GRAMÁTICA POÉTICA

Escolas Literárias

O Classicismo - II

Literatura clássica

Afonso de Albuquerque

Afonso de Albuquerque (1445-1515). Foi nomeado governador da Índia pelo rei D. Manuel I e é considerado um dos heróis portugueses ligado às Descobertas. Comandou a conquista da cidade de Ormuz. São conhecidas as Cartas para El-Rei, publicadas pela Academia Real das Ciências em 1884, cartas estas que foram enviadas ao rei D. Manuel quando o seu autor se encontrava na Índia.

Bibliografia: António Baião, Grandes Vultos Portugueses: Afonso de Albuquerque, vol. III, Lisboa, 1913. Edgar Prestage, Afonso de Albuquerque, Governor of India, Watford, 1929.

Álvaro Velho

Álvaro Velho (século XV-XVI) terá nascido no Barreiro em data incerta e participou como marinheiro ou soldado na expedição de Vasco da Gama à Índia. Segundo Valentim Fernandes, terá passado oito anos na Guiné (1499-1507). O diáro de bordo de Álvaro Velho, Roteiro da Índia, chegou até nós incompleto, desconhecendo-se o manuscrito original. A cópia encontra-se na Biblioteca Pública Municipal do Porto. O Roteiro da Índia, ou Roteiro da Viagem que em Descobrimento da Índia pelo Cabo da Boa Esperança fez D. Vasco da Gama em 1497, foi publicado no Porto em 1838.

ROTEIRO DA ÍNDIA
(extracto)

Em nome de Deus, Amém. Na era de 1497 mandou el-rei D. Manuel, o primeiro deste nome em Portugal. a descobrir, quatro navios, os quais iam em busca de especiarias, dos quais navios ia por capitão-mor Vasco da Gama, e dos outros: dum deles Paulo da Gama, seu irmão, e do outro Nicolau Coelho.

Partimos do Restelo um sábado, que eram oito dias do mês de Julho da dita era de 1497, nosso caminho, que Deus Nosso Senhor deixe acabar em seu serviço. Amém.

Primeiramente chegámos ao sábado seguinte à vista das Canárias, e essa noite passámos a julavento de Lançarote, e à noite seguinte amanhecemos com a Terra Alta, onde fizemos pescaria obra de duas horas, e logo esta noite, em anoitecendo, éramos através do Rio Oiro.

E foi de noite tamanha a cerração que se perdeu Paulo da Gama de toda a frota por um cabo e, pelo outro, o Capitão-mor. E, depois que amanheceu, não houvemos vista dele nem dos outros navios; e nós fizemos o caminho das Ilhas de Cabo Verde como tinham ordenado que quem se perdesse seguisse esta rota.

Ao domingo seguinte, em amanhecendo, houvemos vista da Ilha do Sal, e logo daí a uma hora houvemos vista de três navios, os quais fomos demandar; e achámos a nau dos mantimentos, Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias, que ia em nossa companhia até à Mina, os quais também tinham perdido o Capitão-mor.

E, depois de sermos juntos, seguimos nossa rota, e faleceu-nos o vento e andámos em calmaria até à quarta-feira seguinte. E, às dez horas do dia, houvemos vista do Capitão-mor, avante nós obra de cinco léguas; e sobre a tarde nos viemos a falar com muita alegria, onde tirámos muitas bombardas e tangemos trombetas, e tudo com muito prazer por o termos achado.

E ao outro dia, que era quinta-feira, chegámos à Ilha de Santiago onde pousámos na Praia de Santa Maria com muito prazer e folgar.

E ali tomámos carnes, e água e lenha; e corrigindo as vergas dos navios, porque nos era necessário.

E uma quinta-feira, que eram três dias de Agosto, partimos em leste e, indo um dia com sul, quebrou a verga ao Capitão-mor, e foi em dezoito dias de Agosto; e seria isto duzentas léguas da Ilha de Santiago. E em vinte e dois do dito mês, indo na volta do mar ao sul quarta do sudoeste, achámos muitas aves, feitas como garções, e, quando veio a noite, tiravam contra o su-sueste muito rijas como aves que iam para terra; e neste mesmo dia vimos uma baleia, e isto bem oitocentas léguas em mar.

A vinte e sete do mês de Outubro, véspera de S. Simão e Judas, que era sexta-feira, achámos baleias, e umas que se chamam focas, e lobos-marinhos.

Uma quarta-feira, primeiro dia do mês de Novembro, que foi de Todos-os-Santos, achámos muitos sinais de terra, os quais eram uns golfões que nascem no longo da costa.

Aos quatro dias do dito mês, sábado antemanhã, achámos fundo de cento e dez braças ao mais. E, às nove horas do dia, houvemos vista de terra; e, então, nos ajuntámos todos e salvámos o Capitão-mor, com muitas bandeiras, estandartes e muitas bombardas, e todos vestidos de festa. E em este mesmo dia virámos, bem junto com a terra, na volta do mar; porém, não houvemos conhecimento da terra.

À terça-feira viemos na volta da terra, e houvemos vista de uma terra baixa e que tinha uma grande baía. O Capitão-mor mandou Pêro de Alenquer no batel, a sondar se achava bom pouso, pelo qual a achou muito boa e limpa e abrigada de todos os ventos, somente de nordeste. E ela jaz leste-oeste, à qual puseram nome Santa Helena.

À quarta-feira lançámos âncora na dita baía, onde estivemos oito dias limpando os navios e corrigindo as velas e tomando lenha.

