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Com singular propriedade
e ímpar inteligência, Rubenio Marcelo discorre no primeiro parágrafo do
prefácio de "Por um minuto ou para sempre...": "Escrever poesia é traçar,
com engenho/arte, por intermédio dos périplos azuis das metáforas e
parábolas, as concretas curvas e contracurvas do cotidiano, deixando fluir
naturalmente uma exaltação lírica, telúrica ou elegíaca das entranhas, e
celebrando - ao impulso cálido da esperança, do amor e da justiça -
sentimentos existenciais... ou - como disse o sonetista Geraldo Ramon
Pereira -, sentimentos paranormais."
É o que se torna patente com a magnânima intelectual e poeta Delasnieve
Miranda Daspet de Souza - natural de Porto Murtinho (MS), filha de Abraham
Daspet e Silvia (do qual herdou o refinado gosto pela leitura e escrita) e
Miranda Daspet.
Delasnieve é advogada por profissão e poeta por vocação, como podemos
conferir pelo fragmento de uma perspicaz entrevista:
Adelaido dos Anjos
- Como nasceu o interesse pela literatura?
Delasnieve Daspet - Sempre li. Herdei esse gosto de meu pai. Muito
cedo, ainda que morasse na fazenda, em Porto Murtinho, já tinha lido
alguns clássicos brasileiros e alguns internacionais. Meu pai sempre leu
muito e fez da leitura o nosso momento de encontro de todas às tardes. O
que se constituía num prazer; e ele me dizia sempre: "Leia e escreva o que
você achou... à tarde, quando voltar da lida, a gente conversa..." E era
isso mesmo!
Adelaido dos Anjos - Quais suas influências literárias? Escritores
prediletos... Quais livros fizeram e fazem parte de sua formação cultural?
Delasnieve Daspet - Li todos os clássicos. Os ditos malditos dos
anos 68/75. Mas sempre fui totalmente apaixonada por Álvares de Azevedo,
na poesia. Mas, gosto de Shakespeare; Mario Vargas Llosa; Machado de
Assis; Mario de Andrade; Freud; Dalton Trevisan; Borges; Neruda, tem tanto
etcétera que melhor parar por aqui. Aliás, quando terminava o ginásio, no
Maria Constança de Barros Machado, aquela época chamado Colégio Estadual
Campograndense - conheci a poesia de Geraldo Ramon Pereira. Foi o primeiro
livro - de poesia - que eu comprei.
Adelaido dos Anjos - O escritor é um artesão, pois escolhe as
palavras para dar-lhe cor, brilho, a intensidade para construir a forma
arquitetônica das emoções, situando-as no tempo e no espaço, e os seus
trabalhos literários emolduram estas situações. Como escolhe os temas e o
âmago de sua arte literária?
Delasnieve Daspet - Não escolho tema... O tema me escolhe e a ele
me entrego. Deixo que a emoção tome de mim o melhor que eu possa dar...
Divido com os sentimentos a minha arte, eu sou artesã da palavra, crio
poeroseiras, coloro-as de emoções e sonhos, imprimo-lhes meus sentimentos
para que eles - os meus versos - possam tocar o leitor - como algo que
estava em seu coração e de que ele nem se lembrava... J. KEATS - dizia
isso, claro em outros e belíssimos versos..
Aliás, tenho um poema onde me refiro a este momento, chama-se ESCULTORA: |
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Delasnieve Daspet no lançamento de
seu livro.
É tanta solidão que carrego.
É tanta saudade em meu peito.
Minhas noites sem nexo.
Amorfa existência.
Mas na condição humana
Na inspiração que me foi dada
Sou instrumento.
Minha arte é única.
Sofrível,
Dispare,
Inútil,
Escultora que sou
De palavras!
Trabalho pensamentos brutos,
Como pedras não lapidadas,
Inseguros sentimentos,
Tão humanos quanto eu!
Pensamentos de dores,
Minhas, de todos,
De todos os dias,
Esquecidas palavras.
Verbos perdidos na multidão
De sentimentos sem nome!
Esculpindo sonhos,
Lapidando vidas,
Entalhando utopias,
Nas formas brutas d'alma,
Vou distribuindo paixão
Na voz que não quer calar!
("Por um minuto ou para sempre..." pág. 101)
Com talento e particular construção
poética, Delasnieve Daspet discorre a realeza do lirismo e nos deixa a
soberba sensação de que "Feliz o homem que torna seu o momento presente e
que pode dizer consigo mesmo: haja o que houver, hoje vivi." (Dryden)
Vale a pena conferir! |