"A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas - e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.

Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras. Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: "A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas".

Por isso - porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver - eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar "olhos vagabundos"..." - Rubem Alves, A Complicada Arte de Ver (Texto publicado no caderno "Sinapse", jornal "Folha de S.Paulo", versão on-line, publicado em 26/10/2004).

Olhos que possam desvendar todas as nuances das coisas existentes. Olhos atentos e curiosos que perscrutem o âmago dos mistérios que envolvem o universo. Necessário se faz, que saibamos diferenciar as diversas formas de ver, e isso é realmente complicado, é uma verdadeira arte. A era veloz e tecnológica em que vivemos, nos tornou negligentes em relação à maneira de olharmos ao nosso redor. Hoje, a pressa de viver é tão essencial, que pouca atenção dispensamos aos detalhes do cotidiano e assim, nossos olhos se tornaram superficiais, enxergando apenas o necessário para sobrevivermos. Já não nos detemos diante de alguma coisa durante um espaço suficiente de tempo, para entendermos o seu cerne. Há apenas a admiração natural, como se o objeto de nossa atenção naquele momento, fosse algo banal e corriqueiro, até mesmo uma extensão de nós mesmos. É aí que reside o paradoxo entre o ver displicente e o enxergar com os olhos da alma, da emoção! É mister se ter "olhos vagabundos", que com sua versatilidade permitem que descubramos o incomensurável valor até mesmo de um minúsculo grão de areia. Que alguém seja então o pioneiro na sublime missão de parir tais olhos pelo mundo afora, possibilitando ao "robotizado" ser humano, descobrir o verdadeiro significado de olhar, profunda e minuciosamente, os fragmentos que fazem parte de um todo e que são a própria razão de sua existência. (Sônia Maria Grillo -Baby)

Para tanto, esse pioneiro missionário há que ter em si a visão emocional do mundo que nos cerca. Sim, porque não basta servir de parteiro a "olhos vagabundos", mas é preciso passar credibilidade. Isso só se consegue através de ações, porque teorizar é simples. Quando nos deparamos com alguém que enxerga com a alma, sofremos um impacto. É como se o tempo assumisse outro ritmo, forçando-nos a estabilizar o nosso. Aí o jogo do ensinamento e aprendizado se torna sedutor, pois somos atraídos para algo desconhecido, diferente. Então paramos para refletir e fazer um balanço de nossa vida. Reunimos os fragmentos recolhidos pelo caminho e os dispomos sobre a mesa da memória, tentando montar o quebra-cabeça. Revemos cenas, resgatamos detalhes, antes insignificantes, mas agora repletos de significados. Como fruto do aprendizado, respiramos melhor. Passamos a ter compaixão por tudo que nos rodeia. Retomamos a criança interior que havíamos esquecido ou escondido de nós mesmos e, com imensa gratidão, percebemos que reencontramos a felicidade perdida. (Maria Ivone)

A criança em nós tem como olhar e sentir, um olhar de percepção inteira, autêntica, sem a interferência do pré-julgamento. Sem o preconceito que dificulta a visão, a tradução do que vem pelos olhos para a mente e também para o coração, podemos ter leituras, visão, de múltiplos significados. O olhar desarmado, por sua vez, amado, possibilita a riqueza de uma leitura pura (e abertura) para o 'novo', a surpresa, a alegria e, principalmente, guarda algo de fundamental: a criatividade e a compreensão. (Lourdinha Biagioni).

Assim, mais aberto e compreensivo, o olhar pode ser ferramenta para descobrir brinquedos que nos encantem, extraindo prazer das coisas mais corriqueiras, aguçando uma curiosidade que nos empurre para frente, abrindo portas , até o dia em que possamos perceber que, as mesmas portas, abertas em momentos diferentes, podem nos levar a diferentes caminhos, a uma nova visão do que já pensávamos conhecer .... . O mundo ao nosso redor, mutável como nós mesmos, oferece-nos a incomparável lição de que nada é para sempre, pois o sempre pertence a uma outra dimensão, ainda não vislumbrada entre os arcos que cruzamos no tempo da nossa existência. É preciso ser criança para crescer um pouco a cada dia, deliciando-nos com as surpresas das descobertas, surpreendendo-nos com o quanto ainda não sabíamos. O aprendizado, portanto, deve guardar o olhar sobre uma verdade vital: tudo aquilo que nasce morrerá, e enquanto isso estará em constante processo de transformação. (Mellíss)

