram feitos de pequenas figuras de vidro, porcelana, cera, miolo de pão ou esculpidos em madeira.

Assim caminha a humanidade.

Guardadas as proporções e com a devida vênia de Brecht, tanto mais universal quanto mais regional. No castelo dos Windsor, nos barracos do Pavão-Pavãozinho, nos lofts de New York, na Avenue Foch, na Vieira Souto as coisas se passam mais ou menos de forma semelhante.

Para seguir o calendário manda o protocolo que, neste dia tão especial, as pessoas se reúnam com o agrupamento heterogêneo chamado família,ao invés de confraternizar com os amigos, aqueles que participam do dia a dia, que guardam segredos, aconselham e consolam, compartilham alegrias e aplacam tristezas . E acho o fim da picada o pessoal se empapuçar de nozes, castanhas e avelãs num verão de 40 graus como é o do Rio de Janeiro

O Natal, não deveria ser (mas ainda é) aquela festa linda em que os parentes , dispersados durante o ano, se reúnem frente ao peru assado. Espero que, com o tempo, a mesma globalização (que liquidou bonequinhas de porcelana com nome de rainha) ajude a abrir as mentes e adoçar os corações.

Nada contra o peru!



NATAIS E OS "OUTROS"
Tierle Maria P. Tricerri

Natais, quantos tivemos e quantos ainda teremos... criança sorrindo, sem teto pedindo, gente que doa. Outros nem tanto. Natal para boa parte dos humanos é uma data como outra qualquer, e ainda assim há pessoas "fazendo" o bem, criando alegria, recriando sonhos esquecidos. E tudo isso no décimo segundo mês do ano.

No entanto a sensação de felicidade é efêmera, igual ao cometa. Passa e nada resta além da escuridão, do vazio. Final de festa. Toma lugar o egoísmo, o individualismo, a falta de sono inerente a compromissos assumidos em nome do famigerado consumo de presentes, a perder de vista em prestações.

Dura vida, dura pena, enfim a realidade é restabelecida até a chegada do Carnaval, em que nova magia dá lugar ao destemido esconde-esconde por detrás de máscaras e paetês. É quando a "avenida" deixa de ser rua, a calçada deixa de ser trajeto diário do trabalhador anônimo e mulheres nuas cobrem de brilho a sombra legada pela passagem do cometa natalino. É, do Natal. Aquele mesmo. O esquecido que já se despediu há muito.

Bom seria se slogans do tipo "Natal sem fome" ou "Fome Zero" cedessem lugar a manchetes do tipo "Ano sem fome", "Ano sem crimes", "Ano sem violência", "Crianças em escolas de qualidade", "Professores valorizados", "Sobram vagas no mercado de trabalho", "Sobram leitos vazios nos hospitais", "Congresso Nacional, referência ética para os de outras nações", "Termina a Corrupção no Brasil".

Mas quando é que deixaremos o egoísmo de lado, e, finalmente, assumiremos uma postura crítica diante da vida política e econômica de nosso país? Isso diz respeito a você, a mim, ao vizinho e não é somente tema pertinente aos "outros" menos privilegiados do que nós. Quem são esses "outros" que nada significam no contexto de nossa existência? Esses anônimos revelados em épocas natalinas?

Ao falarmos desinteressadamente "deles" nestas épocas justificamos tudo aquilo que subjugamos para nós. A custa de que(m) foram essas conquistas amealhadas durante o ano com sacrifício e por que temos sempre a impressão que nada temos a ver com aqueles "outros" por nós segregados durante onze meses.

Será preciso chegar à velhice para então admitirmos que há algum fundamento na letra da canção Epitáfio, tocada pelos Titãs como que o grito de remorso por aquilo que deixamos de realizar por nós e, acrescento, pelo próximo?

É a velha desculpa para nosso frenesi abalroado com o conformismo que cega, indiferença alheia que nos retrocede a séculos de miserabilidade humana tão combatida pelos adeptos dos palanques eleitorais. Falam sobre ética da vida. Esta que poucos conhecem, ou melhor, ainda engatinham neste terreno árido de discussões entre corações e mentes.