António Ferreira

António Ferreira (1528-1569) nasceu em Lisboa, estudando Direito na Universidade de Coimbra. Além de desembargador, cultivou a poesia, sendo o discípulo mais famoso de Sá de Miranda. Os seus poemas foram publicados por seu filho, Miguel Leite Ferreira, em 1598, sob o título de Poemas Lusitanos. Escreveu as comédias Bristo e Cioso, publicas em 1622, e a tragédia Castro, publicada em 1587. É considerado um dos maiores poetas do classicismo renascentista de língua portuguesa.

TRAGÉDIA CASTRO
(extractos)

ACTO IV

INÊS E O REI

CASTRO:
Meu Senhor,
Esta he a mãy de teus netos. Estes são
Filhos daquelle filho, que tanto amas.
Esta he aquella coitada molher fraca,
Contra quem vens armado de crueza.
Aqui me tens. Bastava teu mandado
Pera eu segura, e livre t'esperar,
Em ti, e em minh'innocencia confiada.
Escusarás, Senhor, todo este estrondo
D'armas, e Cavaleiros; que não foge.
Nem se teme a innocencia, da justiça.
E quando meus peccados me accusaram.
A ti fora buscar: a ti tomara
Por vida em minha morte: agora vejo
Que tu me vens buscar. Beijo estas mãos
Reaes tam piedosas: pois quiseste
Por ti vir-te informar de minhas culpas.
Conhece-mas, Senhor, como bom Rey,
Como clemente, e justo, e como pay
De teus vassallos todos, a que nunca
Negaste piedade com justiça.
Que vês em mim, Senhor? Que vês em quem
Em tuas mãos se mete tam segura?
Que furia, que ira esta he, com que me buscas?
Mais contra imigos vens, que cruelmente
T'andassem tuas terras destruindo
A ferro, e fogo. Eu tremo, senhor, tremo
De me ver ante ti, como me vejo:
Molher, moça, innocente, serva tua,
Tam só, sem por mim ter quem me defenda.
Que a lingua não s'atreve, o sprito treme
Ante tua presença, porém possam
Estes moços, teus netos, defender-me.
Elles falem por mim, elles sós ouve:
Mas não te falaram, Senhor, com lingua,
Que inda não podem: falam-te co as almas,
Com suas idades tenras, com seu sangue,
Que he teu, faláram: seu desemparo
T'está pedindo vida: não lha negues
Teus netos são, que nunca téqui viste:
E vê-los em tal tempo, que lhes tolhes
A glória, e o prazer, qu'em seus spritos
Lhe está Deos revelando de te verem.

REY:
Tristes foram teus fados, Dona Ines,
Triste ventura a tua.

CASTRO:
Antes ditosa,
Senhor, pois que me vejo ante teus olhos
Em tempo tam estreito: poem-nos hora,
Como nos outros soes, nesta coitada.
Enche-os de piedade com justiça.
Vens-me, senhor, matar? porque me matas?

REY:
Teus pecados te matam: cuida nelles.

(...)

REY:
Ó molher forte!
Venceste-me abrandaste-me. Eu te deixo,
Vive, em quanto Deos quer.

CASTRO:
Rey piadoso,
Vive tu, pois perdoas: moura aquelle,
Que sua dura tenção leva adiante.

PACHECO, REY, COELHO

Oh Senhor, que nos matas! que fraqueza
Essa he indigna de ti? de hum real peito?
Vence-te húa molher, e estranhas tanto
Vencer assi teu filho? que já agora
Terá desculpa honesta: não te esqueças
Da tenção tam fundada, que te trouxe.

REY:
Não pode o meu sprito consentir
Em crueza tamanha.

PACHECO:
Mór crueza
Fazes agora ao Reyno – agora fazes
O que faz a pouca agora em grande fogo.
Agora mais s'acende, arderá mais
O fogo do teu filho. A que vieste?
A pôr em mór perigo teu estado?

(...)

REY:
Não vejo culpa, que mereça pena.

PACHECO:
Inda hoje a viste, quem ta esconde agora?

REY:
Mais quero perdoar, que ser injusto.

COELHO:
Injusto he quem perdoa a pena justa.

REY:
Peque antes ness estremo, que em crueza.

COELHO:
Não se consente o Rey peccar em nada.

REY:
Sou homem.

COELHO:
Porém Rey.

REY:
O Rey perdoa.

PACHECO:
Nem sempre perdoar he piedade.

REY:
Eu vejo húa innocente, mãy de hús filhos
De meu filho, que mato juntamente.

COELHO:
Mas dás vida a teu filho, salvas-lh'alma,
Pacificas teu Reyno: a ti seguras.
Restitues-nos honra, paz, descanso.
Destrues a traydores; cortas quanto
Sobre ti, e teu neto se tecia.
Offensas, senhor, publicas não querem
Perdão, mas rigor grande. Daqui pende
Ou remedio d'hum reyno. ou quéda certa.
Abre os olhos às causas necessarias,
Que te monstramos sempre, e que tu vias.
Cuida no que emprendeste, e no que deixas.
O odio de teu filho contra ti,
Contra nós tal será, como qual fora,
Fazendo-se, o que deixas por fazer.
A ti ficam seus filhos, ama-os, honra-os.
Assi lh'amansarás grã parte da ira.
Senhor, por teu estado te pedimos:
Polo amor do teu povo, com que t'ama,
Polo com que sabemos que nos amas:
Mais estas razões fortes, que essa mágoa
Injusta, que depois chorarás mais,
Perdendo esta occasião, que Deos te mostra.

REY:
Eu não mando, nem vedo. Deos o julgue.
Vós outros o fazei, se vos parece
Justiça, assi matar quem não tem culpa.

COELHO:
Essa licenca basta: a tenção nossa
Nos salvará cos homens, e com Deos.

