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Nos
álbuns fotográficos das famílias cariocas,
no passado recente, havia pelo menos um
grupo carnavalesco alegre, saindo para um
banho de mar à fantasia, uma batalha de
confetes ou para assistir o desfile das
Sociedades e Préstitos, os avós da moderna
Escola de Samba patrocinada.
Numa dessas fotos: banal, simples e
corriqueira, minha mãe, ainda solteira, de
terno de tropical branco, chapéu panamá e
bigodes feitos com rolha queimada
acompanha seus três irmãos vestidos de
baiana, havaiana e melindrosa, maquilados
e com unhas pintadas.
Eu mesma, num carnaval da década de 60,
parente do prefeito duma cidadezinha do
interior do Rio Grande do Sul, exibo ar
perplexo junto a um grupo de primos e
primas vestidos "ao contrário". Tudo super
normal, travestismo consentido e até
estimulado. A única "à paisana" era a
perigosa visita subversiva que vinha do
Rio trazendo novidades escandalosas, como
por exemplo, fumar em público o hoje
extinto Minister – o cigarro top de linha
da ocasião.
O carnaval urbano,que existe há mais de
dois mil anos,sempre foi regido por certa
impunidade que se expressa na quebra das
normas morais e sociais vigentes em cada
época.

RITUAL
O
Carnaval foi Introduzido entre nós pelos
portugueses no século 17, com o nome de
entrudo, festejo remanescente das festas
da Grécia antiga, das bacanais romanas,
das danças macabras medievais, todas elas
depois aglutinadas e transformadas nos
bailes de máscaras da Renascença.
O Carnaval não era uma festa, mas um
ritual. A data móvel de sua celebração é
herança do momento histórico em que se
decupava o tempo em períodos de 40 dias. A
Quaresma, período que vai da Epifânia (Dia
de Reis) à quarta-feira de Cinzas, servia
para ligar o profano ao sagrado.

TUDO AO CONTRÁRIO
O Carnaval
permitia os derradeiros excessos quando a
Igreja em seus primeiros séculos,
preparava o cerne da festa de Páscoa,
vinda das antigas comemorações pelo
término do inverno no Hemisfério Norte.
Neste momento, as regras sociais eram
invertidas: os senhores se fantasiavam de
escravos e, durante 5 dias, os escravos se
transformavam em senhores.
Na Idade Média, a festa se realizava nas
igrejas e a missa era dita ao contrário -
começava com a Eucaristia e terminava com
os Atos de Penitência - os ricos se
fantasiavam de pobres, os pobres de ricos,
as crianças se vestiam de adultos e os
adultos de criança.

ORIGEM DA PALAVRA
Com a
cristianização do calendário, as festas
pagãs foram rebatizadas. Fevereiro era o
tempo de "Carne levare levamen", quando
eram degustados pela última vez os pratos
gordurosos, antes da entrada em
quarentena, a "quadragésima", palavra que
evoluiu para Quaresma. Quarenta dias de
comidas "magras" até a chegada da Páscoa.
Outras teorias remontam o termo a "carrus
navalis", carro que distribuía vinho ao
povo durante a festa de Isis, deusa
egípcia adotada por gregos e romanos.
No século 13, a festa de rua já era
chamada de "carnevalo" e assim viajou no
tempo até a "Belle Epoque" - final de
século 19 -comecinho do século 20 - quando
continuava a atrair as populações que
vinham admirar carros decorados e pessoas
fantasiadas.

ENTRUDO
A palavra
portuguesa "entrudo" e o galês "entroido"
vieram do Latim "introitu", que
significava entrar na Quaresma e, por
metonímia, o tempo que vem antes da
Quaresma. Ou seja, o Carnaval.
Mascarados, os foliões se aproveitavam do
anonimato para atitudes ilícitas e
imorais. A Igreja em Portugal, que criou o
"Jubileu das 40 horas" e decretou leis
severas em 1817. Mesmo assim, não
conseguiu conter a violência da festa e
nem o terremoto que praticamente destruiu
Lisboa em 1755, diminuiu a sanha das
brincadeiras agressivas.

ENTRUDO NO BRASIL
A festa
popular chegou por aqui durante o período
colonial e se estendeu pela monarquia, com
toques de sadismo. As pessoas atiravam
umas nas outras água em limões de cera ou
saquinhos com pó, farinha, cal ou o que
tivessem nas mãos.
O primeiro baile de carnaval aconteceu no
Rio de Janeiro em 1840, organizado para
divertir a Corte.
Em 1846, foi criado o "Zé Pereira", grupo
de foliões com bumbo e tambores.
A Maestrina Chiquinha Gonzaga inovou os
festejos com seu "Abre Alas" (1899). A
partir daí, o Carnaval passou a ter
composições especialmente elaboradas:
marcha-rancho, o samba, a marchinha, o
samba-enredo e o frevo, além da batucada.
Com a chegada do automóvel, o corso -
desfile de carros decorados - levava
famílias inteiras ao centro das cidades,
onde as batalhas de confete e serpentina
faziam a alegria geral.

DESIGUALDADE CARNAVALESCA
Proibido
pela violência que continha, o entrudo
evoluiu para brincadeiras mais amenas com
elementos lúdicos como os citados confete,
serpentina e mais o famoso lança-perfume.
Até ser proibido pelo breve Presidente
Jânio Quadros - nove meses de governo, até
renunciar em 25.08.1961 - o lança-perfume
era elemento indispensável na
bolsinha/adereço de qualquer folião, mesmo
mirim.
Mesmo ali prevalecia o desnível social: os
mais privilegiados usavam o importado
"Rodo Metálico", e o povo mais simples ia
de "Colibri", em sua embalagem de vidro.
Totalmente permitido e até incentivado
como o travestismo do álbum de fotos
familiar, o "lança" era encontrado nas
matinês dos clubes infantis e aspirado nos
bailes de gala.

CREPES, BRIOCHES E CROISSANTS
Na
véspera do dia em que começava a proibição
de consumir carne e gorduras durante a
Quaresma (terça-feira gorda), as pessoas
usavam o que havia restado de gordura em
casa para festejar, consumindo frituras e
pães super calóricos.
Neste tempo do peixe contra a carne e do
comedimento contra os excessos, o consumo
de ovos era igualmente interditado. Assim,
surgiu a crepe – panqueca, aqui no Brasil
- feita de farinha e leite. Nos países
anglofônicos festeja-se o "Pancake Tuesday",
nos francofônicos o "Mardi Gras", que veio
a dar nome ao festejo popular mais
importante de Nova Orléans, hoje
praticamente destruída pela fúria do
furacão Katrina.

MALHAÇÃO DO JUDAS E REI MOMO
A partir
do século XI, um boneco encarnando o Rei
do Carnaval - nosso Rei Momo - fazia parte
dos desfiles, sendo queimado pelos
habitantes das cidades ao final das
folias.
Atualmente, estas manifestações ainda
sobrevivem e, no Rio de Janeiro, a alma
alegre do povo chama este boneco de Judas.
A cada sábado de Aleluia, ao meio dia em
ponto, um Judas é "malhado" e queimado nos
subúrbios do Rio e, a cada ano, a
criatividade carioca escolhe um bode
expiatório: políticos, treinadores de
futebol, etc
Com o correr dos séculos, as tradições que
a gente encontrava nas fotos dos álbuns de
família foram se formando, se firmando e
acabaram por transformar o Carnaval na
festa popular mais diversificada e
culturalmente rica do mundo.
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Site completíssimo sobre História do
Carnaval (em francês)
www.csdm.qc.ca
Carnaval no Mundo (em inglês)
www.carnaval.com
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