O olhar é mágico quando insere no âmago da apreensão a simbiose entre o racional e o emocional. Há que se ter uma certa poesia para escrever a prosa da vida, há que se ter um traço mais reto para escrever com simplicidade o cotidiano. O olhar poético confere ao ato de perceber uma visão mais assertiva diante da vida e proporciona mais prazer ao agir. Há que se ter olhos de mundo para observar o simples. Há que se ter o olhar simples de criança diante da seriedade que impera no mundo. Este caminhar firme de mãos dadas com abstração é o atrito perfeito que nos leva a ir mais além. A flexibilidade, a acuidade infantil diante do banal, o desfrutar da mesmice como se tivesse diante de si a oitava maravilha do mundo. É este olhar espantado de quem tudo vê pela primeira vez, é o agir sempre com o prazer de recomeço. Olhar a vida como uma obra de arte e de cada vez perceber que a arte está na transformação e no renascimento. (Clivânia Teixeira)

Nós, adultos, aprendemos a olhar a vida sem nos atentarmos para detalhes. Estes, só são vistos por olhos inocentes, que não vêem alem do que vêem. Não julgam. Não deturpam. Simplesmente olham e sentem, acima de tudo, pois, somente assim é que a vida pode ser realmente vivida. Quando crescemos, deixamos de ter tempo para olhar o que nos cerca, passamos sim a viver em função do que precisamos e, esquecemos que temos olhos. Na verdade, os olhos da alma, que são mais apurados que os olhos propriamente ditos. Como cegos, passamos a viver sem olhar sequer para dentro de nós mesmos. Se mudássemos esse jeito de ser, quem sabe, soubéssemos o valor que é "ver", que não basta enxergar e nada sentir. Fomos moldados desta forma e assim estamos indo para um fim, que no final das contas, vai dar em lugar nenhum. Se enxergássemos com os olhos das crianças, quem sabe, ao fechá-los definitivamente, pudéssemos ser à Sua imagem e semelhança, um ponto de luz. Permitir-nos nascer com o olhar e dele gerar novas vidas. Que se vissem mutuamente e, não a seus próprios umbigos. Isto seria definitivamente crescer e, poder ver com os olhos infantis, que sabem chorar, sorrir, sem precisar nada dizer. (Lara Cardoso)

Isto e pensar... quando leio "A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados", tenho num olho o Sol, no outro a Lua. Olho a vida, noite e dia... Habito a razão iluminada e o sonho transviado, do luar da Lua Nova vem à luz do dia a alegria transparente das coisas, mas também as podendo esconder a tristeza negra da dor. A diferença... trás consigo todo o colorido da vida, onde continuo criança que dança e brinca ou o adulto que avança e trabalha. Olho a Lua e o Sol, olho com a lua e o sol: incorporo ou idealizo, as palavras são como as idéias que escrevo, nascem e creio que crio, faço-as nascer. Quero-as minhas e desejo-as nos outros, procuro e para isso leio usando ensinamentos. Abro "a caixa de ferramentas" para olhar as palavras como instrumentos lúdicos da necessidade de fazer, aprender, em suma, viver. Procuro usar como prático o que pratico e deixo o Sol e a Lua iluminar este lugar da idade das coisas e ser, Ser (vivo): da magia do luar à fantasia da luz, do fantasmagórico e irreal à crua realidade, somos sempre o que cremos, mesmo quando não queremos. (Francisco Coimbra)

Não há que se guardar os olhos em lugar comum, são eles o espelho da alma são eles que nos dão motivação ora de alegria ora de dor. Em se tratando da criação divina os olhos transcendem quimeras e magias, seguem o vôo incontido em busca do desconhecido, espaço infinito onde os olhos se perdem, cintilam extasiam-se e talvez pensem, porque não, que a simplicidade da vida vai além da visão. Somos herdeiros do livre arbítrio para definirmos e fazer a nossa escolha. Trancarmos os olhos onde a razão os reprimem e comandam, liberá-los do poder da imaginação ou usufruir seu magnetismo ante a feliz realidade da alma, onde habita o órgão da emoção...? (Iracema Zanetti)