CHORO:
Em fim venceo a ira, cruel imiga
De todo bom conselho. Ah quanto podem
Palavras, e razões em peito brando!
Eu vejo teu sprito combatido
De mil ondas, ó Rey. Bom he teu zelo:
O conselho leal: cruel a obra.

POEMAS LUSITANOS

SONETOS

1

Livro, se luz desejas, mal te enganas.
Quanto melhor será dentro em teu muro
Quieto, e humilde estar, inda que escuro,
Onde ninguém t'impece, a ninguém danas!

Sujeitas sempre ao tempo obras humanas
Coa novidade aprazem; logo em duro
Ódio e desprezo ficam: ama o seguro
Silêncio, fuge o povo, e mãos profanas.

Ah! não te posso ter! deixa ir comprindo
Primeiro tua idade; quem te move
Te defenda do tempo, e de seus danos.

Dirás que a pesar meu fostes fugindo,
Reinando Sebastião, Rei de quatro anos:
Ano cinquenta e sete: eu vinte e nove.

2

Dos mais fermosos olhos, mais fermoso
Rosto, que entre nós há, do mais divino
Lume, mais branca neve, ouro mais fino,
Mais doce fala, riso mais gracioso:

Dum Angélico ar, de um amoroso
Meneio, de um esprito peregrino
Se acendeu em mim o fogo, de que indino
Me sinto, e tanto mais assi ditoso.

Não cabe em mim tal bem-aventurança.
É pouco üa aima só, pouco üa vida,
Quem tivesse que dar mais a tal fogo!

Contente a alma dos olhos água lança
Pelo em si mais deter, mas é vencida
Do doce ardor, que não obedece a rogo.

3

S'erra minh'alma, em contemplar-vos tanto,
E estes meus olhos tristes, em vos ver,
S'erra meu amor grande, em não querer
Crer que outra cousa há ai de mor espanto,

S'erra meu esprito, em levantar seu canto
Em vós, e em vosso nome só escrever,
S'erra minha vida, em assi viver
Por vós continuamente em dor, e pranto,

S'erra minha esperança, em se enganar
Já tantas vezes, e assi enganada
Tornar-se a seus enganos conhecidos,

S'erra meu bom desejo, em confiar
Que algu'hora serão meus males cridos,
Vós em meus erros só sereis culpada.

4

Quando entoar começo com voz branda
Vosso nome de amor. doce, e suave,
A terra, o mar, vento, água, flor, folha, ave
Ao brando som se alegra, move, e abranda.

Nem nuvem cobre o céu, nem na gente anda
Trabalhoso cuidado, ou peso grave,
Nova cor toma o Sul, ou se erga, ou lave
No claro Tejo, e nova luz nos manda.

Tudo se ri, se alegra, e reverdece.
Todo mundo parece que renova.
Nem há triste planeta, ou dura sorte.

A minh'alma só chora, e se entristece,
Maravilha de Amor cruel, e nova!
O que a todos traz vida, a mim traz morte.

5

Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assi me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esprito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meio?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo.
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.

6

(À morte da esposa)

Ó alma pura enquanto cá vivias,
Alma, lá onde vives, já mais pura,
Porque me desprezaste? Quem tão dura
Te tornou ao amor que me devias?

Isto era o que mil vezes prometias,
Em que minha alma estava tão segura?
Que ambos juntos Da hora desta escura
Noute nos subiria aos claros dias?

Como em tão triste cárcer' me deixaste?
Como pude eu sem mi deixar partir-te?
Como vive este corpo sem sua alma?

Ah! que o caminho tu bem mo mostraste,
Porque correste à gloriosa palma!
Triste de quem não mereceu seguir-te!

Bento Teixeira Pinto

Bento Teixeira Pinto terá nascido em Pernambuco, Brasil, em meados do século XVI (põe-se também a hipótese de ele ter nascido na cidade do Porto). Muito pouco se sabe da sua vida, sendo considerado o primeiro poeta brasileiro. É autor de um poemeto heróico em oitava rima intitulado Prosopopeia. É composto apenas por um canto (noventa e quatro estâncias) entoado em louvor de Jorge de Albuquerque Coelho, capitão e governador de Pernambuco. Foi publicado pela primeira vez em Lisboa em 1601 (havendo autores que alegam ser essa a segunda edição, tendo a primeira saído em 1593).

PROSOPOPEIA

Para a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o céu luminoso mais serena
Tem sua influência, e temperada
Junto da nova Lusitânia ordena
A Natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto e tão seguro
Que para as curvas naus serve de muro.

É este porto tal, por estar posta
Uma cinta de pedra inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa
Onde quebra Neptuno a fúria esquiva,
Entre a praia e pedra descomposta,
O estanhado elemento se deriva
Com tanta mansidão, que uma fateixa
Basta ter à fatal Argos aneixa.

E m o meio desta obra alpestre e dura
Uma boca rompeu o Mar inchado,
Que na língua dos bárbaros escura
Parnambuco de todos é chamado.
De Parana que o Mar; Puca, rotura,
Feita com fúria desse Mar salgado,
Que sem no derivar comete míngua,
Cova do Mar se chama cm nossa língua.

Para entrada da barra, a parte esquerda,
Está uma lajem grande e espaçosa,
Que de piratas fora total perda
Se uma torre tivera sumptuosa.
Mas quem por seus serviços bons não herda
Desgosta de fazer cousa lustrosa,
Que a condição do Rei que não é franco,
O vassalo faz ser nas obras manco.

Sendo os Deuses à lajem lá chegados,
Estando o vento em calma, o Mar quieto,
Depois de estarem todos sossegados,
Per mandado do Rei e por decreto,
Proteu no Céu, com olhos enlevados,
Como que investigava alto secreto,
Com voz bem entoada e bom meneio
Ao profundo silêncio larga o freio.

