ELA SÓ VAI MORRER QUANDO ELA QUISER
Centenário de Dercy Gonçalves,
atriz brasileira

Por Thereza Pires

Valeram mais uma vez as palavras ditas aos 94 anos "eu só vou morrer quando EU quiser". Faltando poucos dias para a data oficial do centenário, Dercy Gonçalves escapou ilesa de um acidente automobilístico.

Também havia tirado de letra a tuberculose, num momento da história da medicina em que, na luta pela vida, o bacilo causador da doença era quase sempre o vencedor.

Em 1991, recém-saída de uma cirurgia melindrosa, desfilou com os seios à mostra, como destaque da Escola de Samba Unidos do Viradouro.

E como resposta a um repórter incrédulo que perguntou como tinha conseguido superar câncer no estômago - sendo do conhecimento de todos que acabara de subir na alegoria - Dercy gritou lá de cima o nome do supositório que usava e mais uma meia dúzia de palavrões, pra fechar o raciocínio.

Na vida particular, esta grande figura é mãe, avó, bisavó amantíssima e cidadã engajada, sempre participando dos movimentos populares contra a censura e das lutas salariais de sua classe.

O CARO PREÇO DA LIBERDADE

A pequena Santa Maria Madalena - na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, a 237 km da capital - era pequena demais para Dolores Gonçalves Costa, filha do alfaiate Manoel e da lavadeira Margarida, (que a deixou ainda pequenina, com mais seis irmãos, quando soube que o marido tinha uma amante).

Em entrevista a ISTO É, Dercy, neta de coveiro, contou: "Quem me criou foi o tempo, foi o ar. Ninguém me criou. Aprendi como as galinhas, ciscando, o que não me fazia sofrer eu achava bom".

Aos 17 anos, trabalhando como bilheteira de cinema e horrorizando a hipocrisia local ao se maquiar como as atrizes que via na tela, dançar em festinhas e quermesses em troca de comida, fugiu num trem em direção a Macaé, onde pretendia juntar-se a um circo que havia visitado a sua cidade.

Eugênio Pascoal, cantor de grupo mambembe, foi o desvirginador de Dercy, que, no ato, vestia uma camisola feita de saco de arroz com uma inscrição que acabou ficando sobre os seios de adolescente: "Indústria Brasileira de Arroz Agulhinha, arroz de primeira".

A violência da primeira vez acabou o romance, assustou a mocinha mas a amizade continuou. De Pascoal também ficou, como lembrança, o contágio pela tuberculose.

Ademar Martins, mineiro exportador de café, casado e católico cuidou da doente, pagou-lhe as despesas do sanatório nas vizinhanças de Juiz de Fora e, depois da alta médica, instalou-a num hotel na Praça Tiradentes.

Da união, nasceu Dercimar, filha única, que teve educação primorosa.

CARREIRA e AMORES

Estrela de comédias na mesma Praça Tiradentes e nas revistas do Cassino da Urca, escolheu os palavrões como marca registrada.

Atuou em 36 filmes e, desde 1957, trabalhou em televisão.

Comandou o Consultório Sentimental, na TV Globo, uma espécie de talk-show, que chegou a bater 90% de audiência. O convidado saía destruído, detonado, estraçalhado pelas suas perguntas irreverentes - o público vibrava.

Na década de 40, casou-se com o jornalista Danilo Bastos, dez anos mais jovem, viveu um caso com o acrobata Vico Tadei.

No entanto, o primeiro, inocente e grande amor foi com Luís Pontes, um jovem conterrâneo - "amor verdadeiro, de chorar".

HOMENAGENS MAIS DO QUE JUSTAS

Já octogenária, roubada por um empresário inescrupuloso, perdeu tudo e teve que voltar a trabalhar.

Em 1985, ganhou o Troféu Mambembe em categoria especialmente criada para ela: melhor personagem de teatro.

Em 4 de setembro de 2006, aos 99 anos, recebeu o título de cidadã honorária da cidade de São Paulo.

Em 01 de dezembro de 2006 foi homenageada com o Prêmio Gigantes 2006 - Orgulho de Ser Brasileiro no Clube Blumenauense de Caça e Tiro em Blumenau (SC).

No dia 23 de junho próximo- data oficial do centenário - Dercy diz que serão 102 - muitas homenagens lhe serão prestadas - ainda em vida, como sempre desejou.

Já foi recebida pelo Presidente Lula. E pelo Governador Sergio Cabral, que prometeu agendar visita a Madalena, para inaugurar a estátua de bronze onde Dercy aparece com um dos seios de fora e um coração no lugar do outro.

Na mesma Madalena, a atriz construiu um túmulo em forma de pirâmide de 120 metros quadrados do lado de fora do cemitério, "porque dentro não cabia" .

A cidade que praticamente a enxotou, agora a homenageia com um museu e faz de sua mais importante filha um símbolo vivo do dístico gravado no mausoléu: "Força e Coragem".

FILMOGRAFIA
(Fonte: Wikipedia)

2000 - Célia & Rosita (curta-metragem)

1993 - Oceano Atlantis

1983 - O Menino Arco-Íris

1980 - Bububu no Bobobó

1970 - Se Meu Dólar Falasse

1963 - Sonhando com Milhões

1960 - Com Minha Sogra em Paquetá

1960 - Dona Violante Miranda

1960 - Só Naquela Base

1960 - A Viúva Valentina

1960 - Entrei de Gaiato

1959 - Minervina Vem Aí

1959 - Cala a Boca, Etelvina

1958 - A Grande Vedete

1958 - Uma certa Lucrécia

1957 - Absolutamente Certo

1957 - A Baronesa Transviada

1957 - Feitiço do Amazonas

1956 - Depois Eu Conto

1948 - Folias Cariocas

1946 - Caídos do Céu

1944 - Abacaxi Azul

1944 - Romance Proibido

1943 - Samba em Berlim

TELEVISÃO
(Fonte:Wikipedia)

1996 - Caça Talentos

1992 - Deus nos Acuda

1990 - La Mamma

1989 - Que Rei Sou Eu?

1980 - Dulcinéa vai à guerra

1980 - Cavalo Amarelo - Troféu Imprensa de Melhor Atriz (empate com Dina Sfat).

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Todas as informações que embasam este texto
e as imagens que o ilustram
foram pesquisadas em sites na Internet.

Pesquisa: Thereza Pires - www.euprocuropravoce.com.br

Música: Flor Amorosa
23.06.2007

 
 
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