Olhos na caixa de brinquedos a tudo olham e brincam de olhar. Olhos que se guardam em caixa de ferramenta simplesmente vêem. Vêem o que já têm registrado na mente, o que já é padrão, o que há muito se transformou em paradigma. Só vêem o antigo, o já visto, o previsto, temem olhar de novo, experiência impar de olhos imaculados. Quem olha com as meninas virgens dos olhos, jovens deusas, tem um certo êxtase de olhar, os olhos derramar, a tudo procurar. Flerta com tudo que olha, flerta pelo puro prazer de flertar, flerta até mesmo com seu próprio olhar. Este olhar é um pousar de olhos, deixar ficar e ir brincar. (Cleusa Bechelani)

Houve uma mulher, que me habitava, que tinha os olhos na caixa de ferramentas. Eram olhos limitados, sem brilho, sem sonhos. Olhos opacos, objetivos. Só viam o que interessavam. Eram olhos que não iluminavam a alma e nem deixavam que a luminosidade da alma passasse por eles. Eram olhos que se abaixavam tímidos a um gesto de carinho, a um ato de ternura, a uma palavra de brandura. Um dia qualquer, esta mulher acordou de sua letargia vendo a vida. Olhando o mundo com olhos de ver e de sentir. Olhou assombrada o verde das arvores. Descobriu que existiam pássaros e que eles eram coloridos e cantavam uma doce melodia. Seus olhos se iluminaram, seu rosto corou de felicidade, brincando com as flores dos jardins e com as borboletas que faziam festa. Com olhos brincalhões e vagabundos ela descobriu o homem e sentiu-se uma Eva no jardim do Éden, transbordando de prazer e curiosidade, feito uma criança buliçosa. (Tereza da Praia)

Existe em mim dois faróis luminosos que em momentos extras nublam-se, deixando assim de ver o belo que a vida nos oferece, o esplendor que é ter a graça da luz do dia, a maravilha que é ver a natureza exuberante,e assim ficam por tempos, obscuros, inertes para vida, devido a avalanches que nós, os adultos, somos submetidos. Mas existe em mim também uma força que emana violenta, superando qualquer tempestade, qualquer terremoto, dissolvendo qualquer nuvem que deseje se prolongar além do passageiro, recuperando então aquela luz primeira que se mostrou presente ao primeiro contato de um rebento saindo do útero abençoado de sua mãe para o mundo externo, o mundo dos homens. Esta luz nublada mas cheia de vida e de vontade de descoberta, comum aos recém-nascidos, supera a nuvem negra que paira sobre meus olhos de adulto, somente como nuvem passageira; troco então a caixa de ferramentas pela caixa de brinquedos... (Arlete Maria)

Nunca coloquei os meus olhos numa caixa de ferramentas, eles sempre foram em toda a minha vida uma ferramenta de valor inestimável. Gosto de olhos: Dos meus e de todos os outros. Amo falar com as pessoas olhando nos olhos e brinco imaginando o que realmente estão sentindo enquanto estão falando. Brinco de olhar nuvens e ver as figuras, olho pessoas de longe e fico a imaginar o que pensam, sentem, como vivem, como gostariam de viver. Os olhos realmente são espelhos dos nossos sentimentos. Eles choram enquanto a boca teima em sorrir, eles sorriem enquanto o resto do corpo chora. São portais que se abrem para o amor, para a dor, para o prazer, para o conhecimento dos outros e da natureza, são preciosos quando queremos demonstrar carinho, amor, repulsa, amizade, mágoas. Os olhos, o modo de olhar... é mistura de música, poesia, vontade de brincar. Os olhos falam o que a alma as vezes não pode mostrar. Quando amamos então, eles viram visgo que aprisionam o olhar do outro e deixam o coração falar. (Marineide Miranda)

"Quando a luz dos olhos meus" insiste em ficar fechadinha na caixa de ferramentas, eu vejo que está se transformando em olhos de gente que "pensa..." (que é Grande!). Gente grande complica muito o mundinho, "fingindo que não vê"; não é bem como o fingimento da célebre frase de Fernando Pessoa: "O poeta é um fingidor". Acredito que seja um tipo de fuga deliberada: - Olha só! Eu falando "meio difícil" para me esconder, para mostrar como cresci (?). Sorte ter nascido com ares de "escritor(a)-formiga"... Gente assim aprende a se encontrar escrevendo um pouquinho na vida: os olhos formam lágrimas ao sentir o olhar de dor ou de repulsa noutras pessoas; os olhos ficam nas nuvens experimentando dar um novo colorido às mágoas; os olhinhos passam a brilhar como se estivessem acompanhando um nascer do sol ao convidar os outros a refletir noutras palavras que despertem o amor; os olhos sentem o calor da amizade descrita com sinceridade... de longe. Porque falar por falar gente grande, sabe muito bem como fazer isto! Por isso meus olhinhos sempre brincam. (Rosangela Aliberti)