Canto único, 17-21

Bernardim Ribeiro

Bernardim Ribeiro (1480/1500 – 1530-1545) terá nascido na vila de Torrão, Alentejo em data incerta e, segundo alguns autores, terá visitado a Itália na companhia de Sá de Miranda. Chegaram até nós cinco éclogas e a novela Saudade, mais conhecida por Menina e Moça. Algumas das suas posias foram inseridas no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. É-lhe atribuída por alguns a autoria da écloga Crisfal, assinada por Cristóvão Falcão. Os temas das suas obras andam à volta da infelicidade amorosa.

ÉCLOGAS

ÉCLOGA II

Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per Da moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava
e o pastor de Alentejo
era, e Jano se chamava.

Quando as fomes grandes foram
que Alentejo foi perdido,
da aldeia que chamam o Torrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado;
que Alentejo era enxuito
de água e mui seco de prado.

Toda a terra foi perdida;
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
Ver Alentejo era um dó!
E Jano, pera salvar
o gado que lhe ficou,
foi esta terra buscar;
e, se um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.

O dIa que ali chegou
com seu gado e com seu fato,
com tudo se agasalhou
em üa bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, à ribeira,
Joana acertou de i ver,
que se andava pela beira
do Tejo, a flores colher.

Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava,
fermosa bem parecia
aos olhos de quem na olhava.
Jano, em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado:
Joana flores colhia,
Jano colhia cuidado.

Depois que ela teve as flores
já colhidas, e escolhidas
as desvairadas coores,
com rosas entremetidas,
fez delas üa capela,
e soltou os seus cabelos,
que eram tão longos como ela
e de cada um a Jano, em vê-los,
lhe nacia üa querela.

E enquanto aquisto fazia
Joana, o seu gado andava
por dentro da água fria,
todo após quem o guiava.
Um pato grande era guia,
e todo junto em carreira.
ora rio acima ia.
ora, em a mesma maneira.
o rio abaixo decia.

Joana, como assentou
a capela, foi com a mão
à cabeça, e atentou
se estava em boa feição.
Não ficando satisfeita
do que da mão presumia,
partiu-se dali direita
pera onde o ria fazia
de água üa mansa colheita.

Chegando à beira do rio,
as patas logo vierom
todas Da a üa, em fio,
que toda a água moverom.
De quanto ela já folgou
com aquestes gasalhados,
tanto entonces lhe pesou,
e com pedras e com brados
dali longe as enxotou.

Depois que elas foram idas
e que a água assossegou,
Joana, as abas erguidas,
entrar pela água ordenou;
e assentando-se, então,
as sapatas descalçou,
e, pondo-as sobre o chão,
por dentro de água entrou
e a Jano pelo coração.

Enquanto, com passos quedos,
Joana pela água ia,
antre uns desejos e medos
Jano, onde estava, ardía;
não sabia se falasse,
se saísse, se estivesse:
que o amor mandava que ousasse,
e, por que a não perdesse,
fazia que arreceasse.

Dizem que naqueste meo
se esteve Joana oulhando;
e, descobrindo o seu seo,
oulhou-se, e dixe, um ai dando:
«Eu guardo patas, coitada,
não sei onde isto há-de ir ter,
mais era eu pera guardada.
Que concerto foi este, ser
fermosa e mal empregada!»

Em aquisto Jano ouvindo,
não se pôde em si sofrer,
que de antre as ervas saindo
se não lançasse a correr.
Joana, quando sentiu
os estrompidos de Jano,
e que se virou e o viu,
temor do presente dano
lhe deu peis com que fugiu.

Mui perto estava o casal
onde vivia o pai dela,
que fez ir mais longe o mal
que Jano teve de vê-la.
Mas o medo que causou
Joana partir-se assi,
tanto as mãos lhe embaraçou,
que a sapata esquerda, ali,
com a pressa lhe ficou.

Jano, quando viu e olhou
que nenhum remédio havia,
pera o lugar se tornou
aonde ela na água se via.
E vendo a sapata estar
no areal, à beira de água,
foi-a correndo abraçar.
Tomando-a, creceu-lhe a mágoa,
e começou de chorar.


Vem ali ter, entretanto, Franco, outro pastor, que mantém com o seu amigo Jano um longo diálogo, no qual ambos se lamentam das suas infelicidades amorosas. E a écloga termina ao entardecer, com o levar do gado à água.

Cristovão Falcão

Cristóvão Falcão de Sousa terá nascido em Portalegre entre 1515 e 1518 de uma família nobre. Seu pai era cavaleiro, tendo servido como capitão na Mina. Foi educado a partir dos nove anos no Paço, onde aprendeu as belas-artes. Por ter casado com uma menor em segredo, foi condenado e preso no castelo de Lisboa. Saído da prisão cinco anos depois, procurou a sua amada em Lorvão, começando entretanto a escrever o poema Crisfal, onde canta a arrebatadora paixão que o tomara. Em 1542, o rei D. João III, para evitar mais escândalos, enviou-o a Roma como seu agente particular. Regressado ao reino, é despachado em 1545 como capitão da fortaleza de Arguim, na África. Regressou a Portugal em 1547, tendo sido novamente preso devido à agressão a um fidalgo. Em 1551 obtém uma carta de perdão. Terá casado em 1553 com Isabel Caldeira, não se conhecendo mais nada sobre o que depois lhe sucedeu.

A écloga Crisfal (criptónimo de Cristóvão Falcão?) foi publicada de 1543 a 1546 numa folha volante. Em 1554, é publicada em volume por Ferrara. Em 1559 teve uma edição em Colónia baseada na de Ferrara. A. Epifânio da Silva Dias organizou a edição de 1893 e o brasileiro Sousa da Silveira a de 1933.

