Aldo Cordeiro

 

 

 

A vida subia e descia a rua Barão de Guaratiba, uma ladeira tranqüila e aconchegante que nasce no Catete, depois do Palácio, e termina no alto da colina, numa belíssima vista da Baía da Guanabara, por trás do edifício da Manchete. Se você descer pelo outro lado, vai passear no Outeiro, em frente à Igrejinha, aquela dos cartões postais.

Numa das muitas horas que passei olhando a ruazinha, da varanda da casa onde morei, durante seis anos, conheci um personagem que nunca esqueci: o cachorro de três pernas. Era um vira-latas sem qualquer qualificação ou descendência, uma cor indefinível, uma barba esquisita que lhe cobria parte da cara, um aspecto que, certamente, não despertava, em ninguém, a menor vontade de adotá-lo. E, pra completar, faltava-lhe uma das pernas traseiras.

O que havia de curioso nessa criatura tão sem graça, que me ficou na memória? É simples: ele possuía a graça de não saber que não tinha graça. Como todos os demais cachorros da rua - e eram muitos - ele latia, cheirava o chão, corria, mais devagar que os demais, é claro, como se soubesse aonde ia chegar, comia restos de comida, mexia nos sacos de lixo e, o que me chamava mais a atenção, participava das ocasionais jornadas dos machos atrás de uma fêmea no cio. Claro que seu esforço havia de ser maior, mas isso não o desanimava. E não era, absolutamente, discriminado pelos outros ou pelo objeto do seu desejo.

Nunca o vi num canto da rua, lamentando a falta da perna, o cansaço, a possibilidade de passar um sábado à noite sem programas. Nunca o vi lamentar-se da falta de um amor, de uma família, de nada. Ele tinha o dom de não precisar comparar-se aos outros. Ele era. Simplesmente.

Poderia, agora, atribuir-lhe uns tantos sentimentos: dizer que era triste, tinha o olhar isso ou aquilo. Seriam minhas fantasias e transferências: faz parte da mania humana de querer colocar sentimentos nossos nos bichos. Nós, que somos tão auto- suficientes e superiores, não conseguimos imaginar um ser vivo sem adjetivos, sem sofrimentos psicológicos.

O cachorro de três pernas, cuja história deve ter tido o natural desfecho de todas as demais histórias de cachorros, simplesmente vivia, e não sabia se era natal ou dia de ano novo, pois as datas são invenções humanas. Apenas nós, os animais criativos, precisamos de datas, histórias, símbolos e explicações para tentarmos ser felizes. Tão pouco lhe importava se chovia ou se o sol daria a graça do seu calor.

Para o meu cachorro de três pernas, apenas uma coisa interessava: o instante em que vivia.

Rio, 27.12.2003

 

 
Música: Esiu
 
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