Olhos que brincam... Olhos que conservam a inocência do tempo, na dimensão da temporalidade. Olhos que não se deixam turvar, nem se permitem fechar. Olhos que, como pórticos, se abrem permitindo que a consciência penetre no inescrutável! Olhos que instigam, aguçam a vontade, estimulam os desejos, e propiciam as descobertas! Ah! As descobertas! E não seria a própria descoberta a mais autêntica forma de aprendizagem? O encantamento o melhor método para seduzir as mentes inocentes a deixarem fluir todo potencial que habita dentro delas? E, não seria a alegria o combustível, a energia que está na base de toda criação? E mais ainda, ao encontrarmos olhos inocentes, sedentos por enxergar, por desvendar os mistérios que o cotidiano tece, descortinando razões implícitas na simplicidade do viver, não estaríamos presenciando genuína expressão de vida, em sua plenitude?! Penso que os olhos são os brinquedos dos deuses, com os quais instrumentalizam a humanidade a evoluir! (Priscila de Loureiro Coelho)

É vital para nossa alma, que saibamos usar o olhar poético para ver as coisas práticas da vida. Assim a vida poderá adquirir uma tonalidade melhor, poderemos ver as coisas com a alma, esquecendo um pouco a fria praticidade com que sempre somos brindados por todos. É importante que nossa alma conserve o olhar infantil com que as crianças vêm o mundo, sem preconceitos, sem manias ou maneirismos. O olhar adulto começa a observar diferenças sociais, raciais e físicas, que o olhar infantil, ou mesmo o olhar poético não capta. E viver a vida com esse enfoque desprovido de preconceitos, de orgulho, de "eu sou mais eu", nos permite, com toda a certeza, ter uma muito melhor qualidade de vida, pois nos sentiremos com a alma mais leve, e principalmente, com uma melhor aceitação para possíveis adversidades que possamos sofrer. Saberemos melhor nos desvencilhar de problemas, se esquecermos esse frio olhar adulto. Se na vida precisamos ser racionais, podemos sê-lo, sem contudo, esquecer que a vida é uma poesia, é um milagre que deve ser bem aproveitado. (Marcial Salaverry)

Como milagre divino, a vida é o melhor, maior, e mais valioso presente que alguém possa receber. Por isso é muito importante a sua aceitação e compreensão absolutas, por cada um de nós, para que possamos entendê-la e dar-lhe o exato valor que tem. Por outro lado, nos valermos de olhares novos para que enxerguemos seus caminhos com ou sem atalhos, e com seus becos-sem-saída, isso dependerá única e exclusivamente de como nos predispormos para tal fim, uma vez que a capacidade visional de cada um de nós será o guia fiel daquilo que enxergarmos, e claro, o que possamos identificar dentro dos sentimentos que viermos a desenvolver, enquanto dar e receber amor nas diversas maneiras conhecidas, por coisas ou pessoas com as quais tivermos que conviver no dia-a-dia. Haja vista acontece assim, porque nossos olhos jamais enxergam o que queremos, mas sim somente o que suas câmeras invisíveis registram, ou simplesmente porque é assim que tem que ser! (Laura Limeira)

Fico a imaginar uma criança com os olhos de um adulto... e o adulto com o olhar da criança. Fico a imaginar a energia de um jovem junto à experiência de um ancião, ou o vigor da adolescente paixão carnal no coração do cinqüentão... Fico a imaginar que haveria uma grande bagunça na terra e os resultados poderiam não ser tão fantasiosos como imaginamos e sim confusos. Hoje, no terço final da vida olhamos para uma flor e nos indagamos quanto útil ela foi à Natureza como um todo, enquanto na juventude ela só nos serviu para adornar o ego e a vaidade conquistadora! Na infância olhávamos para o céu esperando ver um disco-voador e poder contatar com seres de outros planetas. Hoje ao olhar para o céu vejo, não vendo, que tamanha imensidão e beleza tem um dono, e este, verdadeiramente, não somos nós, mas aquele que nos criou, e que nos olha com o olhar sereno de quem tem a inocência da infância e a mansidão da maturidade e a infinitude do perdão! (Gabriel M. Ribeiro)


Edição: Neli Neto
11.06.05

Música: In Your Eyes

 

 
 
 


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