Até 1908 era opinião unânime de que a obra fora escrita por Cristóvão Falcão. Nesse mesmo ano, Delfim Guimarães publicou o livro Bernardim Ribeiro, o Poeta Crisfal e no ano seguinte Teófilo Braga e a Lenda do Crisfal, em que tentou demonstrar que o autor do écloga era Bernardim Ribeiro e não Cristóvão Falcão. No entanto, estudos mais recentes reafirmam a autoria de Cristóvão Falcão.

CRISFAL

Antre Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n'água salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amarom
como males lhe causarom
este bem, que nunca fora,
pois foi o que não cuidarom.

2

A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele tam mal merecia.
Sendo de pouca idade,
não se ver tanto sentiam
que o dia que não se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

3

Algüas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e então se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
piquena e, tinha cuidado
de guardar milhor o gado
o que lhe Crisfal dezia;
mas, em fim, foi mal guardado;

4

Que, depois de assi viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana, outra pastora,
que a Crisfal queria bem;
(mas o bem que de tal vem
não ser bem maior bem fora,
por não ser mal a ninguém).

5

A qual, logo aquele dia
que soube de seus amores,
aos parentes de Maria
fez certos e sabedores
de tudo quanto sabia.
Crisfal não era então
dos bens do mundo abastado
tanto como do cuidado;
que, por curar da paixão,
não curava do seu gado.

6

E como em a baixeza
do sangue q e pensamento
é certa esta certeza –
cuidar que o mericimento
está só em ter riqueza –
enquerirom que teriam
e do amor não curarom;
em que bem se descontarom
riquezas, se faleciam,
por males que sobejarom.

7

Então, descontentes disto,
levarom-na a longes terras
esconderom-na entre üas serras,
onde o sol não era e visto
e a Crisfal deixarom guerras.
Além da dor principal,
pera mor pena lhe dar,
puserom-na em lugar
mau para dizer seu mal,
mas bom pera o chorar.

8

Ali os dias passava
em mágoas, da alma saídas,
dizer a quem longe estava,
e chorava por perdidas
as horas que não chorava.
Em vale mui solitário e
sombrio e saudoso,
send'o monte temeroso
pera o choro necessário
pera a vida mui danoso,

9

Dizer o que ele sentia,
em que queira, não me atrevo,
nem o chorar que fazia;
mas as palavras que escrevo
são as que ele dezia.
Ali sobre üa ribeira
de mui alta penedia,
donde a água d'alto caía,
dizendo desta maneira
estava a noite e o dia:

10

«Os tempos mudam ventura
bem o sei, pelo passar;
mas, por minha gram tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a tristeza;
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.

11

Coitado de mim, cuitado
pois meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado!
Quem diz que o chorar descansa
é de ter pouco chorado;
que, quando as lágrimas são
por igual da causa delas,
virá descanso por elas;
mas como descansar hão
pois que são mais as querelas?

12

Com tudo, olhos de quem
não vive fazendo al,
chorai mais que os de ninguém,
que o que é para maior mal
tenho já para maior bem.
Lágrimas, manso e manso,
prossigam em seu ofício;
que não façam beneficio :
não servindo de descanso,
servirão de sacrefício.

13

Minhas lágrimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem tam aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade,
que esta vos não faltará.
Mas isto como será?
Pedi-la-ei à saudade,
e a saudade ma dará.

14

Todos os contentamentos
da minha vida passarom,
e em fim não me ficarom
senão descontentamentos
que de mim se contentarom.
Destes, polo meu pecado
(inda que nunca pequei
a e quem amo e amarei),
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.

15

Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e já agora esperar
não ousa minha esperança,
por me mais não magoar.
Se por isto desmereço,
dê-se-me a culpa assim
e seja só com a fim,
que há muito que me conheço
aborrecido de mim.

16

Meu coração, vós abristes
caminho a meus cuidados,
pera virem a ser banhados
na água de meus olhos tristes,
tristes, mal galardoados.
Necessário é que vamos
algum remédio buscar
para se a vida acabar .
est'é bem que dessejamos,
est'é nosso dessejar.

17

Iremos pela estrada
por onde os tristes vão
porque nela, por rezão
deve ser de nós achada,
achada consolação.
Sobir-me-ei ao pensamento
qu'é alto; de ali verei
verei eu se poderei
ver algum contentamento
de quantos perdidos hei.

18

Mas o que poderá ver
quem já da vista cegou?
Porque quem me a mim levou
meu alongado prazer
nenhum bem ver me deixou.
Deixou-me em escuridade
um mal sobre outro sobejo,
pelo que triste me vejo
tam longe da liberdade
como do bem que dessejo.

19

Verei a vida, que em vida
bem vista tanto aborrece
aborrece a quem padece
tristeza mal merecida,
que minha fé mal merece.
Levarom-me toda a glória,
com quanto bem dessejei,
dessejei e alcancei;
ficou-me só a memória,
por dor, de quanto passei.

20

Lembrança do bem passado,
que não devera passar,
esta me há-de matar;
dá-me tal dor o cuidado,
que se não pode cuidar.
Nada, se não for a morte,
me dará contentamento:
segundo sei do que sento,
não sento prazer tão forte
que conforte meu tormento.

Damião de Góís

Damião de Góis nasceu em Alenquer em 1502 e faleceu na mesma vila em 1574. É considerado o maior humanista português e um dos maiores na Europa. Conviveu com Erasmo, Lutero, imperadores, reis, príncipes e outras personalidades da vida política e cultural da Europa do século XVI. Viajou por vários países europeus como escrivão da fazenda e como embaixador de Portugal. Foi perseguido pela Inquisição por suspeitas de heresia e por simpatizar com as ideias erasmistas e protestantes. Escreveu várias obras em português, mas foi como latinista que se distinguiu. O escritor Fernando Campos escreveu uma bibliografia romanceada deste autor intitulada A Sala das Perguntas (Difel, 1998).

