Thereza Pires

Oi,Jean!

Hoje, dia 16 de Março de 2004, faz exatamente um ano que pela última vez nos falamos por telefone, diretamente da casa de sua amiga Regina, três dias antes de sua passagem para a outra dimensão...

A saudade da mãe/enfermeira era grande. Como disse a Delasnieve, você começou a ir embora quando  Dona Dalva, morreu.

Você vivia num quartinho acanhado no meio do nada, depois de ter sido convidado a se retirar do lugar mais ou menos  confortável onde morava, por dificuldades materiais e pela falta de apoio de sua família (exceto a  ex-cunhada). Fazia um calor muito forte e seu pobre corpo cansado não suportou  mais perder fluídos, suar.

Naquele Salão, já era impossível trabalhar. A Liz  furava o bloqueio e conseguia marcar um corte de cabelo talvez desnecessário, fazer escova para festa inexistente, apenas para que você conseguisse sua batalhada  graninha.

Nem davam recados quando a gente lhe procurava, como se um portador de HIV não fosse gente de verdade... E como se aquela simples cadeira, cedida  a um profissional de nível internacional  em troca de uma comissão abusiva, fosse uma grande  caridade.

Uma vez fui atendida por uma pessoa inacreditável que, em lugar do tradicional "Alô?", perguntava "Quem me incomoda?"

Se assim  tratavam uma eventual cliente, dá para imaginar  a barra pesada que você enfrentava, amigo. Tão talentoso, tão sensível, tão alegre na tristeza, tão humilde na necessidade, tão  conformado e confiante em Deus na desgraça que se abateu sobre você...

Quero citar o carinho da  médica do Posto de Saúde, que tanto batalhou para que  você conseguisse aquela    salvadora aposentadoria por invalidez,  sistematicamente negada pela burrice burocrática e insensibilidade humana .

Ora, argumentavam, se você conseguia se locomover e dava pra levar  uma colher à boca, não era inválido. E tome carimbada no processo, e tome indeferimento, e tome decepção, e tome baixa imunidade, e  tome recaídas da doença, e tome a morte. 

Quantas vezes ouvi você falar na alegria de pertencer a este Grupo, porque aqui se aceitava e respeitava um homossexual. Foram muitas, muitas  as citações à Iracema, - que você chamava seu Anjo da Guarda -, e a todos que abriram seus corações para você entrar com aquele sorriso luminoso.

Quer saber uma novidade, Jean? Os astrônomos descobriram agora um novo planetóide, chamado Sedna. Nem planeta nem asteróide, uma coisa meio híbrida que fica  várias vezes mais distante da Terra do que Plutão, onde a temperatura nunca passa de menos 240 abaixo de zero.

Quando li a notícia, fantasiei logo que você foi pra lá ver como a coisa funciona, porque agora pode viajar pelo tempo/espaço sem a complicação do corpo material, já livre das dores e dos martírios da doença.

Mas que, pela magia dos pensamentos e das vibrações de saudade, também pode estar aqui,  bem agora, em meio aos  amigos e amigas poetas do Grupo da Luna.

Beijo muito carinhoso da sua Tetê.

 

 

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