A canção avisa: "devia ter amado mais, chorado mais e até errado mais". Será que aceitamos as pessoas como elas são? É fato. Os "outros" crescem vertiginosamente mais que os frutos colhidos de nossas atividades. Por isso, senhores dessa nação gigante, é hora de acordar! Vigiem seus direitos, mas compartam essa diligência com os "outros". De nada adianta estar só num deserto repleto de escorpiões.

Há que concorrer para um Brasil mais humano-são, crítico com a politicagem que alimenta a lascívia de nossos escolhidos representantes. Estes estão aí há anos ocupando as mesmas cadeiras no Congresso para nos fazer adormecer com firulas que nada trazem de progresso, lema legado apenas por uma Bandeira que perdeu a pátria e o real sentido da democracia.

Assim seguimos, ludibriando-nos ao comemorar Natais, Carnavais e Copas do Mundo numa eterna dilação de soluções, a esperar tudo de um ente imaginário imputado com o nome de "Estado", adjetivado como "ser salvador", do qual nos queixamos com freqüência. Como quem combate consigo mesmo. Afinal, quem é este enfadonho Estado de combalidos, senão os próprios homens e mulheres que acordam para as adversidades e injustiças em épocas de Natal, mas dormem pelo resto dos meses do ano.



NATAL SEM MAGIA
Neli Neto

Muitas vezes me pergunto
o que aconteceu com o mundo,
do porque tudo mudou?
Tudo está tão diferente
perdeu-se o encantamento
restando a indiferença
e mais nada.

Ando tão cansada de tudo
não que esteja cansada da vida,
mas daquilo que surge com ela.
Ando escabreada, assombrada
até mesmo muito assustada
com o que nos cerca,
de tudo que acontece
em todos os cantos do mundo.

Nestas horas,
é que me reporto ao passado
relembrando das datas festivas
do meu tempo de criança.
O engraçado é que percebo
nitidamente a mudança.

Em outras épocas o Natal
era só a mais pura alegria,
momentos de muita magia
fazendo com que cada criança
vibrasse felicidade.

Nada de muito requinte,
muito pelo contrário,
coisas simples, bem cuidadas
cercadas de muito carinho
manifestando amor.

Na árvore de natal,
o símbolo da cristandade,
brilhava bem forte a esperança
através dos olhinhos vidrados
existente em cada criança.

Papai Noel existia
no sonho de cada criança
na cartinhas enfeitadas
com os pedidos de presentes.

Nos brinquedos, bonecas de pano,
carrinhos de madeira, piões
cornetas, quebra-cabeças, piano,
enfim, tudo de preço barato.

O presépio armado na praça
nos mostrava um caminho de fé
no caminho pra Missa do Galo.
Afinal, era Dele o aniversário
e precisava ser comemorado.

A ceia tão simples, gostosa
nada de muito recheio,
nem de quitutes exóticos.
O que importava era estarmos unidos
comendo juntos, em família
celebrando o Seu nascimento.

Hoje, tudo é só visagem
o mais caro é que importa
perdendo a autenticidade.
Mesas fartas, refinadas
para os ricos saborearem.
Os pobres, coitados, nem podem
muitos nem tem dinheiro
pois vivem cobertos de fome.

Eu não posso celebrar o Natal
como antes, em minha infância.
Pois, quando percebo a mudança
me dói tanto o coração
que perco por completo o sentido
me sentindo vazia de tudo
em completa escuridão.

Fico triste com a frieza
que existe no coração das pessoas.
Seu sentido se perdeu
o comércio apareceu
que nem sequer eles lembram
que Natal é o aniversário
daquele que veio ao mundo
somente para nos salvar
promovendo a paz, união
o amor sincero entre os homens,
como uma linda irmandade.

 


23.12.05

Música: Jesus Alegria dos Homens - J.S.Bach

 
 

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