Obras em latim: Legatio Magni Indorum Imperatoris Presbyteri Joannis (1532); Fides, Religio, Moresque Aethiopium (Lovaina, 1540); Aliquot Opuscula (Lovaina, 1544); Commentarii Rerum Gestarum in India, Citra Gangem a Lusitanis Anno 1538 (Lovaina, 1539); Urbis Lovaniensis Obsidio (Lisboa, 1546); De Bello Cambaico Ultimo (Lovaina, 1549); Urbis Olisiponis Descriptio (Évora, 1554).

Obras em português: Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel (Lisboa, 1566-1567, em quatro partes); Crónica do Príncipe D. João (Lisboa, 1567).

Diogo Bernardes

Diogo Bernardes (1520-1605) nasceu em Ponte da Barca, Alto Minho, e estudou em Braga. Foi moço de câmara do rei D. Sebastião e acompanhou-o a Alcácer Quibir (1578), tendo ficado prisioneiro dos Mouros depois da batalha. Relacionou-se com António Ferreira, Sá de Miranda e Pêro Andrade Caminha, tendo partilhado com eles as concepções clássicas, como a fidelidade aos modelos greco-latinos e renascentistas espanhóis e italianos. Obras: Rimas ao Bom Jesus e à Virgem Gloriosa sua Mãe (1595), O Lima (1596) e Flores do Lima (1597).

Outras páginas sobre o autor:

O Lima e o Bucolismo de Diogo Bernardes

ALGUNS POEMAS

As plantas rindo estão, estão vestidas
De verde variado de mil cores;
Cantam tarde e manhã os seus amores
As aves, que d'Amor andam vencidas.

As neves, já nos montes derretidas,
Regam nos baixos vales novas flores;
Alegram as cantigas dos pastores
As Ninfas pelos bosques escondidas.

O tempo, que nas cousas pode tanto,
A graça, que por ele a terra perde,
Lhe torna com mais graça e fermosura.

Só pera mim nem flor nem erva verde,
Nem água clara tem, nem doce canto,
Que tudo falta a quem falta ventura.

 

Onde porei meus oihos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que pera descansar parte me seja?

já sei como s'engana quem deseja,
Em vão amor firme contentamento,
De que, nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.

Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz est'alma sogigada,
Que dele está pendendo o meu desejo;

E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada,
Que, quanto mais me chego, menos vejo.

 

Meu pátrio Lima, saudoso e brando,
Como não sentirá quem Amor sente,
Que partes deste vale descontente,
Donde também me parte suspirando?

Se tu, que livre vás, vás murmurando,
Que farei eu, cativo, estando ausente?
Onde descansarei de dor presente,
Que tu descansarás no mar entrando?

Se te não queres consolar comigo,
Ou pede ao Céu que nossa dor nos cure,
Ou que trespasse em mim tua tristeza:

Eu só por ambos chore, eu só murmure,
Que d'um fado cruel o curso sigo,
Não tu, que segues tua natureza.

 

Águas do claro Lima, que corria
Pera mim, noutro tempo, claro e puro,
Que correr vejo agora turvo, escuro,
Quem afogou em vós minh'alegria?

Cuidei que com vos ver descansaria
Do mal do cativeiro, triste e duro;
Mas mais sem gosto aqui, menos seguro
Me vejo, do que me vi em Berberia.

Mudança vejo aqui em arvoredos:
Creceram muitos, muitos acabaram,
Fez seu ofício em tudo a natureza;

Duas cousas, porém, não se mudaram:
Lugar e duro ser destes penedos,
De vossos naturais teima a dureza.

ALHEIO

Que vistes meus olhos
Neste bem, que vistes
Que vos vejo tristes?

VOLTAS

As vossas lembranças
Não vos dão tormentos,
Nem levam os ventos
Vossas esperanças.
Não sei que mudanças
Vós de novo vistes,
Que vos vejo tristes.
Que dor ou que medos
Causam vossa dor?
Lágrimas d'amor
Descobrem segredos.
Eu vos via ledos;
Vós não sei que vistes,
Que vos vejo tristes.

Escapei de cem mil Mouros,
e nesta serra Somata
Üa só Moura me mata.

VOLTAS

Vede quem dará certeza
A sucessos da ventura!
Pois faz em mim a brandura
O que não fez a crueza:
É tal sua gentileza
Que, nesta serra Somata,
Ela é a que só mata.

Quem haverá que não moura
Por esta Moura que mouro,
Se nos seus cabelos d'ouro
O Sol se prende e se doura?
É rosada, alva, e loura.
Não sei se lhe chame ingrata,
Pois um seu cativo mata.

Certo que, se livre fora
Do cativeiro em que vivo,
A me querer por cativo,
Não quisera outra senhora.
Com me matar me namora,
E quando melhor me trata,
Então de todo me mata.

Fernão Álvares do Oriente

Da vida de Fernão Álvares do Oriente (c. 1540 – c.1600) pouco ou nada se sabe. É provável que tenha nascido em Goa (o que se pode inferir da biografia da personagem Olívio/Felício, seu criptónimo, na Lusitânia Transformada), mas a hipótese de ter nascido em Portugal não pode ser desprezada sem exame crítico. Ao certo, sabe-se que no final de Dezembro de 1572, quando era Vice-Rei da D. António de Noronha, foi como capitão de uma fusta (de entre setenta e seis) em socorro da fortaleza de Damão, que, governada por D. Luís de Almeida, então se encontrava ameaçada pelos Mogores; pouco depois de Setembro de 1573, sendo António Moniz Barreto Governador da Índia, Fernão Álvares do Oriente era capitão de uma das dezassete fustas que, sob o comando de Fernão Teles, partiram para a Costa Norte; em alvará de 25 de Setembro de 1577, D. Sebastião faz saber que se Fernão Álvares do Oriente, cavaleiro fidalgo de sua casa, falecer antes de poder fazer duas viagens da China para Sunda, como lhe fizera mercê, as poderia fazer outra pessoa nomeada por ele, Fernão Álvares do Oriente; noutro alvará de 15 de Março de 1587, Filipe II faz saber que Fernão Álvares do Oriente, agora cavaleiro de sua casa e capitão de navio da sua armada, pelos serviços que lhe prestara não só nas partes da Índia, como também no Reino, e por ter acompanhado D. Sebastião a Alcácer Quibir, onde comandara uma companhia de soldados e ficara cativo, receberia a mercê de duas viagens ao Coromandel; é provável que um Fernão Álvares, que, em 1587 ainda, se distinguiu na defesa da fortaleza de Colombo, no Ceilão, seja Fernão Álvares do Oriente; em carta de Filipe II ao Vice-Rei da Índia Matias de Albuquerque, datada de 25 de Janeiro de 1591, refere o Rei que foi informado de que Fernão Álvares do Oriente, chegado havia pouco à Índia, lá começara a divulgar novas prejudiciais ao Reino e ao Rei, pelo que devia ser mandado regressar de imediato; já é menos provável que este documento histórico diga respeito a Fernão Álvares do Oriente: em carta de 3 de Março de 1600, Filipe III, em paga de serviços que um Fernão Álvares lhe prestara por doze anos nas armadas e fortalezas da Índia, fá-lo escrivão do galeão da carreira de Maluco por duas viagens, devendo, para a mercê ter efeito, partir no próprio ano. É tudo o que da vida de Fernão Álvares do Oriente se sabe, actualmente. Escreveu, tanto quanto se sabe, uma única obra, o primeiro romance português verdadeiramente moderno (na matéria da expressão, no conteúdo e nas técnicas narrativas), a Lusitânia Transformada, texto de género pastoril em prosa e verso, publicado a título póstumo em 1607. Trata-se de uma obra de imaginário messiânico sobre a decadência do Portugal no final de Quinhentos e sobre a superação transcendente dessa decadência, que nos ajuda a compreender o processo histórico e metafísico que antecedeu e que se seguiu à perda da Independência Nacional, em 1580. Distingue-se, ainda, a Lusitânia Transformada, pelo rico e interessante diálogo literário, cultural e histórico que estabelece com Os Lusíadas e pela exaltação da figura de Camões, que é, aliás, uma das personagens da obra, que teve mais duas edições, uma em 1791 e outra em 1985.

Fernão Lopes de Castanheda

Fernão Lopes de Castanheda (1500-1559) nasceu em Santarém e faleceu em Coimbra. Era filho do licenciado Lopo Fernandes de Castanheda que exercia o cargo de juiz de fora em Santarém. Estudou no Convento de São Domingos e em 1528 partiu para a Índia com seu pai, que tinha sido nomeado ouvidor de Goa. Regressou a Portugal em 1538 e em 1545 foi nomeado bedel do Colégio das Artes, assim como guarda do cartório e da livraria da Universidade de Coimbra. É nesssa altura que termina a História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, começada a publicar em 1551 e traduzida para francês por de Nicolau de Grouchy, professor da Universidade. A História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses foi publicada em oito volumes, saídos entre 1551 e 1561, sendo traduzida, além do francês, para castelhano (1554), italiano (1578) e inglês (1582).

HISTÓRIA DO DESCOBRIMENTO E CONQUISTA DA ÍNDIA PELOS PORTUGUESES
(extracto)

Concertadas as naus de todo o necessário, Vasco da Gama tornou a seu descobrimento e partiu-se um sábado, vinte e quatro de Fevereiro, e aquele dia foi na volta do mar, e assi a noute seguinte, por se afastar da costa, que toda era mui graciosa. E uma quinta-feira à tarde, que foi o primeiro de Março, viu quatro ilhas, duas perto da costa e duas ao mar, e por não ir de noute dar nelas se fez na volta do mar, porque determinava de ir por entre elas, como foi, mandando diante Nicolau Coelho, por ser o seu navio mais pequeno que os outros. E, indo ele à sexta-feira por dentro de uma angra que se fazia entre a terra e hüa das ilhas, errou o canal e achou baixo, o que foi causa de virar atrás para os outros navios que iam após ele; e, em virando, viu que saíam daquela ilha sete ou oito barcos à vela.

A gente que vinha dentro eram homem baços e de bons corpos, vestidos de panos de algodão listrados e de muitas cores, uns cingidos até o giolho e outros sobraçados como capas, e nas cabeças fotas com vivos de seda lavrados de fio de ouro, e traziam terçados mouriscos e adagas. Estes homens, como chegaram aos navios, entraram dentro mui seguramente, como que conheceram os portugueses, e assi conversaram logo com es, e falavam aravia, no que se conheceu que eram mouros. Vasco da Gama lhe mandou dar de comer, e eles comeram e beberam; e, perguntados por um Fernão Martins, que sabia aravia, que terra era aquela, disseram que era hüa ilha do senhorio dum grande rei que estava adiante, e chamava-se a ilha Moçambique, povoada de mercadores que tratavam com mouros da Índia, que e trazia m prata, cravo, pimenta, gengibre, anéis de prata, com muitas pérolas, aljôfar, e rubis, e que doutra terra, que ficava atrás, lhe traziam ouro; e que, se ele quisesse entrar pera dentro do porto, que eles o meteriam, e lá veria mais largamente o que diziam. Ouvido isto por Vasco da Gama, houve conselho com os outros capitães que seria bom que entrassem, assi pera verem se era verdade o que aqueles mouros diziam, como pera tomarem pilotos que os guiassem dali por diante, pois os não tinham, e que Nicolau Coelho fosse sondar a barra: e assi se fez.

A povoação é de casas palhaças, povoada de mouros, que tratavam dali pera Sofala em grandes naus e sem coberta nem pregadura, cosidas com cairo, e as velas de esteiras de palma, e algüas traziam agulhas genoíscas, porque se regiam por quadrantes e cartas de marear. Com estes mouros vinham tratar mouros da Índia e do Mar Roxo, por amor do ouro que ali achavam. E, quando eles viram os nossos, cuidaram que eram turcos por a notícia que tinha de Turquia pelos mouros do Mar Roxo. E aqueles que foram primeiro à nossa frota o foram dizer ao Sultão, que assim chamavam ao governador do lugar que o governava por el-rei de Quíloa, de cujo senhorio era esta ilha.

Fernão Lopes de Castanheda, História do Descobrimento e Conquista da Índia pelos Portugueses, Livro I, Cap. V.

Fernão Mendes Pinto

Fernão Mendes Pinto (1510?-1583) nasceu em Montemor-o-Velho e faleceu em Almada. Pouco se sabe da vida real deste autor. Pensa-se que era um comerciante que negociava no Índico, entre o Japão, a Índia e a China. Regressou a Portugal por volta de 1557 e casou com D. Maria Correia Brito, instalando-se numa quinta do Pragal. Aí escreveu a Peregrinação, publicada postumamente em Lisboa em 1614. Devido a certa faceta hiperbólica, tornou-se conhecido como «Fernão: Mentes? Minto».

PEREGRINAÇÃO

CAP. I – Do que passei em minha mocidade neste reino até que me embarquei para a Índia

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome e de grande glória; porque vejo que, não contente de me pôr na minha Pátria logo no começo da minha mocidade, em tal estado que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da Índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas as me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos. Mas por outro lado, quando vejo que do meio de todos estes perigos e trabalhos me quis Deus tirar sempre a salvo e pôr-me em segurança, acho que não tenho tanta razão de me queixar de todos os males passados, quanta tenho de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha intenção escrevê-la para que eles vejam nela estes meus trabalhos e perigos da vida que Passei no decurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo e dezassete vendido, nas partes da Ìndia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos comfins da Ásia, a que os escritores chins, siameses, guéus, léquios, chamam em suas geografias a pestana do mundo, como ao adiante espero tratar muito particular e muito amplamente. Daqui por um lado tomem os homens motivo de não desanimarem com os trabalhos da vida para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana, ajudada do favor divino, e por outro me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças e o ânimo para os poder passar e escapar deles com vida. E tomando para princípio desta minha peregrinação o que passei neste Reino, digo que depois de ter vivido até à idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai na vila de Montemor-o-Velho, um tio meu, parece que desejoso de me encaminhar para melhor fortuna, me trouxe para a cidade de Lisboa e me pôs ao serviço de uma senhora de geração assaz nobre e de parentes assaz ilustres, parecendo-lhe que pela valia tanto dela como deles poderia haver efeito o que ele pretendia para mim. Isto era no tempo em que na mesma cidade de Lisboa se quebraram os escudos pela morte de E1-Rei D. Manuel, de gloriosa memória, que foi em dia de Santa Luzia, aos treze dias do mês de Dezembro do ano de 1521, de que eu estou bem lembrado, e de outra coisa mais antiga deste reino me não lembro. A intenção deste meu tio não teve o sucesso que ele imaginava, antes o teve muito diferente, porque havendo ano e meio, pouco mais ou menos, que eu estava ao serviço desta senhora, me sucedeu um caso que me pôs a vida em tanto risco que para a poder salvar me vi forçado a sair naquela mesma hora de casa, fugindo com a maior pressa que pude. E indo eu assim tão desatinado com o grande medo que levava, que não sabia por onde ia, como quem vira a morte diante dos olhos e a cada passo cuidava que a tinha comigo, fui ter ao cais da pedra onde achei uma caravela de Alfama que ia com cavalos e fato de um fidalgo para Setúbal, onde naquele tempo estava E1-Rei D. João III, que santa glória haja com toda a corte, por causa da peste que então havia em muitos lugares do Reino: nesta caravela me embarquei eu, e ela partiu logo. Ao outro dia pela manhã, estando nós em frente de Sesimbra, nos atacou um corsário francês, o qual abalroando connosco, nos lançou dentro quinze ou vinte homens, os quais sem resistência ou reacção dos nossos, se assenhorearam do navio, e depois de o terem despojado de tudo quanto acharam nele, que valia mais de seis mil cruzados, o meteram no fundo; e a dezassete que escapámos com vida, atados de pés e mãos, nos meteram no seu navio com a intenção de nos venderem em Larache, para onde se dizia que iam carregados de armas que para negociar levavam aos mouros. E, trazendo-nos com esta determinação mais treze dias, banqueteados cada hora de muitos açoites, quis a sua boa fortuna que ao cabo deles, ao pôr do Sol, vissem um barco e seguindo-o aquela noite, guiados pela sua esteira, como velhos oficiais práticos naquela arte, a alcançaram antes de ser rendido o quarto da modorra, e dando-lhe três descargas de artilharia a abalroaram muito esforçadamente: e ainda q na defesa tivesse havido da parte dos nossos alguma resistência, isso não bastou para que os inimigos deixassem de entrar nela...

Referência bibliográfica:

web.ipn.pt/literatura

Música: Aquino piano
 
 

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